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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dos guerreiros

rabiscado pela Gaffe, em 24.08.17

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Salvaguardando o meu direito de escrever tolices, suponho que o latim se preservou mais facilmente e sem grandes solavancos nas regiões limítrofes do Império. Roma, a capital do gigante, promoveu, aceitou e modelou as alterações à língua de modo natural, dinâmico e acelerado, enquanto os seus longínquos destacamentos se mantinham fiéis à velha guarda.

A distância possibilitou a preservação.

 

O facto de Edimburgo, ou outro qualquer centro urbano, ficar muito distante dos recônditos lugares das Terras Altas, permitiu, por exemplo, que as tradições, os costumes, os conceitos, as lendas e os rituais, permanecessem sem alterações significativas e que se reproduzam hoje bastante próximos da origem.  

 

Admito que de lendas, rituais, costumes e tradições tinha eu estantes preenchidas antes de partir. Admito que, pecaminosa e fútil, desdenhei um conhecimento mais profundo dos meus anfitriões. Reconheço que me estava a borrifar - ou nas tintas, como vos aprouver -, para a carga simbólica de uma determinada narrativa mais rochosa ou de um enunciado mais esotérico eivado de pepitas de paisagens místicas e míticas.

 

Dediquei todo o meu inútil tempo à mais profunda superficialidade, à mais descarada das preguiças - a que nos faz apenas mexer os olhos -, e à mais vergonhosa das actividades lúdicas - fazer de conta que não se existe enquanto se espreita a existência dos outros.    

 

Em consequência, sentava-me num banquinho deselegante e assistia a um torneio.

 

É realmente impossível de o descrever.

As cores - mesmo as que não existem e que se inventam ali, porque hoje é festa -, os gritos fabulosos de incentivos galhofeiros, as malditas gaitas, os tambores a rufar até ficarmos todas a com as maminhas a vibrar, a extraordinária felicidade a estourar por todo o lado, a radiante vontade de viver, um entusiasmo contagiante, as bebedeiras monumentais, o rodopio das gargalhadas, as bandeiras, os estandartes, os porta-estandartes, os postes dos porta-estandartes, os abraços a torto e a direito e até canhoto, as cantigas soltas em sotaques velhos e tudo mais que não se diz, que não sabemos, faz-nos sentir esbardalhadas num tufão de alegria que empurra para ombros vencedores os que caíram depois de lutar com todo o corpo.

 

Maravilhoso!      

 

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Voam estafetas; saltam medas de feno; agarram em medas de feno; agarram em barris de madeira, um em cada mão; agarram em lenhos brutos que serram; agarram em bolas de ferro que arremessam depois, em paus, em picaretas, em pás, em tudo o que servir por ser pesado; penduram-se em ferros; baloiçam em cordas; puxam cordas com blocos de pedra amarrados; atiram pedregulhos; lutam uns com outros; correm, correm desalmadamente, correm como se disse dependesse o extinguir do Brexit e fazem tudo isto e mais que se me escapa por ser tão muito, revelando a cada passo e cada salto, a cada pincho, a cada sopro, a cada arremesso, a cada queda e a cada descanso do guerreiro espalhado na relva, os segredos dos Kilts!   

 

 

Os kilts são usados sem cuecas!

 

Do meu banquinho inocente nunca vi tanta pila aos saltos!

 

 Eis que se destrói a dúvida que parece nunca ter pertencido às robustas escocesas que ao meu lado aplaudiam muitíssimo entusiasmadas sempre que uma piloca se esbardalhava à frente dos seus incentivos. Fizeram-me compreender que, ao contrário do que seria de esperar, não interessava um pirolito quem ganhava ou quem perdia - nem sempre o vendedor era o aclamado! -, mas o modo como a pila do guerreiro esvoaçava, o ângulo em que a dita se pespegava nas nossas vidas tão competitivas, na quantidade de rabo mostrado, nas proporções e equilíbrio - ou ausência dele - das que me fizeram divertir ainda mais do que as mocetonas escocesas já causticadas e no tempo que levavam a ser cobertas pelo tartan traiçoeiro.

 

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De todos os jogos, o mais popular, o meu favorito, e o que mais alarido provocou, era o que obrigava os homens de um clã a puxar uma corda grossíssima onde na outra extremidade o clã rival dava tudo o que podia para os derrubar. Não era de todo o mais espectacular, mas era ali, com as botas fincados na terra, rabo assente no chão, pernas abertas e braços estendidos de músculos retesados, que os rivais deixavam que o público visse todo o poder, toda a valentia, toda a força e todo o material de que eram feitos.

