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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe golfista

rabiscado pela Gaffe, em 28.06.17

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O desvio que se fiz no regresso a casa, depois de ter deixado o carro na oficina, foi já feito no popó do meu irmão.

- Levas o meu que eu fico por aqui. Vou depois com o pai.

                 

Há um passadiço de madeira cinzenta ao longo do areal. Faz ruídos quando o pisamos e a madeira parece estalar debaixo dos nossos passos.
Passaram por mim rapazes embrulhados em blusões de Verão e moçoilas de lenço na cabeça. Olharam e sorriram e convidaram.


Encontrei perdida uma bola de golf, branca com o símbolo da Nike sujo de verde.
Guardei-a na carteira depois de inutilmente a esfregar para lhe retirar a mancha.


Andei demasiado.

 

Havia muito vento e o mar espirrava. O meu vestido parecia uma vela de barco enlouquecido.
Passaram outra vez por mim os rapazes e as raparigas com todos os convites que eu quisesse no corpo a estremecer. Fazem sentir que estancamos o mundo inteiro quando queremos, que o nosso umbigo é centro do Universo, quando afinal não somos mais que uma bola de golf  manchada e perdida num bolso qualquer.

 

Miramar é a minha saudade mais pequena. Uma das outras, maiores, encontrei-a parada no areal a quebra o tempo vivido longe.

É colorista. Vive e trabalha em Londres desde há muito tempo. Regiamente respeitada e escravizada pela nostalgia do mar do seu país.

Há quanto tempo a não via e que saudades, meu Deus!

 

As nossas memórias, as nossas memórias comuns, misturaram-se com o vento e percebemos que as temos de modo diferente, que olhamos o acontecido outrora através de pequenas grades transparentes que alteram significativamente o que se recorda. As nossas infâncias foram vizinhas, rodeadas pelas mesmas circunstâncias, partilharam momentos, experimentaram situações idênticas, vivenciaram condições iguais, mas a memória de cada uma das duas triturou o ocorrido de maneira diversa, como se nos tivéssemos banhado no mesmos mar, pela mesma onda, esquecendo que os nossos braços tocaram a água com agilidades desiguais.  

 

Horas perdidas a colar memórias. Arrancando pequenas farpas da saudade. Tentando embeber o que era de uma no que à outra pertencia, espantando-nos ao perceber que a luz que vinha do que era recordado tinha laivos distintos e iluminava o que era agora visto pertença do passado com as cores dissemelhantes, porque mais íntimas, privadas, com que se recorta cada coração.

                                         

Duas horas infindas até ao fim da tarde. Horas doidas, divertidas e desfraldadas pela alegria.

 

- Se vais para o Porto, dou-te boleia. Continuamos este massacre das saudades!

 

Estava sem carro. Sim. Claro que sim!

Deu-me boleia.

Ao chegar, depois das despedidas, percebi tragicamente que o carro do mano tinha ficado parado perto do mar, lá longe.

 

Quando matamos as saudades convém não esquecer que as armas usadas devem pesar sempre mais que uma bola de golf guardada na carteira.  

 

Foto - Jacques-Henri Lartigue

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A Gaffe mórbida

rabiscado pela Gaffe, em 22.06.17

Calvin Coolidge, 1924.jpg

 

Posso esperar os séculos que quiser.
O tempo vai pairar, não vai passar, não se vai escoar por entre as frestas e as frinchas do meu peito.

Hei-de entender a morte. Hei-de entender aquilo que ela quer. Hei-de sentir o rosto que escolheu para arrancar as vidas. Hei-de tocar a máscara que escolhe e que mostra uma vez só na vida.


- Mascaras-te de quê?
- De Morte, mas da minha. Daquela que me virá buscar um dia.

 

Foto - Calvin Coolidge, 1924

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A Gaffe monumental

rabiscado pela Gaffe, em 07.06.17

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A Gaffe não compreende a ira que suscita a utilização de monumentos para finalidades que não são as apensas aqueles mamarrachos.

