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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a latejar

rabiscado pela Gaffe, em 30.06.17

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A Gaffe, de quando em vez, e lê os jornais e e vê os bonecos. A Gaffe, de vez em quando, está atenta ao latejar do seu país

 

É uma atitude que a maça imenso, mas que considera essencial para seu crescimento intelectual - coisa que, como é sabido, eleva qualquer um, apesar de ser mais interessante ver a chuva a cair e gatinhos a miar na rede.

 

Num destes batimentos auscultados, a Gaffe ouviu Passos Coelho a exigir sentido de Estado aos governantes, pouco tempo depois de ter anunciado suicídios em Pedrogão. É evidente, meus caros, que Passos Coelho se referia a ameaças de suicídio e não aqueles que só aconteceram porque um malandreco exagerado se lembrou de os inventar. Não se pode olvidar – a Gaffe estava ansiosa por usar um termo parlamentar! – que Passos Coelho sempre foi um visionário, um profeta disfarçado de estadista. Tendo em consideração a cinza que caiu nos móveis, que dá vastíssimo trabalho a limpar, uma paisagem toda cinzenta pela frente sem uma única piscina a funcionar no verde de uma espreguiçadeira, será bom de ver que depressa deprimimos. É evidente que o sentido de Estado pode e deve anunciar o que prevê após os factos ocorridos e que pode mesmo lembrar, caso ainda não seja projecto das vítimas, que o suicídio de uma criatura já calcinada por dentro pode ser mais uma belíssima oportunidade para arrasar a Constança. Se os suicídios não ocorreram e não existe previsão de tal, podemos sempre recorrer a um paspalho que nos mentiu e cravar no lombo do diabo um belíssimo e tão jeitoso foi ele que me disse, que pode ser usado também quando Passos Coelho de sorriso careca acarinha mimosamente o eucaliptal desgarrado, ilibando o pobre de incendiárias responsabilidades. Toda a gente sabe que o eucalipto é uma plantinha fofa, com características que não assustam nada e que só arde se a Mariana Mortágua a irritar muito. Passo Coelho sublinha o facto com veemência, ateando a botânica que lhe dizem.

 

Convém no entanto reter que este acreditar duro e puro naquilo que se ouve pode, não raras vezes, produzir benefícios.

A menina finalista que sabia de antemão, por fuga de informação de uma comuna sindicalista, que o seu exame contemplaria Alberto Caaaaaaaeiro, acabou possivelmente muito orgulhosa com a classificação que obteve, embora a Gaffe acredite que quem pronuncia Caaaaaaaeiro ao nomear um heterónimo do poeta, dificilmente lerá com rigor a pauta – ou a pôta? - onde se esbardalha a sua vigarice recompensada. Como será bom de ver, tornou ao mesmo tempo dificílima a localização da responsável pelo crime, tendo em conta que, para quem diz Caaaaaaeiro, todos os sindicalistas são comunas.

 

A Gaffe - para finalizar, que tudo isto é uma maçada -, sublinha que, contrabalançando estes extremos ocupados por um dito descompensado e um feito recompensado, podemos encontrar no meio Salvador Sobral. Foi lamentável o rapaz não ter dito e feito, colocando o microfone no rabo, gaseando as suas dúvidas, mas a verdade é que até esta pobre rapariga se debruçou estúpida, parva, imbecil, a cheirar uma mentirinha musical.

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A Gaffe por avisar

rabiscado pela Gaffe, em 13.06.17

Cristiano Ronaldo

 

Já saíram os gémeos de CR7 e a Gaffe só agora teve disso notícia, perdendo assim a oportunidade de assistir ao desfile da marca.

 

Agora mais vale esperar pelos saldos.

 

Ilustração - Luis Quiles

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A Gaffe aDAMAda

rabiscado pela Gaffe, em 08.06.17

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Os D.A.M.A. são um pequeno sucedâneo pretensioso das extintas boy bands, sem as suas vantagens - normalmente eram constituídas por rapagões em excelente forma física e conscientes das suas limitações musicais -, mas com todos os seus defeitos.