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Até eu, que sou tão avessa a este tipo de competição, escolhi, bem no meio de todos, o meu maravilhoso perdedor.

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A Gaffe convertida

rabiscado pela Gaffe, em 23.08.17

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Vi, passaram já alguns anos, no auge dos U2, uma imagem de Bono Vox  que me surpreendeu.

Bono, ajustado ao pescoço, ostentava um colar de pérolas pequenas.

 

É provável que tenha sido a mãe do rapagão que não tendo tempo para as usar e sabendo que as pérolas têm de estar em contacto assíduo com a pele para evitar a deterioração, lhe tenha suplicado aquela fineza, mas a imagem, por inusual, causou alguma estranheza até perceber que aquele adereço quase exclusivamente feminino, acentuava significativamente a masculinidade do portador que indiferente mostrava o que valia, suado e rouco. A fragilidade das pérolas, a brandura subtil, a fiada de discrição, a elegância e a insinuação feminina contida no branco, marcava e destacava a virilidade onde tinha pousado.

 

Bono nunca foi tão macho.

 

Se um discreto colar de pérolas, que se destina na origem a pescoços femininos, pode e é capaz, quando usado por um homem, da proeza de lhe acentuar as características de género, é bom de ver que um Kilt, mantendo eventuais e muito discutíveis pontos de contacto com um universo feminino -mas desde sempre pensado e talhado para uso de um macho -, pode operar milagres na única área que nos interessa - que se danem os castelos em ruínas e as inscrições gaélicas nos pedregulhos escorregadios.

 

É curioso verificar que esta peça - tantas vezes arremessada por dichotes e piadolas de petizes, imberbes, homens de outros lados, homens que se se disfarçassem de Batman iriam parecer freiras carmelitas e meninas com uma nail com bolinhas e outras de cores diferentes, que insinuam uma oscilação de cariz sexual ou ridicularizam as pregas que nunca vincarão com a unha do polegar, pois que não o têm oponente -, coadjuva de tal modo o homem como a tão celebrada gravata regimental, os botões de punho reservados, ou as peúgas pretas dentro dos monk strap.

 

O brevíssimo e enganoso vislumbre de um imaginário feminino povoado por saias de colegiais inglesas que um kilt provoca nos mais débeis que se riem imenso, é esmagado pela imposição de uma virilidade indiscutível, de uma masculinidade entranhada e de um vigor másculo de tal forma evidente, de tal modo acentuado que nos faz perceber que os papalvos críticos e engraçadinhos que se orgulham das calças que usam sem saber porquê, desconhecem até os outros processos de tapar a pila.

 

O hábito pode não fazer o monge, mas um Kilt - valha-nos Deus! - converte uma infiel e convence a rapariga a ir à missa.  

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A Gaffe copiona

rabiscado pela Gaffe, em 22.08.17

A Gaffe também coloca pilaretes nas suas avenidas. 

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A Gaffe sem partida

rabiscado pela Gaffe, em 21.08.17

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Viajar é sempre olhar o Outro e esse olhar que lhe entregamos comporta sempre uma leitura subjectiva. Contaminamos o visto com a nossa muito própria e desavergonhada semiótica, com a nossa semântica, com o nosso alfabeto, com o nosso vocabulário, com o nosso passado - com os nossos julgamentos - e com todas as histórias, com todos os sedimentos das histórias de que somos feitos. Estar consciente dessa ocorrência que permite uma leitura, uma descodificação, uma decifração do Outro, eivadas de anomalias causadas mesmo involuntariamente, através pela projecção do que somos naquilo que olhamos, é muitas vezes termos a possibilidade de nos olharmos. Vemo-nos no modo como interpretamos o que nos é desconhecido.

Viajar é portanto, e também, um não sair de nós.

 

Talvez por isso me recuse a fotografar. É sempre constrangedor captar um instante em que nos revelamos, em que somos, em que ficamos passíveis de ser reconhecidos nos mais ínfimos pormenores que escolhemos fixar através de uma câmara.   

 

Reconheço a fotografia como uma espécie de duplo emocional. Captamos as nossas particularidades, as nossas emoções, os nossos recantos mais claros e aqueles mais escuros, na escolha que fazemos dos alvos a reter e simultaneamente fixamos o que acreditamos ter sido interpretado, aquilo que pensamos ou sentimos que o Outro pensa, sente, ou vivencia. Não saímos de nós.

