Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe da Frederica

rabiscado pela Gaffe, em 10.02.17

Fredrica

 

A Gaffe, num dos seus momentos menos conseguidos, decidiu parecer imbecil e examinar a mais cintilante polémica em torna de Cristina Ferreira, para se certificar que não a considera sem razão válida o protótipo da parola esperta que enriqueceu de repente.

 

Deu início a tarefa folheando os blogues de referência e que se debruçam sobre o assunto e estancou no primeiro que passou pelo seu monitor.

 

A amorosíssima Vanessa Martins mostra toda a sua mimosa indignação e bate com os pezinhos no chão perante o carrossel que não abranda movido pela perseguição invejosa que fazem à apresentadora que odeia ser vista e sobretudo ouvida.

A Gaffe tem de admitir que concorda com a irritadíssima Vanessa. Diz-nos num lamento revoltado esta rapariga inteligente que na sua vida profissional há pessoas que questionam como ganha dinheiro com um blogue e acrescenta, sábia, que existem pessoas que só querem saber da vida dos outros. A talentosa Vanessa sente também que as pessoas estão mais ocupadas com a vida dos outros do que com a sua própria vida.

 

Queixumes e revelações que arrancaram à Gaffe, revista nestes pungentes lamentos, uma ou duas lágrimas de solidariedade.

 

Não interessa compreender que é exactamente por causa destas malfadas características do povo que a Vanessa ganha dinheiro com o blogue - segundo as suas belas e expressivas palavras. Não interessa descobrir que a doce menina esbardalha por todo o lado, canto e esquina, pormenores ilustrados da sua vida amorosa que permitem escacar na praça pública o que a rapariga faz em privado - sinto isso na minha vida amorosa, ou seja, faz de conta que sente os cacos do olhar do populacho a picar as fitas e fotografias do seu casamento a cavalgar por todas as redes sociais. Sofre, porque é inocente, porque apenas gosta de viver e partilhar, porque sabe montar o touro da vida e mostrar como é capaz de equilíbrios, porque é feliz e ganha uns trocos com os pequenos nadas do seu quotidiano que publica incessantemente apenas para mostrar ao mundo como é uma menina boa, alegre e não para se expor como carne num talho, mesmo correndo o risco de depois ficar zangadita por perceber que as pessoas não davam nada pelo seu namoro - vingou-se destes abutres, porque entretanto se casou quando ninguém acreditava. Não é preciso fazer notar que o marido é nada mais do que um rapaz muito cerebral de músculos inflacionados que participou, espalhando sofisticação, discrição, charme e discernimento, criando inúmeros momentos de raro raciocínio capaz de ser apenas entendido por Eduardo Lourenço, nas várias edições do Big Brother, que é como sabemos um programa de entretenimento onde a privacidade pugna por se fazer notar.

 

Isso agora não interessa nada.

 

Ilustração - Joachim Barrum

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe neo-realista

rabiscado pela Gaffe, em 09.02.17

Mirko Hanák.jpg

João Miguel Tavares não me inspira qualquer tipo de simpatia, mas esse facto não me impede que esteja disponível para o ouvir e ler com respeito e atenção.

Foi exactamente com esta disposição que o apanhei - a propósito da polémica suscitada pela obra de valter hugo mãe esfrangalhada pela pudicícia -, a tentar ser engraçado recortando uma frase do livro A Vida Mágica da Sementinha de Alves Redol, comprovando o que já sabemos, ou seja, que uma frase decepada e arrancada de um contexto, permite ser guiada para onde a nossa sardinha vai assando ou esturricando.

O colunista finaliza a intervenção suplicando que a obra de Alves Redol seja retirada por ofensa ao pudor do programa dos alunos do 5º ano. A pretensa ironia é regada com um sorriso galhofeiro e não passaria por mais se não fosse a adenda que João Miguel Tavares decide colar ao já demonstrado. O jornalista acrescenta que há uma razão, bem mais séria, para o seu rogo. A obra é horrível. Repete horrível já na risota.

 

É improvável que João Miguel Tavares, com filhos que a estão a estudar, não tenha lido a obra em causa, mas é mais do que evidente que o colunista desconhece o que é ensinado no grau de instrução que os petizes frequentam.

 

A obra de Redol que o jornalista condena é a escolha perfeita para a faixa etária eleita para a estudar.

 

Existe no pequeno livro uma miríade de possibilidades de intertextualidade e de interdisciplinaridade. A obra permite uma cumplicidade notável, sobretudo com as Ciências e com a História - havendo mesmo trechos que deviam ser lidos pelos professores destas disciplinas, usando-os depois como impulso para a descoberta e conhecimento do que querem transmitir -,  e as personagens que a povoam estão impregnadas de uma poeira poética com um sabor a paisagem alentejana tantas vezes dorida que permite um encontro com uma realidade menos amena e menos acolchoada.

 

Os pássaros que se espalham nas folhas da obra, os seus pequenos conflitos, as suas emoções, os seus amores, permitem que o pequeno leitor se veja ao espelho e contribui para uma mais suave entrada num estádio que antecede a perturbação da adolescência; a clareza com que é revelado o esplendor da diversidade e a importância que esta deve ter; a permeabilidade da obra a outros dados oriundos da história, da ecologia ou da biologia e a poética que se encarrega de acordar a fantasia e povoar o imaginário das nossas infâncias, fazem da escolha do livro um exemplo maior de séria pedagogia e de João Miguel Tavares, que o considera horrível, - assim, à toa, só porque assim é engraçado -, um rapaz muito propenso a comportar-se como os encarregados de educação que censuraram valter hugo mãe.