É provável que não mereçam um olhar e um ouvido que demorem mais do que uma cançoneta e poderá causar alguma perplexidade vê-los por estas Avenidas pouco melodiosas, mas a polémica totó que foi gerada por terem reagido de uma forma muito pouco educada - vamos ser benevolentes com os putos - à correcção de um erro ortográfico, a indignação da mais que provável adolescente responsável pela salvação da gramática, o consequente pedido de desculpa e a posterior exibição, por parte dos meninos, de um humor pateta pousado nesta ocorrência, deixa-nos terreno livre para libertar a nota.

 

Os D.A.M.A. pedem desculpa à moçoila em pranto - que lhes era devota e que resolve num assomo morfológico corrigir-lhes o ’tásse -, depois de a terem enfiado no grupo dos haters, achincalhando desta forma a imensa admiração, o brutal entusiasmo, a maior dedicação que a ofendida choramingas lhes dispensava. Divertidíssimos, os D.A.M.A. decidem agora apresentar desculpas também a Camões, mesmo sendo possível que não saibam o que é uma Epopeia e estejam a anos-luz da ironia e do sarcasmo.

 

Esta caricatura representa a inversão, ou a negação do que deveria estar assimilado. O talento, a mestria, a proficiência, a competência, a perícia – nem sempre sinónimos – estão na proporção directa da humildade. A genialidade é siamesa da capacidade de se reconhecer as falhas e da amarga consciência da responsabilidade que se assume quando falhar pode induzir em erro uma multidão – mesmo a que é constituída por adolescentes tontas. Os talentos - assim como os sábios e os génios -, são invariavelmente simpáticos, de uma humildade tímida que seduz e sempre dispostos a fazer tombar os olhos de vergonha perante um alerta de erro.

 

Fica desta forma explicada a minha desavergonhada arrogância e maldita antipatia.

 

É evidente que os D.A.M.A. não se podem incluir no grupo dos humildes ou no dos envergonhados, porque talvez não sejam mais do que um temporário vestígio de um musicalidade mais do que banal, replicado por outras bandas fit que surgem para adornar festivais de adolescentes espigados - tive o cuidado de os ouvir -, mas mesmo assim é de lamentar que superem o facto de forma sobranceira e enfatuada e que não tenham percebido que Camões não é um baterista.   

 

Ilustração - Joseph C. Leyendecker

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A Gaffe nos carrinhos de choque

rabiscado pela Gaffe, em 29.05.17

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Nestes dias conturbadíssimos em que o trânsito é absolutamente demoníaco e onde a conquista de um lugar de estacionamento é um desiderato capaz de nos despertar instintos assassinos, a Gaffe aplaude a Direcção Geral do Património Cultural e o Ministério da Cultura que concederam ao Salão Internacional do Veículo Eléctrico, Híbrido e da Mobilidade Inteligente o espaço interior do Museu Nacional dos Coches.

 

Podemos ter o prazer de ver agora esbardalhado ao lado do Coche da Coroação de Lisboa - uma das obras-primas encomendadas por D. João V para o triunfal cortejo da Embaixada ao Papa Clemente XI - o carrinho modernaço provavelmente publicitado por umas mamas rolantes.

 

A DGPC devia colocar a hipótese de ceder as instalações do Museu Nacional de Arte Antiga a Manuel Godinho. No final da pena de prisão o senhor estaria qualificado para encabeçar o Ministério da Cultura.

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A Gaffe dos três émes

rabiscado pela Gaffe, em 26.05.17

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A Gaffe leu há dias o texto de um senhor muito indignado que se amotinava contra o culto da futilidade e da desumanidade mais fria em detrimento da solidariedade global e da revolta contra os dramas tenebrosos que assolam o planeta.

Escrevia o senhor que nos movemos todos com o combustível do irrisório, do banal, do superficial, do fútil e do mais leviano, preocupando-nos apenas com o passageiro, com a ementa que nos torna fit e se temos reserva feita nas instâncias de luxo onde vamos passar férias. Os espoliados, os pobres, os restolhos do planeta, a miséria, a fome, o descalabro e a desolação, estão afastados dos nossos olhos e expulsos do nosso coração. O descrédito na humanidade era tamanho que chegaram duas breves lágrimas aos olhos da Gaffe, apenas recuperadas porque esta rapariga percebeu que quando o senhor alapa o rabo no banquinho e tecla esta denúncia, se salvam os povos da Nigéria, o carrapiço da Nova Zelândia em vias de extinção e a fome no planeta recua atemorizada.

Abençoados os posts deste senhor que deixam a Gaffe esmagada com a vergonha do que vai escrever em seguida.

