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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Outubro

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.17

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A Gaffe decidiu escolher as figuras que mais se destacaram no mês que agora finda, procurando dar um cunho levemente ibérico à selecção encontrada, pois que de união este Outubro foi profícuo.

 

Escolhe como primeira anotação, e como não podia deixar de ser, o senhor engenheiro, não pelas razões óbvias, mais que abanadas e mais que esfregadas nas páginas do quotidiano de toda a população do planeta, mas pelo facto da Ordem dos Engenheiros ter deixado pendente a informação de não inscrição do senhor engenheiro nas suas vetustas listas. A Ordem dos Engenheiros durante trinta anos desconheceu - ou se conheceu, decidiu que era desagradável incomodar o senhor engenheiro com manigâncias destas -, que o senhor engenheiro não era senhor engenheiro e que o senhor engenheiro tinha passado pelos intervalos da Ordem sem que a Ordem do lapso desse notícia - pois que a não tinha! -, acrescentando porventura  que o senhor engenheiro não merecia afronta tamanha.

A Ordem dos Engenheiros é exemplar na luta contra o preconceito, há que sublinhar. A Ordem dos Engenheiros é indiferente a títulos académicos e preza apenas, isso sim, a personalidade, o carácter, a lisura, a honestidade, o sentido de ética e o respeito pela verdade de quem não tendo uma licenciatura, vive como se a tivesse, assinado mesmo na tenra juventude projectos abomináveis na terrinha.

A Ordem dos Engenheiros considerou durante trinta anos que o senhor engenheiro era senhor engenheiro por usocapião. Convinha, no entanto, inquirir as outras Ordens, pois que pendentes podem estar outras situações de igual amabilidade das Instituições para com os campeões.

 

Esta mimosa advertência leva directamente à escolha do segundo rosto do mês e, mais uma vez, não pelos motivos óbvios - o homem não tem culpa de ser contemporâneo de João Evangelista -, mas pela segunda assinatura no vómito do acórdão.

A senhora juíza Maria Luísa Arantes é uma maravilhosa ilustração daquilo a que os britânicos chamam bitchness. Depreendendo-se que a senhora juíza leu com a atenção exigida – não podia ter sido de outra forma, pois que a senhora juíza está inscrita na Ordem -, é fácil concluir que a senhora juíza coadjuva e subscreve as ilações e as sábias citações do companheiro de Ordem. É portanto uma mulher que também considera que a Lei de 1886 deve ser invocada para suspender a pena a um par de bandalhos que agrediram uma mulher no aconchego do lar, traído ou não.

É irónico ter sido uma mulher a comprovar que quando estão em causa os direitos da mulher, um dos seus maiores detractores, uma das suas mais ínvias e esconsas ameaças, é o facto de entre elas estar o inimigo. Maria Luísa Arantes é tanto ou mais responsável pela suspensão de pena a dois energúmenos que espancaram uma mulher como o senhor de 1886. Convém não esquecer que a violência doméstica exercida sobre uma mulher foi justificada por uma mulher que - temos todos a certeza - leu atentamente o acórdão criminoso, pois que de forma contrária a Ordem não permitiria que se mantivesse magistrada.

A justiça portuguesa não é de modo nenhum um dos pilares da democracia portuguesa, enquanto, no povo que se queixa, existir a angústia de saber quem é o juiz do seu caso, como se dependesse dos humores, das crenças, dos valores morais, dos preconceitos, das manias, das frustrações, das inclinações, da flatulência e do desgosto de cada um dos senhores juízes a sentença proferida. A rua não pode coagir ou forçar a Ordem instalada a alterar comportamentos dos senhores juízes que reivindicam tempo para repensar atitudes. O tempo deles, dos inscritos na Ordem, é tremendamente diferente do tempo dos que se queixaram e entretanto são os afectos e os desafectos que ditam sentenças.

 

Os afectos movem presidentes. A Gaffe escolhe o presidente dos afectos como terceira figura do seu repertório e admite que abraços e beijos conduzem a uma dúvida daninha que vai roendo a imagem que esta rapariga esperta guarda do senhor presidente.

O povo que o senhor presidente beija e abraça e diz defender, responde positivamente à carência de popularidade do senhor presidente, mas não é um povo carente. É um povo desesperado, espoliado, só, isolado, queimado, na miséria, sem apoio e com uma estrutura administrativa cravejada de burocracia - um povo que vê, por exemplo, a ajuda à reconstrução da sua casa travada por falta de licenciamento daquilo que agora não existe, mesmo tendo sido o IMI ao longo de trinta anos cobrado religiosamente -, mas que encontra dentro da desgraça o velhíssimo espírito português - ou alma lusa, como vos aprouver e seja lá o que isso for -, com força para plantar todos os pinhais de caravelas de coragem.

O senhor presidente dos afectos com tanto afecto demonstrado corre o risco de escapar ao escrutínio político a que, também ele, deve estar sujeito e acabar beijado pela mulher-aranha. A mesma mulher que andou a fechar a boca à escabrosa falta de empatia e de sensibilidade de um governo a queixar-se de falta de férias com uma ministra a arder em lume brando e um anafado desenvencilhem-se.

 

É evidente que desenvencilhar é o que terá de fazer o catalão com um penteado que o faz parecer um estranho cogumelo - independentista é claro. Madrid está mais do que habituada a impor monarquias a um povo inteiro e não se comove agora com uma república imposta à sovela. O charme de Filipe VI não funciona neste caso como funcionou a intrigante inteligência do papá em caso anterior. Sem rei, mas com um roqueiro, a república da Catalunha durará enquanto a ambição manipuladora de um oportunista for rainha e existir um inepto, intransigente e ultrapassado primeiro-ministro com tiques de parvo que usam, num caso e no outro, nos prós e nos contra, a voz de um povo que genuinamente inocente acredita que o defendem e que se encerrará o jugo de Madrid, ou a insolência catalã, com a rapidez com que se fecham este mês e este post que duram há tanto tempo.

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17 rabiscos

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De Gaffe a 30.10.2017 às 22:01

:)
Enfim... não será sublime, mas aliviou.

Obrigada. Mereço um elogio porque acabo de saber por um ministro deste governo que estou a gastar água "para além das minhas possibilidades". Já dei conta do dinheiro, agora dou cabo da água. Há um tratado com Espanha relativo a desvios de caudais de rios que convém não rever. Melhor será culpabilizarem outra vez este povo sem juízo.

Obrigada.
:)*

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