 

Uma fotografia é, sob esta perspectiva, apenas um testemunho do que somos naquilo que escolhemos fixar. Uma leitura do Outro que é desapossado dos seus variadíssimos vocabulários, da sua intrínseca e única forma de se expressar. Aplicamos o nosso muito particular sistema de descodificação do real à realidade alheia, acreditando que o que testemunhamos é a reprodução sem dano, impoluta, límpida e certa, da realidade do Outro. É este processo que explica o reconhecimento e aclamação de determinada fotografia pelos que usam os mesmos códigos de resolução, de interpretação e de descodificação - por projecção do que se poderá chamar emoções comungadas por colectividades específicas - e a completa indiferença pelos que possuem semióticas díspares e que, não raras vezes, são os que na fotografia figuram.   

Temos a certeza que conseguimos fixar o instante alheio, não contaminado pelo que a ele é alheio, esquecendo que quando temos a certeza de uma coisa, é porque pensamos nela apenas uma vez.

 

Talvez exista esta espécie de desrespeito pelo Outro em Henri-Cartier Bresson, Capa, Doisneau, Imogen Cunningham, Vivian Maier, Walter Evans,  Annie Leibovitz, Dorothea Lange, Steve McCurry, Jan Saudek ou Sebastião Salgado, entre tantos outros magníficos - um desrespeito parecido com o patente nas nossas medíocres películas de férias que não vão deixar história. Uma talentosa ou mesmo genial desconsideração pelo Outro, salva, aplaudida e ilibada por se conseguir, nos casos dos fotógrafos nomeados, por exemplo, projecções, não apenas do autor, mas também de todos os que com ele partilham, identificam e reconhecem determinadas emoções, as comuns, as autenticadas por determinada colectividade. A genialidade de cada um destes prodígios reside exactamente na capacidade de tornar emocionalmente comum um reflexo da sua própria emoção ao capturar uma realidade que por ser do Outro apesar de tudo desconhecem.   

 

Viajar é sempre o reflexo do nosso olhar no Outro. Provavelmente nunca partimos, embora encontremos sempre lugares de chegada.

A fotografia é apenas uma viagem parada.  

 

Na foto - o fotógrafo Charles Ebbets fotografado por desconhecido -1932

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A Gaffe - "The Comeback"

rabiscado pela Gaffe, em 18.08.17

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A Gaffe tinha planeado uma rentrée repleta de paisagens enevoadas, misteriosas, místicas, cheias de árvores tocadas por farrapos de névoa, de abismos rochosos, de ruínas cinza de castelos funestos, de pedras milenares rasgadas por inscrições rúnicas – ou coisa assim parecida, a atirar para o celta, com um travo gaélico e uma pitada de gaita-de-foles das Terras Altas -, mas cansou-se de ouvir bocas abertas a exclamar por tudo e por nada:

 

-  Pas de mots!

- No words!

- Keine Worte!

- No comments!

- Indescriptible!

- Unspeakable!

- isto a gente até fica sem dizer nada!

 

Ficou exaurida de tanta ausência de narrativa cuética e acabou por considerar um achado juntar-se ao grupo dos emudecidos. Não dá trabalho de gabinete de escrita criativa e poupa o imenso esforço que seria tentar não ser uma imbecil a juntar palavras como quem faz uma legenda floreada para uma fotografia medíocre.  

Em resumo:

- Le paysage écossais? Pas de mots.

Ficamos assim, abrindo caminho para o que realmente é de considerar descritível.

 

O mistério dos Kilts.

 

A Gaffe assistiu, num lugarejo muito típico - o que por vezes significa que guarda as botas do Demo e que ninguém lá que morar, mas que é maravilhoso pasmar de quando em vez com os seus costumes e com as suas tradições, a sua arquitectura, as suas ovelhas, as suas cabras, as suas particularidades, a sua falta de chuveiro e de net em condições -, a um torneio escocês.

 

Absolutamente colorido! Uma espécie de Benetton para adultos, muito adultos, muito adultos, quase bêbados, enfiados num estádio circular improvisado e repleto de bandeirinhas, brasões a esvoaçar, mastros garridos com cordas que sustentam as tendas de lona com formatos circenses, gaitas-de-foles por todo o lado a azucrinar os ouvidos de gente inocente - ninguém imagina a inferneira medonha que uma colecção de porcarias daquelas debaixo dos braços e sopradas, todas, ao mesmo tempo consegue fazer! Semelhante, apenas no encontro anual das corporações de bombos europeus em Pasmaceiras de Baixo. Deus meu! A Gaffe até ficou com o cabelo frisado e sentiu nela despontar a vontade pérfida de enfiar as gaitas nos olhos - em todos - dos donos e obrigá-los depois a bufar até aquele gaitedo gritar e zoar nos confins do Inferno.    