 

Pois que é fútil.

 

A Gaffe percebeu que o país assumiu a trilogia dos émes, afastando-se da tradicional - Fado, Fátima e Futebol -, embora permaneçam alguns resquícios desta anterior, por exemplo, na colagem de Centeno a Ronaldo que o Ministro das Finanças alemão elaborou num surto de ciúmes e de inveja por se ter apercebido que Centeno tinha pernas para andar.   

 

Portugal evoluiu. É agora o país dos três émes que percorrem desenfreados todas as redes sociais e invadem todos os recantos e esquinas da vida portuguesa. Uma aceleração alfabética que a Gaffe não hesita em referir, procurando algum rigor nas suas enunciações.

 

Melania Trump  

                                   

A primeira-dama possivelmente prova que não vale a pena casar por alguns tostões. Embora sejam o aborrecimento e o dinheiro que mais casamentos fazem depois do amor, não é de todo aconselhada a via das finanças. Pedi-los emprestados sai sempre mais barato. Prova em simultâneo que as mulheres possuem uma vantagem sobre os homens: se não conseguem uma coisa sendo íntegras, conseguem-na sendo tolas.

 

É injusto chibatar a senhora apenas porque percebeu que se tinha a possibilidade de viajar em primeira não podia permitir que outra o fizesse, e é altamente penalizador esmagar-lhe a eventual distinção por não parecer acompanhada por alguns neurónios.

Melania possui uma espécie menor de elegância - a forçada. É uma mulher elegante à força. Desde que se mantenha calada, sem se mover muito, de perninhas juntas e mãos cruzadas, disfarça a total ausência de carisma e de charme - característica essencial à elegância genuína - e é palerma rasgar-lhe o maravilhoso D&G que usou para pedir ao Papa que lhe benzesse o terço.

Se a fotografia oficial do encontro dos Trump com o Papa tem um je ne sais quoi de família Adams, a responsabilidade tem de ser repartida com as trombas divinais, o trombil abençoado, as fuças santas de Sua Santidade.  

Melania não causou dano. Não sabe. É bonita e basta.

                                                                                                                                                    

Madonna

 

A Gaffe não encontra inconveniente em se perseguir uma estrela. Relembra que há já algum tempito uns senhores de muitas boas famílias seguiram uma e encontraram o Salvador, que é, com toda a gente desatou a saber, um rapaz amoroso, herói nacional, muito despojado e também de boas famílias - a irmã, apesar de fanhosa, é uma Braamcamp. Ele não, porque é simples, genuíno, descontraído, não dá importância ao dinheiro e, na linha do post do senhor que a Gaffe referiu no início, preocupa-se com os refugiados.

Perseguir Madonna é portanto encontrar a salvação.

Bem-haja.

Convém no entanto proteger a mulher da fúria do senhor do post, não vá dar-se uma tragédia e passarmos a ser parvos inúteis, porque não revelamos a nossa dor, a nossa solidariedade e o nosso espírito de sacrifício, no FaceBook com um belíssimo Pray For Madonna com as cores do arco-íris.  

 

Maria Capaz

 

A Gaffe só conhece Rita Ferro Rodrigues e conhece-a aos gritos alarves, às gargalhadas insanas, a endrominar mulheres velhinhas insistindo a cada minuto - as velhas têm dificuldade em ouvir e esquecem tudo, não é?! - para que façam uma chamada de valor acrescentado. Afinal, são mulheres livres do peso opressor do macho - mesmo que não, já não se lembram de como é tê-lo em cima.   

 

Embora compreenda que também os velhos deviam ser obrigados a aplicar uma parte da reforma na dinamização da economia - afinal nos lares têm cama, mesa e roupa lavada! – e que já não se lembram de nada, esquecendo-se com uma rapidez irritante do número do telefone que a Ritinha grita, a Gaffe pensa que devia ser interditada aos velhinhos brancos a participação no forrobodó, durante um período de tempo razoável e porventura pequeno, porque eles morrem muito. Assim, só porque sim.

Só mulatos para cima… e pretos … dizem que os pretos são potentes … e rijos … e que duram imenso … e que têm uma pila grande … e os culturistas da imagem ... estão bronzeados, não conta ... 

 

É apenas uma proposta, mas a Gaffe apela à inteligência acutilante e sempre criativa da Maria Capaz que a considerará um achado do mesmo calibre daquelas que propõe.