 

Ilustração - Mirko Hanák         

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe no vosso reino

rabiscado pela Gaffe, em 01.02.17

rebate.gif

 

Toquem os sinos a rebate! Anunciem a boa nova! Rejubilem!

 

A Gaffe emergiu resplandecente depois de se ter retirado para acrescentar valores à sua biblioteca - versão Portugal dos pequeninos.

Durante este retiro espiritual, a Gaffe foi adicionando cromos à sua colecção de citações, saltaricando de Citador em Citador até considerar que o reunido continha a aura de intelecto capaz de impressionar o mais valente literato.

 

A Gaffe acredita de forma pia que acumular frases assinadas por consideráveis vultos de valoroso estatuto intelectual - mesmo que os pobres não as tenham escrito, ou que o tenham feito apenas para as desconstruir nas páginas seguintes -, equivale a conhecer de modo profundo o pensamento do suposto autor. Um processo de equivalências muito em uso em algumas faculdades privadas do país.

Citar, por exemplo, Sartre - O inferno são os outros - é suficiente para atestar a nossa intimidade com O Ser e o Nada e traz implícito o nosso convívio com Camus, Kierkegaard e até, com algum esforço, com T.S. Eliot.

 

A Gaffe considera de utilidade pública o processo que nos leva a resumir milhares de páginas a uma frase gira, colhida algures no meio delas, que em certas circunstâncias nos ajuda a levar a água ao nosso moinho - esta rapariga passou uma temporada muito bucólica, como se depreende - e é sempre agradável para o leitor ficar arrepiado com a grandeza que escorre dali - embora descontextualizada, raquítica, enfadonha, decepada e isolada -, porque supostamente alicerça, justifica, iliba e glorifica as mais miseráveis fraquezas e impotências, para além de se ficar com imenso tempo para a atirar às chamas do inferno que são os outros.  

 

Este maravilhoso processo de pechisbequice literária tornou-se banal e está acessível a todo o género de criaturas cultas. Basta abrir um site de quotes e cotizar as que nos são úteis, publicá-las e esperar que nos coloquem na cabeça o esplendor dos avisados que sabem, por interposta pessoa, castigar os infernais.

 

Não é de todo obrigatório ler a obra onde é pescada a cintilante citação. Basta que se veja o que se quer no meio do que se não vê.

 

A Gaffe é apologista - podologista, como diria a Mélinha – da pechisbequice literária, porque para tratar de uma cortada unha do pé da literatura universal não é necessário estudar o Harrison e congratula-se ao perceber que os senhores responsáveis pela selecção do obras a incluir no Plano Nacional de Leitura e os papás que o seguem pensam o mesmo. 

 

É cansativo perder tempo com valter hugo mãe - e a Gaffe não morre de amores pela sua escrita nem se deleitou com a obra causadora de tanto disparate - sabendo-se que o rapaz já ganhou o prémio Saramago. Um vislumbre pela sinopse de um livrito é suficiente para o encaixar algures.

É inútil ler a obra inteira, embutida desta forma num Plano atrapalhado com tanto cavalo à solta - minha alegria, minha amargura minha coragem de correr contra a ternura - se conseguimos fazer pairar, desamarrada, a piscar sexo, uma frase arrancada a uma personagem que sem ela ficaria de certa forma incompleta e por caracterizar como o autor requer. 

 

A pechisbequice literária - companheira de tantas outras que pululam por todos os cantos, facilitadas e facilitadoras -, é a única causa desta espécie de polémica que assolou outrora - salvaguardando-se contextos e distâncias - a Ilha dos Amores nos Lusíadas e o Evangelho segundo Saramago e Jesus Cristo.

 

 A Gaffe leu o pedacinho mísero que consubstancia o móbil da condenação e que obriga a obra a desviar-se de leitores com menos de quinze anos - impresso até nos fazer desejar enviar os citadores para o lado da senhora que a frase menciona -, e como por encantamento - o tão glorificado e sobrevalorizado poder de um livro não é de menosprezar até mesmo aqui! - foi levada em viagem até ao quarto das donzelas vitorianas cujo dormir era vigiado por amas acordadas que travavam, com solavancos de pudor traduzidos em beliscões bem dados, os gemidos suspeitos dos sonhos das meninas; aos conventos oitocentistas onde se esmagavam as maminhas às monjas com tiras de pano de modo a que não sofressem as sevícias dos desejos carnais, tocando nos mamilos umas das outras, e à sala dos encarregados de educação do petiz que ficou sem a Playboy de Janeiro, porque é bem mais favorável a um parental relaxamento que o puto continue a guardar vídeos pornográficos no telemóvel que lhe foi dado pelo Natal.

 

Num adaptar muito original de uma citação já muito picotada, estas deslocações sem se sair do sítio encetadas pela Gaffe trazem apenso a certeza de um facto. A pechisbequice -seja em que área for - faz apenas com que fiquemos a olhar para o rato que foi encontrado nos sopés do Evereste.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe "comentadeira"

rabiscado pela Gaffe, em 23.01.17

mad.jpg

Milhares de comentadores saídos dos confins do Inferno, do rabinho do mundo, do lugar onde o demo perdeu as botas e não as foi procurar porque era longe e das esquinas do céu, comentaram a tomada de posse de Trump.