 

Os banquinhos, muito baixinhos e articulados, disponíveis para alapar rabos e olhos sem cansar os pés assemelhavam-se aos que as senhoras levam para Fátima para regalo traseiro, enquanto esperam de modo mais confortável a procissão das velas ou o adeus à Virgem – e nunca a comparação foi mais certeira, pois que trataremos de uma certas velas e de eventuais despedidas ao estado que desaparece num pestanejar de lenços. Uns minúsculos quadradinhos de pano seguros por quatro pernitas que se podem dobrar, permitindo um transporte fácil e muito leve.

A Gaffe escolheu o de lona azul, abriu-o e sentou-se. Ficou tareca, marreca e tão longe da elegância como um cão que se prepara para obrigar a dono a usar um saquinho de plástico, mas resistiu estoicamente quando ouviu a mana a prevenir:

- Se te sentares aí, vais ter de fazer muito esforço para conter o entusiasmo …

 

Entraram os clãs identificados pelas cores dos Kilts, ao som daquelas coisas sopradas e apertadas que, a Gaffe aposta, também afastam javalis e mataram pela certa os bichos com chifres que nos olham muito sérios com a cabeça colada nas paredes. Bandos de rapagões medonhos, brutais e brutos e bestiais. Manadas de músculos. Muralhas de pregas. Muros de pêlo ruivo por todo o lado e urros de ursos a fazer vibrar os banquinhos pequeninos e abismados onde trememos com o tremor de terra.

 

Os kilts a dardejar testosterona, trazem na frente, seguras por tiras de couro trabalhado, as pochetes - têm nome próprio, mas que se varreu logo ali no meio com o susto -, de trinco de metal, corpo de pele de corça ou potro e rabinhos de felpudos e fofinhos bichinhos mortos à paulada, prontas a impedir o mover do pano quando se erguem ventos mais ousados; os troncos vestidos por t-shirts que deformam de tão justas os brasões estampados e as botifarras duras e puras como toda a verdade, fazem com que a Gaffe se pense de repente esmagada pela rebelião de William Wallace.  

 

Separam-se os clãs.         

O segredo esconso dos kilts está em vias de ser revelado. Várias vezes ...  

 Os jogos vão começar!

 

A Gaffe vai num instantinho engolir um Whisky duplo para os descrever no próximo episódio.  

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A Gaffe faz um interregno

rabiscado pela Gaffe, em 28.07.17

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E é chegada a hora de declarar oficialmente o início das minhas férias.

Amanhã - porque segundo a minha irmã estou anémica, depauperada, esfarrapada e outros tantos piropos que não convém referir, pois que me reduzem bastante -, aterro num dos locais mais repousantes do planeta, longe do trepidar cosmopolita, das urbes demasiado povoadas, da poluição das multidões e perto do gado e das ervinhas e dos declives bucólicos e românticos e dos desfiladeiros sinistros e das paisagens ligeiramente soturnos e sinistras.

 

Tenho de descansar.

 

Estou proibida de tocar num teclado, de me asfixiar em luminosidades artificiais e de me aproximar de qualquer coisinha que suscite o mais leve apetite de estremecer ou de me entusiasmar.

 

A ameaça de pasmaceira paira sobre a minha cabeça onde até o cabelo - diz a minha irmã -, parece ter disparado na I Grande Guerra, porque a outra é mais moderna.

 

Em Agosto sinto-me sempre um caco.

 

A verdade é que vou ter mais de duas semanas para espairecer, refrescar, recarregar o meu tédio - tão útil quando me aflijo! -, e recuperar o meu cabelo e a minha cor.

 

Tentarei dar notícias da viagem, embora suspeite que não haverá grande coisa digna de registo, já que passarei despercebida tendo em conta que o lugarejo onde vou espreguiçar-me contém a maior percentagem de ruivos do país.

Uma maçada sem distracção ou entretenimento a não ser aqueles a que me dedicarei - pois com certeza -, quando o vento soprar com força nos kilts dos residentes.

 

Volto já.

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Gavetas:

A Gaffe terrorista

rabiscado pela Gaffe, em 26.07.17

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Toda irritada, a amiga da Gaffe – enquanto as duas vão mordiscando uma porcaria comprada pela Mélinha no café que agora vende pra fora munto barato, pernas cruzadas e sapato a dar-a-dar -, dá conta da aversão que tem aos homens peludos quando por elas passa num doce balanço a caminho do bar, um macho alpha, gingão e marialva, de calções de sarja e t-shirt cava por onde se avista a Amazónia. Negra Amazónia de mistérios densos.