 

Posto isto, a Gaffe culpabiliza-se pela futilidade de tudo o que foi dito e vai reler o post do senhor revoltado do início do mundo, usando-o - o post, não o senhor que não é desses -  como chibata para se castigar.

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A Gaffe de Samuel Úria

rabiscado pela Gaffe, em 25.05.17

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Não sou fã da música de Samuel Úria. A culpa é toda minha. O meu espectro musical é pindérico e se realmente existe é da responsabilidade de esforçados amigos que insistem em preencher a minha inépcia musical encharcando-a com o que consideram de estupenda qualidade.

Mesmo assim, acabo a entregar importância à letra ou ao poema que é musicado, descurando por completo a melodia que o acompanha.

 

Exceptuando Wagner e Rachmaninov, apenas porque o meu avô os ouvia incessantemente, a música nunca fez parte das minhas horas, porque tenho o vício de as preencher com pessoas. 

Sou uma rapariga sem banda sonora.

 

É previsto, em consequência, não falar de Samuel Úria.

Há no entanto umas preciosidades que Samuel Úria nos entrega de quando em vez e que me conquistaram no primeiro encontro. 

 

As crónicas.

 

Podem ser encontradas na página sapo.pt - opinião & blogs - e são sempre extraordinárias, inteligentes, oportunas, povoadas de ligações que surpreendem, imprevisíveis, inesperadas, contundentes, articuladas de um modo fascinante que impelem o leitor a deslizar no texto sem qualquer atrito, fluindo até ao fim que nos parece sempre deixar saudades.

 

Samuel Úria é exímio neste registo e domina por completo a difícil arte de comunicar sem parecer que fica verde com o esforço, ou que nos deixa da mesma cor ao lê-lo.

 

O rapaz pode musicar as crónicas que escreve. Eu vou ouvir e comprar o CD.

 

Na foto - Gene Tierney

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A Gaffe de galochas

rabiscado pela Gaffe, em 16.05.17

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A Gaffe usa galochas.

Pretas, justas à barriguinha da perna, com uma ligação perfeita aos jeans - de cor uniforme, não vá parecer que andou nas obras -, e camisa muito masculina, larga, com um xadrez de inspiração escocesa, com um nó na cinta.

A Gaffe usa galochas para visitar os pobrezinhos nos bairros sociais e os mais desfavorecidos que vivem na lama e no esterco.

Nas visitas aos sem-abrigos, a Gaffe acrescenta um agasalho muito discreto, de caxemira de cor sóbria e respeitosa e botas de campanha. Os jeans são os mesmos, para não parecer que se varia muito e frisar que não são apenas eles, os pobres, que insistem em dizer que a moda é só aquilo que nos fica bem. Às vezes um tailleur vintage, ou um simples cobertor Galliano de 2010 que nos assenta na perfeição, é o que basta para nos actualizar imediatamente.

 

Atenção: Os sem-abrigo só existem de noite e não fica nada mal acrescentar ao outfit um capacete com uma pilha incorporada.

 

Nada é mais agradável do que saber que Assunção Cristas comunga deste elegante saber estar, lendo as suas oportunas declarações que nos revelam que, tal como a Gaffe, calça muitas vezes botas e enfia umas calças muito práticas, prontificando-se desta forma a calcar o cocó que os pobres fazem na rua, nos seus momentos mais globalizantes que os aproximam da cultura mais rude dos indianos.     

A Gaffe fica contente ao perceber que se pode cruzar com Assunção Cristas nestas visitas purificadoras, muito jeitosas e que nos deixam livres para optarmos por um guarda-roupa mais descomprometido e relaxante, contrário ao que tantas vezes nos é imposto pelas convenções sociais e que nos faz parecer saídas das fotografias de um século passado. O lazer que nos traz a possibilidade de usarmos o mais descomplexado, o mais jovial e descontraído, é muito descurado neste país que também esquece, paradoxalmente, que uma mulher de saia travada dificilmente cumpre o seu dever, como nos alerta Gonçalo da Câmara Pereira.

 

Como é evidente, a Gaffe concorda com Câmara Pereira. Uma saia travada prende imensos movimentos - muitas vezes os melhores - e é também desaconselhada quando a mulher assiste a uma tourada, depois de cumpridos os seus deveres domésticos. Uma rapariga senta-se naqueles estrados muito baixos, fica indecorosa e é evidente que pode causar alguma distracção na testosterona da arena. Uma saia travada é muito mais indicada a uma noite de fado, depois de cumpridos os nossos deveres domésticos - nunca é exagero repetir.

