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Ilustração - Fernando Vicente


As pessoas raras

rabiscado pela Gaffe, em 19.01.18

As pessoas raras

 

A minha professora mandou-nos fazer uma composição com as pessoas que a gente tinha de procurar porque são pessoas raras. Fiquei muito aflito já que não sou grande coisa a encontrar gente honesta e para dizer a verdade mal dou um pontapé numa pedra só me sai pessoal que faz o vigarismo. O vigarismo é um trabalho muito bom que não dá muita canseira e dá muito dinheiro por isso há muita mas mesmo muita gente nessa profissão. A gente rara é pobre. Aqui está uma coisa que não entendo. Há gente que anda no vigarismo é rica e não é rara então as pessoas que não têm um euro para dar aos arrumadores  é que são raras porque gente rara não fica rica mas a verdade é que não são raros porque há muitos pobres. Isto é complicado e já sei que vou levar nos dentes que estas coisas de andar a atrapalhar é muito feio. As crianças não devem andar a desfazer nos adultos como a cachopa do supernane que a minha prima Idalina disse que devia ser enfiada num contentor de merda logo ali ao lado da avó e da progéritora. A minha mãe quando viu aquilo até disse porra se um filho meu me fizesse um cisco daquilo que esta macaca faz à mãe levava com um pano encharcado numa tromba d’água pela mona abaixo que até passava a julgar que era um dos meus miúdos. A minha mãe não gostou da supernane porque não gosta lá muito de senhoras finas com a mania que são boas e que dizem às mães que uma chapadona é coisa que só as crianças podem dar às mães e que a educação só se faz treinando a cachopada com coisas coladas no frigorífico. A minha mãe normalmente o que cola no frigorífico somos nós mas à chapada quando eu e o meu irmão arrebitamos a bolinha. Já o meu pai é mais calmo e não se mete em coisas de mulheres e da escola. A minha prima Idalina acha que deviam era chamar a senhora dum berlogue que tem uns filhos que são uns anjos lindos lindos lindos. Essa é que sabe educar que a gente vê nas fotografias que a senhora mete no berlogue. A minha mãe ficou furiosa e disse que essa também mamava com um ciclone nas melenas para ver se aprendia a deixar os filhos mexer na merda que faz tão bem ao sistema imundopressivo e até está mesmo à mão logo ali na fralda do mais pequeno. Era essa ou a senhora que recebeu a Dona Cavaca e a Dona Letissa que também é uma rainha magrinha como a Queite Moça que é a princesa do povo. A senhora que recebeu a dona Cavaca e a rainha Letissa mandava nas pessoas raras e portanto o assunto ficava arrumado e a minha composição muito bonita. Mas não. Foram logo dizer que também andava no vigarismo e que por isso não era rara. Era rica. Os raros são honestos e ficam pobres. Cá está a coisa que não entendo. O vigarismo deve ser assim como o azédio. Anda tudo atrás do mesmo. O meu primo Zeca anda todo borrado porque tem medo que a Micaela diga nos tuistes que o meu primo lhe apalpou o rabo assim de raspão na festa de Santa Ingrácia que é a patroneira cá da terra. Andam a imitar os homens de Holiude e depois queixam-se que os cus que apalparam tinham vespas. Eu acho que deviam era meter a senhora supernane na IURDE. Só se estragava a casa do bispo. Com um bocado de sorte recambiavam-na para a América para casa daquelas pessoas com muitos filhos presos para ensinar os pais a colar merdas no frigorífico e sapos na paredes. Ninguém dava por nada que aquilo é muito vigarismo a monte. Eu gosto muito das pessoas raras.

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A Gaffe sobre.tudo

rabiscado pela Gaffe, em 19.01.18

sobte.tudo

Cinco cabeças que elaboram sobre.tudo

Embora apenas quatro raparigas, Verónica de Medeiros, Rosa LeBron, Martina Eça, Mafalda Cassi, é fácil compreender a multidão. Uma destas raparigas, isoladas - qualquer delas -, vale por duas.

 

Leonardo Sobral fica para mim, não carendo duplicar.