 

- Aquilo tem bichos dentro e a gente não sabe – avisa muito preocupada.

 

A Gaffe não pode solidarizar-se. Nunca apreciou homens que se depilam até à total humilhação do Ken e não entende o actual culto masculino por esteticistas fanáticas, psicopatas e radicais.

 

- Tens de concordar comigo que não é agradável andar à procura do homem no meio daquela mata, correndo o risco de sermos engolidas - pausa meditativa e acrescenta perplexa - lembro-me sempre de areias movediças, nunca soube porquê.

 

A Gaffe tem de concordar num pequeno pormenor. Um homem que decide não se depilar, tem de ter particular cuidado com as suas zonas menos públicas e mais púbicas. É evidente que a piloca não pode parecer, nos seus momentos mais entusiasmados, o Pinóquio que se juntou aos Talibãs.  

 

Imagem - Giovanni Paolo Cavagna

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Gavetas:

A Gaffe quase de férias

rabiscado pela Gaffe, em 26.07.17

M.S.

 

Aproximam-se as minhas férias. Três dias mais e parto.

É assombrosa a quantidade de trabalho que tenho de deixar em ordem. Planear a minha ausência deixa-me nervosa, porque não sei entregar tudo o que é da minha responsabilidade à pobre criatura que me vai substituir.

 

Não sei para onde vou e suspeito que não sei se não vou por aí.  

Os planos de férias foram entregues à minha irmã que sempre cuidou dos pormenores com a minúcia dos obcecados. Saberei o destino apenas no instante de partida.

 

Não tem a mínima importância. É-me indiferente o local para onde me levam. Estou demasiado cansada para implicar com destinos e revoltar-me contra o destino. Aceito pacificamente os traçados de viagem e as inevitáveis exigências da mulher que é capaz de alterar o dispositivo de funcionamento do serviço de quartos de um hotel apenas porque não lhe agradou a forma como lhe foi servido o pequeno-almoço.

Enfurecia-me, há alguns anos, a prepotência quase infantil com que esta criatura se movia e fazia com que os outros se movessem. Irritava-me a sua forma de se sentir em casa, fosse onde fosse, e o modo como agia em consonância, alfinetando ordens, apontando direcções ou aguilhoando críticas com ácido. Invejava a capacidade de se manter ilesa a todas as variações do tempo, como se fosse transportada numa redoma invisível capaz de tornar constante uma determinada temperatura. Temia as suas reacções soberbas, as farpas subtis e as queimaduras infligidas aos incautos que se atreviam a tocar a superfície das escolhas desta mulher, contrariando, levemente, os seus desígnios ou as suas mais incipientes decisões.

 

Agora não.

 

Adapto-me. Talvez tenha aprendido a ser indiferente. Já não me agoniza de vergonha a forma quase desumana com que esta mulher vislumbra o mundo. Já não me choca o facto de parecer que os outros - todos - são para ela elos de um colar que vai crescendo e que é relaxante enrolar nos dedos.   

O meu cansaço atenua a minha culpa. Acomodo-me e entorpeço. Narcotizo a necessidade que sentia de voltar para trás e abraçar as vítimas. Compensar de qualquer modo os danos que foram causados. Anular as distâncias.

Já não quero saber e sinto-me calma. Destrutivamente calma, como se tivesse perdido um órgão e percebesse que não há dor, que não era vital, que sem ele sobrevivo embora mutilada.  

Desisti. Creio que desisti. Sei que por indução, por errada conclusão de similitude, não me vão tocar estranhos e que os mais próximos vão descobrindo que pode ser letal sobrevoar rasando as garras que se estendem ao sopro mais subtil.

A sugestão funciona.

 

Não sei por onde vou e não sei sequer se não vou por aí.

Sei apenas que seja onde for, é mais fácil viver quando ao nosso lado está deitado um tigre.

 

Foto - Melvin Sokolsky (1933)

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A Gaffe vigiada

rabiscado pela Gaffe, em 20.07.17

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Após um processo complexo de negociações - e ligeiramente ronaldesco -, a minha sobrinha foi afastada do frio nórdico onde se aquecia ao colo da mãe e entregue à atmosfera gelada da minha irmã que se tornou sua tutora, reservando ao meu irmão, pai da criança, o papel de vigilante, supervisor e garante do cumprimento das normas estabelecidas pela tutela que durante as suas prolongadas ausências não confia nem nos peluches que a criança escolhe.