 

A Gaffe depois de ouvir um jornalista a reproduzir o discurso de Trump, logo após o ter ouvido em directo e com tradução simultânea, assistiu ao desfile de toda a espécie de criaturas, desde sociólogos, politólogos, actores e actrizes, declamadores, figurantes dos programas da manhã, eremitas, representantes de partidos políticos, activistas dos direitos dos bichos, donas de casa desesperadas, stripers, maquinistas de pesados, marinheiros, motoristas de ligeiros com reboque, a apresentadora esverdeada dos sorteios dos jogos da Santa Casa, populares colhidos pelo touro do microfone das touradas de serviço e um nunca mais acabar de outras gentes que opinavam sem fim à vista, mar adentro, como se existisse nos clichés repetidos até à exaustão uma migalha de singularidade que se destacasse no aterro de inutilidades que se foi erguendo.

 

Depois de tudo dito e repetido até ao infinito do aborrecimento - e percorreram-se todos os canais, chegando mesmo a passar pela CNN - A Gaffe teve uma epifania.

 

Martim Cabral, jornalista habituado ao ir, que é o melhor remédio, desta vez assentou praça como comentador - já que a senhora da limpeza que ganhou o primeiro prémio com a sua esfregona e balde esquecidos e encostados à parede, atribuído por um júri de críticos de arte que desconhecia o autor da obra de acentuado valor artístico, numa performance do Museu de Arte Moderna em NY, e o curador da exposição de Miró que o expos de cabeça para baixo durante vários meses, estavam ocupados a comentar num canal rival -, e referiu um sinal que estava a passar despercebido a nível mundial.

Não era o desaparecimento do site da Casa Branca, horas depois da tomada de posse, dos separadores que se reportavam aos Direitos Humanos, aos direitos LGBT e do que documentava as alterações climáticas do planeta ou mesmo a assinatura do Despacho que retrai o Obamacare, ou ainda à declaração de David Duke eufórico por saber que finalmente conseguiu.

 Não!

O sinal encriptado que Martim Cabral detecta e para o qual nos alerta, vai muito além da superfície, mergulha na nossa condição de invisuais perante o que de subtil se vai desenrolando, deixando-nos em perplexidade profunda por não haver uma descodificação capaz de nos sossegar, é o que está patente na cor usada pelas filhas de Trump igual a escolhida por Hillary!

Um enigma que consubstancia um aviso subliminado que Martim Cabral - perante o desconforto da moderadora que leva mais de trinta segundos a retomar o fio da meada já todo enredado e a recuperar a compostura - não explica, mas assinala como altamente significativo.

A Gaffe atribui enormíssima importância a este dado, a este sinal referido por Martim Cabral.

As três de branco, provavelmente sinalizando três virgens! Que sabemos nós?!

Esta rapariga siderada aguardou que o jornalista desvendasse tão suspeita e enigmática coincidência, mas o mistério adensou-se e permanece para ser desconstruído pela história.

 

A Gaffe dobra o seu estado de intricada dúvida quando Martim Cabral deixa escapar Melania sem nos fazer notar que a nervosíssima primeira-dama, essa mais dos que as três virgens, é também portadora de uma enviesada mensagem de Trump que não quer deixar escapar o modo como traça os destinos das mulheres. Melania Trump usa luvas de cozinha, sinal - evidentemente subliminar - de que é no meio dos tachos ou a limpar sanitas que uma mulher deve cumprir o seu fado.   

 

Não sabemos como Martim Cabral se absteve de tocar neste pormenor de repercussões tão freudianas, desconhecemos também se Martim Cabral reparou no look total azul-cueca da primeira-dama que induz um sub-reptício convite a saltar para esta tonalidade de cor, mas reconhecemos que para comentar uma cerimónia destas, mais vale um jornalista imbecil do que uma multidão de rústicos arrancados à toa e onde se consegue, a fingir que têm e que são imprescindíveis as opiniões que debitam num loop infinito.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe de transição

rabiscado pela Gaffe, em 20.01.17

 Ladies and gentlemen, the last President of

the United States of America

Obama.jpg

 

A Gaffe receia que o derradeiro presidente dos Estados Unidos aceite que é banal existir um país governado por um psicopata.

 

Foto - Mark Seliger

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe d'O

rabiscado pela Gaffe, em 19.01.17
 

michele Obama.jpg

A polémica foi medíocre, mas acabou por despertar a nossa atenção.


Michelle Obama.


Independentemente da sua tão invocada elegância, discutível como é normal, porque a noção de elegância é de tal forma subjectiva que a atribuição do estatuto é contestável, a senhora Obama assustava um pouco.
Dizem as más-línguas, que como sabemos são demasiado interessantes e interesseiras para nos podermos dar ao luxo de as ignorar, que esta mulher foi uma primeira-dama reservada, seca no trato, prepotente e dominadora.


Seja.


O facto de parte do mundo cor-de-rosa a ter começado a tratar por Michelle O, por analogia com outra O, não há motivo ou razão lógica para a aproximar da famigerada e elegantíssima Jackie.
Michelle foi e é incontestavelmente diferente.
Não teve como é evidente o allure francês que foi mantido durante toda a vida pela Kennedy-Onassis mas em contrapartida manteve um gabinete seu - muito capaz e de importância capital -, na Casa Branca.


Entre uma elegância compulsivamente consumista, uma fotogénica oscilação entre a depressão e a discreta euforia própria dos neuróticos bem controlados, e uma elegância que advém da notória inteligência de quem acompanha, impulsiona, fortalece e até mesmo substitui o seu Presidente, nós, raparigas espertas, por muito que nos custe, escolhemos a segunda, mesmo que isso assuste os cor-de-rosa pouco habituados a ver o topo do mundo ocupado por uma mulher de cores diferentes.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe sem interesse

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.17

no.gif

A Gaffe irrita-se.
Claro que se irrita!
Não consegue ouvir a desgarrada frase:

- Não estás interessada, pois não?... É que se estiveres... - e para agravar - desisto até se for talvez... é que eu não sei... talvez...