 

O objectivo daquilo é ser monumento, o que se torna maçudo, monótono e nada proactivo. Umas coisas grandes, paradas, velhíssimas, com imensos corredores e correntes de ar, que não conhecem o conceito de minimalismo, preenchendo todos os buracos com arrebiques que não lembram a D. Manuel - e cuja única vantagem é terem o pé-direito altíssimo -, facilmente fazem com que os seus funcionários se percam! Não admira que sejam encontrados depois aflitos e em pânico nas obras privadas dos directores daquilo, ou que se esqueçam que os dois ou três mil euros que levam para casa em dias em que chove que Deus a dá obrigando o povo a fugir para debaixo dos arcos - que não os das Capelas Imperfeitas de outro paspalho a ter em conta -, pertençam à bilheteira do mastodonte e não necessitam de protecção acrescida contra as intempéries.

 

A Gaffe não entende a preocupação verificada com 20 botijas de gás incendiado nos claustros do Convento de Cristo. O Convento está mais do que habituado a fogareiros e a fogueiras, tendo em consideração os churrascos de carne de Templário a que com certeza assistiu da janela da História.

As telhas partidas e as pedras quebradas, são de pouca monta e abrem mais uma outra janela, desta vez de oportunidade. Que se aproveite o percalço e se erga um miradouro nos telhados, abençoado com um restaurante chefiado por Ljubomir Stanisic - o homem é tão atraente! - com o alto patrocínio da TVI, ou que se inaugure um SPA na sala do Capítulo, entregando a responsabilidade de o inaugurar a Rita Ferro Rodrigues. Capaz é ela e é sempre de valor acrescentado tendo em conta que até aos mortos a rapariga pede a ligação.    

 

A Gaffe sugere que se aproveite, entre tantos outros espantalhos, Conímbriga - para encontros motard com strip masculino -, o Mosteiro da Batalha, os Jerónimos e Alcobaça - e neste é de transformar os túmulos de Inês e Pedro em dois excelentes balcões de bar aberto, um em frente ao outro, para aguentar assim as oscilações ébrias dos convivas -, a Igreja de S. Francisco e a Torre dos Clérigos que facilmente albergariam raves, festivais de Verão e festas de finalistas do Secundário, porque são todos frescos, têm boa acústica e já se acostumaram ao tráfico de estupefacientes nas imediações.

                                                                                                            

É verdade que os lugares para estacionar não pululam nestes recantos. É verdade que o Museu dos Coches fica longe e não é prático retirar dali o nosso Fiat híbrido, mas o Automóvel Clube de Portugal com certeza - se bem conduzido -, repetiria a ajuda e o povo poderia outra vez esbardalhar o veículo nos pátios de qualquer um dos monos referidos.  

 

 O importante, como diria o meu querido Mexia, é haver rendas para a luz.  

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A Gaffe proletária

rabiscado pela Gaffe, em 05.06.17

 

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É mais do que certo que o povo é mal pago. A tradição vem de longe, neste país à beira-mar plantado e bem regado, e a evidência do facto tem história comprovada, sempre acompanhada por uma espécie de subvalorização do trabalho - quer por parte do que o executa, quer por parte de quem o quantifica para o recompensar.

 

Transcrição da factura que um mestre-de-obras apresentou em 1853 pela reparação que fez na Capela do Bom Jesus de Braga*

(Arquivo da Torre do Tombo)

 

Por corrigir os 10 Mandamentos, embelezar o Sumo-sacerdote e mudar-lhe as fitas

170 reis

1 galo novo para S. Pedro e pintar-lhe a crista

95 reis

Dourar e pôr penas novas na asa esquerda do Anjo da Guarda

90 reis

Lavar o criado do Sumo-sacerdote e pintar-lhe as suissas

160 reis

Tirar as nódoas ao filho de Tobias

95 reis

Uns brincos novos para a filha de Abraão

245 reis

Avivar as chamas do Inferno, pôr um rabo ao Diabo e fazer vários concertos aos condenados

245 reis

Fazer um Menino ao colo de Nossa Senhora

210 reis

Renovar o Céu, arranjar as estrelas e lavar a lua

130 reis

Retocar o Purgatório e pôr-lhe almas novas

355 reis

Compor o fato e cabeleira de Herodes

55 reis

Meter uma pedra na funda de David, engrossar a cabeleira no Saúl e alargar as pernas ao Tobias

95 reis

Adornar a Arca de Noé, compor a barriga ao Filho Pródigo e limpar a orelha esquerda de S. Tinoco

135 reis

Pregar uma estrela que caiu ao pé do coro

25 reis

Umas botas novas para S. Miguel e limpar-lhe a espada

255 reis

Limpar as unhas e pôr uns cornos ao Diabo

 185 reis

TOTAL

2.545 reis

 

Para tão largas e santas tarefas, tão curta a recompensa!