 

(Extraordinário o post sobre a morte)

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A Gaffe dos génios

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.18

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Às vezes, a vida parece uma pulseira. Uma fiada de miúdas contas que se prendem ao pulso com um imperceptível estalido do fecho minúsculo. Nada mais do que isto. Tudo é pequeno, simples, capaz de se explicar como uma conta de nada. Num dia morremos, no seguinte acordamos sem morte por perto. Num dia a nossa espantosa incompreensão adquire grandezas incomensuráveis, no dia a seguir encontramo-nos na frente das razões diminutas que clarificam e transformam em planície todas as nossas inventadas montanhas.

Apercebemo-nos da luminosidade invisível das coisas pequenas, compreendemos que no mais breve momento, no mais ínfimo gesto, ou na mais despercebida queda de uma pétala, o elo que nos liga ao entendimento do inexplicável está preso a nós que não o vemos. Vedamos tantas vezes o acesso à claridade do banal, acreditamos tanto que nos destinaram a olhar apenas os palácios e que somente o que é maior é importante, que perdemos ou negamos a capacidade de entender que o Tudo tem o centro gerador na ausência de matéria, no Nada que existe em cada passo dado, e que esta ligação que nos escapa, produz a tranquilidade, a pacífica ordem do entendimento e a claridade oriunda do que nunca deixou de nos pertencer e que, embora cegos, nos faz andar pelos trilhos estreitos que escolhemos.

 

Estas minhas últimas semanas foram escuras, incompreensíveis, quase doentes. Corri e parei em todo o lado, com pedras de desentendimento pousadas nos olhos para evitar as lágrimas. Foram dias, uns atrás dos outros, em que tentei escapar aos muros que na minha frente, grandes, ameaçavam crescer de forma bruta. Tentei enganar-me, dissertando de modo patético, certamente hipócrita, sobre assuntos que nunca me foram importantes - sempre me foi indiferente a compra e venda, exploração e abuso, de crianças em blogs ou em rubricas televisivas -, tentei desviar os leitos dos rios, usando os diques da indignação e da revolta contra assédios, mesmo suspeitando dos que estão minados pela mesquinhez do despique e esbracejei com A Mística de Putin de Anna Arutunyan, em discussões acaloradas à lareira.

 

Fui quase tudo, por não entender nada.

 

Ontem à noite as minhas tão elaboradas artimanhas, desabaram. Inesperadamente.

A vida, criatura ínvia, traidora e pervertida, mas capaz de benéficas e benévolas entregas, fez com que uma paragem breve e de maior sossêgo se tornasse o toque da banalidade que faltava para que eu chorasse de emoção e de entendimento.

 

Vi - e é imprescindível que vejam -, preparada para encetar batalhas e defender bandeiras que não me pertencem ou que nunca me importaram -, um documentário sobre o extraordinário pianista David Helfgott.

 

Conhecia-lhe o som, um dos melhores do planeta, mas desconhecia o homem.

 

Australiano, com pais polacos, foge aos dezassete anos para aprender piano em Londres. Aos vinte e sete tem um esgotamento nervoso e é internado, em asilo psiquiátrico, durante onze anos. Durante onze anos Helfgott não tocou e não contou. É resgatado por Gillian, que pede em casamento no dia a seguir ao primeiro encontro, e torna-se um dos mais inacreditáveis e geniais interpretes de todos os tempos, capaz com uma facilidade espantosa, e sempre sem pauta, de encarnar o som de, por exemplo, Rachmaninoff, tão limitativo e quase impossível a pianistas mais débeis, menos hábeis e sobretudo menos longos, embora igualmente geniais.

 

Não sou psiquiatra. Acompanho com modéstia a perplexidade dos vários que o observaram que não arriscam qualquer diagnóstico - Asperger? -, tendo em conta o percurso de Helfgott e a sua queda em asilo, mas sei que não me é, de forma alguma, estranho o comportamento deste génio capaz de gerir música com a ordem, a organização, o pensamento matemático, o rigor, a coesão e a concentração que ela exige, e que longe do piano é - usando as normativas em vigor - caótico, sem o mínimo controlo das emoções, sem a percepção do espaço alheio, sem a menor capacidade de elaborar jogos corteses, sem réstia de entendimento de regras sociais estipuladas, sem nenhum conceito sólido relativo a elementos básicos e quotidianos que o confrontam - fala em dinheiro, apenas porque se apercebe que é importante para os outros -, sem atribuir a mínima importância às fórmulas que regem o comum, sem nenhum conceito - ou preconceito - capaz de o tornar vaga pertença do mundo que o rodeia.