 

Choraminguices.  


Se uma ruiva estiver interessada, seja no que for, não informa ninguém. Decide agir e não há quem a detenha.
Não consegue perceber como pode haver gente que se a Gaffe não estiver interessada, avança de lança em riste para o campo de batalha e, ensanguentada, luta pelo alvo do seu desejo insano, mas que se a Gaffe mostrar um interesse mesmo hesitante, cala e sufoca a dor de se ver obrigada à renúncia.


Se a Gaffe estiver interessada, nota-se e nada contraria o seu desígnio.


Não consegue encaixar a benévola, solidária e abnegada disposição daquelas que recuam perante o seu eventual interesse e responde inevitavelmente que SIM, que está interessada e que trucida quem se colocar à frente, mesmo que o alvo desse imaginário interesse seja um demente, um serial killer, um loiro espampanante, inútil e imbecil ou um deslavado e minúsculo exemplar de orangotango.

 

- Não estás interessada, pois não?... É que se não estiveres...


Se não estiver, passa a ficar. Escancara-se frente ao objecto do desejo alheio e, sem delongas e de ferrão apontado, crava no coiro da cortês e obsequiosa abnegada a maldade gratuita que é roubar aquilo que nem sequer lhe agrada e que descarta logo que possível.


Quando o desejo é nosso e faz doer cá dentro, é de todo lícito atear todas as fogueiras do egoísmo e nelas queimar potenciais interesses que nos são alheios com a madeira hesitante das rivais possíveis.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe com Cristas

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.17

1.03.png

A Gaffe está zangadíssima com António Costa.

 

Embora com relativa alegria o tenha visto de turbante e pachemina e confirmado o seu sentido de humor, não pode deixar de o repreender quando vê este maroto a apontar sorrisos a Assunção Cristas.

 

Toda a gente reconhece que esta rapariga é de boas famílias e as boas famílias não precisam de se preparar para debates com homens aborrecidos, lidos, experientes, manhosos, entediantes e velhos, alguns provenientes de perdidas - por sabe Deus que gente - colónias e que se atrevem a tocar no Chanel de uma menina de raiz exclusivamente portuguesa com imensos rebentos fofos, que tão bem iniciou a tutela do Ministério do Mar abolindo por Despacho as gravatonas cinzentas dos seus funcionários. Lufadas de ar fresco, marítimo, na penugem peitoral dos subordinados.

A Gaffe aplaudiu naquela altura e continua de mãos abertas à espera que Cristas denuncie a postura de segurança de discoteca das irmãs Mortágua que ainda não entenderam que o cenário é mais o de casa de alterne e que a descontracção - mesmo controlada por um senhor estranho, mas muito bem-parecido -, nos conduz sempre às posições repletas de piada de Passos Coelho que decidiu entretanto iniciar uma carreira na difícil área da stand-up comedy.

 

Uma rapariga não pode - quando pipila na sua maviosa pedalada de bicicleta com cestinho à frente preenchido por miosótis -, ser abalroada por um catrapillar em contramão, mesmo quando se esqueceu de ler o livrinho que ensina que o guiador normalmente está à frente do aparelho.

 

A pobre menina não consegue mostrar os desenhos que lhe fizeram em papel couché; não pode abanar as pulseiras de berloques e de guizos Cartier que exigem que o governo se lembre das Berlengas da dívida soberana e súbdita e tudo ao mesmo tempo; não lhe é permitido ficar com beicinho irritado e peitinho a tremer quando reivindica os irrisórios triunfos de uma geringonça que a retirou do seu Austin mini; não arranja modo de poisar uma boina na visita à feira - não toldando a leveza do abanar madeixa -, sem que um cigano lhe tolha a passada de tacão na média; não encontra uma forma de passar o brilho das suas intervenções de acutilante teor e arrasador efeito, sem ser esbardalhada por um brutamontes que lhe sorri como o gato de Alice.

 

A Gaffe não se espanta com a animosidade Jerónimo de Sousa, porque do senhor já se espera o destempero e a aversão a jóias Pandora, mas  está zangadíssima com António Costa, um cavalheiro que devia saber que custam caro se não forem uma versão em bico, e daqui lhe recorda que uma rapariga tem todo o direito de dar uns saltinhos na bancada, sem ver destruído por uma bruta bola de demolição o banquinho onde pousa o rabo.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe culinária

rabiscado pela Gaffe, em 12.01.17

Franco Noriega.jpg

A Gaffe não sabe cozinhar.

A Gaffe não sabe fotografar.

 

Torturando e tentado esmagar o dito até o transformar forçado num silogismo constrangido, poder-se-á concluir que a Gaffe não fotografa o que não cozinha.

No entanto, se soubesse preparar o prato mais simples que se possa imaginar sem transmutar a cozinha num cenário de um holocausto nuclear, se percebesse o mecanismo que permite colher uma representação aceitável do que lhe causa espanto, jamais se atreveria a captar uma imagem daquilo que produziu de avental e touca.   

 

Toda a rapariga esperta sabe que para fotografar um morango encimado por uma gota de chantilly - dá um lindo pai natal na mimosa mesa da consoada -, é imprescindível substituir o branco doce por espuma de barbear que não se desfaz com o calor das luzes que foram estudadas com minúcia para que o brilho do verniz com que o morango foi coberto obtenha o toque mágico duma eternidade gastronómica e primorosamente natalícia.     