 

*ortografia da origem

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A Gaffe carteirista

rabiscado pela Gaffe, em 31.05.17

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Há um jogo qualquer que nos pede que enumeremos o conteúdo da nossa carteira.

 

Não seriam brilhantes as minhas respostas. Não transporto muita coisa. A minha carteira não ilustra o estereótipo.  

Trago um bloco pequeno de capa esgotada que deixei de usar há muito tempo, mas que no medo de perder o passado riscado que contém, se tornou imprescindível; uma esferográfica que pertenceu ao meu avô, preta, polida, quente; a tradicional, mas frugal, parafernália feminina, composta por instrumentos de beleza que se misturam com outros mais técnicos, mais profissionais; um protector solar quase blindado e alguns documentos fechados, muito ordenados, numa pasta pequena de couro antigo.

 

Ao lado, mesmo ao lado do batom, trago sempre um adeus.

Nunca sabemos quando o devemos usar, não sabemos sequer a frequência com que o gastaremos, mas, seja como for, quando o adeus é usado convém-nos estar sempre com os lábios retocados. 

 

Foto - Jason Langer

 

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A Gaffe KATRAPUMBA

rabiscado pela Gaffe, em 30.05.17

shits.jpgConvenceram-me e eu fui.

Não devia.

 

Empurram as minhas razões para dentro de uma t-shirt com um passarito estampado e enfiaram as minhas desculpas numas calças largas de algodão fresco desmazelado.  

 

Arrastaram-me.

 

Devia ter fugido no momento em que se distraíram a escolher o KATRAPUMBA. Havia algumas variantes e o tempo dispensado à atenta selecção permitia escapar pelas frinchas da concentração alheia, se conseguisse desatar a correr. Infelizmente não corro, nem atrás do autocarro.

 

A aula provavelmente era de Zumba, mas podia ser de Kizomba, Bumba, Rumba, Tumba, ou mesmo um ritual primitivo de celebração das divindades pagãs, todas juntas, melífluas e trovejantes.

 

À minha volta apenas mamas desarvoradas, a balançar mesmo apertadas; uma senhora que se espancava com as dela; um homem que segurava as dele enquanto deixava o resto oscilar; pernas e pés pelo ar, a ameaçar disparar as sapatilhas; gente a abanar, a pinchar, aos pulos; pilas todas contentes aos saltos prontas a atingir os olhos dos parceiros; rabos ensandecidos mascarados de Zorro; fios dentais nos dentes de trás e TUMBA-KATRAPUMBA-KATRPUMBA-TUMBA-TUMBA-TUMBA-KATRAPUM-PUM-PUM-PUMBA-PUMBA-KATRAPUMBA, a música que só de ouvir já emagrece.

 

No estrado, uma jovem, tão jovem, que jovem era, vestida de wonder-woman, com um micro encastrado e mamilos de fora do fato protector, tentava sobrepor-se àquela sublevação de incendiados, incentivando as filas tresloucadas.

 

- ‘BORA LÁ, PESSOAL! UM-DOIS-TRÊS PARA FRENTE! TRÊS-DOIS-UM, LATERAL!!!

 

Estarrecida, enfiada cá atrás, entre uma senhora desfeita em banha, quase frita, quase a asfixiar e prontinha a sofrer uma apoplexia, e um balde de suor que tinha sido um cavalheiro, tentava manter a sanidade, abanando o rabiosque e protegendo as maminhas, no espaço que me cabia em sorte.

                                                    

TUMBA-KATRAPUMBA-KATRPUMBA-TUMBA-TUMBA-TUMBA-KATRAPUM-PUM-PUM-PUMBA-PUMBA-KATRAPUMBA-TUMBA-TUMBA...

 

- ‘BORA LÁ, PÊSSUAU! TUDO JÓIA? NUM DÁ MOLEEEEZA, NÂUUU!