 

A adaptação da menina à sua nova forma de viver foi rápida. Depressa se moldou à figura que a domina, adquirindo, por mimetismo, a capacidade de vergar, de manipular e de, tantas vezes, chantagear aqueles que a mimam sem autorização, como se o seu afastamento da origem e a aproximação ao poder lhe tenham dado a prerrogativa de desobedecer soberanamente.

 

É de uma beleza encantatória, mas talvez demasiado silenciosa e excessivamente controlada, como se bastasse surgir, tocando com os dedos no tampo dos móveis, arrastando a luz que vem com ela de um exterior menos soturno, para que todos os olhares tombem na teia com que vai urdindo os dias sem brincar.

 

Admito que a ligação que tenho com esta criança é de quase receio, de quase arrepio. Não que a pense sinistra ou saída de um sonho mais ínvio ou mais funesto – tão longe disso! -, mas porque acabo sempre cativa dos seus divagares mudos, dos seus gestos lentos e da sua aparente fragilidade, contrariada pelo modo quase áspero com que lida com os poucos amigos que a idolatram.

 

Há dias, ao jantar, a menina ficou muito quieta, a sorrir, de olhos fixos no espaldar de uma cadeira longe da mesa.

Perguntaram a razão do pasmo e do sorriso pateta.

- Está ali o Zé Luís, sentado. Estou a olhar para ele.

Ninguém se alterou. Ninguém se virou para conhecer o Zé Luís. Os talheres moveram-se com a lentidão e a indiferença habituais. Apenas eu fiquei atónita.

- E o que está a fazer o Zé Luis, sentado ali na cadeira? – arrisquei, mesmo sabendo que podia ser trucidada ao cometer o erro de me imiscuir e perturbar a serenidade do jantar atribuindo atenção a um devaneio de uma criança demasiado imaginativa.

- Está a vigiar-vos.

 

Confesso que me perturbou.

A resposta saiu convicta e eivada da tranquilidade que provém do hábito e foi essa insinuação de certeza, que é consequência daquilo que se tornou rotineiro e mais banal, que fez vibrar o que devia permanecer gelado nos olhos da minha irmã.

- Os teus amigos imaginários podem sentar-se onde quiserem, mas não podes trazer esse para dentro de casa. Estás proibida de brincar com gente mal-educada.

Saiu depois. Interrompeu o jantar.

 

A criança ficou quieta.

Tentei sorrir. Pousei a mão na cabeça da menina e comovi-me.

A infelicidade daquela criança era chocante, e porque a infelicidade em demasia quando infligida a uma criança, impede-a de conhecer a fronteira entre o amor e o desamor, avistei-lhe dentro dos olhos o glaciar que se formava lentamente.

Percebi então que aquela menina vai sem dúvida cumprir o estipulado. Crescer em demasia. Desmesuradamente só. Sem ter quem a vigie.

 

- Podes brincar comigo e com o teu amigo no meu quarto. Fica um segredo nosso.   

 

Foto - Vivian Maier

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A Gaffe trendy

rabiscado pela Gaffe, em 19.07.17

André Ventura

is the new black

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A Gaffe no Mali

rabiscado pela Gaffe, em 19.07.17

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É curioso verificar que o único filme que aqui sugeri, referenciando-o como de interesse significativo, tenha sido um da realizadora libanesa Nadine Labaki, e que, neste momento, encontre num realizador da Mauritânia uma idêntica importância.

 

Ao contrário do primeiro - E Agora, Onde Vamos? -,Timbuktu não permite sorrisos, embora, e de um modo estranho, acabe por nos confrontar com realidades similares que se confinam ao esmagamento de toda a liberdade por força de opressões que se ligam alegadamente aos deuses.

É curioso também como as duas abordagens a este facto podem ser ao mesmo tempo díspares e convergentes, acabando, as duas, por revelar como é ínvia a existência de formas opostas de se sentir a mesma divindade e como essa alternância pode significar destruição de uma destas visões.

 

Do realizador Abderrahmane Sissako, o filme é uma belíssima longa-metragem que se torna imperdoável não ver.

 

Tem Timbuktu, Património Mundial da UNESCO desde 1968, no Mali, como uma das personagens mais marcantes e é o deserto que constrói a coloração do filme, apenas rasgada pela terra ocre e queimada, saturada e tantas vezes luminosa, dos tecidos e dos adornos das mulheres.

 

Em 2012, a cidade é ocupada por um grupo islâmico fundamentalista liderado por Iyad Ag Ghaly.