 

É uma alegria ver que Gonçalo da Câmara Pereira se une a Assunção Cristas na corrida à Câmara de Lisboa! Finalmente a capital tem a hipótese de se ver governada por um dueto saído de uma opereta, com um guarda-roupa irrepreensível.

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A Gaffe sempre alerta

rabiscado pela Gaffe, em 13.05.17

D.Ho

Num dia de grandes expectativas e de duplamente esperadas alegrias, a Gaffe não pode deixar que a euforia previsível apague a solidariedade para com os que sofrem.

A Gaffe não hesita em aderir ao grupo piedoso e sempre alerta que não se cansa de nos recordar, no meio do bacanal de cores e de cantigas, que existe sempre, algures, uma alma que sofre e um corpo  que padece, reportando-nos desta forma para a miséria que somos e para o pó que seremos.

 

Não ousando plantar aqui - porque demasiado doloroso -, um testemunho crudelísismo de um sofredor, a Gaffe sugere que todos os que transportam no coração a consciência do vácuo que nos é destinado e da consequente futilidade da alegria, cliquem na imagem e meditem.  

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A Gaffe centenária

rabiscado pela Gaffe, em 12.05.17

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A Gaffe finalista

rabiscado pela Gaffe, em 10.05.17

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A Gaffe também assistiu ao Festival da Eurovisão e apenas com Salvador Sobral sentiu que havia um espacinho para escapar da festa de arromba dos finalistas do 12º ano em Lloret de Mar, unida à feira da Ladra com salpicos de bacanal de despedida de solteiro estrelada por uma Micas del Vale del Fuego, bailarina de varão. Apenas com Salvador Sobral e com Amar Pelos Dois se conseguiu respirar durante uns minutos sem receio de, logo ali, nos enfiarem na garganta um pé, ou uma perna, ou uma mama, dos sucessivos acrobatas vocais e das respectivas coreografias pirómanas.    

 

Passemos a revista às tropas:

 

Azerbeijão

Uma Lady Gaga de quintal urbano que não sabe onde enfiar o gado, mantendo o cavalo quieto com a gritaria pretensamente dark.

Suécia

O Ken na passadeira com uma canção banal a lembrar os idos 80.

Grécia

Dois belos bailarinos de tronco nu e de pila apertada para desviar as atenções da porcaria da canção. Conseguiram.

Polónia

Não me lembro, mas sei que tive receio de ver entrar por ali dentro as cooperações de bombeiros de serviço.

Arménia

Também não, só sei que também gritou até vir o Chico – não o da Sobral, mas o da expressão portuense - segura que era Kali que desabou ali por engano. 

Austrália

A mãe devia ter tentado impedir o menino de fazer figuras tristes imitando o Bieber aos berros. Os adolescentes sozinhos são por norma parvos. 

Moldávia

Um bando de bacanos com uma canção toda bacana. É fácil esquecer o quanto se divertiram a cansar-nos.

Chipre

O Robbie Williams de pacotilha a esganar uma versão menor de Party Like a Russian.

Bélgica

Uma voz grave e bonita numa canção interessante. Estou ansiosa por a ver na final a desabar em lágrimas e a chamar pela mãe.

 

E depois Portugal com Salvador Sobral a provar que uma melodia que vai buscar aromas aos anos 50, à Bossa Nova e ao Jazz, pode ser interpretada apenas com o coração todo inteiro em cada palavra.  

 

Tão lindo, Salvador! Gostei tanto da tua camisola!

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A Gaffe a "Amar Pelo Dois"

rabiscado pela Gaffe, em 08.05.17

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A véspera dos acontecimentos é a derradeira oportunidade que temos de falar deles correndo o risco de nos enganarmos.

 

Neste pressuposto, mas sabendo que não haverá engano posterior, chegou o momento de falar de Salvador Sobral.