 

A mulher é brasileira.

 

Não! Ela explica.

 

- NÃO QUERO OFENDER OS BRAZUCAS DA MINHA AULA! SOU ASSIM. DE VEZ EM QUANDO É ISTO! PRONÚNCIA BRASILEIRA PARA DAR FORÇA. TAMBÉM FAÇO A DE VIJEU E A DO PUARTUUUU!!!!

 

TUMBA-KATRAPUMBA-KATRPUMBA-TUMBA-TUMBA-TUMBA-KATRAPUM-PUM-PUM-PUMBA-PUMBA-KATRAPUMBA…

 

E finaliza:

 

- EU SOU COMO O EÇA E OS SEUS HOMÓNIMOS. ‘BORA LÁ, PESSOAL!

 

KATRAPUMBA.

 

O que me salvou foi o Salvador Sobral que terminou a aula. Para descontrair que o moço é pacato.

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A Gaffe de última hora

rabiscado pela Gaffe, em 24.05.17

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Madonna andou a cavalo numa praia em Portugal!

O cavalo estará na próxima semana no "Alta Definição".

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A Gaffe a apanhar pedra

rabiscado pela Gaffe, em 09.05.17

Os rapazes possuem uma aptidão muito peculiar que me deixa perplexa e me faz repensar as razões da nossa permanência neste mundo pobre e pouco digno de respeito.

Acaba por se tornar uma característica e, em maior ou menor grau, é detectável em todos.

 

Resume-se à extraordinária capacidade de mostrarem ao mundo - e sobretudo à parte ocupada por mulheres -, como são maravilhosos a tentar fazer o que não sabem.

 

Esta tendência é proporcional à sua ineficiência. Quanto mais totós, mais capazes se sentem de realizar o que se transforma num palácio para os bois mirarem. Quando os factos os contradizem, escapam à realidade crua e nua, convencidos que apenas apanharam pedra.

 

O meu irmão, por exemplo, digníssimo representante da espécie, afiança que é capaz de pregar um prego com uma facilidade descontraída e humilhante.

As paredes estão cravadas de buracos que representam todas as tentativas de martelar um inocente ferrito que como por encanto costuma saltar disparado ao primeiro embate. No segundo o prego entorta, no terceiro o prego desaparece no ar, como um OVNI depois de ter avistado o Terço de Joana Vasconcelos.

 

- Apanhei pedra.

 

O homem apanha pedra sempre que tenta espetar a porcaria de um prego na manteiga! Suponho que esta evidência seria de vital utilidade se o pobre um dia se enfiasse em areias movediças. Caso tivesse à cinta um martelo e no bolso um prego, apanhava pedra. Salvava-se.

 

Em decoração não resulta.  

 

Os rapazes permanecem, conscientes ou não, convencidos que a genética lhes forneceu as aptidões dos grandes machos e que nós, recolectoras de corpinho frágil, estamos aptas apenas a realizar tarefas a que elas atribuem um ficheiro feminino.   

O resultado pode ser catastrófico, não só para a decoração, mas também para a imagem que deles temos e que benevolamente vamos mantendo com algum esforço.

 

Seria muito mais proveitoso assumir que são uma perfeita nulidade a trocar um pneu, a dominar uma prancha de surf, a arrastar móveis sem colapsar imóveis, a instalar um circuito eléctrico, a reparar o portão da garagem, ou, no mínimo, a provocar-nos um orgasmo, admitindo em contrapartida que são exímios a tricotar pegas de cozinha, ou a construir arranjos florais mirabolantes.

 

Não!

 

Preferem que assistamos ao descalabro que é ver a sua masculinidade, pura e dura, a exibir-se lampeira e toda competente rumo a um ocaso pousado nas ondas das nazarés desta vida para logo depois sermos obrigadas a cristãmente caminhar sobre as águas para os repescar e ouvir dizer logo a seguir, a abanar a negra madeixa ao vento, que apanharam pedra.

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Uma proposta de discussão feminista a não deixar escapar.

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A Gaffe solitária

rabiscado pela Gaffe, em 08.05.17

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A Gaffe hoje conversa com o Sr. Solitário que teve a gentileza de se lembrar desta rapariga que usou durante todo o tempo óculos escuros, não se desse o caso dos seus olhos desatarem a falar em demasia.

