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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a apanhar pedra

rabiscado pela Gaffe, em 09.05.17

Os rapazes possuem uma aptidão muito peculiar que me deixa perplexa e me faz repensar as razões da nossa permanência neste mundo pobre e pouco digno de respeito.

Acaba por se tornar uma característica e, em maior ou menor grau, é detectável em todos.

 

Resume-se à extraordinária capacidade de mostrarem ao mundo - e sobretudo à parte ocupada por mulheres -, como são maravilhosos a tentar fazer o que não sabem.

 

Esta tendência é proporcional à sua ineficiência. Quanto mais totós, mais capazes se sentem de realizar o que se transforma num palácio para os bois mirarem. Quando os factos os contradizem, escapam à realidade crua e nua, convencidos que apenas apanharam pedra.

 

O meu irmão, por exemplo, digníssimo representante da espécie, afiança que é capaz de pregar um prego com uma facilidade descontraída e humilhante.

As paredes estão cravadas de buracos que representam todas as tentativas de martelar um inocente ferrito que como por encanto costuma saltar disparado ao primeiro embate. No segundo o prego entorta, no terceiro o prego desaparece no ar, como um OVNI depois de ter avistado o Terço de Joana Vasconcelos.

 

- Apanhei pedra.

 

O homem apanha pedra sempre que tenta espetar a porcaria de um prego na manteiga! Suponho que esta evidência seria de vital utilidade se o pobre um dia se enfiasse em areias movediças. Caso tivesse à cinta um martelo e no bolso um prego, apanhava pedra. Salvava-se.

 

Em decoração não resulta.  

 

Os rapazes permanecem, conscientes ou não, convencidos que a genética lhes forneceu as aptidões dos grandes machos e que nós, recolectoras de corpinho frágil, estamos aptas apenas a realizar tarefas a que elas atribuem um ficheiro feminino.   

O resultado pode ser catastrófico, não só para a decoração, mas também para a imagem que deles temos e que benevolamente vamos mantendo com algum esforço.

 

Seria muito mais proveitoso assumir que são uma perfeita nulidade a trocar um pneu, a dominar uma prancha de surf, a arrastar móveis sem colapsar imóveis, a instalar um circuito eléctrico, a reparar o portão da garagem, ou, no mínimo, a provocar-nos um orgasmo, admitindo em contrapartida que são exímios a tricotar pegas de cozinha, ou a construir arranjos florais mirabolantes.

 

Não!

 

Preferem que assistamos ao descalabro que é ver a sua masculinidade, pura e dura, a exibir-se lampeira e toda competente rumo a um ocaso pousado nas ondas das nazarés desta vida para logo depois sermos obrigadas a cristãmente caminhar sobre as águas para os repescar e ouvir dizer logo a seguir, a abanar a negra madeixa ao vento, que apanharam pedra.

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Uma proposta de discussão feminista a não deixar escapar.

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A Gaffe a "Amar Pelo Dois"

rabiscado pela Gaffe, em 08.05.17

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A véspera dos acontecimentos é a derradeira oportunidade que temos de falar deles correndo o risco de nos enganarmos.

 

Neste pressuposto, mas sabendo que não haverá engano posterior, chegou o momento de falar de Salvador Sobral.

 

Li e ouvi elogios rasgados à canção – incluída na área do Jazz-pop, segundo os especialistas - que irá representar Portugal no festival da Eurovisão, ao mesmo tempo que ouvia e lia imensas patetices maldosas que incluíam a condenação da letra por se revelar apologista da anulação, por amor, de alguém a favor de outro alguém e de certa forma publicitar este revoltante estado ou predisposição. É inútil fazer com que estes exigentes críticos reconheçam que o Fado ficaria sem uma fatia substancial do seu repertório se abolíssemos todas as estrofes que assumem a escolha desta desistência em favor do outro, ou com que ouçam uma das mais extraordinárias canções de amor jamais escritas, porque suspeito que o …

 

Laisse-moi devenir 
L'ombre de ton ombre 
L'ombre de ta main 
L'ombre de ton chien 
mais, ne me quitte pas.

 … Seria retirado do poema por apelar à bestialidade.

 

É uma argumentação paupérrima, parola e medíocre e não pode ser tida em consideração.

 

Ao lado, mesmo ao lado, está a censura à forma com que Salvador Sobral se coloca em palco e interpreta a canção, aliada a uma revoltada denúncia de sobrevalorização da sua voz.

Concordamos todos. Salvador Sobral não é Ricky Martin. Felizmente.

 

Seria muitíssimo proveitoso rever o concerto de Salvador Sobral transmitido pela RTP1 no passado Sábado, porque ali descobrimos a inutilidade de todos estes beliscões daninhos.

 

Seria muitíssimo interessante que neste exacto concerto ouvíssemos a versão de Nem Eu de Dorival Caymmi, porque é nesta reinterpretação que Salvador Sobral prova uma extraordinária sensibilidade, mesclada com um humor requintadíssimo, entregue em diálogo inteligente e sapiente com o piano que reconhece a dádiva total do intérprete a cada palavra dita - e sentida - sem equacionar qualquer manuseio mais consentâneo com o bambolear de ancas de Ricky Martin e atingindo com uma facilidade deslumbrante as notas mais agudas, sem sequer danificar por breves segundos a suavidade e o veludo da voz.

 

Salvador Sobral é ele todo inconfundível. Nada de tonto se sobrepõe a sua capacidade vocal e interpretativa.

 

No eterno festival de gritedo desalmado, de ruído de coxas e de plumas a voar em crises epilépticas, defendendo uma canção que dignifica aquele lantejoular repetitivo, finalmente actuará um cantor de excepção.  

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A Gaffe solitária

rabiscado pela Gaffe, em 08.05.17

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A Gaffe hoje conversa com o Sr. Solitário que teve a gentileza de se lembrar desta rapariga que usou durante todo o tempo óculos escuros, não se desse o caso dos seus olhos desatarem a falar em demasia.

 

Convém bisbilhotar.

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A Gaffe ecuménica

rabiscado pela Gaffe, em 05.05.17

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Por serem cada vez mais raras as ocasiões em que nos encontramos em simultâneo num sítio e numa mesma hora, a minha irmã decidiu que os três manos deviam jantar juntos. Eram eliminados três bichos com uma paulada só, tendo em consideração que se acrescentava à reunião a vantagem de conhecermos a nova namorada do meu irmão e que era possível descartar, partilhando, a maçada de ter de aturar um colega japonês que colabora no actual projecto da anfitriã.

 

O restaurante foi marcado com a antecedência da praxe e, como seria previsível, fui a primeira a chegar.

 

O senhor da recepção, atrás do seu púlpito, sorriu com todos os botões do seu casaco preto abotoado e foi informado que havia sido feita uma reserva. Empalideceu, o sorriso ficou roxo e os olhos tombaram em queda livre no livrinho das reservas, soltos das órbitas, quando anunciei o nome que devia figurar na sua lista.

Carlos Fabián Villa.jpgTranquilizei-o:

- Sou apenas a irmã mais nova.

As cores regressaram e os olhos também.

Fui conduzida à mesa assinalada e sonhei por instantes fugir para devorar um cachorro quente - do tipo Grand Danois - que tinha visto fabricar na barraquinha da esquina, antes de fazer de conta que me deliciava com os beliscões culinários do Grand Chef de revista.

 

O sonho durou pouco porque o meu irmão entrou logo a seguir.

 

É incompreensível a atracção - que se tem revelado fatal - que o maninho sente por nórdicas! Ao lado, um felino loiro e alto, uma espécie de Twiggy misturada com Kim Novak, arrastava, no trocar de pés de manequim, um gelo de fiordes que condizia com o azul frígido dos olhos de iceberg. Uma mulher lindíssima, logo estúpida - em relação a estes assuntos, gosto muito de respeitar os preconceitos e a sabedoria ancestral -, que se sentou depois de me mostrar uns dentes tão perfeitos que fazem com que nos apeteça bater-lhes com o cabo da faca e de sacudir o cabelo liso, brilhante e tão sedoso que por instantes me vi nele reflectida.

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Lykke Svenssonolofssonbengtsson - ou coisa que o valha. Não vale a pena fixar, pelas razões que se adivinham.

 

Antes de trabalhar a amabilidade, amaldiçoei a hora que penei à procura de um vestidinho em condições, porque deparo com os velhos jeans do meu irmão tão apertados que quando os tentar despir arranca a pele e - livre-nos Deus - também a pila que, salta à vista, não tem ar nenhum ali fechada.

 

Desatam a falar alemão - a lambisgóia vive em Berlim desde os dois meses, informa o mano que corre o risco de perfurar os olhos cravados nos mamilos que enfeitam as bolas rígidas de cidade onde a dona vive sem soutien.   

Que sim, que já tinha identificado a língua e que sim, que não entendo, mas que não me importo.

 

A minha irmã, mais uma vez sebastianista, com um atraso gigantesco que se justifica apenas com a possibilidade de ter estado a sacudir das cuecas a areia do deserto onde se perdeu com o Desejado, faz finalmente a sua entrada fulgurante.

Atrás de uma grande mulher está sempre um homem, diz o povo, que o povo diz coisas. Não vejo o mocetão, porque é japonês e portanto - é mais que certo - pequenino e porque quero provocar uma brisa de indiferença soberba e sofisticada, abrindo a clutch, a pochette, a carteirinha, a porcaria da maleta anã, fazendo de conta que estou distraída à procura do Camões. A porcaria da anã é da minha mãe e encontro dentro duas aspirinas, um Ben-u-ron e a subliminar prova que sou filha dela escrita num papelinho muito dobradinho:

 

Não perguntar B(…) pelo marido. Morreu - três anos.

A L(…) cunhada M(…). Não referir P(…) - amante duas.  

Comprar Ben-u-ron.   

 

O casal chega por fim à mesa e com o meu melhor Greta Garbo enfastiada ...

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...  ergo a cabeça esperando cruzar os olhos com os do japonês que segundo os meus cálculos devem estar ao mesmo nível que os meus, que estou sentada - o homem supostamente é pequenito - e apanho com a braguinha do sujeito a rir-se para mim.  

 

O homem é altíssimo!

 

Deve ser o único japonês à superfície do planeta que a minha irmã cumprimentou sem se ter de baixar primeiro.

 

Fico com os olhos cravados na pila nipónica até a minha irmã a fazer sentar à minha frente e depois de os ter, para disfarçar, espetado nos mamilos da sueca sem antes ter arrancado dali os do meu irmão.

 

E la Nave Va, fellinianamente.  

 

A girafa loira fala alemão para o namorado que lhe responde para as maminhas em inglês, para percebemos. A minha irmã fala francês para o gigante asiático que lhe responde numa língua estranha que não consigo identificar. Traduzem tudo para português, só para criar ambiente – manos amorosos!

 

Acabei por tomar as aspirinas e - pelo sim, pelo não -, engoli também o Ben-u-ron.

 

Isto de se ser ecuménico só lá vai com o Papa.    

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A Gaffe irreconhecível

rabiscado pela Gaffe, em 03.05.17

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Deram-se por concluídas, depois de vários meses de penar, as obras no meu apartamento num dos mais interessantes arrondissements parisienses. Foi necessário esperar vistorias, inspecções e aprovações camarárias e de várias outras entidades que pesaram no tempo como chumbo, foi obrigatório obedecer a regras que determinavam a espessura das paredes, autorizavam o derrube de outras tantas, especificavam o traçado das condutas, proibiam adulterações na fachada, indicavam indispensáveis normas energéticas, isolamentos térmicos e acústicos e demasiadas outras coisas que arrastaram durante meses a finalização da obra.

 

As alterações - que foram profundas - estão assinadas pela minha irmã o que justificou o meu total alheamento ao desenrolar da metamorfose. O traço do génio não requer palpites dos que sem talento se apressam a duvidar do que se já se ergueu na perfeição. A mosca no topo do bolo.

 

Está pronto a habitar. Espera a locatária que decidiu utilizar estes dias para o percorrer.

 

O espaço está irreconhecível.

 

Há paredes que desapareceram, quartos que se uniram duplicando a luz doirada que jorra das janelas longas e largas protegidas apenas por portadas de madeira, soalhos afagados que contrastam com o branco pérola erguido num soberbo pé direito e tectos recuperados que tocam o barroco e nos deixam pasmados por os termos ignorado tanto tempo. Há novas e inúmeras entradas de luz, novas esquinas, novos recantos. Há uma parede inteira coberta por estantes destinadas a acolher parte do que me foi entregue. Há a geometria do rigor minimalista dos parcos móveis escolhidos com um critério agudizado pelo conhecer vastíssimo da seleccionadora, misturados com os que chegaram de casa dos meus avós e que adquirem aqui a majestade que era atenuada pelos companheiros de outrora.  

   

(E há duas telas de Denis Sarazhin, uma das minhas grandes e mais obsessivas paixões.)  

 

É sem dúvida um espaço extraordinário.

 

Há no entanto a marca indelével da autora que defende, desde o tempo do início, o conceito de arquitectura do inquieto.

Não a podemos ler de modo literal. Não é uma inquietação que se constrói na angústia ou no desconforto que magoa e que nos torna ansiosos. Não é uma inquietação proveniente da falha que urge colmatar ou um sentir desenraizado que nos impele à procura ou à fuga. É um desassossego subtil que nos invade, que extravasa do desenho das paredes; da forma como se encaixam umas nas outras em surpreendentes ângulos; do modo como a luz é dominada por planos que a interceptam; da posição e localização dos móveis; da geometria desconstruída que permanece incólume mesmo assim; do despojamento inicial do espaço que é ao mesmo tempo invadido por memórias complexas e ocupado por objectos pesados que paradoxalmente acentuam um minimalismo cuidado e inteligente; de uma espécie de harmonia disfuncional que nos provoca alguma perplexidade e nos faz permanecer no seu interior, impelindo-nos a sair ao mesmo tempo. Impede a passividade.         

 

Esta arquitectura do inquieto transforma o construído num organismo vivo, impulsionador de movimento, capaz de interagir com o ocupante, deixando-se dominar por ele, dominando-o. Não é nosso. Não somos dele. Coabitamos. Uma simbiose constantemente renovada.

 

Não é possível descrever com maior nitidez o conceito defendido. Fico sempre aquém da sua autora que se ilumina quando nele toca, mas sinto que este espaço que vi deslumbrada e que me entrega a condição de flâneuse, talvez seja aquele que a minha irmã desejou para ela. 

 

Esta sensação traduz o meu mais profundo agradecimento. Não é fácil ceder, mesmo por amor, o que em nós, cá dentro, nos inquieta a vida.   

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Gavetas:

A Gaffe anelar

rabiscado pela Gaffe, em 28.04.17

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Acredito que os usos e costumes ancestrais, os rituais sem memória dos começos, os cultos, as tradições, os ritos e as cerimónias, quando circunscritas a um grupo específico colocado no interior de um outro de largo espectro e de vasta abrangência, fornecem, ao grupo minoritário, uma coesão inusual, solidificam a sensação de pertença, colmatam ou atenuam de modo que me transcende a ausência de um dos seus membros, fomentam a solidariedade entre pares, atenuam a sensação de desenraizamento que assola os mais isolados e criam identificações essenciais ao crescimento de cada um dos indivíduos.

 

Por acreditar piamente nestes seus factores preventivos, curativos e catárticos, cumpro sem qualquer indecisão, todos os rituais, todos os ritos e cerimónias, obedeço a todos os usos e a todos os costumes que se foram solidificando através do tempo e que a mim chegam inalterados e sei, num saber sem experiência feito, que o equilíbrio do universo - do meu universo -, deles depende.     

 

Esta minha gente tem no acervo da memória gestos antigos que traduzem de forma ritualizada - muitas vezes sacralizada e tantas vezes demasiado orgulhosa - a importância vital de pertença e a noção de raiz, essencial quer à construção do presente, quer à do futuro. Por norma, esta memória é encarnada num objecto, ou num conjunto de procedimentos, atitudes, comportamentos ou inevitabilidades - porventura anacrónicos - construídos pelo tempo da ilógica, que se vão repetindo depois de aprendidos de modo inconsciente, ou por imitação.  

 

No conjunto dos objectos cujo capital simbólico é incomensurável, existe um anel.  

Um grosso, pesado e grande aro de ouro limpo, boleado como uma aliança sem a ser, porque adelgaça e estreita no correr da curvatura para que não seja perdida a ergonomia.   

 

Não é, de modo algum, um símbolo de poder, embora seja doado a quem o tem por direito. É a união de várias uniões.

Pertence naturalmente à matriarca que o usa ao lado da aliança matrimonial.

Usa-o até à morte.

Findo o seu tempo, o anel e a aliança onde está gravado o nome do consorte, são retirados e entregues a um velho ourives de Gondomar - ou ao filho, ao neto, ao bisneto, ou ao neto do bisneto - que os fundem numa perplexidade sempre renovada, para produzir no mesmo molde uma peça em tudo igual à destruída, mas que tem dentro agora a aliança com um nome masculino no interior. O anel não atinge dimensões incomportáveis, porque é dele retirada a mesma proporção de ouro que lhe foi acrescentada, produzindo-se com ela uma gota de um colar.

 

Este proceder honra os homens que pertenceram à história da minha família, torna inolvidáveis as uniões havidas e representa, não o poder absoluto da matriarca, mas de certa forma as emoções contidas no passado, o amor que trespassou uma família inteira e o seu capital simbólico é desmesurado.     

 

Pertencia, como não podia deixar de ser, à minha irmã.

Ofereceu-mo no dia do meu aniversário com uma dedicatória manuscrita à pressa:

 

Porque tu és a guardiã das emoções.

 

No meu anelar direito trago agora o peso de vários corações.

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Gavetas:

A Gaffe num futuro composto

rabiscado pela Gaffe, em 26.04.17

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Depois de ter verificado, nos instantes anteriores à piscadela de olho de José Rodrigues dos Santos, se estou compostinha, com um pijama inócuo, de perninhas fechadas e botão apertadito, sem qualquer expressão que permita supor intenções mais marotas e ter confirmado que não estava prostrada no sofá numa pose susceptível de despertar a libido do cavalheiro ou parecer que no fim do telejornal nos encontramos para ardentes trocas de informações de carácter mais manual, deparo-me com uma certeza que me deixa perplexa.

 

A comunicação social vai procedendo à substituição do alegadamente pelo uso do futuro composto, abolindo o presente, o passado, ou mesmo o imperfeito, dos tempos verbais que se esperam numa notícia dada depois de confirmada até à exaustão.

 

A baleia que terá dado à costa e que vemos esbardalhada no areal, poderá não ser a baleia que terá dado à costa, mas poderá dar-se o caso de ser o senhor deputado Carlos Abreu Amorim que terá decidido passar uns dias na praia. O assassino ensanguentado, com a cabeça da vítima debaixo do braço e a reivindicar a autoria do crime como um desalmado do Daesh, poderá ter sido o mesmo que a Patrícia Vanessa terá filmado a esquartejar o cadáver - que terá sido morto antes de ser supostamente cadáver -, alegadamente com o telemóvel, da suposta varanda que terá vista privilegiada para o ocorrido. O senhor com o equipamento que poderá estar em uso na GNR - chama-se especial atenção para o modo como a farda lhe assenta lindamente -, banhado em lágrimas a jurar que o carro esfrangalhado que ali está foi o que se estampou contra um poste - num alegado acidente que poderá ter causado uma vítima supostamente sem gravidade que pode ter sido levada para o Hospital -, poderá ser a Princesa Diana que terá muita experiência nestas ocorrências.  

 

Esta feira de probabilidades entregues ao público que as consome sem apelo nem agravo, este arraial noticioso pejado de incertezas e de hesitações, comprovativo da incompetência - e do medinho do processo em cima -, dos jornalistas que escolhem o balancé do poderá ser assim, mas poderá ser que não, é transversal a toda a comunicação social e faz pairar sobre a cabeça do alegado profissional que oscila desta forma o halo dos inocentes sem compromisso assumido, sem certezas incontestáveis, isentando-o da responsabilidade e da obrigação de se confirmar o que é noticiado, revelando ao mundo que poderá ter estado ali, mas que poderá não ter estado. Nestes casos, é a mesma coisa.

 

Seguindo esta linha de prática jornalística tão em voga, decido ilustrar estes rabiscos com uma imagem que alegadamente não tem nada a ver com o que está escrito. Poderá ter sido por não ter encontrado outra melhor, poderá ser por supostamente ter havido um desencontro com a mais adequada e poderá ser que não, podendo ter sido por considerar que se piscar um olho no final deste fraseado, o que escrevo se torne confirmado.

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A Gaffe de Abril

rabiscado pela Gaffe, em 25.04.17

 

Às vezes, de tão cegos com o pó que se levanta pelo caminho, ficamos presos ao lugar de onde pensamos ter saído há muito tempo.

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A Gaffe incorrecta

rabiscado pela Gaffe, em 24.04.17

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- Tu não tens absolutamente nenhuma consciência social, nem vestígios da política!

 

A bala foi disparada pela boca armada em idiota de uma versão masculina da Ana Drago, mais volumosa, mais carnal e bem mais alta.

Discutia-se com resoluto calor a decisão de se erguer de novo uma outra guerra para parar uma guerra em trânsito e insurgia-se o povo, nas reunidas mesas do pequeno-almoço, contra o domínio pardo dos Senhores da Morte, matilha de Richelieu nos reposteiros do poder.

 

Embora tenha soado a mofo, muito portas-que-Abril-abriu, muito CGTP Intersindical, muito período azul de Picasso, o chavão disparado contra a Gaffe encontrou eco nos meandros e nos corredores da sua alma.

 

A Gaffe não tem Consciência Social.

 

Trinta segundos depois do início do debate tinha já deixado de ouvir e desviado a sua atenção para os peitorais do garboso interlocutor que, na sua frente, se adivinhavam na alvura da camisa e tinha dado início a especulações de carácter muito pouco político.

 

Concede. A indiferença da Gaffe é escandalosa.    

       

Norte e Sul, Israel e Palestina, Cristão e Muçulmano, África e América Latina, Putin e Trump, Le Pen e Macron, Ghandi e os Impérios, hemisférios tortos, subvertidos climas, extinções previstas, catástrofes erguidas no terror da cinza, furacões e ondas de miséria abjecta, canhões e cogumelos venenosos, sarampo e malária, Amazónia em ferida, favelas e cabanas transalpinas e mesmo as mais perigosas das antenas de telemóveis ou de senhores de fato, são coisas de somenos para ela. Não pensa nelas. Não lhe dilaceram o dormir.

 

Culpada! Refugo da humanidade em chaga! Pária! Escória!

 

Humilde e indiferente insecto renegado, oriental bichinho, apanha o lixo breve que à sua entrada tomba, limpa o umbral da sua dócil porta e vagarosamente cuida das roseiras.

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A Gaffe de preto

rabiscado pela Gaffe, em 24.04.17

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O preto - que como os peritos referem é a soma de todas as cores -, seduzindo existencialistas jamais deixou de fascinar os que não reconhecem Sartre.

 

As mulheres deixam no preto o rasto do perfume de uma intriga ou de um enigma. Os homens dão corpo a esse enigma e intrigantemente deixam num risco desse aroma a atracção que vem do perigo.

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Gavetas:

A Gaffe poeirenta

rabiscado pela Gaffe, em 21.04.17

A Gaffe poeirenta

 

Foi com Raul Brandão - tão arredado dos cânones literários! - que me apercebi da magnitude do mistério que um texto pode conter.

 

Lia A Morte do Palhaço e em cada página que era lida dava conta, quase sem disso ter consciência, das infinitas arquitecturas das palavras e deixei-me deslumbrar pelos edifícios que se formavam e erguiam incessantemente num jogo polissémico que se multiplicava por frases nunca lidas até ali.

 

Foi com Raul Brandão que entendi que talvez seja a consciência da mutabilidade da frase e da sua capacidade de se unir a outras num encadear eterno, como até ali nunca foi história, que me fez acreditar que não basta soletrar rabiscos, que não basta perceber o mecanismo da língua, que não chega termos a capacidade de colar um vocábulo à frente de um outro, para que um texto nos atordoe.

 

Não basta.

 

Acredito que reconhecer um escritor se faz nas catacumbas da alma, talvez muito antes da obra ser sujeita ao escrutínio do bisturi da análise literária.

 

É esmagador o poder do escriba capaz de - com palavras gastas e velhas como a morte -, construir paisagens originais, absolutamente desconhecidas pelos outros, nunca vistas, nunca lidas, nunca sentidas da forma que nos é oferecida como quem nos entrega a surpreendente simplicidade do movimento eterno, a espantosa floração do único.

 

Talvez seja isto que me faz acreditar que apenas o conhecimento profundíssimo dos livros nos faz perceber que não passamos, quase todos, de pequenos tontos, ingénuos, iludidos, a usar as mesmas pedrinhas de poeira, umas atrás das outras, tentando que os espaços minguados que ocupamos tenham chão. Usamos coisas velhas para acabar como partimos, envelhecidos e de mãos vazias, porque a poeira se esgueirou por entre os dedos.

 

Apenas os que usam o que velho o tempo foi fazendo, fazendo do que o tempo fez velhice o esplendoroso encontro com a surpresa, acabam a escrever.

São escritores.

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Gavetas:

A Gaffe da Duda

rabiscado pela Gaffe, em 20.04.17

2.jpgA vida, nos últimos dias, não tem considerado necessário parar de me surpreender.

 

Primeiro foi uma máquina que cozinha sem nos maçar e com muito pouca ou nenhuma interferência nossa, agora é um blog que descobri nas minhas parcas andanças por estes caminhos e que me deixou siderada.

 

O blog pertence - tudo indica e não encontro razões de peso para suspeitar o contrário - a uma menina que não parece ultrapassar os dez anos. A Eduarda é a mais jovem e mais recente fashion adviser do burgo e se abandonasse as poses que considera as melhores para uma aproximação às meninas mais crescidas e com mais maminhas, assumindo uma imagem mais criança-Benetton, estou segura que a Zara Kids encontraria matéria suficiente para equacionar um patrocínio.

 

Os textos que acompanham as fotografias, apesar de previsíveis, são escorreitos, bem articulados, bem construídos e não ofendem com lapsos morfológicos, tropeções na sintaxe, ou mesmo com os deslizes que se compreendem - embora custem a aceitar - numa menina que mal entrou na pré-adolescência. São textos bastante maduros para a idade e encontram-se na linha dos produzidos por um qualquer blog de moda deste burgo e arredores - há um que é melhor.

 

As imagens denunciam um fotógrafo adulto pelos ângulos de captação e pela aparente qualidade que revelam.

 

Estes dados reunidos permitem saudar esta menina e esperar que a petiza mostre rapidamente aos papás o trabalho que encetou no difícil e labiríntico e culturalmente rico universo das fashion adviser e recordar aos adultos que a coadjuvam de forma tão profissional que se Eduarda rules, rules não se sabe para onde e rules demasiado depressa.  

 

Um beijinho, Eduarda.

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A Gaffe bimba

rabiscado pela Gaffe, em 19.04.17

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Admito que não sou uma fada do lar. Não tenho mãos da dita e jamais serei capaz de organizar uma despensa ou elaborar mapas Excel de contas poupança, ou com listas de compras em supermercados apinhados onde se atropelam carrinhos guiados por senhoras irritadas, cansadas de beliscar a fruta.

 

Entrego parte do meu reino por uma chegada a casa imaculada, com mesa posta e roupa lavada, mesmo correndo o risco – agradável e muito conveniente – de não ser considerada um bom partido pelos cavalheiros que pensam que a imagem idílica do doce lar contém uma doida esgrouviada capaz de se multiplicar obedecendo à tradicional aliança mãe-esposa-amante-dona-de-casa-empregada e mais que não se diz por ser verdade.

 

Nunca compreendi as mulheres que dedicam uma parte substancial do seu tempo à cozinha, não nutrindo por ela uma paixão arrasadora. Gostava, mas não consigo entender as criaturas que não ligando uma pevide à culinária - e mesmo depois da brutalidade do quotidiano -, se misturam com a cozinha que sabem que as vai esturricando, envelhecendo e desolando, apenas porque é assim a vida, apenas porque não admitem que, apesar do amor que dedicam à confecção do frango na púcara, chegam exaustas à mesa onde servem a iguaria ao senhor do feudo que entretanto foi comprar cigarros, ou aos meninos que passaram a tarde a jogar Playstation. Provavelmente têm a alegria de fotografar as diversas fases do cozinhado e pespegar com os fascículos no Instagram, elogiando no twitter o marido que descascou as batatitas.

 

Não compreendo as mulheres que trazem apenso um fogão, nem fogões que trazem mulheres apensas.

 

Talvez seja porque detesto cozinhar.

Erros meus, má fortuna, amor ardente por outras coisas que me rasgam o avental. 

 

Por isso comprei uma Bimby.

O rapagão merece...

 

A maquineta é um fenómeno!

  

Como não represento a empresa alemã e como evito aprender o que quer que seja relacionado com tachos e panelas, não sei exactamente o que a máquina não faz, mas fixei um pormenor que me deixou siderada. O monstro divinal tem ligação à internet, capta as receitas que escolhermos no site, envia uma lista com os ingredientes para o telemóvel e permite uma programação semanal das refeições, indicando em cada dia que passa os ingredientes que temos de ter à nossa disposição para os catapultar para dentro do milagre.

 

Só lamento que o rapagão tenha ficado um bocadito desiludido por não ter de voltar a passar horas a fio a elaborar pratos extraordinários que fazem corar de vergonha as avozinhas - dele e do Capuchinho - e esta rapariga desleixada.

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A Gaffe depois da Páscoa

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.17

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Ao fundo da alameda de mimosas fecharam-se os portões.

 

A manhã declina o encadear das sombras. Inclina-se devagar sobre a água do lago e num tocar escurecido trepa aos olhos do anjo de pedra. Venda-lhe os sussurros das árvores que oscilam pesando as horas ternas da indiferença do vento.

O azul da luz esgueira-se por entre as sebes como um lagarto que tem frio e um pássaro treme, como o peixe vermelho assustado pelo toque da minha mão na água.

Há sardinheiras a abrir. Novelos de hortênsias no anil de uma promessa e a relva cresce lenta como um gesto que se faz inútil por estar sozinho.

 

Se avançar, piso as pétalas que espalharam nas pedras para que o som das campainhas se misture com o perfume enjoativo que libertam esmagadas. Um corredor de pétalas com as geometrias traçadas por moldes de madeira. Um corredor de pétalas pisadas que não foi limpo, porque o Dia Santo é dia de descanso e há tempo nesta manhã em que se fecham os portões ao fundo da alameda de mimosas para cuidar dos restos da tarde da véspera.

 

Fecharam-se os portões.

 

O som das campainhas ecoa na copa das árvores. É esmagado pelo perfume da luz que se inclina para decifrar a cor das sardinheiras.

Ao longe, as tílias sacodem a poeira deixada pelo adejar das opas brancas e um teixo ergue-se para o céu como um crucifixo.

 

A manhã devolve-lhes o silêncio depois do Dia Santo.

 

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A Gaffe não se esquece

rabiscado pela Gaffe, em 15.04.17

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