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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem trono

rabiscado pela Gaffe, em 29.08.17

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Vejo-a agora de veludos pretos. De brocados pretos. A sobreposições de texturas pousadas na palidez doentia dos que estão sozinhos, que a palidez é mais densa nos que são deixados. A coifa geométrica a resguardar-lhe o pudor dos cabelos presos. A redonda gola de renda de Flandres, amarelecida pelo amido que a entretela. O crucifixo preso por correntes de ouro a baloiçar entre os mamilos esmagados pela tábua do espartilho. A cinta quebradiça, vislumbre de nada. A cinta que a asfixia. O raso triângulo rígido depois. Bordado. Em relevo. O galrear rouco do rasto do vestido sobre as pedras. As mãos sem anéis. Esguias de rezar. O rancor viúvo por três vezes. O suor nas axilas. O suor nos pêlos púbicos que a agoniam pela evidência de trazer no corpo sexo, pecado e morte.  O peso desmedido do que arrasta. Véus como teias. Véus de pedras.

 

Vejo-a de joelhos, trucidada pelo peso do sacrifício do Cristo, a desfiar contas de rezas latinas. A cravar o peito de veludos baços os socos mais contritos. À espera que a matem, à espera da coroa, que o reino tarda e a morte é ruiva.

 

Vejo-a velada pela ténue trama do erotismo preso no martírio do homem pregado. Do homem em cruz que a ajoelha, na cruz, de corpo nu, e sangue, e feridas.  

 

Maria da Escócia.

 

Então percebo. Foi sempre a solidão, que é uma outra morte. A que vem connosco, ajoelhada.

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2 rabiscos

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De Maria Araújo a 31.08.2017 às 15:53

Belo texto.
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De Gaffe a 31.08.2017 às 16:34

Há dias.
:)
Obrigada.

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