 

Convém bisbilhotar.

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A Gaffe ecuménica

rabiscado pela Gaffe, em 05.05.17

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Por serem cada vez mais raras as ocasiões em que nos encontramos em simultâneo num sítio e numa mesma hora, a minha irmã decidiu que os três manos deviam jantar juntos. Eram eliminados três bichos com uma paulada só, tendo em consideração que se acrescentava à reunião a vantagem de conhecermos a nova namorada do meu irmão e que era possível descartar, partilhando, a maçada de ter de aturar um colega japonês que colabora no actual projecto da anfitriã.

 

O restaurante foi marcado com a antecedência da praxe e, como seria previsível, fui a primeira a chegar.

 

O senhor da recepção, atrás do seu púlpito, sorriu com todos os botões do seu casaco preto abotoado e foi informado que havia sido feita uma reserva. Empalideceu, o sorriso ficou roxo e os olhos tombaram em queda livre no livrinho das reservas, soltos das órbitas, quando anunciei o nome que devia figurar na sua lista.

Carlos Fabián Villa.jpgTranquilizei-o:

- Sou apenas a irmã mais nova.

As cores regressaram e os olhos também.

Fui conduzida à mesa assinalada e sonhei por instantes fugir para devorar um cachorro quente - do tipo Grand Danois - que tinha visto fabricar na barraquinha da esquina, antes de fazer de conta que me deliciava com os beliscões culinários do Grand Chef de revista.

 

O sonho durou pouco porque o meu irmão entrou logo a seguir.

 

É incompreensível a atracção - que se tem revelado fatal - que o maninho sente por nórdicas! Ao lado, um felino loiro e alto, uma espécie de Twiggy misturada com Kim Novak, arrastava, no trocar de pés de manequim, um gelo de fiordes que condizia com o azul frígido dos olhos de iceberg. Uma mulher lindíssima, logo estúpida - em relação a estes assuntos, gosto muito de respeitar os preconceitos e a sabedoria ancestral -, que se sentou depois de me mostrar uns dentes tão perfeitos que fazem com que nos apeteça bater-lhes com o cabo da faca e de sacudir o cabelo liso, brilhante e tão sedoso que por instantes me vi nele reflectida.

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Lykke Svenssonolofssonbengtsson - ou coisa que o valha. Não vale a pena fixar, pelas razões que se adivinham.

 

Antes de trabalhar a amabilidade, amaldiçoei a hora que penei à procura de um vestidinho em condições, porque deparo com os velhos jeans do meu irmão tão apertados que quando os tentar despir arranca a pele e - livre-nos Deus - também a pila que, salta à vista, não tem ar nenhum ali fechada.

 

Desatam a falar alemão - a lambisgóia vive em Berlim desde os dois meses, informa o mano que corre o risco de perfurar os olhos cravados nos mamilos que enfeitam as bolas rígidas de cidade onde a dona vive sem soutien.   

Que sim, que já tinha identificado a língua e que sim, que não entendo, mas que não me importo.

 

A minha irmã, mais uma vez sebastianista, com um atraso gigantesco que se justifica apenas com a possibilidade de ter estado a sacudir das cuecas a areia do deserto onde se perdeu com o Desejado, faz finalmente a sua entrada fulgurante.

Atrás de uma grande mulher está sempre um homem, diz o povo, que o povo diz coisas. Não vejo o mocetão, porque é japonês e portanto - é mais que certo - pequenino e porque quero provocar uma brisa de indiferença soberba e sofisticada, abrindo a clutch, a pochette, a carteirinha, a porcaria da maleta anã, fazendo de conta que estou distraída à procura do Camões. A porcaria da anã é da minha mãe e encontro dentro duas aspirinas, um Ben-u-ron e a subliminar prova que sou filha dela escrita num papelinho muito dobradinho:

 

Não perguntar B(…) pelo marido. Morreu - três anos.

A L(…) cunhada M(…). Não referir P(…) - amante duas.  

Comprar Ben-u-ron.   

 

O casal chega por fim à mesa e com o meu melhor Greta Garbo enfastiada ...