 

A chamada fotografia culinária é uma arte difícil entregue a equipas de profissionais que cuidam da imagem da feijoada como cuidariam da que pertence à mais recente aquisição das passerelles.

 

Há no entanto meninas que sabem cozinhar, mas que não são grande garfo nas provas de contacto.

A Gaffe viu fotografias do work in progress e do produto culinário já finalizado.

 

A primeira contra a qual se esbardalhou, fê-la pensar que estava a ter uma premonição.

Sentiu-se mediúnica numa dimensão original, pois que vislumbrava o futuro. Perante esta rapariga atónica estava a fotografia que uma blogger de sucesso publicará daqui a duas décadas. Diante desta arrepiada criatura ruiva a imagem do conteúdo das fraldas do petiz de vinte e tal anos com que a mamã continua a brindar a plateia, nunca desistindo de a mimosear com as traquinices do rebento e a abdicar do patrocínio.

Depois da perplexidade, veio a bonança. Era uma mousse de chocolate em forma de cocó de gente que come como se não houvesse amanhã - continuamos assim, neste apontamento temporal, a aludir a premonições.   

 

A segunda consistia num bolo de maçã, com recheio de manga e cobertura de caramelo.

A fotografia mostrava uma fatia de uma massa verdoenga e esfarelada por onde escorria uma substância viscosa e vagamente cor-de-laranja numa alusão nítida ao PSD. No cimo, uma fila indiana de lesmas muito bronzeadas parecia abrir caminho lento e penoso na rugosidade do destino que lhes entregou o sacrifício.

 

A Gaffe, passado o choque e já sob o efeito de uma sessão de psicanálise que a impede de associar cocós e lesmas a fotografias dos cozinhados das fadas do lar, resolve lavar a alma e os olhos por um diferente petisco da mamã, desta vez muitíssimo bem fotografado por quem sabe, acreditando que com ingredientes destes até ela seria capaz de cozinhar o prato e que seria difícil arrancá-la da cozinha. 

 

Na foto - Franco Noriega

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe em recortes

rabiscado pela Gaffe, em 10.01.17

1.95.jpg

A Gaffe tem deparado com um crescente uso de publicações onde pequenos mimos esbardalham frases de autores normalmente já falecidos e em consequência incapazes de protestar.

 

São coisinhas floreadas, com fundos idílicos ou rebuscados traços de designers de capoeira onde são usadas em letras tombadas e muito manuais pequenas tiradas, arrancadas dos contextos, que pululam de beleza interior.

 

Resumem tudo aquilo que os responsáveis por estas maldades sabem dos autores que vão ilustrando e ajustam-se - e confinam-se - a recortes do que parece adequado à ocasião pindérica e normalmente banal que tentam traduzir com elevados cogitares. Os grandes pensadores da humanidade dedicaram um tempinho e um cantito do cérebro às quezílias das comadres e percalços dos compadres, substituindo tudo o que estes usurários de triciclos emproados não são capazes de urdir ou pedalar, pelas palavras que foram por eles ditas na avalanche genial de páginas que foram por eles calcorreadas. Há sempre um pedacinho - um lancezito, um pedalzinho, um niquinho de caminho -, que pode ser aproveitado para desancar o parceiro que não fez um like nas fotos do aniversário do petiz, mostrando-se ao mesmo tempo que se é conhecedor e estudioso dos pobres pensadores.

 

Os autores mais citados, segundo um exaustivo estudo desta rapariga incansável, são Dali Lama, Oscar Wilde e Nietzsche.

 

O primeiro, porque é um fofo - embora mal vestido - e faz realçar as nossas vivências nobres, pacíficas, de grande beleza interior, a nossa tendência para a meditação, para o nosso profundo desejo de abdicar de terrenos anseios e pecaminosos desejos, a nossa capacidade profunda de olharmos o profundo capaz de elevação, solidariedade, de purificação e de glorificação da alma que já foi pedra e será, por ventura e encarnação futura, aquilo que usualmente parecem os que usam o senhor tibetano como arma de arremesso: um ratito que rouba a rolha da garrafa do rei da Prússia.   

Acompanhadas por imagens de velinhas ou de incenso, as tiradas são sempre uma bofetada de transcendência no nosso espírito vácuo, embora possuído por Maquiavel.  

 

O segundo, porque é absolutamente dandy  o uso da ironia e do spleen alheios.

É sempre adequada, seja em que circunstância for, a seta que se dispara com o arco do autor e nem sequer precisamos de usar a cartola da discriminação ou sentir ou conhecer a humilhação a que foi sujeita a coragem e a ousadia do maravilhoso amante de Bosie e o seu torpor niilista.

Não lendo Teleny, não é necessário entender o reverso da medalha. A ácida mordacidade e a capacidade destrutiva da ironia de Oscar Wilde, quando emolduradas por um friso de florinhas negras sobre fundo sépia, é perfeitamente capaz de ajudar a fustigar os outros que não agradam à nossa bonita maneira de ser.

 

Finalmente Nietzsche.

É assustadora a quantidade de gente que acredita ser a reencarnação de Lou Andreas-Salomé e que pode transformar um imponente bigode no veículo das suas alfinetadas bacocas e, no entanto, é simultaneamente compreensível - salvaguardando-se a distância que se exige, por demais evidente, e numa aproximação muito infeliz -, tendo em consideração o que os nazis fizeram ao seu pensamento, adequando-o e manipulando-o de modo a que fosse passível de usar como esteio da hecatombe. Nietzsche é muito dado a estas perdições.