David Helfgott é irresponsável, terno, doce, tímido, brando, afável, empático, egoísta como uma criança, gosta de chá e de banhos, de roubar o que lhe agrada - só porque encontrou ali e gostou tanto -, de beijar maestros e de afagar as mãos que o aplaudem, de descer do palco a sorrir e pronto a estender os braços, de abraçar a orquestra inteira antes do início, de a abraçar no fim, de cantarolar consertos e de interpelar desconhecidos apenas para os estreitar e afirmar que o melhor está para vir, que basta ter confiança.

 

David Helfgott talvez seja só inexplicável quando nos sagra ao piano.

 

Desabei em lágrimas. Imbecil que sou.

 

As contas da minha banalidade quotidiana tocaram-se e fecharam a pulseira em redor do meu pulso. O meu entendimento foi desperto e apercebi-me de súbito do extraordinário ser que eu conheço e que causou as minhas últimas semanas de angústia e medo já ultrapassados.

Oposto a David Helfgott na entrega sem limites a tudo o que se move, este meu rapaz é hirto, mau, gelado, socialmente isolado, insuportável, barricado, associal, distante e incapaz de tocar ou ser tocado, mudo, intransigente, implacável, inflexível, medonho quando irado, nunca terno, mas genial, inexplicavelmente genial, numa só batalha igualmente capaz de nos sagrar a vida.

Nunca abraçou ninguém e nunca disse que o melhor está para vir - não tem confiança -, mas percebi, na irrisória banalidade deste meu tempo de sossêgo, que o melhor chega sempre que ele chega.

 

A vida é tão pequena e simples como os génios.                                                         

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A Gaffe dominatrix

rabiscado pela Gaffe, em 16.01.18

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A Gaffe foi espreitar a novíssima coqueluche da SIC e ficou estarrecida com a celeuma que o programa causou, arrepiando a UNICEF, as CPCJ, as Comissões de Trabalhadores, a Ordem dos Psicólogos, e praticamente o facebook inteiro - com excepção de uma ou outra dominatrix.

Congratula-se no entanto ao saber que foi aplicada a tradicional parolice portuguesa, justificando a existência desta coisa com o facto de se verificar que é um formato adoptado por quinze países ... no estrangeiro.  

 

A Gaffe admite que as únicas crianças que suporta têm mais de dezoito anos e usam barba, não a incomodando que chorem, façam birra e chamem pela mamã nos momentos de maior aflição, pois que fornecem as coordenadas para devolução. Talvez por isso não possa cavalgar a onda de protesto que se ergueu na Nazaré digital. No entanto, faz notar que SuperNanny plagia com um desplante inaudito um adorável e utilíssimo programa onde César Millan transforma cães irritantes, desobedientes e pessimamente educados, em exemplos de civilidade e de civismo, usando pequenos truques, pequenas regras e pequenas trelas, treinando muito, recompensando imenso o comportamento assertivo dos bichinhos e fornecendo aos donos as aptidões necessárias a uma urbana supervisão do animalzinho e a um bom e são convívio com o próximo.

 

Ninguém atira Cesar Millan às feras, mesmo depois de um dos seus maravilhosos resultados ter atacado e assassinado um porco domesticado!

 

É de sublinhar também que a senhora que treina crianças no programa da SIC, refere que não ali está como psicóloga. Uma informação inútil, por tão evidente. É visível que a entertainer Teresa Paula Marques está ali no papel de dominatrix de um filme suspeito - e que sensual interpretação! nada sexualmente desviante, mas muito convincente -, ou, em alternativa, a provar que os exorcistas não estão de todo ultrapassados e que os serviços que prestam seriam de utilidade extrema, ou de extrema-unção, perante o aparecimento silencioso, a um canto de um quarto, de um espectro vestido de negro, com um ar de secretária perversa num filme manhoso, de braços cruzados e sobrancelha reprovadora erguida, acompanhado por um séquito de demónios de microfone em riste, holofote rígido e operador de câmara de horrores que regista os transes de uma cachopa possuída por Belzebu. 