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...  ergo a cabeça esperando cruzar os olhos com os do japonês que segundo os meus cálculos devem estar ao mesmo nível que os meus, que estou sentada - o homem supostamente é pequenito - e apanho com a braguinha do sujeito a rir-se para mim.  

 

O homem é altíssimo!

 

Deve ser o único japonês à superfície do planeta que a minha irmã cumprimentou sem se ter de baixar primeiro.

 

Fico com os olhos cravados na pila nipónica até a minha irmã a fazer sentar à minha frente e depois de os ter, para disfarçar, espetado nos mamilos da sueca sem antes ter arrancado dali os do meu irmão.

 

E la Nave Va, fellinianamente.  

 

A girafa loira fala alemão para o namorado que lhe responde para as maminhas em inglês, para percebemos. A minha irmã fala francês para o gigante asiático que lhe responde numa língua estranha que não consigo identificar. Traduzem tudo para português, só para criar ambiente – manos amorosos!

 

Acabei por tomar as aspirinas e - pelo sim, pelo não -, engoli também o Ben-u-ron.

 

Isto de se ser ecuménico só lá vai com o Papa.    

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A Gaffe incorrecta

rabiscado pela Gaffe, em 24.04.17

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- Tu não tens absolutamente nenhuma consciência social, nem vestígios da política!

 

A bala foi disparada pela boca armada em idiota de uma versão masculina da Ana Drago, mais volumosa, mais carnal e bem mais alta.

Discutia-se com resoluto calor a decisão de se erguer de novo uma outra guerra para parar uma guerra em trânsito e insurgia-se o povo, nas reunidas mesas do pequeno-almoço, contra o domínio pardo dos Senhores da Morte, matilha de Richelieu nos reposteiros do poder.

 

Embora tenha soado a mofo, muito portas-que-Abril-abriu, muito CGTP Intersindical, muito período azul de Picasso, o chavão disparado contra a Gaffe encontrou eco nos meandros e nos corredores da sua alma.

 

A Gaffe não tem Consciência Social.

 

Trinta segundos depois do início do debate tinha já deixado de ouvir e desviado a sua atenção para os peitorais do garboso interlocutor que, na sua frente, se adivinhavam na alvura da camisa e tinha dado início a especulações de carácter muito pouco político.

 

Concede. A indiferença da Gaffe é escandalosa.    

       

Norte e Sul, Israel e Palestina, Cristão e Muçulmano, África e América Latina, Putin e Trump, Le Pen e Macron, Ghandi e os Impérios, hemisférios tortos, subvertidos climas, extinções previstas, catástrofes erguidas no terror da cinza, furacões e ondas de miséria abjecta, canhões e cogumelos venenosos, sarampo e malária, Amazónia em ferida, favelas e cabanas transalpinas e mesmo as mais perigosas das antenas de telemóveis ou de senhores de fato, são coisas de somenos para ela. Não pensa nelas. Não lhe dilaceram o dormir.

 

Culpada! Refugo da humanidade em chaga! Pária! Escória!

 

Humilde e indiferente insecto renegado, oriental bichinho, apanha o lixo breve que à sua entrada tomba, limpa o umbral da sua dócil porta e vagarosamente cuida das roseiras.

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A Gaffe bimba

rabiscado pela Gaffe, em 19.04.17

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Admito que não sou uma fada do lar. Não tenho mãos da dita e jamais serei capaz de organizar uma despensa ou elaborar mapas Excel de contas poupança, ou com listas de compras em supermercados apinhados onde se atropelam carrinhos guiados por senhoras irritadas, cansadas de beliscar a fruta.

 

Entrego parte do meu reino por uma chegada a casa imaculada, com mesa posta e roupa lavada, mesmo correndo o risco – agradável e muito conveniente – de não ser considerada um bom partido pelos cavalheiros que pensam que a imagem idílica do doce lar contém uma doida esgrouviada capaz de se multiplicar obedecendo à tradicional aliança mãe-esposa-amante-dona-de-casa-empregada e mais que não se diz por ser verdade.