 

Timbuktu é invadida por leis, por medos, por proibições, pela desumanidade que trespassa a vida de cada um dos seus habitantes, tragicamente, dolorosamente, comoventemente.

É nesta construção opaca e implacável de inibições e de desmandos, de opressão, de repressão, de crueldade insana e irracional, de desmantelamento da arte de sonhar, que se inclui a proibição da música, da dança, do riso, do canto e da visão dos corpos, dos rostos e das mãos. É nesta brutalidade que esfacela à força a vida de Timbuktu, que, por entre este massacre, se vai erguendo a extraordinária floração daquilo que foi interdito.

 

A mulher que estoura em canto enquanto é chicoteada por ser apanhada a cantar.

A outra que prefere a morte a amanhar o peixe com as mãos vestidas.

O jihadista que se transforma em pássaro, dançando às escondidas, porque foi bailarino.

O jogo de futebol que é jogado sem bola, ou com a bola que inventamos quando há esconderijos de sonho por demolir.

 

Ao lado, ou mesmo em cima de nós, uma banda sonora magnífica, dolorosa, desértica, ou então impulsiva, quente, colorida e feliz, tantas vezes interrompida, emudecida, pois que é proibida toda a melodia.

 

Timbuktu é sem sombra de dúvida - como poderia, se sol a pique invade aquele povo? - um filme fabuloso.

 

Acaba por nos fazer sentir gazelas. 

 

 

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A Gaffe a cavalo

rabiscado pela Gaffe, em 18.07.17

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Despedi-me hoje de manhã muito cedo do rapagão.

Partiu para Manaus numa visita que demorará três semanas que lhe proporcionarão um mais aprofundado conhecimento não sei exactamente do quê, mas que me pareceu entusiasmante, pelo nervosinho demonstrado pelo homenzarrão.  

 

Tendo em conta que chegar a Manaus, partir depois para o Parque Nacional de Jau e passado algum tempo seguir para o Parque Nacional da Neblina, lhe arranca mais do que oito dias de viagens, o homem não vai ter grande tempo para andar atrás do gado, embora - pelo sim, pelo não -, o tenha ameaçado com todas as sevícias que encontrei - mais as desviantes e anómalas que Gentil Martins referiu - caso o rapagão ceda ao fascínio das vacas que por lá mugem e se ponha a cavalgar em lombo alheio.

 

Insistiu muito na minha companhia, mas só a perspectiva de me ver a evaporar ou coberta de lume tropical; no meio de caminhos repletos de bichos estranhos e rastejantes que nos picam imenso e têm dentes maiores que a cabeça; envenenada por uma serpente ou ali morta por um jacaré – que nem sequer é Lacoste; aos solavancos por trilhos estreitos, cheios de ervas do tamanho de embondeiros; com as mamocas a desintegrar-se com o calor e sem poder voltar para casa no primeiro avião que aterrar na selva, foi desmotivadora. Não quis ir.

 

Suspeito que foi apenas para se vingar do meu abandono que, pronto para subir para a sela do avião e rumar ao pôr-do-sol Amazónico, me disse com um ar muito descontraído, como quem não liga à coisa, que quer visitar a região onde os homens tratam das manadas de gado - bichos de grande porte, quase mamutes -, completamente nus ou apenas com uma tira de tecido a embrulhar - mal - as zonas mais expostas às crinas dos cavalos.

 

Fiquei perplexa.

Espero sinceramente que o homem não tente a façanha, porque com o galope do cavalo e a piloca a dar-a-dar ainda volta para casa com o nariz partido.

 

O certo é que o rapagão é de uma lisura, de um rigor e de uma correcção exasperantes quando se trata da verdade, mas a nudez daqueles cowboys deixou-me confundida.

Então há um recanto neste planeta onde os tipos andam todos suados, todos musculados, todos morenos, todos tisnados, todos másculos, todo, todos, todos, todos a abarrotar de adrenalina e de testosterona, atrás das vacas, de pila ao léu, a dar-a-dar no cavalo?! Nunca tinha ouvido, lido ou sido informada acerca o assunto!

 

Não acredito.

Mentiroso!

 

A verdade é que me arrependi, logo ali, mal o maldito levantou voo, de não ter ido com ele.

 

Alguém sabe onde fica esta porcaria?

É que uma rapariga como deve ser tem o dever de acompanhar o seu homem, dê por onde der e seja para onde for, e sobretudo tem a obrigação moral de impor alguns princípios civilizacionais à barbárie e de vistoriar a fardamenta dos profissionais em nome da segurança e da alegria no trabalho.