 

Num tempo que já lá vai - ou não tão perdido assim - era uso e costume corrigir o comportamento anormal dos petizes com a ameaça da polícia que ali vem e prende, com um rapto perpetrado por ciganos, ou mesmo com a certeza da ausência do Pai Natal benévolo e bonacheirão - ligeiramente pedófilo -, que se transformava em monstro maldoso e maldito escondido debaixo da cama das nossas infâncias, pronto a saltar-nos em cima mal o sono dominasse - quando crescemos, esta hipótese é encarada de modo distinto, consoante a quadra que vivemos, o sono que temos, a forma física do monstro em causa e o espírito que nos invade em diferentes alturas.

 

É de lamentar o abandono destes estratagemas, usados no aconchego do lar, sem inglês ver, tendo em consideração os belos resultados que se obtinham e a consciência da proficuidade da repetição capaz de resultar em casos absolutamente diversos e em lares absolutamente díspares, e que Teresa Paula Marques substitui por uma cambada de técnicos de som, de luz, de câmara, de acção, e por umas mimosas estratégias colados no frigorífico por uma criança insuportável, pese embora a convicção - que se diria entranhada - da beleza e da tranquilidade dos resultados que são sempre conquistados seja em que cenário for, seja em que circunstâncias for, seja com quem for, seja em que fragilidade ou disfunção familiar tal aconteça.

 

Se caso, depois do treino, a criança voltar morder o porco, a culpa é do Millan. Se a criança não morder o porco, então o adestramento operado por Teresa Paula Marques foi um sucesso e é possível nesse caso, sem arreliar a UNICEF e apoquentar as CPCJ, escancarar as portas todas, todas as pernas, todos os braços, todas as janelas e todas as frinchas, destelhar a casa e destampar os tachos, mostrando ao mundo em blog os laços cor-de-rosa da perfeição rentável.

 

A Gaffe apercebe-se que o conceito de privacidade - e de intimidade - sofre mutações significativas. Se a velha Roma desaguou na Idade Média foi também porque o público se tornou privado, e o privado foi encarado em público. Sobrevoa-se, agora digitalmente, a privacidade das gentes, paira-se sobre a superfície da intimidade dos outros, com breves e leves e convencidas asas que se abrem e fecham num direito adquirido que ignora a fragilidade quase doente – doentia? -, de uma nova espécie de ilusório enclausurar, encerrar, proteger o que é privado, que paradoxalmente divulga - em post ou em formatos vários e se possível rentáveis -, um conceito alternativo de tragédia e de comédia, de sucesso e de insucesso, de fracasso ou de vitória, de decência ou desvergonha, que irmana e igualiza os responsáveis pelas criaturas dignas de figurar na capa do catálogo de Deus e pelas outras que carecem de exorcismos.

 

A privacidade torna-se apenas um botão num blog que o torna inacessível a estranhos, o clicar no facebook destinando-o em exclusivo a amigos, o Instagram que escolhe o ângulo onde a língua não tem aftas, o nude que é enviado apenas aos protagonistas do fim-de-semana passado. A intimidade transforma-se numa película transparente que se rompe apenas quando alguém morde o porco de Millan.

O direito ao olhar público e do público sobre este novo conceito de interior individual, íntimo e particular, torna-se direito adquirido, instintivo, motivador e empolgante, capaz de facilitar naqueles que o exercem o surgimento das latentes capacidades de julgar - condenar ou ilibar -, o que é voluntariamente revelado ou conspurcado e, em simultâneo, favorecer a divulgação de um resumo do que deveria ser calado na vida destes novos juízes, já que, como nos diz um amigo tonto, a nossa intimidade é a consolidação da dos outros.