 

Nunca compreendi as mulheres que dedicam uma parte substancial do seu tempo à cozinha, não nutrindo por ela uma paixão arrasadora. Gostava, mas não consigo entender as criaturas que não ligando uma pevide à culinária - e mesmo depois da brutalidade do quotidiano -, se misturam com a cozinha que sabem que as vai esturricando, envelhecendo e desolando, apenas porque é assim a vida, apenas porque não admitem que, apesar do amor que dedicam à confecção do frango na púcara, chegam exaustas à mesa onde servem a iguaria ao senhor do feudo que entretanto foi comprar cigarros, ou aos meninos que passaram a tarde a jogar Playstation. Provavelmente têm a alegria de fotografar as diversas fases do cozinhado e pespegar com os fascículos no Instagram, elogiando no twitter o marido que descascou as batatitas.

 

Não compreendo as mulheres que trazem apenso um fogão, nem fogões que trazem mulheres apensas.

 

Talvez seja porque detesto cozinhar.

Erros meus, má fortuna, amor ardente por outras coisas que me rasgam o avental. 

 

Por isso comprei uma Bimby.

O rapagão merece...

 

A maquineta é um fenómeno!

  

Como não represento a empresa alemã e como evito aprender o que quer que seja relacionado com tachos e panelas, não sei exactamente o que a máquina não faz, mas fixei um pormenor que me deixou siderada. O monstro divinal tem ligação à internet, capta as receitas que escolhermos no site, envia uma lista com os ingredientes para o telemóvel e permite uma programação semanal das refeições, indicando em cada dia que passa os ingredientes que temos de ter à nossa disposição para os catapultar para dentro do milagre.

 

Só lamento que o rapagão tenha ficado um bocadito desiludido por não ter de voltar a passar horas a fio a elaborar pratos extraordinários que fazem corar de vergonha as avozinhas - dele e do Capuchinho - e esta rapariga desleixada.

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A Gaffe depois da Páscoa

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.17

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Ao fundo da alameda de mimosas fecharam-se os portões.

 

A manhã declina o encadear das sombras. Inclina-se devagar sobre a água do lago e num tocar escurecido trepa aos olhos do anjo de pedra. Venda-lhe os sussurros das árvores que oscilam pesando as horas ternas da indiferença do vento.

O azul da luz esgueira-se por entre as sebes como um lagarto que tem frio e um pássaro treme, como o peixe vermelho assustado pelo toque da minha mão na água.

Há sardinheiras a abrir. Novelos de hortênsias no anil de uma promessa e a relva cresce lenta como um gesto que se faz inútil por estar sozinho.

 

Se avançar, piso as pétalas que espalharam nas pedras para que o som das campainhas se misture com o perfume enjoativo que libertam esmagadas. Um corredor de pétalas com as geometrias traçadas por moldes de madeira. Um corredor de pétalas pisadas que não foi limpo, porque o Dia Santo é dia de descanso e há tempo nesta manhã em que se fecham os portões ao fundo da alameda de mimosas para cuidar dos restos da tarde da véspera.

 

Fecharam-se os portões.

 

O som das campainhas ecoa na copa das árvores. É esmagado pelo perfume da luz que se inclina para decifrar a cor das sardinheiras.

Ao longe, as tílias sacodem a poeira deixada pelo adejar das opas brancas e um teixo ergue-se para o céu como um crucifixo.

 

A manhã devolve-lhes o silêncio depois do Dia Santo.

 

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A Gaffe não se esquece

rabiscado pela Gaffe, em 15.04.17

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A Gaffe num affaire

rabiscado pela Gaffe, em 13.04.17

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De joelho no chão, na minha frente, o rapagão tenta apertar o cordão do seu sapatinho de camurça castanha, enquanto, de cabeça erguida, me relata os pequeninos bibelots do dia de ontem.

 

Subitamente, o rapaz da manutenção abre a porta onde me tentava apoiar e entra distraído a cumprimentar as pernas à nova estagiária.

 

Para evitar maior confronto, maior choque ou grave atropelamento, vai de peito aberto de encontro às minhas costas. Com o impacto dou um passo em frente e sinto a cara do rapaz, já de cordão enlaçado, enfiada nas minhas pernas a balbuciar desculpas.

 

Embora prefira a expressão affaire à trois, tenho que admitir que para a surpresa de um ménage, o acaso é sempre o quarto convidado.  

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