 

Li e ouvi elogios rasgados à canção – incluída na área do Jazz-pop, segundo os especialistas - que irá representar Portugal no festival da Eurovisão, ao mesmo tempo que ouvia e lia imensas patetices maldosas que incluíam a condenação da letra por se revelar apologista da anulação, por amor, de alguém a favor de outro alguém e de certa forma publicitar este revoltante estado ou predisposição. É inútil fazer com que estes exigentes críticos reconheçam que o Fado ficaria sem uma fatia substancial do seu repertório se abolíssemos todas as estrofes que assumem a escolha desta desistência em favor do outro, ou com que ouçam uma das mais extraordinárias canções de amor jamais escritas, porque suspeito que o …

 

Laisse-moi devenir 
L'ombre de ton ombre 
L'ombre de ta main 
L'ombre de ton chien 
mais, ne me quitte pas.

 … Seria retirado do poema por apelar à bestialidade.

 

É uma argumentação paupérrima, parola e medíocre e não pode ser tida em consideração.

 

Ao lado, mesmo ao lado, está a censura à forma com que Salvador Sobral se coloca em palco e interpreta a canção, aliada a uma revoltada denúncia de sobrevalorização da sua voz.

Concordamos todos. Salvador Sobral não é Ricky Martin. Felizmente.

 

Seria muitíssimo proveitoso rever o concerto de Salvador Sobral transmitido pela RTP1 no passado Sábado, porque ali descobrimos a inutilidade de todos estes beliscões daninhos.

 

Seria muitíssimo interessante que neste exacto concerto ouvíssemos a versão de Nem Eu de Dorival Caymmi, porque é nesta reinterpretação que Salvador Sobral prova uma extraordinária sensibilidade, mesclada com um humor requintadíssimo, entregue em diálogo inteligente e sapiente com o piano que reconhece a dádiva total do intérprete a cada palavra dita - e sentida - sem equacionar qualquer manuseio mais consentâneo com o bambolear de ancas de Ricky Martin e atingindo com uma facilidade deslumbrante as notas mais agudas, sem sequer danificar por breves segundos a suavidade e o veludo da voz.

 

Salvador Sobral é ele todo inconfundível. Nada de tonto se sobrepõe a sua capacidade vocal e interpretativa.

 

No eterno festival de gritedo desalmado, de ruído de coxas e de plumas a voar em crises epilépticas, defendendo uma canção que dignifica aquele lantejoular repetitivo, finalmente actuará um cantor de excepção.  

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A Gaffe num futuro composto

rabiscado pela Gaffe, em 26.04.17

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Depois de ter verificado, nos instantes anteriores à piscadela de olho de José Rodrigues dos Santos, se estou compostinha, com um pijama inócuo, de perninhas fechadas e botão apertadito, sem qualquer expressão que permita supor intenções mais marotas e ter confirmado que não estava prostrada no sofá numa pose susceptível de despertar a libido do cavalheiro ou parecer que no fim do telejornal nos encontramos para ardentes trocas de informações de carácter mais manual, deparo-me com uma certeza que me deixa perplexa.

 

A comunicação social vai procedendo à substituição do alegadamente pelo uso do futuro composto, abolindo o presente, o passado, ou mesmo o imperfeito, dos tempos verbais que se esperam numa notícia dada depois de confirmada até à exaustão.

 

A baleia que terá dado à costa e que vemos esbardalhada no areal, poderá não ser a baleia que terá dado à costa, mas poderá dar-se o caso de ser o senhor deputado Carlos Abreu Amorim que terá decidido passar uns dias na praia. O assassino ensanguentado, com a cabeça da vítima debaixo do braço e a reivindicar a autoria do crime como um desalmado do Daesh, poderá ter sido o mesmo que a Patrícia Vanessa terá filmado a esquartejar o cadáver - que terá sido morto antes de ser supostamente cadáver -, alegadamente com o telemóvel, da suposta varanda que terá vista privilegiada para o ocorrido. O senhor com o equipamento que poderá estar em uso na GNR - chama-se especial atenção para o modo como a farda lhe assenta lindamente -, banhado em lágrimas a jurar que o carro esfrangalhado que ali está foi o que se estampou contra um poste - num alegado acidente que poderá ter causado uma vítima supostamente sem gravidade que pode ter sido levada para o Hospital -, poderá ser a Princesa Diana que terá muita experiência nestas ocorrências.  