 

A Gaffe lamenta o abandono do cigano raptor, do polícia psicopata, ou do educativo Pai Natal que castiga - eram imagens que nos assombravam até à morte, contrariamente as que são produzidas no programa, que não deixam rasto, nem trilho, nem marca, não é? -, sobretudo quando os vê substituídos por uma dominatrix de infâncias tresloucadas. 

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A Gaffe espiralada

rabiscado pela Gaffe, em 11.01.18

TimesUpLogo_Large.pngRita, querida, a Gaffe consegue estar consigo.

Tal como a menina, a Gaffe considera um escândalo que no elenco das apresentadoras do Festival da Eurovisão não surja uma mulher negra. Uma indecência que poderia facilmente ser evitada - provando-se em simultâneo que este país é para todos -  se Filomena Cautela fosse substituída pela Carmen, a de Bizet, Sílvia Alberto por um anão, e a outra senhora que se lhe varre o nome, pela Ministra da Justiça que, como todos sabemos, tem um poder de comunicação deveras invejável. De rejeitar a Oprah, pois que o desconhecimento da Lei, não a invalida, e esta mulher, pese embora a cor, várias vezes se espapaçou no pescoço escroque de Weinstein. O facto de não ter tido oportunidade de espreitar o bicho no escurinho podre do seu cinema privado e nojento, não a iliba - Não sabia? Soubesse. Catarina Furtado sobrevive a tudo, como fica provado depois de a vermos enfiada num vestido Nuno Baltazar - preto, comme il faut -, dois ou três números abaixo do aconselhável e com as mamocas encaixadas nas narinas.

 

É evidente que, apesar de mais composto e ligeiramente mais abrangente, o palco ficaria ainda com muita coisa de fora - de realçar as mamocas referidas e a piloca do James Franco -, mas pelo menos era capaz de não ofender o feminino, não boicotar tão descaradamente a diversidade planetária, e recordar que estamos todas ali, de pin ao peito, também a lamentar - porque somos bondosas - as pilocas dos pobrezinhos que, como a de James Franco, não conseguem organizar um festival privado sem o recurso ao mumificado deneuviano e diluviano - com uma pitadinha breve de marquês de Sade – conceito de importunar.

 

É contudo agradável perceber-se que, esta espiral hollywoodesca de revelações catastróficas, derrubou o mito que encharcava a mulher bonita de estupidez, considerando que beleza é antónimo de inteligência, que uma bela mulher nunca sabe para onde vai e para o que vai. Ficou claro desta vez que a beleza sabe sempre o que faz, o que quer e onde se mete, fornecendo-se apenas às matronas e aos mostrengos a ingenuidade e a inocência de quem, com angelical imbecilidade, apanha a pila do predador dando conta disso só depois.

 

A Gaffe suspeita que há extremos que não se tocam. Um segmento de recta não verga, não se torna pulseira, a não ser que a forcemos, que a dobremos, que a contrariemos, que a obriguemos, e mesmo nestes casos corre o risco de quebrar. Confundir, ou fazer colidir, sedução com assédio e liberdade sexual com o direito que a pila de James Franco tem de importunar - embora neste caso específico, o assunto mereça reavaliação -, é o mesmo que considerar luminosamente esclarecida, humanitariamente salvaguardada a diversidade feminina, espetando uma negra a perdigotar twelve points num festival de cançonetas onde é comum mamocas aos pinchos e rabiosques a pedi-las.

 

Mas é giro, Rita, mas é giro.

 

Por isso a Gaffe consegue estar consigo, pese embora o tenebroso e sombrio pecado que esta rapariga acarreta e que a faz desejar ardentemente que Deus e a menina desconheçam.

Deus que ignore o quanto esta rapariga gosta de homens, pois, se Deus descobre esta sua faceta obsessiva, terá o mesmo destino da primeira violadora conhecida e, como toda a gente de boas famílias sabe, não foi dada a possibilidade a Eva de se justificar com os preparos de Adão, que andava a pedi-las, de pila enroscada nas macieiras. Foi logo ali expulsa do Antero - de Quental, ou do quintal, para o caso tanto faz -, salomonicamente acompanhada pelo rapagão, porque nestes casos nunca se sabe quem começa, e porque na altura foi difícil encontrar a isenção e a independência de Joana Marques Vidal, logo ali a seguir ao arquivamento do caso dos submarinos e do processo Tecnoforma.