O uso de pedacinhos soltos de Nietzsche, em letras brancas garrafais sobre rectângulos negros com a sua esfinge apensa, é apenas o reconhecer da dimensão do desconhecimento da brutalidade imensa da força filosófica do pensador e é um dos motivos para se sentir vergonha alheia.  

 

A Gaffe, depois de se esbardalhar contra tantos recortes de mimoso corte destes três potentados, acaba por humildemente colar num quadradinho com lacinhos e fitinhas cor-de-rosa, sustentadas por ursinhos de peluche, a frase lapidar da Filosofia Primordial, com raízes no Húmus Primário, na Origem e nos ramos transversais a todo o pensamento humano.

 

Ide todos bardamerda.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe repreendida

rabiscado pela Gaffe, em 06.01.17

Quincy Currie.jpg

 

A Gaffe recebeu um comentário indignadíssimo assinado por uma senhora que se sente, nessa qualidade, ofendida e lesada, apenas porque esta rapariga descuidada não cuida da postura que o feminino deve assumir perante o mundo e se atreve a exibir fotografias de homens quase nus que só contribuem para a humilhação, a frustração e a baixa autoestima da maioria das mulheres, reconhecidamente incapazes de encontrar e - numa alusão clara a Saint-Exupéry -, cativar exemplares como os que vão aparecendo nestas avenidas.

 

Seguidamente declara a Gaffe instigadora do sexo pelo sexo, quando, como mulher formada e culta, deveria saber que um homem nu em cada esquina é rua aberta para a decadência feminina - isto, claro, se a esquina não for a de um beco sem saída, ou a que faz ângulo com um clube gay, intui a Gaffe.

 

Termina a senhora chamando a atenção para a atitude de ofensa ao feminismo e à luta das mulheres pela igualdade liberta dos grilhões - tendo em conta a condenação do teor das fotos, provavelmente a senhora quereria grafar outro vocábulo – do machismo a que esta rapariga tem vindo a dar cobertura.

Numa linguagem sempre cuidada, mas sempre unida ao grande raspanete, a senhora revoltada refere a lavagem do masculino que é apanágio do que por aqui desanda e acusa esta pobre rapariga indefesa de estar a sabotar a seriedade, o decoro, a nobreza e a integridade moral que nos deve inspirar e merecer o corpo humano, seja ele de que formato for.

 

Uma chapada.

 

A Gaffe chorou imenso arrependida de ter publicado fotografias de homens bons de se cair para o lado que eles quiserem, em vez das do marido da queixosa.

A Gaffe concorda. Nem tudo são rosas nestas avenidas. Às vezes passam pilas. Cobertas e acauteladas, mas sim, há pilas que se adivinham e de que sabemos que gostamos porque estão apensas a homens lindíssimos que mesmo fora das fotografias o continuam a ser.  

 

Evidentemente que a Gaffe não mantém a postura que uma mulher deve assumir. Esta rapariga, como diz Marco Paulo, é uma lady na mesa, mas só sabe Belzebu do que é capaz de fazer com o restante mobiliário e assume que pertence à maldita minoria de mulheres que não respeitam o sentir das outras, porque é perfeitamente capaz de fisgar  um matulão igual aos que se publicam, sem ponta de solidariedade para com as que ficam sem ele, embora pense que não é assim tão difícil tendo em consideração que não há homens irresistíveis, mas apenas mulheres que não sabem resistir.  

 

A Gaffe não tem uma postura – tem várias, porque já leu o KamaSutra -, e acredita que a autoestima de uma mulher não é influenciada - nem inflacionada -, pelo facto de ter conquistado um matulão divinal, porque suspeita que é exactamente uma bela e enraizada autoestima feminina que o atrai. Elevar os padrões da nossa autoestima através da aquisição e exposição de um potentado masculino, equivale a ler Gustavo Santos e consubstancia uma das mais medíocres atitudes machistas que uma mulher consegue encarnar.

 

Para além da ausência de uma postura, a Gaffe não tem compostura, porque suspeita que é muito desvalorizado o sexo pelo sexo ou, como já foi dito, o sexo mágico, aquele que se faz e se desaparece. Provavelmente a senhora indignada escreve cuesia erótica onde o dicionário de rimas ajuda a encontrar palavras que terminam em ar - e no ar - e textos cuéticos encimados pela fotografia - onde o amor está indubitavelmente presente - de um casal nu, engalfinhado de tal modo que é difícil perceber onde começa um e termina a outra; onde um simulacro de sexo, feito com muitíssimo amor, se deixa iluminar, fotografar, expor e visualizar apenas com o intuito de nos atingir o coração. O sexo pelo sexo é apenas um arredor do amor e muitas vezes são os arredores que interessam. A Gaffe não se importa que a considerem uma ninfa, mas não é maníaca e o crivo, ou o filtro, que usa para seleccionar os homens é tão apertado como a caixa craniana da senhora indisposta - o que, será bom de ver, o torna quase compacto e de dificílimo escoamento.

 

Há no entanto um ponto que gera na Gaffe a mais veemente discordância com a senhora agravada.  

A Gaffe não faz lavagem do masculino e embora não entenda com a profundura exigida o significado da acusação, quer deixar claro que aos homens que por aqui se publicam não lhes é exigido um banho prévio. A prova consta da foto que ilustra este longo rabisco. O rapagão da imagem, como se vê, não está convencido da eficácia do desodorizante que usa.  