 

Esta feira de probabilidades entregues ao público que as consome sem apelo nem agravo, este arraial noticioso pejado de incertezas e de hesitações, comprovativo da incompetência - e do medinho do processo em cima -, dos jornalistas que escolhem o balancé do poderá ser assim, mas poderá ser que não, é transversal a toda a comunicação social e faz pairar sobre a cabeça do alegado profissional que oscila desta forma o halo dos inocentes sem compromisso assumido, sem certezas incontestáveis, isentando-o da responsabilidade e da obrigação de se confirmar o que é noticiado, revelando ao mundo que poderá ter estado ali, mas que poderá não ter estado. Nestes casos, é a mesma coisa.

 

Seguindo esta linha de prática jornalística tão em voga, decido ilustrar estes rabiscos com uma imagem que alegadamente não tem nada a ver com o que está escrito. Poderá ter sido por não ter encontrado outra melhor, poderá ser por supostamente ter havido um desencontro com a mais adequada e poderá ser que não, podendo ter sido por considerar que se piscar um olho no final deste fraseado, o que escrevo se torne confirmado.

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A Gaffe da Duda

rabiscado pela Gaffe, em 20.04.17

2.jpgA vida, nos últimos dias, não tem considerado necessário parar de me surpreender.

 

Primeiro foi uma máquina que cozinha sem nos maçar e com muito pouca ou nenhuma interferência nossa, agora é um blog que descobri nas minhas parcas andanças por estes caminhos e que me deixou siderada.

 

O blog pertence - tudo indica e não encontro razões de peso para suspeitar o contrário - a uma menina que não parece ultrapassar os dez anos. A Eduarda é a mais jovem e mais recente fashion adviser do burgo e se abandonasse as poses que considera as melhores para uma aproximação às meninas mais crescidas e com mais maminhas, assumindo uma imagem mais criança-Benetton, estou segura que a Zara Kids encontraria matéria suficiente para equacionar um patrocínio.

 

Os textos que acompanham as fotografias, apesar de previsíveis, são escorreitos, bem articulados, bem construídos e não ofendem com lapsos morfológicos, tropeções na sintaxe, ou mesmo com os deslizes que se compreendem - embora custem a aceitar - numa menina que mal entrou na pré-adolescência. São textos bastante maduros para a idade e encontram-se na linha dos produzidos por um qualquer blog de moda deste burgo e arredores - há um que é melhor.

 

As imagens denunciam um fotógrafo adulto pelos ângulos de captação e pela aparente qualidade que revelam.

 

Estes dados reunidos permitem saudar esta menina e esperar que a petiza mostre rapidamente aos papás o trabalho que encetou no difícil e labiríntico e culturalmente rico universo das fashion adviser e recordar aos adultos que a coadjuvam de forma tão profissional que se Eduarda rules, rules não se sabe para onde e rules demasiado depressa.  

 

Um beijinho, Eduarda.

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A Gaffe finalista

rabiscado pela Gaffe, em 10.04.17

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Juntar um grupo grande de jovens símios misturados com o LSD do Sul de Espanha permite observar a oscilação frequente entre a indigência e a debilidade cerebral e separar estas duas ocorrências que tantas vezes se confundem, mas é uma atitude cansativa, tendo em consideração que acabamos a rever comportamentos similares todas as vezes que a situação se verifica.

 

Não é de estranhar o acontecido num hotel espanhol arrasado por adolescentes num final de carreira.

 

É recorrente embora desta vez não tenha havido, como há dois anos, notícia de violação nos corredores. Os jovens símios limitaram-se a reclamar contra o albergue e contra o alegado incumprimento de contrato com actos um bocadinho mais rebeldes que se compreendem tendo em consideração que não estão num retiro espiritual em Fátima - como referiu de modo tão risonho uma senhora que faz parte da direcção da Confederação de Pais, seja lá o que isso for.

 

O que choca é a indignação da mamã da Confederação perante o modo como foram tratados os querubins após terem despejado mobiliário na piscina, riscado paredes e portas, esbardalhado matéria suja por onde passaram e escacado o que conseguiram apanhar, e aquela espécie de justificação escandalosa que recorre ao facto de ser espectável que os meninos e as meninas, que não estão num retiro espiritual, vandalizem o que lhes aparece na frente, por não estarem sobre o escrutínio parental.  

 

O que choca é ouvir o papá reclamar contra o sistema de ensino que provoca uma desresponsabilização das Escolas no que concerne à educação cívica dos seus alunos, tendo por tal de ser considerada ré neste caso que não passa de, sublinha, uma reacção ao mau serviço de quartos de um hotel que não percebeu que não iria receber peregrinos, mas idiotas, cretinos, imbecis e potenciais hooligans - normalmente coincidem, mas neste caso há que tentar distinguir algumas fases de destruição cerebral.

 

O que choca é ouvir o responsável pela agência de viagens declarar que minutos antes da chegada ao maldito hotel fez uma palestra que durou dois minutos alertando os meninos e as meninas para o perigo que é destruírem os extintores de incêndio, sabendo que o fogo que os marotos lançam aos cortinados não pode ser dominado vomitando o álcool que consomem e que a culpa das pequenas irritações destes príncipes é da muda das toalhas que não se foi fazendo.

 

O que choca é perceber que à mamã da direcção da Confederação de Pais, ou ao papá da condenação das Escolas, se juntam outros tais tentando ilibar as crias sem entenderem que ao mesmo tempo dão o nó na venda que colocam nos olhos e que até agora tem estado presa pelo alfinete de uma visão selectiva.

 

Apesar de tudo, que rejubilem as Associações Académicas mais tradicionais. Existe a garantia que terão nos próximos anos as praxes asseguradas.

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A Gaffe "turistificada"

rabiscado pela Gaffe, em 06.04.17
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Num tempo que já lá vai, descíamos os Clérigos para visitar, no Largo dos Lóis, a velhíssima livraria onde misturado com bolor encontrávamos o antipático e bafiento empregado que quase nos expulsava à força de perdigotos; procurávamos botões antiquíssimos na retrosaria em frente, as rendas desbotadas, os entremeios, as linhas coloridas que comprávamos apenas por capricho; visitávamos o velho ferro-velho que tinha, pintado à mão, no vidro da montra, o presunçoso título de Antiquário e que vendia alfinetes de peito e chávenas de chá inglesas como se fossem relíquias arrancadas a memórias com séculos e tomávamos chá na leitaria ao lado, levadas ao céu pela fatia de bolo de mármore que não dispensávamos.

 

Não convém afastarmo-nos durante muito tempo dos lugares que nos foram queridos. As metamorfoses por eles sofridas devem ser por nós acompanhadas para não nos abocanharem de repente.

 

Levaram-me a visitar o requalificado e reabilitado quarteirão das Cardosas. Há tanto tempo a não via e que saudades, Deus meu!

 

Entro na Disneylândia!

 

Das ruas repletas de casario com um traçado arquitectónico único e plural, ficaram apenas as cascas agora uniformizadas das casas antigas. O facto de não ter existido a preocupação em reabilitar lenta, penosa e pensadamente, caso a caso, prédio a prédio, casa a casa, deu origem a um aglomerado de edifícios turistificados.

 

Esta Baixa do Porto reabilitada anuncia através de um patético slogan imobiliário o público a que se destina: Jovens casais, criativos, jovens intelectuais e novos pensadores. O preço do mais exíguo apartamento deste complexo Disney é dez vezes maior do que aquilo que o público-alvo ganharia em duas ou três décadas, se, com uma esperança do tamanho destes preços, os jovens filósofos, os novos artistas saídos das Belas-Artes e dos Conservatórios ou os novatos letrados, conseguissem hoje arranjar um emprego, mesmo um que lhes dificultasse ou impedisse o exercício das suas qualificações.

 

A actual reabilitação da Baixa portuense corre o risco de se tornar apenas uma turistificação de uma zona histórica, muito city users, muito cidade dos eventos, onde pulula o consumo gourmet com peças de artesanato de Carrazeda de Ansiães, compradas ao custo da chuva, expostas em vitrinas Philippe Starck a preços que permitem supor que compramos também a obra do designer e a cafés onde há estantes com livros com a lombada contra a parede, porque a paleta dos brancos, bejes, dos marfins e pérola das páginas fechadas que se mostram, condiz com a decoração acastanhada e não faz tanto ruído como se visíveis fossem os títulos das obras.

 

Business is business, mas tem de haver mais vidas.  

 

Turistificar não é o mesmo que reabilitar. A primeira cirurgia transforma uma cidade num imenso parque temático, a segunda, obriga a que cada caso, cada prédio, cada casa, cada esquina e cada recanto regenerado, seja capaz de continuar a produzir memórias, conservando aquelas que deles já temos e que dentro deles fomos construindo.

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