 

Semelhante à de Deus, a ignorância da Rita em relação à esta sombra da Gaffe, é abençoada pois permitirá também que a menina não se mate, cavalgando e subindo ao cume do seu ego e atirando-se depois para o vazio do que diz.      

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A Gaffe oferecida

rabiscado pela Gaffe, em 09.01.18

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Estes primeiros e intermináveis dias do ano foram sábios.

 

Vivi-os a confirmar a facilidade com que damos tudo por quem faz parte da nossa vida, por quem amamos, a quem habita a nossa alma. Sabia que por amor se torna instintiva a dádiva. Não é necessário desenrolar papiros, digitar teses académicas ou fazer rimar amor com qualquer outra dor, para nos apercebermos que a entrega de tudo o que temos se faz no instante em que nos reconhecemos no outro.

 

Não sabia ser possível que por amor se consegue dar o que não se tem.

 

Vivi estes primeiros e intermináveis dias do ano junto de um Amigo.

Um imenso Amigo que, por circunstâncias que são reservadas, viu pretensamente em perigo a vida de quem constitui uma das suas escassas ligações ao mundo e uma das suas raras ligações com os sentidos.

 

Urge dizer, para que se entenda, que este magnífico homem foi tocado pelo prenúncio do autismo que, por circunstâncias aleatórias, insondáveis, inesperadas, o aproximou da genialidade, aproximando-o ao mesmo tempo de Asperger.

O facto amputou-lhe as previsíveis apetências sociais, dificultando ou mesmo impedindo a descodificação de signos sociais, a leitura de emoções alheias, a capacidade de interagir fora de um círculo de um rigor próximo do científico, isento de metáforas - embora seja capaz de nos paralisar quando revela as ligações que produz dentro da alma -, restringindo-lhe os universos de emoções que em nós tropeçam a cada instante e diminuindo-lhe significativamente a capacidade de resistir a agitações, sensações, perturbações e desordens que, nele labirintos, o deixam preso a um solidão vinda de dentro e que não tem lugar no mundo habituado a solidões presas em redes sociais.

 

O que consegue depois, e fora disto, é ilimitado.

 

Por circunstâncias aqui irrelevantes, este genial gigante viu ameaçada a vida de quem sente que ama - sentir que se ama e amar, não são aqui a mesma coisa, sendo que o sentir é a consciência do facto e por inerência, um acto racional que mistura a raiz com o paradoxo, a verdade que se conhece, o real passível de ser experimentado, a razão sobreposta à emoção sem a aniquilar ou secundarizar.

 

A brutalidade, a rispidez, a antipatia quase ofensiva, a distância inquebrável e intransponível que o separa dos outros, a indiferença ou a severidade com que olha o que o rodeia, a impossível admissão do toque físico ainda que social e inócuo e a aspereza com que interage com o desconhecido, abriram-lhe na alma um poderoso buraco negro onde nada existe que não seja defensivo.

 

Estive ao lado do meu Amigo estes primeiros e intermináveis dias do ano e aprendi que é possível que por amor se dê o que não se tem.

Aprendi com ele, ao vê-lo - mesmo sendo ele a antítese do visto - que por amor se amortece o som da voz; se agarra, se amacia, se protege e se afaga  a mão de quem se ama durante o tenebroso período de tempo que dura uma ressonância magnética; se é capaz de seguir com uma doçura infinda a agulha que vai recolher pedaços de pavor; se consegue ouvir com dedicação extrema as definições clínicas, os relatos de casos idênticos e os relatórios que se não entende; que se encontra a leveza de uma conversa banal, inadmissível outrora; que se é capaz de beijar com um sorriso transparente o médico que afasta o terror adivinhado e que se está de súbito apto a apertar num abraço os que nos devolvem a alma.

 

Nestes primeiros e intermináveis dias do ano, aprendi que se é esperado e certo que por amor se dê tudo o que se tem, é por amor que entregamos de mãos todas abertas o inalcançável deslumbre do que em nós está ausente.  

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