 

A Gaffe resolve por fim, num claro sinal de reconhecimento, oferecer à senhora apoquentada uma pequena mostra de homens muitíssimo interessantes retirados de um quotidiano mais cultural que por certo agradará à comentadora. Aconselha a senhora a sentar-se, a cravar as unhas nos braços da cadeira, a amordaçar-se e a evitar uma exposição prolongada a esta pequena amostra que pode, pela repetição, provocar-lhe epilepsia.

 

T.Smits.gif

 

São rapagões oriundos do universo do bailado. Muita postura, portanto. Devem ser olhados apenas como profissionais da companhia belga Thierry Smits e não tentar adivinhar-lhes as pilas - que a Gaffe já teve o prazer de ver, porque dançam muitas vezes todos nus.

 

Na foto - Quincy Currie por Tatchatrin Choeychom

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe e o mistério do Ano Novo

rabiscado pela Gaffe, em 03.01.17

1.97.jpg

Misteriosos são os desígnios do senhor.

 

Do senhor que no primeiro dia do ano vai banhar-se nas águas gélidas do oceano mais perto de si - dele, do senhor, não de si, que apenas observa a quantidade de compinchas que o seguem nestas aventuras mais ou menos náuticas.

 

A ausência de banhistas dignos de figurar no rol de escolhas da Gaffe é escandalosa. Não existe nesta multidão de alegres e encharcados foliões e folionas por esfoliar, um único matulão capaz de ter hipóteses de a levar em braços para os seus projectos de cruzeiro onírico.

 

A Gaffe lamenta que apenas os seniores – a Gaffe decidiu ser cuidadosa -, os mais barrigudos e os mais desdentados; os carecas com patilhas gigantes que atravessam a cabeça como um polvo apanhado por incúria no mergulho; os de ceroulas sem elásticos e coturnos coloridos; os mascarados de matrona carnavalesca - há que ter atenção e não os confundir com as matronas carnavalescas que também se atiram às ondas nesta altura -, os que usam cuecas descaídas que deixam escapar um dos tentáculos do polvo já falado e o senhor Presidente da República, se atrevam a tamanha aventura que acaba sempre com a pila transformada em azeitona, mas heróica a declarar convicta que está mais frio cá fora que lá dentro.   

 

A Gaffe não entende os mistérios desta tradição ancestral que só na Caparica já perfaz dez anos e propõe uma renovação, uma revigorante inovação, uma adaptação aos tempos modernos que também não são de escaldar:

No primeiro dia de 2018 banhar-se-ão nas águas do oceano apenas rapagões seleccionados por esta rapariga friorenta e promete que a menina que chegar primeiro ao primeiro que emergir pode esfregar-lhe a toalhinha onde quiser.

 

A Gaffe sempre apreciou uma bela e esbardalhada correria pela praia fora.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe com Fawas

rabiscado pela Gaffe, em 28.12.16

Fadi Fawaz.jpg

 

Dando razão aos seus anónimos que a consideram uma criatura fria, distante, vil, má, cruel, cínica e sempre pronta a esmagar os pobrezinhos, a Gaffe vai parecer uma cabra insensível, mas considera que um bocadinho de pragmatismo não vai acrescentar muitos mais adjectivos ao rol de vitupérios com que é brindada de quando em vez.

 

Admite que o talentoso George Michael nunca a fez choramingar. Nunca o rapagão foi banda sonora dos seus desgostos e tristezas, das suas melancólicas prostrações amorosas, nem a fez pinchar nos momentos mais histéricos salpicados pelo brilho dos espelhos, embora tenha de confessar que, já maduro e com uma imagem de carismático navio couraçado, tenha tido sobre esta rapariga tonta um apelo que não dista muito do sexual.

 

A Gaffe gosta dos duetos com Aretha Franklin e com Elton John, da vibrante e emotiva homenagem a Freddy Mercury e de alguns trechos de Faith e de muitos de Listen Without Prejudice, mas nada que não a deixe dormir em silêncio.

 

Tal como o Senhor Marquês, a Gaffe – também de muito boas famílias -, adopta a célebre parangona enterrar os mortos e tratar dos vivos.

 

É sobre um vivo muito específico que a Gaffe gostaria muito de se debruçar.

Fadi Fawas.

 Indiscutivelmente, e mesmo ao longe, o melhor dueto de George Michaeal.

 

Não adianta, raparigas, desatarem a carpir o escândalo que é esta referência indecente a um viúvo tão recente, porque todas, mas TODAS, perante um portento destes, no aconchego dos lacinhos da lingerie mais ténue, muito reservada, muito escondidinha nos escombros do desgosto, pensaram que este belíssimo animal é capaz de provocar paragens de toda a espécie - incluindo as de autocarros -, acelerar desastres e provocar todas as pequenas mortes que quiser, que nos deixamos.

 

Para grande tristeza nossa - seria caso para dizer, se fossemos grosseiras, que temos Fawas sem chouriço -, este vivo prova-nos apenas que George Michael foi, para além de tudo o que de bom dele dizem - e provavelmente com razão -, um brutamontes com um cabelo muitíssimo bem tratado.           

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe a arder no Inferno

rabiscado pela Gaffe, em 30.11.16

Inferno.gif

 

Vou arder no Inferno para toda a Eternidade.

 

Provavelmente sentirei desde já as brasas dos comentários anónimos que com certeza receberei, o que me permitirá uma adaptação ao clima e não me fará estranhar a forquilha do demo.