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A Gaffe de múltipla escolha

rabiscado pela Gaffe, em 17.07.17

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A Gaffe sugere que se escolha uma das hipóteses que se fornecem, identificando cabalmente a personagem fotografada:

 

a) O estilista do DAESH fartinho das cores pastel, tudo muito terra queimada, tudo muita areia, tudo muito ar poeira, a anunciar as cores Primavera/Verão 2018;

 

b) Um suicida do DAESH. Terrorista, mas com muito bom coração, que não quer magoar muita gente, apesar de desejar muito o forrobodó com uma data de virgens;

 

c) A Cristina Ferreira no território do Estado Islâmico, disfarçada para não levar um tiro logo ali, a publicitar a sua revista;

 

d) Gentil Martins a provar que não é nada preconceituoso, homofóbico e fundamentalista e que foram as pessoas mal formadas, imorais e perigosas – sobretudo dois gays, três lésbicas e a D. Dolores - que interpretaram mal as suas palavras.

 

À resposta mais próxima da correcta é oferecida uma assinatura da GAFFE Magazine.

Um mimo.  

 

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A Gaffe editora

rabiscado pela Gaffe, em 17.07.17

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A Gaffe decide-se pela edição e torna-se detentora de uma revista cujo primeiro número aparece neste exacto momento e em primeiríssima mão.

 

A capa é em inglês apenas por duas razões:

 - A necessidade de a internacionalizar a muito curto prazo;

- O facto de ser parolo. Todos sabemos que neste recanto à beira-mar plantado o parolo vende que é um disparate - que o diga, por exemplo, Miguel Araújo que de acordo com Fátima Campos Ferreira passa a vida a cantar em inglês.

 

A Gaffe encontrou sérias dificuldades na escolha do tema de abertura a destacar na produção da capa. O ideal seria aproveitar um assunto disponível, fácil, logo ali à mão, capaz de criar controvérsia, originar discussões monumentais e todas imbecis nas redes sociais, com insultos execráveis logo ao lado de dissertações patéticas acerca do focado.  

 

Chegou a pensar na fotografia de Gentil Martins com uma pequena transcrição das suas opiniões, eivadas de preconceitos, acerca dos homossexuais - opiniões esbardalhadas em ambiente oficial e não no aconchego do lar em amena cavaqueira com um amigalhaço -, mas este querido e admirável cirurgião, que não tem lido muito a documentação oriunda da OMS - DSM e CID-10 é que nem cheiro -que lhe é entregue, já nem uma vedeta americana reconhece nos passeios por Lisboa. Pertence ao início da era pré-Madonna em que, como se sabe, a comunidade gay se confinava ao armário dos medicamentos e não saía muito, nem abundava nas Semanas de Moda e na Moda Lisboa.

Apesar de se poder tornar numa capa jeitosa, não renderia o ambicionado.

 

A verdade é que não é de todo imediato encontrar livre um nicho susceptível de ser aproveitado para gerar dividendos e nos pagar as férias na Grécia – Antiga o mais possível, que é na Antiguidade que há muita Mykonos à solta - e em simultâneo capaz de nos catapultar para o palanque das heroínas que empunham as bandeiras de causas esmagadas pelas opressões sociais e de nos entronizar como defensoras de determinados grupos ou específicas minorias. A revista CRISTINA açambarcou esta vertente, aproveitando dois homens que se beijam e duas mulheres nos mesmos preparos, para esbardalhar na capa como se fossem surpresas. É evidente que a Gaffe ficou sem hipóteses imediatas de ganhar uns valentes trocados e ser santificada ao mesmo tempo.

 

Pelo sim, pelo não, decide manter as âncoras no mesmo oceano e abordar o tema tão adverso a Gentil Martins, mas com uma pitada de suspense, que não fica mal, e uma ou duas insinuação de cariz mais intelectual que vão despertar a curiosidade aos eventuais compradores mais cerebrais. Depois, meus caros, o tema desta forma abordado e aproveitado é bem capaz de transformar a Gaffe em ícone das minorias e em simultâneo aumentar-lhe significativamente a conta bancária.

 

A revista não tem conteúdo. Não tem nada dentro. Só tem a capa. A Gaffe garante que esse o único ponto comum entre a GAFFE Magazine e a revista CRISTINA.  

 

As assinaturas estão ao vosso dispor.

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A Gaffe arrasada

rabiscado pela Gaffe, em 16.07.17

Notícia de rodapé.

 

A pátria de um porco é em toda a parte onde haja bolota. - F. Fénelon

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