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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe para 2018

rabiscado pela Gaffe, em 29.12.17

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Foi o desprendimento de David, de Miguel Ângelo, que me avassalou.

Foi a tranquilidade subtil do segurar lasso da funda desarmada, a ausência de fúria no movimento sem sonoridade, os flancos num desequilíbrio de sensualidade quase provocadora, o peso pousado numa perna que obriga o corpo - peso pluma - inteiro a desenhar um arco delicado de serenidade inesperada e a quietude pacífica, imprevista, dos músculos perfeitos, que me fizeram crer que o guerreiro se centrava apenas no olhar.

Em David, apenas o olhar contém violência. Tudo o resto é a escultura de uma batalha que findou, a impassibilidade do vencedor, a certeza da inutilidade do combate.

 

Talvez David retenha por isso uma estranha espécie de feminilidade discreta, quase imperceptível, que atrai porque o satura de impenetrabilidade, como se fosse um segredo, ou um mistério.

 

Creio que é num labirinto de hesitações, de dúvidas e de incertezas que acabamos por desejar desesperadamente tombar. Necessitamos dos vórtices, dos vendavais, da voragem das angústias e dos medos, do talento para derrubar espectros e erguer quimeras, da velocidade doida com que cobiçamos os mais ínfimos mecanismos, as minúsculas roldanas, os mais escusados apetrechos que permitem a trepidação que nos entrega a aparência de estarmos realmente vivos.

Não sabemos parar. Não conseguimos parar.

 

Talvez por isso David nos deslumbre. Não espera nada.

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A Gaffe cumpre a tradição

rabiscado pela Gaffe, em 24.12.17

Feliz Natal

 

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Gavetas:

A Gaffe por iluminar

rabiscado pela Gaffe, em 19.12.17

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George Steiner é indiscutivelmente um dos maiores pensadores do planeta e é também, e não menos importante, um dos meus ídolos.

Numa palestra longínqua, contou uma lenda, porque gosta de lendas e porque desejava clarear o seu raciocínio - já tão claro! -, com uma analogia simples que procurasse ilustrar o seu labirinto aberto com palavras.

 

Num palácio com duzentas janelas, todas as noites o príncipe ordenava que uma vela se acendesse em cada uma. Dessa forma, a sua princesa deixaria de ter medo da noite no jardim por onde deambulava à procura da lua coberta por véus de névoa escura. Bastaria à sua princesa a certeza das duzentas janelas que velavam o seu vaguear. Pelas noites dos tempos, nas janelas do palácio uma vela ardia.

Em todas, menos numa.

Das duzentas janelas do palácio, uma ficava por iluminar. A primeira vela a ser acesa extinguia-se enquanto o camareiro se ocupava da última. Era essa precisa janela o medo da princesa.

 

Não sei - pecado meu e má fortuna -, a razão exacta que levou Steiner a referir a lenda, mas a grandeza do sábio permite que humildemente arraste para o meu minúsculo nada o que com certeza tem dimensões não mensuráveis.

 

De todas as janelas nocturnas que avistamos - ainda que brandamente clareadas -, que seguram e afastam os nossos medos, a única que conta é a que se apaga e por muito que tentemos iluminar duzentas, haverá sempre aquela que se extingue no momento em que acreditamos ter brilhante a última que fará a noite dos que adoramos, se transformar em dia.

 

Ilustração - D. Merriman

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A Gaffe melómana

rabiscado pela Gaffe, em 18.12.17

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Foi-me entregue pelo meu avô, como o choro mais belo do universo, O Lamento de Dido, em Dido e Eneias de Purcell.

Segredou-me ao som deste lamento:

Nunca tentes domar a Tristeza atravessando-a com uma luz imperfeita. Deixa que a Tristeza se canse até que a luz que traz, quebre por dentro.

 

A minha vida não tem banda sonora de grande contemporaneidade.

Creio que foi ocupada pelas obras que o meu queridíssimo melómano me foi fazendo compreender.

Mas são outras as notas da memória que voltam desta vez. Aproximam-se voando como minúsculas folhas de papel desenhado que vou colando à toa, sem qualquer critério. Nunca fui uma boa coleccionadora. As estampas da minha infância foram todas resguardadas, mas não sei catalogar tudo o que encontro cá dentro, e contudo é vivo na minha alma e no centro da minha vida o soar de Dvoräk. Lembro-me que o meu avô como que orava através do Stabat Mater num ritual quase pagão que envolvia penumbras e luminárias e que, contagiadas, as empregadas se benziam estarrecidas. De mãos cerradas, a boca crispada e os olhos como facas cravadas no tempo, fazia erguer os abismos e as ascensões, os turbilhões e as fúrias, o negro desenfreado e a claridade imensurável. Os coros apunhalavam e eu, minúscula, sentia que cedo ou tarde o meu corpo cederia ao medo do troar do Quando Corpus Morietur que o meu avô fazia repetir incessantemente. Imobilizava-me, onde quer que estivesse, ao soar o primeiro acorde e esperava que o coração sossegasse o galope, que as agulhas no meu corpo deixassem  de ferir, que o medo de não conseguir respirar abrandasse ou que a morte viesse e me lancetasse de vez. O meu avô forçava-se a ser levada até Deus através daquele envolvimento poderoso. Caminhava desse modo, erguido pelos acordes do Stabat Mater e deparava com Deus vestida de coros. O seu modo de chorar era este e alastrava pela casa fora até tocar o espaço das mimosas e das suspensas beladonas encerradas que continuavam a verter o aroma sobre mim.

 

Ainda o ouço.

 

Mas não é desta memória que quero falar.

Dizia-me o meu avô que o passar do tempo se incumbia de carregar de sons as obras dos génios. Purcell é menos sonoro que Albioni, Bach é mais discreto do que Händel, Rosetti é menos trovejante do que Mozart e este menos brutal que Beethoven, Hoffmanm mais frágil do que Berlioz, Schumann mais frágil do que Debussy, ou Bartók menos duro que Shostakovich. Mentia-me, sorrindo, à espera que o contradissesse. Misturava períodos e tempos, obras inteiras e pequenos excertos, sempre a aguardar que detectasse o propositado erro nesta hipotética procura de calar o silêncio, preenchendo-o de sons e de fúrias, sabendo que o tempo que avança não procura a exclusão do silêncio, pois que é o silêncio que avança a retroceder o tempo.

 

Aprendi nesses instantes, que a Tristeza não se cala com tempos imperfeitos. Cansa-se apenas com os sons que quebram em nós a luz que traz por dentro.

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Gavetas:

A Gaffe no Sítio do Corvo

rabiscado pela Gaffe, em 18.12.17

O Sítio do Corvo

 

Um verdadeiro cavalheiro merece a discrição e a lisura de uma imagem que seja o reflexo das linhas rectas mescladas por voos.

Meu queridíssimo Corvo, esta é a forma como o consigo sentir. Pode não ser a correcta, mas acredito que é a que se aproxima debilmente da enormíssima elegância que acompanha sempre o seu modo de intervir na vida.

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A Gaffe "abelhuda"

rabiscado pela Gaffe, em 13.12.17

Stone Art

Não fazia grande sentido a minha querida Magda ser dona e senhora de dois blogs com imagens díspares, sem comunicação visual entre eles e com linguagens diversas.

Apesar de saber que iria pesar sobre os meus frágeis ombros a tarefa de os unificar, foi - vai continuar a ser - impossível recusar o que quer que seja a uma das mais inacreditáveis senhoras que me dão a enorme alegria de me acompanhar, rir comigo, bisbilhotar no aconchego de uns e-mails e sobretudo abraçar e mimar - sem baboseiras tontas ou guarda-chuvas parvos -, quando chove muito e faz muito frio.

 

Ter a minha querida Magda por perto é sentir que pertencemos a uma colmeia onde o pólen é sempre colhido nas páginas dos livros.

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A Gaffe de pois

rabiscado pela Gaffe, em 07.12.17

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Atentemos pois na imagem da mulher sentada que outra não conheço ou conheci denunciando o que é no que se vê.

 

Antes de o fazermos, é de conveniência considerar a luz de Inverno temerosa que na janela de guilhotina fechada desce o parapeito, encosta-se ao soalho, procura o tampo da secretária em mogno, ilumina a lâmpada do candeeiro apagado em abat-jour de sombra, distrai uma caneta, dois livros, a escultura de um mocho grande e negro e segue a ferocidade do azevinho na jarra gigante em colossais canos cortados da árvore que por imprevidência se deixou desumana na terra encostada a um muro da casa. Como um detalhe, um pormenor discreto ou amedrontado, vai tocar em risco o lóbulo da orelha da mulher, o brinco de pérola, o cabelo loiro de palidez imóvel, para se perder depois, pois que já não conta.

 

É de conveniência, o digo pois, atentar na luz, pois que a mulher é isenta de detalhes e é nosso desejo encontrar alguns na figura esguia sentada na poltrona. A luz é pois o pormenor em falta na camisola canelada e de malha fina, gola alta, em que a cor de ferrugem se abre no riscado luminoso que alaranja o tom e que amansa ao mesmo tempo a densidade anil das calças tubulares e atenua o desenho picotado dos conservadores sapatos masculinos.

 

Ignoremos, na parede atrás desta mulher sentada, o retrato antigo de outra mulher sentada, loira ela também, quieta no interior do bulício do vestido de seda pesada de azul de saia ampla de metros de tecido, que toca enluvada um colar de pérolas que quase flutua no seu pescoço afunilado para desaguar no colo descoberto branco e manso onde pousou sem desvelo uma mantilha de renda que abre sombras perfuradas nos laços do espartilho.

 

Atentemos pois na mulher sentada quieta, atenta, de mãos esguias e unhas ovaladas que atravessam a folha do que lê, com detalhes de luz por sobre o corpo magro, nu de pormenores, isento de desvios e não na mulher do quadro detalhada, pois se atentarmos na mulher sentada na poltrona, intuímos a outra, a do retrato.

 

Unem espaços.

 

A mulher sentada na poltrona é a lapidação do corpo dos lugares, a abolição do tempo que nos mata. O corolário de uma permanência que só os raros conseguem entender, pois que o entendimento dos símbolos escapa pelas fendas do agora e do presente.

A luz que risca o brinco da mulher sentada, é a mesma luz que toca as pérolas do quadro. A luz é a mesma, derrogaram-se apenas os detalhes.

 

É deste entendimento que o depois é feito, pois que o depois se existe, tem passado.

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Gavetas:

A Gaffe do Pai Natal

rabiscado pela Gaffe, em 05.12.17

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A chaminé da lareira principal, a da sala grande, onde por decisão superior - e ao contrário do habitual -, se realizará a ceia de Natal, começou a tossir.

Uma tosse seca, mas muito discreta, quase imperceptível se não fosse o fumo que, coitada, não consegue expelir e que assombra a sala como um fantasminha cinzento e suave.

O rapaz foi chamado – por insistência minha -, que a do quarto desta frágil menina é secundária e o funil - o filtro, a chaminé, o tubo, a canalização... Oh! Mas quem se interessa?! - está ligado a esta e como se acende pouco, quando se acende faz tossir a velha.

 

Como são previsíveis os braseiros jovens!

 

Vergou o tronco para trás e de pilha acesa mergulhou a cabeça no escuro. Virado para mim ficou um corpo arqueado, sem cabeça, de braços erguidos e um dos umbigos mais perfeitos da minha vida inteira.

- A menina quer ver como está tudo bem por aqui?

Estava tudo tão bem por ali!

 

Há instantes para tudo. Se deixamos escapar um, seja ele qual for, alteramos o rumo às histórias que vivemos e apesar de ser opção do momento espreitar o abismo confirmando que estava tudo tão bem, escolhi debruçar-me sobre o espírito, deixando a carne de lado e concluí, após meditação em larga escala, que todas as raparigas espertas deviam ter a possibilidade de ver descer pelos tubos um Pai Natal que preenchesse os requisitos exigidos pelas suas quadras mais privadas.

 

É aborrecidíssimo ter sempre um velhote obeso e bonacheirão, pontilhado por suspeitas de pedofilia, a tentar oferecer-nos coisinhas embrulhadas com papéis fofos, com laçarotes e velinhas. Não é empolgante ter a descer pelos tubos um enregelado ancião gorducho, de sorriso largo e barba longa e crespa, agarrado a caixinhas coloridas que trazem tantas vezes dentro a desilusão encharcada de espírito natalício.

 

Todas as raparigas espertas - as outras ficam felizes com a oferta de uns gorros, de uns arranjos, de uns pechisbeques, de umas peúgas, de uns cachecóis cheios de carinho e amor, compreensão e ternura, dedicação e simbolismo, doçura e simplicidade e todas essas coisas lindas, muito lindas, muito lindas -, deviam ter o direito de seleccionar o Pai Natal que as visitaria nesta quadra repleta de paz e de gente da família.

O rapaz da chaminé de justo macacão vermelho e golinha de zibelina, de botifarras lenhadoras, músculos santificados, um dos melhores umbigos que vi em todos os meus parcos natais e carradas de testosterona no saco das prendinhas, estando já enfiado no lugar devido, podia facilmente alegrar a consoada, mesmo descendo de mãos a abanar.

 

Nós, raparigas espertas, sabemos que o que conta sempre são as intenções.

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A Gaffe branquela

rabiscado pela Gaffe, em 04.12.17

Fernando Vicente

Com o intuito de me insultar, e tendo sido esgotado o stock de pilhérias mais ou menos graciosas, chamaram-me branquela.

Reportavam-se, como parece evidente, ao meu tom de pele, embora seja plausível que se tenham referido à minha capacidade de ser imaculada. É sempre aceitável hesitar perante os ditos de uma criatura cujas oscilações mentais fazem sombra a Faucault.

 

Confesso que me surpreendi. Não porque me tenha sido revelada como inevitável a coloração da pele das ruivas, não porque me tenha alguma vez provocado desgosto não poder encarnar a escaldante personagem de Bizet -  nem sequer é uma das minhas óperas favoritas -, mas por ter dado conta do extraordinário equívoco que é a imagem que acreditamos ser a nossa e que tentamos a todo o custo transmitir aos que nos olham.

 

O virote que foi disparado, supostamente para me diminuir, partiu da besta - arma, e não qualidade do seu possuidor -, de uma criatura acérrima defensora da diversidade planetária, da harmonia racial, da comunhão de cores, da dos pretos, dos amarelos, dos vermelhos - com algumas reservas de índole política -, da multiplicidade e da publicidade da Benetton, mas que foi capaz, num pequenino acesso de raiva, de recuperar a herança medieva, permitir que o ar cheire a chamusco e transformar numa acendalha o tom de pele de alguém que está a ano-luz de conhecer.

 

É extraordinário como este retrocesso revelador é detectável também quando a mesma criatura se ouve e se deixa ouvir aos gritos, levantando as bandeiras da defesa dos direitos dos homossexuais e, em segundos, se torna capaz de cuspir a palavra gay com a velocidade do insulto que procura a cara de alguém, mesmo que a orientação sexual da suposta vítima lhe seja desconhecida, ou, unindo-se à multidão de mulheres espoliadas, sacando do peito palavras de ordem irritantemente feministas, desliza no charco do estavam a pedi-las perante as sucessivas revelações de assédio que vitimiza um grupo de mulheres até ali incensado, ou ainda aplaudindo, galhofeira e cúmplice, o misógino macho que comenta os larilas e ridiculariza a indignação - sentida como exagerada - que coadjuva a condenação do estupro.

 

A camada de cimento que se deseja visível - e coberta de luzinhas de Natal, de maviosas intenções, de brilhos de conceitos sem preconceitos, de humanas qualidades, de impolutos desígnios, maravilhosos anelos de concórdia e de bondosas e tão justas motivações -, pesa sobre uma bolha de mediocridade inacreditável que é capaz, não raras vezes, de perfurar as paredes que a pretendem esconder e fazer com que um nódulo seja visível. É quando sobrevém esta pontual contaminação da superfície pelo que se esconde, que nos é permitida a visão total destas criaturas e é nesse instante que nos apercebemos que a mistura entre as duas náuseas, não é detectável pela criatura onde a reacção ocorre que, numa espécie de duplicidade patológica, a ignora por completo.

 

Suspeito que mais corruptores do que os grandes monstros do grande preconceito que nos ensinaram a reconhecer, são estas minúsculos seres pintados de arco-íris, mas que acreditam, no escurinho das luras e das covas e buracos que vão foçando na vida, que a cor de pele de uma ruiva é um insulto.                  

 

Ilustração - Fernando Vicente

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A Gaffe ensurdecida

rabiscado pela Gaffe, em 01.12.17

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Fico parada a vê-lo mexer os lábios, a gesticular, a inclinar a cabeça, a esticar o pescoço, como uma galinha ao surpreender um verme, e observo-lhe as sobrancelhas espessas, subindo e descendo, neste vale de lágrimas; os olhos pequenos, que se semicerram quando há coisas transcendentes a dizer - o que implica um quase fixo arregalar do globo ocular; as mãos serigaitando na secretária sempre à procura de um objecto qualquer, para o fazer rodar por entre os dedos e surpreendo-me com o estranho silêncio que ouço. Um silêncio que me faz falta quando a rua vem rasgada introduzir-se nos meus dias.

Não penso em nada. Por vezes, aceno com a cabeça, por misericórdia, fazendo-o acreditar que estou rendida, mas a indiferença já me ensurdeceu.

 

A ausência total de som faz perdurar a sensação dolorosa de perda constante.

 

- A consciência da perda irremediável deverá acompanhar os processos posteriores aos factos evitando sequelas futuras. O luto é, portanto, essencial vivência, insubstituível processo de adaptação a novas condições de existência - diz de cátedra o velho catedrático. 

 

Fala debruçado sobre a secretária, fazendo girar uma caneta entre os dedos, enquanto me distraio com as bolinhas e pintinhas na gravata.

É de seda preta, de nó largo e perfeito. Estampados no corpo, surgem, espaçados, pequenos sóis amarelos e laranja, rodeados de pintas vagas com as mesmas cores. É uma gravata obsessiva, porque as marcas de fogo tornavam-se nos pontos para onde tudo naquela sala converge. A partir dos focos espirala-se o resto. Percebi então que, daquele modo, todas as palavras que diz, umas atrás das outras, aceleradas pela força que as puxa para o centro, largam uma cauda vaga e cintilante, de cometa, que as torna de certo modo galácticas, susceptíveis mesmo de, pelo fascínio, arrebanhar a minha credulidade.

No entanto, ele não gosta de amarelo. Estas considerações  cósmicas não são portanto frequentes e tudo tem o sabor desolado que fica  em quem mastiga pó ou terra seca.

 

O homem acomoda sempre a barriga no tampo da secretária. A gravata, a alameda entre o pescoço e o cinto, fica deste modo lancetada. Por vezes perco-me a tentar adivinhar se o padrão escondido é a reprodução daquele que vejo ou se muda de ideias e difere. Há gravatas que, ao terminar, alteram o constante até ali e, num rasgo original, apresentam motivos contrastantes. As dele raramente sobressaltam. Fiéis até à morte, repetem os motivos.

Não são os meus lutos que filtram a luz numa demência de afogados, que fazem a casa absorver os entardeceres, que prolongam sombras, que acidulam objectos.

Como pode o homem que fala explicar-me a luz absorvida? Como pode ele entender a contaminação das vozes? Como pode ele olhar para os perfis das gentes que eu amei e que partiram, em sépia e em dourado, e que se transformam em pólen nas tardes laranjas esmagadas? Como posso falar-lhe daquele espaço dentro desse espaço, a flutuar?

Não sei contar-lhe.

Não sei mesmo se é memória deles o que trago dentro ou se os lugares onde me perco estão toldados e misturo as vozes de tempos diferentes.

A minha realidade é um fruto aberto. Separadas as metades, deixo de saber em que lugar fico. É no meio de espaços distintos que me perco e deixo de saber onde sou eu. Em que lugar se ouviu o tombar da água na cisterna? Rolará neste chão, ou arrasto-o como uma cauda onírica e medonha? É este o silêncio agarrado à memória que dela tenho ou é apenas uma dor que emudece?

 

A memória calca pisos ásperos e no entanto é doce o perfume que, de tão forte, escorre para a boca, transformado em viscoso lago de sabor que tentamos expulsar roçando a língua contra o palato e cuspindo os grãos pequenos de aroma já com corpo.

 

- O luto é, portanto, essencial vivência, insubstituível processo de adaptação a novas condições de existência.

 

E eu ouço sussurros e murmúrios ondulando no sopro produzido pelos dedos da memória que proíbe a voz de seda preta, de nó apertado e perfeito na garganta.

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