 

É forçoso dizer que não sou adversa a qualquer crença religiosa. Deus me livre! Gosto imenso do lema - de pé diante dos homens, de joelhos diante de Deus - do velho Bispo do Porto, gosto imenso de seminaristas, admiro as cores dos monges budistas, são fabulosos os cânticos hindus de índole religiosa, apesar de não simpatizar com vacas, tenho algumas a trabalhar comigo e mais que não se diz, por ser infindo, mas sou muito terra, muito pedra, muito bruta, muito pouco espiritual, muito má e raramente me lanço nos espaços siderais ou divinais sem o pragmatismo de uma escada.

Sendo assim, e fiel à minha costela científica, percorri com afinco os blogs católicos que por aqui lançam perfume.

 

Fiquei perplexa.

 

Além das orações intermináveis, da transcrição de salmos infindáveis e de versículos bíblicos ameaçadores que nos condenam a penar agruras se desviarmos um olho durante um segundo da face luminosa de Deus para o pousarmos na braguilha do pecador que passa, somos obrigados a assumir que somos todos uma multidão de gente má, infeliz, condenável, horripilante, digna de todas as torturas celestiais e capaz de assassinar a Madre Teresa só porque a velhinha não usa um véu em condições.

A bondade impera por todo o lado - inclusivamente nas barras laterais, - e as boas acções enfiam-se pelos nosso olhos dentro mirrando-nos a nossa já perdida alma com a vergonha de não termos sido tocados pelo dedo divino, dando primazia a outros menos celestes e mais ou menos conspurcados.

 

Felizmente - é o que nos salva -  somos abençoados pela condescendência, pela abertura de braços, pela disponibilidade, pela tolerância, pela capacidade de perdoar e por todas as virtudes que se queira inventar, apanágio destes anjos da blogosfera que não hesitam um segundo - são crentes - em esbardalhar sem qualquer reserva ou pudor as fotos de família, captada nas mais impensáveis e nas mais corriqueiras situações, sempre acompanhada por gatinhos e por criancinhas que são expostas minuciosamente até lhes vislumbramos as auréolas.

 

É estranhíssimo como ao trespassar estes pergaminhos de excelso bendizer, de sobrenatural elevação, espiritualidade, bonomia, penitência, oração, dedicação ao outro, solidariedade, altruísmo, fé incondicional, celestial visão da universo e impoluto viver, me senti ameaçada, assustada e intimidada.

 

Creio que foi por perceber que até nas luzinhas ali a cintiliar, espreita o muito escuro.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe de pechisbeque

rabiscado pela Gaffe, em 16.11.16

pechisbeque.jpg

A Gaffe teme a aproximação da época da Paz, do Amor e das luzinhas tremelicando nas suas Avenidas desejosas de neve para poder cantarolar Bing Crosby, porque sabe que com todas as cançonetas entoadas pelo coro de Santo Amaro de Oeiras chegam as senhoras - lamentavelmente são raros os cavalheiros, tendo em conta o rapagão da imagem a tentar impingir o vasilhame - que nos esbardalham a paciência com coisinhas mimosas que elaboram no aconchego do lar, tudo feito à mão, tudo muito reciclado, tudo muito imaginativo, tudo muito fofinho e tudo muito porcaria.

 

Abancam no passeio das quermesses, mesinha montada e coberta com toalhinha bordada a ponto de cruz, espapaçam nos cantinhos da net fotos foleiras com legendas fofas e dizem que são artesãs e que a tralha que produzem com rolos de papel higiénico e cacos colados é artesanato.

 

Por muito sofrimento que possa causar, não são artesãs. São pechisbequeiras. Manufacturam pechisbeques.

 

O artesanato contém no âmago uma sabedoria inimitável - velha tantas vezes, - e impossível de se expandir e multiplicar como um piolho. É impossível ser separada do artista que lhe entrega a excepcional marca que o identifica, o torna único e reconhecível, tornando-se capaz de representar determinada colectividade. A joalharia, a teclagem, a cerâmica ou a cestaria são susceptíveis de se aproximar dos conceitos de Arte, porque incluem características específicas essenciais à mais objectiva e exigente análise de teor artístico.

 

Artesãs são, por exemplo, Rosa Ramalho, Júlia Côta, Júlia Ramalho ou Fernanda Braga, se quisermos escolher apenas oito mãos femininas. Pechisbequeira é a senhora que elabora esmerados macaquinhos porta-chaves de tricot.

 

Seria excelente que se percebesse em definitivo que considerar artesã uma pechisbequeira é o mesmo que considerar artesanato aquilo a que a moçoila saída de uma adolescência espigada faz - imbuída do desejo de permanecer por desflorar até ao casamento, - num recanto de uma noite mais esconsa, alapando-se no bando de trás da carripana do namorado, dedicando algum tempinho a trabalhos manuais. Por muito que custe aceitar - e não custa nada - a rapariga não é artesã, nem demasiado virgem. Faz pechisbeques.

 

Após ter passeado por aqui, longa e penosamente, a Gaffe acaba por embater com a douta MJ que em duas pinceladas certeiras resume o que demorou tanto tempo a rabiscar aqui. Diz esta rapariga - que a Gaffe adora, - que é moderno usar lixo para fazer decorações. O facto de ser pretensamente decorativo o que se produz, não deixa de ser lixo.

Após ter lido esta sábia sentença, a Gaffe acaba por concluir que esteve este tempo todo a rabiscar um pechibesque, mas admite - valha-nos isso - que o facto não a transforma em artesã. 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)





  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD