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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe finalista

rabiscado pela Gaffe, em 10.05.17

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A Gaffe também assistiu ao Festival da Eurovisão e apenas com Salvador Sobral sentiu que havia um espacinho para escapar da festa de arromba dos finalistas do 12º ano em Lloret de Mar, unida à feira da Ladra com salpicos de bacanal de despedida de solteiro estrelada por uma Micas del Vale del Fuego, bailarina de varão. Apenas com Salvador Sobral e com Amar Pelos Dois se conseguiu respirar durante uns minutos sem receio de, logo ali, nos enfiarem na garganta um pé, ou uma perna, ou uma mama, dos sucessivos acrobatas vocais e das respectivas coreografias pirómanas.    

 

Passemos a revista às tropas:

 

Azerbeijão

Uma Lady Gaga de quintal urbano que não sabe onde enfiar o gado, mantendo o cavalo quieto com a gritaria pretensamente dark.

Suécia

O Ken na passadeira com uma canção banal a lembrar os idos 80.

Grécia

Dois belos bailarinos de tronco nu e de pila apertada para desviar as atenções da porcaria da canção. Conseguiram.

Polónia

Não me lembro, mas sei que tive receio de ver entrar por ali dentro as cooperações de bombeiros de serviço.

Arménia

Também não, só sei que também gritou até vir o Chico – não o da Sobral, mas o da expressão portuense - segura que era Kali que desabou ali por engano. 

Austrália

A mãe devia ter tentado impedir o menino de fazer figuras tristes imitando o Bieber aos berros. Os adolescentes sozinhos são por norma parvos. 

Moldávia

Um bando de bacanos com uma canção toda bacana. É fácil esquecer o quanto se divertiram a cansar-nos.

Chipre

O Robbie Williams de pacotilha a esganar uma versão menor de Party Like a Russian.

Bélgica

Uma voz grave e bonita numa canção interessante. Estou ansiosa por a ver na final a desabar em lágrimas e a chamar pela mãe.

 

E depois Portugal com Salvador Sobral a provar que uma melodia que vai buscar aromas aos anos 50, à Bossa Nova e ao Jazz, pode ser interpretada apenas com o coração todo inteiro em cada palavra.  

 

Tão lindo, Salvador! Gostei tanto da tua camisola!

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A Gaffe a "Amar Pelo Dois"

rabiscado pela Gaffe, em 08.05.17

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A véspera dos acontecimentos é a derradeira oportunidade que temos de falar deles correndo o risco de nos enganarmos.

 

Neste pressuposto, mas sabendo que não haverá engano posterior, chegou o momento de falar de Salvador Sobral.

 

Li e ouvi elogios rasgados à canção – incluída na área do Jazz-pop, segundo os especialistas - que irá representar Portugal no festival da Eurovisão, ao mesmo tempo que ouvia e lia imensas patetices maldosas que incluíam a condenação da letra por se revelar apologista da anulação, por amor, de alguém a favor de outro alguém e de certa forma publicitar este revoltante estado ou predisposição. É inútil fazer com que estes exigentes críticos reconheçam que o Fado ficaria sem uma fatia substancial do seu repertório se abolíssemos todas as estrofes que assumem a escolha desta desistência em favor do outro, ou com que ouçam uma das mais extraordinárias canções de amor jamais escritas, porque suspeito que o …

 

Laisse-moi devenir 
L'ombre de ton ombre 
L'ombre de ta main 
L'ombre de ton chien 
mais, ne me quitte pas.

 … Seria retirado do poema por apelar à bestialidade.

 

É uma argumentação paupérrima, parola e medíocre e não pode ser tida em consideração.

 

Ao lado, mesmo ao lado, está a censura à forma com que Salvador Sobral se coloca em palco e interpreta a canção, aliada a uma revoltada denúncia de sobrevalorização da sua voz.

Concordamos todos. Salvador Sobral não é Ricky Martin. Felizmente.

 

Seria muitíssimo proveitoso rever o concerto de Salvador Sobral transmitido pela RTP1 no passado Sábado, porque ali descobrimos a inutilidade de todos estes beliscões daninhos.

 

Seria muitíssimo interessante que neste exacto concerto ouvíssemos a versão de Nem Eu de Dorival Caymmi, porque é nesta reinterpretação que Salvador Sobral prova uma extraordinária sensibilidade, mesclada com um humor requintadíssimo, entregue em diálogo inteligente e sapiente com o piano que reconhece a dádiva total do intérprete a cada palavra dita - e sentida - sem equacionar qualquer manuseio mais consentâneo com o bambolear de ancas de Ricky Martin e atingindo com uma facilidade deslumbrante as notas mais agudas, sem sequer danificar por breves segundos a suavidade e o veludo da voz.

 

Salvador Sobral é ele todo inconfundível. Nada de tonto se sobrepõe a sua capacidade vocal e interpretativa.

 

No eterno festival de gritedo desalmado, de ruído de coxas e de plumas a voar em crises epilépticas, defendendo uma canção que dignifica aquele lantejoular repetitivo, finalmente actuará um cantor de excepção.  

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A Gaffe num futuro composto

rabiscado pela Gaffe, em 26.04.17

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Depois de ter verificado, nos instantes anteriores à piscadela de olho de José Rodrigues dos Santos, se estou compostinha, com um pijama inócuo, de perninhas fechadas e botão apertadito, sem qualquer expressão que permita supor intenções mais marotas e ter confirmado que não estava prostrada no sofá numa pose susceptível de despertar a libido do cavalheiro ou parecer que no fim do telejornal nos encontramos para ardentes trocas de informações de carácter mais manual, deparo-me com uma certeza que me deixa perplexa.

 

A comunicação social vai procedendo à substituição do alegadamente pelo uso do futuro composto, abolindo o presente, o passado, ou mesmo o imperfeito, dos tempos verbais que se esperam numa notícia dada depois de confirmada até à exaustão.

 

A baleia que terá dado à costa e que vemos esbardalhada no areal, poderá não ser a baleia que terá dado à costa, mas poderá dar-se o caso de ser o senhor deputado Carlos Abreu Amorim que terá decidido passar uns dias na praia. O assassino ensanguentado, com a cabeça da vítima debaixo do braço e a reivindicar a autoria do crime como um desalmado do Daesh, poderá ter sido o mesmo que a Patrícia Vanessa terá filmado a esquartejar o cadáver - que terá sido morto antes de ser supostamente cadáver -, alegadamente com o telemóvel, da suposta varanda que terá vista privilegiada para o ocorrido. O senhor com o equipamento que poderá estar em uso na GNR - chama-se especial atenção para o modo como a farda lhe assenta lindamente -, banhado em lágrimas a jurar que o carro esfrangalhado que ali está foi o que se estampou contra um poste - num alegado acidente que poderá ter causado uma vítima supostamente sem gravidade que pode ter sido levada para o Hospital -, poderá ser a Princesa Diana que terá muita experiência nestas ocorrências.  

 

Esta feira de probabilidades entregues ao público que as consome sem apelo nem agravo, este arraial noticioso pejado de incertezas e de hesitações, comprovativo da incompetência - e do medinho do processo em cima -, dos jornalistas que escolhem o balancé do poderá ser assim, mas poderá ser que não, é transversal a toda a comunicação social e faz pairar sobre a cabeça do alegado profissional que oscila desta forma o halo dos inocentes sem compromisso assumido, sem certezas incontestáveis, isentando-o da responsabilidade e da obrigação de se confirmar o que é noticiado, revelando ao mundo que poderá ter estado ali, mas que poderá não ter estado. Nestes casos, é a mesma coisa.

 

Seguindo esta linha de prática jornalística tão em voga, decido ilustrar estes rabiscos com uma imagem que alegadamente não tem nada a ver com o que está escrito. Poderá ter sido por não ter encontrado outra melhor, poderá ser por supostamente ter havido um desencontro com a mais adequada e poderá ser que não, podendo ter sido por considerar que se piscar um olho no final deste fraseado, o que escrevo se torne confirmado.

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A Gaffe da Duda

rabiscado pela Gaffe, em 20.04.17

2.jpgA vida, nos últimos dias, não tem considerado necessário parar de me surpreender.

 

Primeiro foi uma máquina que cozinha sem nos maçar e com muito pouca ou nenhuma interferência nossa, agora é um blog que descobri nas minhas parcas andanças por estes caminhos e que me deixou siderada.

 

O blog pertence - tudo indica e não encontro razões de peso para suspeitar o contrário - a uma menina que não parece ultrapassar os dez anos. A Eduarda é a mais jovem e mais recente fashion adviser do burgo e se abandonasse as poses que considera as melhores para uma aproximação às meninas mais crescidas e com mais maminhas, assumindo uma imagem mais criança-Benetton, estou segura que a Zara Kids encontraria matéria suficiente para equacionar um patrocínio.

 

Os textos que acompanham as fotografias, apesar de previsíveis, são escorreitos, bem articulados, bem construídos e não ofendem com lapsos morfológicos, tropeções na sintaxe, ou mesmo com os deslizes que se compreendem - embora custem a aceitar - numa menina que mal entrou na pré-adolescência. São textos bastante maduros para a idade e encontram-se na linha dos produzidos por um qualquer blog de moda deste burgo e arredores - há um que é melhor.

 

As imagens denunciam um fotógrafo adulto pelos ângulos de captação e pela aparente qualidade que revelam.

 

Estes dados reunidos permitem saudar esta menina e esperar que a petiza mostre rapidamente aos papás o trabalho que encetou no difícil e labiríntico e culturalmente rico universo das fashion adviser e recordar aos adultos que a coadjuvam de forma tão profissional que se Eduarda rules, rules não se sabe para onde e rules demasiado depressa.  

 

Um beijinho, Eduarda.

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A Gaffe finalista

rabiscado pela Gaffe, em 10.04.17

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Juntar um grupo grande de jovens símios misturados com o LSD do Sul de Espanha permite observar a oscilação frequente entre a indigência e a debilidade cerebral e separar estas duas ocorrências que tantas vezes se confundem, mas é uma atitude cansativa, tendo em consideração que acabamos a rever comportamentos similares todas as vezes que a situação se verifica.

 

Não é de estranhar o acontecido num hotel espanhol arrasado por adolescentes num final de carreira.

 

É recorrente embora desta vez não tenha havido, como há dois anos, notícia de violação nos corredores. Os jovens símios limitaram-se a reclamar contra o albergue e contra o alegado incumprimento de contrato com actos um bocadinho mais rebeldes que se compreendem tendo em consideração que não estão num retiro espiritual em Fátima - como referiu de modo tão risonho uma senhora que faz parte da direcção da Confederação de Pais, seja lá o que isso for.

 

O que choca é a indignação da mamã da Confederação perante o modo como foram tratados os querubins após terem despejado mobiliário na piscina, riscado paredes e portas, esbardalhado matéria suja por onde passaram e escacado o que conseguiram apanhar, e aquela espécie de justificação escandalosa que recorre ao facto de ser espectável que os meninos e as meninas, que não estão num retiro espiritual, vandalizem o que lhes aparece na frente, por não estarem sobre o escrutínio parental.  

 

O que choca é ouvir o papá reclamar contra o sistema de ensino que provoca uma desresponsabilização das Escolas no que concerne à educação cívica dos seus alunos, tendo por tal de ser considerada ré neste caso que não passa de, sublinha, uma reacção ao mau serviço de quartos de um hotel que não percebeu que não iria receber peregrinos, mas idiotas, cretinos, imbecis e potenciais hooligans - normalmente coincidem, mas neste caso há que tentar distinguir algumas fases de destruição cerebral.

 

O que choca é ouvir o responsável pela agência de viagens declarar que minutos antes da chegada ao maldito hotel fez uma palestra que durou dois minutos alertando os meninos e as meninas para o perigo que é destruírem os extintores de incêndio, sabendo que o fogo que os marotos lançam aos cortinados não pode ser dominado vomitando o álcool que consomem e que a culpa das pequenas irritações destes príncipes é da muda das toalhas que não se foi fazendo.

 

O que choca é perceber que à mamã da direcção da Confederação de Pais, ou ao papá da condenação das Escolas, se juntam outros tais tentando ilibar as crias sem entenderem que ao mesmo tempo dão o nó na venda que colocam nos olhos e que até agora tem estado presa pelo alfinete de uma visão selectiva.

 

Apesar de tudo, que rejubilem as Associações Académicas mais tradicionais. Existe a garantia que terão nos próximos anos as praxes asseguradas.

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A Gaffe "turistificada"

rabiscado pela Gaffe, em 06.04.17
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Num tempo que já lá vai, descíamos os Clérigos para visitar, no Largo dos Lóis, a velhíssima livraria onde misturado com bolor encontrávamos o antipático e bafiento empregado que quase nos expulsava à força de perdigotos; procurávamos botões antiquíssimos na retrosaria em frente, as rendas desbotadas, os entremeios, as linhas coloridas que comprávamos apenas por capricho; visitávamos o velho ferro-velho que tinha, pintado à mão, no vidro da montra, o presunçoso título de Antiquário e que vendia alfinetes de peito e chávenas de chá inglesas como se fossem relíquias arrancadas a memórias com séculos e tomávamos chá na leitaria ao lado, levadas ao céu pela fatia de bolo de mármore que não dispensávamos.

 

Não convém afastarmo-nos durante muito tempo dos lugares que nos foram queridos. As metamorfoses por eles sofridas devem ser por nós acompanhadas para não nos abocanharem de repente.

 

Levaram-me a visitar o requalificado e reabilitado quarteirão das Cardosas. Há tanto tempo a não via e que saudades, Deus meu!

 

Entro na Disneylândia!

 

Das ruas repletas de casario com um traçado arquitectónico único e plural, ficaram apenas as cascas agora uniformizadas das casas antigas. O facto de não ter existido a preocupação em reabilitar lenta, penosa e pensadamente, caso a caso, prédio a prédio, casa a casa, deu origem a um aglomerado de edifícios turistificados.

 

Esta Baixa do Porto reabilitada anuncia através de um patético slogan imobiliário o público a que se destina: Jovens casais, criativos, jovens intelectuais e novos pensadores. O preço do mais exíguo apartamento deste complexo Disney é dez vezes maior do que aquilo que o público-alvo ganharia em duas ou três décadas, se, com uma esperança do tamanho destes preços, os jovens filósofos, os novos artistas saídos das Belas-Artes e dos Conservatórios ou os novatos letrados, conseguissem hoje arranjar um emprego, mesmo um que lhes dificultasse ou impedisse o exercício das suas qualificações.

 

A actual reabilitação da Baixa portuense corre o risco de se tornar apenas uma turistificação de uma zona histórica, muito city users, muito cidade dos eventos, onde pulula o consumo gourmet com peças de artesanato de Carrazeda de Ansiães, compradas ao custo da chuva, expostas em vitrinas Philippe Starck a preços que permitem supor que compramos também a obra do designer e a cafés onde há estantes com livros com a lombada contra a parede, porque a paleta dos brancos, bejes, dos marfins e pérola das páginas fechadas que se mostram, condiz com a decoração acastanhada e não faz tanto ruído como se visíveis fossem os títulos das obras.

 

Business is business, mas tem de haver mais vidas.  

 

Turistificar não é o mesmo que reabilitar. A primeira cirurgia transforma uma cidade num imenso parque temático, a segunda, obriga a que cada caso, cada prédio, cada casa, cada esquina e cada recanto regenerado, seja capaz de continuar a produzir memórias, conservando aquelas que deles já temos e que dentro deles fomos construindo.

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A Gaffe de Dijsselbloem

rabiscado pela Gaffe, em 22.03.17

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A Gaffe não fica irritada com o eurodeputado polaco que acredita que as mulheres são menos inteligentes e mais fracas se comparadas com homens, devendo ganhar menos por isso. O senhor polaco é a prova viva do que foi ouvido. Um homem que é capaz de afiançar e abalizar esta corrente de pensamento, muito mais activa do que se pode aferir, não é nada parvo, nada imbecil, não é nada velho e demonstra ser capaz de raciocínios que apenas ombreiam com o seu corpo musculado vigoroso, forte, dominador e imponente.

A Gaffe abençoa o eurodeputado polaco, porque é ele que iliba e eleva ao cume da genialidade a mulher mais imbecil que consigamos encontrar.

 

Com Jeroen Dijsselbloem a Gaffe tem de admitir que ficou amuada e aconselha-o a ler este maravilhoso pedacinho de ironia. 

 

O menino holandês que usa fatinhos apertadinhos, que deixam o rabinho redondinho a espreitar, que usa uns óculos muito hipster pousados no rosto redondinho e encaracoladito e que se ajoelha para ouvir o dono, mostrou que  sabe como os países do Sul da Europa são canalhas, bebedolas, mulherengos e pedinchões a viver da disponibilidade caridosa do Norte europeu.

 

Uns safados.

 

A Gaffe considera que Dijsselbloem devia levar tautau no rabinho - não com muita força, vá! - com uma chibata empunhada por um casal vestido de látex, com mascarilhas de Zorro, tacões agulha - os dois -, mamilos apertados por molas de estendal e portugueses - não há nada como um casal de bons, velhos e divertidos portugueses bêbados para compor esta imagem -, depois de ser sodomizado com as tampas das canetas com que falsificou o currículo - embora o menino já tenha experienciado coisa pior, tendo em conta o resultado das eleições holandesas.

 

Dijsselbloem esqueceu o futebol e os milagres.

Imperdoável.

Mulheres, copos, bola e milagres. Eis como caracterizar correctamente os países do Sul da Europa.

 

Os dois meninos europeus, mesmo provenientes de países diametralmente opostos, são encarnações da Europa a duas velocidades que converge num ponto demasiado perigoso para ser encarado como um pormenor de somenos importância:

 

O preconceito.

 

É este um dos alfinetes cravados na pele frágil da União e um dos que vai sangrando devagar e sem se dar conta a tão desejada e publicitada coesão europeia, permitindo equacionar uma Europa retalhada em dois territórios. A região-desenrasca e demarcada dos pobres chico-espertos e a região benemérita dos ricos sacrificados que fazem crer à primeira que é bêbada e frequenta prostíbulos, exactamente da mesma forma como a fez acreditar que vivia acima das suas possibilidades. Repetindo até entranhar o que lhe é conveniente e o que permite salvar potentados financeiros do colapso trafulha.

 

O menino polaco e o menino holandês podem unir trapinhos. Afinal, pensam da mesma forma e só se estraga esta europa.

 

Ilustração - Gerhard Haderer

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A Gaffe da Frederica

rabiscado pela Gaffe, em 10.02.17

Fredrica

 

A Gaffe, num dos seus momentos menos conseguidos, decidiu parecer imbecil e examinar a mais cintilante polémica em torna de Cristina Ferreira, para se certificar que não a considera sem razão válida o protótipo da parola esperta que enriqueceu de repente.

 

Deu início a tarefa folheando os blogues de referência e que se debruçam sobre o assunto e estancou no primeiro que passou pelo seu monitor.

 

A amorosíssima Vanessa Martins mostra toda a sua mimosa indignação e bate com os pezinhos no chão perante o carrossel que não abranda movido pela perseguição invejosa que fazem à apresentadora que odeia ser vista e sobretudo ouvida.

A Gaffe tem de admitir que concorda com a irritadíssima Vanessa. Diz-nos num lamento revoltado esta rapariga inteligente que na sua vida profissional há pessoas que questionam como ganha dinheiro com um blogue e acrescenta, sábia, que existem pessoas que só querem saber da vida dos outros. A talentosa Vanessa sente também que as pessoas estão mais ocupadas com a vida dos outros do que com a sua própria vida.

 

Queixumes e revelações que arrancaram à Gaffe, revista nestes pungentes lamentos, uma ou duas lágrimas de solidariedade.

 

Não interessa compreender que é exactamente por causa destas malfadas características do povo que a Vanessa ganha dinheiro com o blogue - segundo as suas belas e expressivas palavras. Não interessa descobrir que a doce menina esbardalha por todo o lado, canto e esquina, pormenores ilustrados da sua vida amorosa que permitem escacar na praça pública o que a rapariga faz em privado - sinto isso na minha vida amorosa, ou seja, faz de conta que sente os cacos do olhar do populacho a picar as fitas e fotografias do seu casamento a cavalgar por todas as redes sociais. Sofre, porque é inocente, porque apenas gosta de viver e partilhar, porque sabe montar o touro da vida e mostrar como é capaz de equilíbrios, porque é feliz e ganha uns trocos com os pequenos nadas do seu quotidiano que publica incessantemente apenas para mostrar ao mundo como é uma menina boa, alegre e não para se expor como carne num talho, mesmo correndo o risco de depois ficar zangadita por perceber que as pessoas não davam nada pelo seu namoro - vingou-se destes abutres, porque entretanto se casou quando ninguém acreditava. Não é preciso fazer notar que o marido é nada mais do que um rapaz muito cerebral de músculos inflacionados que participou, espalhando sofisticação, discrição, charme e discernimento, criando inúmeros momentos de raro raciocínio capaz de ser apenas entendido por Eduardo Lourenço, nas várias edições do Big Brother, que é como sabemos um programa de entretenimento onde a privacidade pugna por se fazer notar.

 

Isso agora não interessa nada.

 

Ilustração - Joachim Barrum

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A Gaffe neo-realista

rabiscado pela Gaffe, em 09.02.17

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João Miguel Tavares não me inspira qualquer tipo de simpatia, mas esse facto não me impede que esteja disponível para o ouvir e ler com respeito e atenção.

Foi exactamente com esta disposição que o apanhei - a propósito da polémica suscitada pela obra de valter hugo mãe esfrangalhada pela pudicícia -, a tentar ser engraçado recortando uma frase do livro A Vida Mágica da Sementinha de Alves Redol, comprovando o que já sabemos, ou seja, que uma frase decepada e arrancada de um contexto, permite ser guiada para onde a nossa sardinha vai assando ou esturricando.

O colunista finaliza a intervenção suplicando que a obra de Alves Redol seja retirada por ofensa ao pudor do programa dos alunos do 5º ano. A pretensa ironia é regada com um sorriso galhofeiro e não passaria por mais se não fosse a adenda que João Miguel Tavares decide colar ao já demonstrado. O jornalista acrescenta que há uma razão, bem mais séria, para o seu rogo. A obra é horrível. Repete horrível já na risota.

 

É improvável que João Miguel Tavares, com filhos que a estão a estudar, não tenha lido a obra em causa, mas é mais do que evidente que o colunista desconhece o que é ensinado no grau de instrução que os petizes frequentam.

 

A obra de Redol que o jornalista condena é a escolha perfeita para a faixa etária eleita para a estudar.

 

Existe no pequeno livro uma miríade de possibilidades de intertextualidade e de interdisciplinaridade. A obra permite uma cumplicidade notável, sobretudo com as Ciências e com a História - havendo mesmo trechos que deviam ser lidos pelos professores destas disciplinas, usando-os depois como impulso para a descoberta e conhecimento do que querem transmitir -,  e as personagens que a povoam estão impregnadas de uma poeira poética com um sabor a paisagem alentejana tantas vezes dorida que permite um encontro com uma realidade menos amena e menos acolchoada.

 

Os pássaros que se espalham nas folhas da obra, os seus pequenos conflitos, as suas emoções, os seus amores, permitem que o pequeno leitor se veja ao espelho e contribui para uma mais suave entrada num estádio que antecede a perturbação da adolescência; a clareza com que é revelado o esplendor da diversidade e a importância que esta deve ter; a permeabilidade da obra a outros dados oriundos da história, da ecologia ou da biologia e a poética que se encarrega de acordar a fantasia e povoar o imaginário das nossas infâncias, fazem da escolha do livro um exemplo maior de séria pedagogia e de João Miguel Tavares, que o considera horrível, - assim, à toa, só porque assim é engraçado -, um rapaz muito propenso a comportar-se como os encarregados de educação que censuraram valter hugo mãe.

 

Ilustração - Mirko Hanák         

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A Gaffe no vosso reino

rabiscado pela Gaffe, em 01.02.17

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Toquem os sinos a rebate! Anunciem a boa nova! Rejubilem!

 

A Gaffe emergiu resplandecente depois de se ter retirado para acrescentar valores à sua biblioteca - versão Portugal dos pequeninos.

Durante este retiro espiritual, a Gaffe foi adicionando cromos à sua colecção de citações, saltaricando de Citador em Citador até considerar que o reunido continha a aura de intelecto capaz de impressionar o mais valente literato.

 

A Gaffe acredita de forma pia que acumular frases assinadas por consideráveis vultos de valoroso estatuto intelectual - mesmo que os pobres não as tenham escrito, ou que o tenham feito apenas para as desconstruir nas páginas seguintes -, equivale a conhecer de modo profundo o pensamento do suposto autor. Um processo de equivalências muito em uso em algumas faculdades privadas do país.

Citar, por exemplo, Sartre - O inferno são os outros - é suficiente para atestar a nossa intimidade com O Ser e o Nada e traz implícito o nosso convívio com Camus, Kierkegaard e até, com algum esforço, com T.S. Eliot.

 

A Gaffe considera de utilidade pública o processo que nos leva a resumir milhares de páginas a uma frase gira, colhida algures no meio delas, que em certas circunstâncias nos ajuda a levar a água ao nosso moinho - esta rapariga passou uma temporada muito bucólica, como se depreende - e é sempre agradável para o leitor ficar arrepiado com a grandeza que escorre dali - embora descontextualizada, raquítica, enfadonha, decepada e isolada -, porque supostamente alicerça, justifica, iliba e glorifica as mais miseráveis fraquezas e impotências, para além de se ficar com imenso tempo para a atirar às chamas do inferno que são os outros.  

 

Este maravilhoso processo de pechisbequice literária tornou-se banal e está acessível a todo o género de criaturas cultas. Basta abrir um site de quotes e cotizar as que nos são úteis, publicá-las e esperar que nos coloquem na cabeça o esplendor dos avisados que sabem, por interposta pessoa, castigar os infernais.

 

Não é de todo obrigatório ler a obra onde é pescada a cintilante citação. Basta que se veja o que se quer no meio do que se não vê.

 

A Gaffe é apologista - podologista, como diria a Mélinha – da pechisbequice literária, porque para tratar de uma cortada unha do pé da literatura universal não é necessário estudar o Harrison e congratula-se ao perceber que os senhores responsáveis pela selecção do obras a incluir no Plano Nacional de Leitura e os papás que o seguem pensam o mesmo. 

 

É cansativo perder tempo com valter hugo mãe - e a Gaffe não morre de amores pela sua escrita nem se deleitou com a obra causadora de tanto disparate - sabendo-se que o rapaz já ganhou o prémio Saramago. Um vislumbre pela sinopse de um livrito é suficiente para o encaixar algures.

É inútil ler a obra inteira, embutida desta forma num Plano atrapalhado com tanto cavalo à solta - minha alegria, minha amargura minha coragem de correr contra a ternura - se conseguimos fazer pairar, desamarrada, a piscar sexo, uma frase arrancada a uma personagem que sem ela ficaria de certa forma incompleta e por caracterizar como o autor requer. 

 

A pechisbequice literária - companheira de tantas outras que pululam por todos os cantos, facilitadas e facilitadoras -, é a única causa desta espécie de polémica que assolou outrora - salvaguardando-se contextos e distâncias - a Ilha dos Amores nos Lusíadas e o Evangelho segundo Saramago e Jesus Cristo.

 

 A Gaffe leu o pedacinho mísero que consubstancia o móbil da condenação e que obriga a obra a desviar-se de leitores com menos de quinze anos - impresso até nos fazer desejar enviar os citadores para o lado da senhora que a frase menciona -, e como por encantamento - o tão glorificado e sobrevalorizado poder de um livro não é de menosprezar até mesmo aqui! - foi levada em viagem até ao quarto das donzelas vitorianas cujo dormir era vigiado por amas acordadas que travavam, com solavancos de pudor traduzidos em beliscões bem dados, os gemidos suspeitos dos sonhos das meninas; aos conventos oitocentistas onde se esmagavam as maminhas às monjas com tiras de pano de modo a que não sofressem as sevícias dos desejos carnais, tocando nos mamilos umas das outras, e à sala dos encarregados de educação do petiz que ficou sem a Playboy de Janeiro, porque é bem mais favorável a um parental relaxamento que o puto continue a guardar vídeos pornográficos no telemóvel que lhe foi dado pelo Natal.

 

Num adaptar muito original de uma citação já muito picotada, estas deslocações sem se sair do sítio encetadas pela Gaffe trazem apenso a certeza de um facto. A pechisbequice -seja em que área for - faz apenas com que fiquemos a olhar para o rato que foi encontrado nos sopés do Evereste.

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A Gaffe "comentadeira"

rabiscado pela Gaffe, em 23.01.17

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Milhares de comentadores saídos dos confins do Inferno, do rabinho do mundo, do lugar onde o demo perdeu as botas e não as foi procurar porque era longe e das esquinas do céu, comentaram a tomada de posse de Trump.

 

A Gaffe depois de ouvir um jornalista a reproduzir o discurso de Trump, logo após o ter ouvido em directo e com tradução simultânea, assistiu ao desfile de toda a espécie de criaturas, desde sociólogos, politólogos, actores e actrizes, declamadores, figurantes dos programas da manhã, eremitas, representantes de partidos políticos, activistas dos direitos dos bichos, donas de casa desesperadas, stripers, maquinistas de pesados, marinheiros, motoristas de ligeiros com reboque, a apresentadora esverdeada dos sorteios dos jogos da Santa Casa, populares colhidos pelo touro do microfone das touradas de serviço e um nunca mais acabar de outras gentes que opinavam sem fim à vista, mar adentro, como se existisse nos clichés repetidos até à exaustão uma migalha de singularidade que se destacasse no aterro de inutilidades que se foi erguendo.

 

Depois de tudo dito e repetido até ao infinito do aborrecimento - e percorreram-se todos os canais, chegando mesmo a passar pela CNN - A Gaffe teve uma epifania.

 

Martim Cabral, jornalista habituado ao ir, que é o melhor remédio, desta vez assentou praça como comentador - já que a senhora da limpeza que ganhou o primeiro prémio com a sua esfregona e balde esquecidos e encostados à parede, atribuído por um júri de críticos de arte que desconhecia o autor da obra de acentuado valor artístico, numa performance do Museu de Arte Moderna em NY, e o curador da exposição de Miró que o expos de cabeça para baixo durante vários meses, estavam ocupados a comentar num canal rival -, e referiu um sinal que estava a passar despercebido a nível mundial.

Não era o desaparecimento do site da Casa Branca, horas depois da tomada de posse, dos separadores que se reportavam aos Direitos Humanos, aos direitos LGBT e do que documentava as alterações climáticas do planeta ou mesmo a assinatura do Despacho que retrai o Obamacare, ou ainda à declaração de David Duke eufórico por saber que finalmente conseguiu.

 Não!

O sinal encriptado que Martim Cabral detecta e para o qual nos alerta, vai muito além da superfície, mergulha na nossa condição de invisuais perante o que de subtil se vai desenrolando, deixando-nos em perplexidade profunda por não haver uma descodificação capaz de nos sossegar, é o que está patente na cor usada pelas filhas de Trump igual a escolhida por Hillary!

Um enigma que consubstancia um aviso subliminado que Martim Cabral - perante o desconforto da moderadora que leva mais de trinta segundos a retomar o fio da meada já todo enredado e a recuperar a compostura - não explica, mas assinala como altamente significativo.

A Gaffe atribui enormíssima importância a este dado, a este sinal referido por Martim Cabral.

As três de branco, provavelmente sinalizando três virgens! Que sabemos nós?!

Esta rapariga siderada aguardou que o jornalista desvendasse tão suspeita e enigmática coincidência, mas o mistério adensou-se e permanece para ser desconstruído pela história.

 

A Gaffe dobra o seu estado de intricada dúvida quando Martim Cabral deixa escapar Melania sem nos fazer notar que a nervosíssima primeira-dama, essa mais dos que as três virgens, é também portadora de uma enviesada mensagem de Trump que não quer deixar escapar o modo como traça os destinos das mulheres. Melania Trump usa luvas de cozinha, sinal - evidentemente subliminar - de que é no meio dos tachos ou a limpar sanitas que uma mulher deve cumprir o seu fado.   

 

Não sabemos como Martim Cabral se absteve de tocar neste pormenor de repercussões tão freudianas, desconhecemos também se Martim Cabral reparou no look total azul-cueca da primeira-dama que induz um sub-reptício convite a saltar para esta tonalidade de cor, mas reconhecemos que para comentar uma cerimónia destas, mais vale um jornalista imbecil do que uma multidão de rústicos arrancados à toa e onde se consegue, a fingir que têm e que são imprescindíveis as opiniões que debitam num loop infinito.

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A Gaffe de transição

rabiscado pela Gaffe, em 20.01.17

 Ladies and gentlemen, the last President of

the United States of America

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A Gaffe receia que o derradeiro presidente dos Estados Unidos aceite que é banal existir um país governado por um psicopata.

 

Foto - Mark Seliger

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A Gaffe d'O

rabiscado pela Gaffe, em 19.01.17
 

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A polémica foi medíocre, mas acabou por despertar a nossa atenção.


Michelle Obama.


Independentemente da sua tão invocada elegância, discutível como é normal, porque a noção de elegância é de tal forma subjectiva que a atribuição do estatuto é contestável, a senhora Obama assustava um pouco.
Dizem as más-línguas, que como sabemos são demasiado interessantes e interesseiras para nos podermos dar ao luxo de as ignorar, que esta mulher foi uma primeira-dama reservada, seca no trato, prepotente e dominadora.


Seja.


O facto de parte do mundo cor-de-rosa a ter começado a tratar por Michelle O, por analogia com outra O, não há motivo ou razão lógica para a aproximar da famigerada e elegantíssima Jackie.
Michelle foi e é incontestavelmente diferente.
Não teve como é evidente o allure francês que foi mantido durante toda a vida pela Kennedy-Onassis mas em contrapartida manteve um gabinete seu - muito capaz e de importância capital -, na Casa Branca.


Entre uma elegância compulsivamente consumista, uma fotogénica oscilação entre a depressão e a discreta euforia própria dos neuróticos bem controlados, e uma elegância que advém da notória inteligência de quem acompanha, impulsiona, fortalece e até mesmo substitui o seu Presidente, nós, raparigas espertas, por muito que nos custe, escolhemos a segunda, mesmo que isso assuste os cor-de-rosa pouco habituados a ver o topo do mundo ocupado por uma mulher de cores diferentes.

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A Gaffe sem interesse

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.17

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A Gaffe irrita-se.
Claro que se irrita!
Não consegue ouvir a desgarrada frase:

- Não estás interessada, pois não?... É que se estiveres... - e para agravar - desisto até se for talvez... é que eu não sei... talvez...

 

Choraminguices.  


Se uma ruiva estiver interessada, seja no que for, não informa ninguém. Decide agir e não há quem a detenha.
Não consegue perceber como pode haver gente que se a Gaffe não estiver interessada, avança de lança em riste para o campo de batalha e, ensanguentada, luta pelo alvo do seu desejo insano, mas que se a Gaffe mostrar um interesse mesmo hesitante, cala e sufoca a dor de se ver obrigada à renúncia.


Se a Gaffe estiver interessada, nota-se e nada contraria o seu desígnio.


Não consegue encaixar a benévola, solidária e abnegada disposição daquelas que recuam perante o seu eventual interesse e responde inevitavelmente que SIM, que está interessada e que trucida quem se colocar à frente, mesmo que o alvo desse imaginário interesse seja um demente, um serial killer, um loiro espampanante, inútil e imbecil ou um deslavado e minúsculo exemplar de orangotango.

 

- Não estás interessada, pois não?... É que se não estiveres...


Se não estiver, passa a ficar. Escancara-se frente ao objecto do desejo alheio e, sem delongas e de ferrão apontado, crava no coiro da cortês e obsequiosa abnegada a maldade gratuita que é roubar aquilo que nem sequer lhe agrada e que descarta logo que possível.


Quando o desejo é nosso e faz doer cá dentro, é de todo lícito atear todas as fogueiras do egoísmo e nelas queimar potenciais interesses que nos são alheios com a madeira hesitante das rivais possíveis.

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A Gaffe com Cristas

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.17

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A Gaffe está zangadíssima com António Costa.

 

Embora com relativa alegria o tenha visto de turbante e pachemina e confirmado o seu sentido de humor, não pode deixar de o repreender quando vê este maroto a apontar sorrisos a Assunção Cristas.

 

Toda a gente reconhece que esta rapariga é de boas famílias e as boas famílias não precisam de se preparar para debates com homens aborrecidos, lidos, experientes, manhosos, entediantes e velhos, alguns provenientes de perdidas - por sabe Deus que gente - colónias e que se atrevem a tocar no Chanel de uma menina de raiz exclusivamente portuguesa com imensos rebentos fofos, que tão bem iniciou a tutela do Ministério do Mar abolindo por Despacho as gravatonas cinzentas dos seus funcionários. Lufadas de ar fresco, marítimo, na penugem peitoral dos subordinados.

A Gaffe aplaudiu naquela altura e continua de mãos abertas à espera que Cristas denuncie a postura de segurança de discoteca das irmãs Mortágua que ainda não entenderam que o cenário é mais o de casa de alterne e que a descontracção - mesmo controlada por um senhor estranho, mas muito bem-parecido -, nos conduz sempre às posições repletas de piada de Passos Coelho que decidiu entretanto iniciar uma carreira na difícil área da stand-up comedy.

 

Uma rapariga não pode - quando pipila na sua maviosa pedalada de bicicleta com cestinho à frente preenchido por miosótis -, ser abalroada por um catrapillar em contramão, mesmo quando se esqueceu de ler o livrinho que ensina que o guiador normalmente está à frente do aparelho.

 

A pobre menina não consegue mostrar os desenhos que lhe fizeram em papel couché; não pode abanar as pulseiras de berloques e de guizos Cartier que exigem que o governo se lembre das Berlengas da dívida soberana e súbdita e tudo ao mesmo tempo; não lhe é permitido ficar com beicinho irritado e peitinho a tremer quando reivindica os irrisórios triunfos de uma geringonça que a retirou do seu Austin mini; não arranja modo de poisar uma boina na visita à feira - não toldando a leveza do abanar madeixa -, sem que um cigano lhe tolha a passada de tacão na média; não encontra uma forma de passar o brilho das suas intervenções de acutilante teor e arrasador efeito, sem ser esbardalhada por um brutamontes que lhe sorri como o gato de Alice.

 

A Gaffe não se espanta com a animosidade Jerónimo de Sousa, porque do senhor já se espera o destempero e a aversão a jóias Pandora, mas  está zangadíssima com António Costa, um cavalheiro que devia saber que custam caro se não forem uma versão em bico, e daqui lhe recorda que uma rapariga tem todo o direito de dar uns saltinhos na bancada, sem ver destruído por uma bruta bola de demolição o banquinho onde pousa o rabo.

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