Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Tennessee Williams

rabiscado pela Gaffe, em 08.06.17

Joan Miro.jpg

 

Ouço dizer algures que a vida traçada a regra e esquadro, a sucessão de dias programados, o quotidiano previsível, ou a coerência das horas seguidas, apesar de produzirem a sensação de segurança, desfazem o deslumbre e o espanto, como se nos voos fossem as tesouras que se fecham em lâminas de óbvio.

 

Não sei. É provável que sim.

 

Daqui, ouço o mar a preencher a noite da iguana. Há uma lua pousada na pele da água. Uma lua límpida, que recusa o arrasto da maré. Na orla da Avenida, um homem corre em tronco nu. Tatuado. Musculado. Bonito. Corre compassado de calções azuis. Suponho que feliz. Quando o coração bate controlado, a felicidade ainda que banal pulsa com ele. Há uma mulher ao longe à espera do autocarro. Veste uma saia escarlate e parece nesta distância nocturna uma bandeira de uma qualquer revolução que não explodiu. Uma saia contida, apesar do grito. Passa por mim o cão pequeno, branco, com manchas ocre a pintalgar-lhe o pêlo. Presa pela trela tem a dona, senhora dos seus cinquenta de arrepiada cabeleira que encima uma blusinha fresca. Vejo-a a comprar fruta nas manhãs. Compra a fruta da manhã que chega presa à trela da noite anterior, depois de espetar a unha envernizada na casca da laranja matinal. Um rapaz, pendurado na mão de uma mulher embevecida, atravessa a rua. Ela tem os olhos pretos e cabelos tingidos de uma cor indefinida. Sorri. Tem dentes brancos, luminosos. Certos. Dentes da idade dele. Tão certos como o vestido justo, cor de açafrão. Ele tem especiarias no corpo. Pimenta e noz-moscada, cravo-da-Índia e canela. Beija-a, já deste lado da rua. Ela deixa-se beijar, no outro lado do mundo. Um velho perfura o paredão que o separa das ondas parcas e breves. Senta-se depois num banco de madeira e fica parado, parco e longo como um dia que morre sem se ter visto uma saia vermelha, ou um vestido cor de açafrão, ou calções azuis a correr sobre ele.

 

Quando chegar a casa, descalço-me e pouso os pés nus nas tábuas do soalho. O meu soalho é a minha noite no princípio. É nele que começa o meu espanto, o meu deslumbramento com as cores das noites certas das Iguanas.

 

na foto - Joan Miró   

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe carteirista

rabiscado pela Gaffe, em 31.05.17

6715188695_48aff2fafa_b.jpg

Há um jogo qualquer que nos pede que enumeremos o conteúdo da nossa carteira.

 

Não seriam brilhantes as minhas respostas. Não transporto muita coisa. A minha carteira não ilustra o estereótipo.  

Trago um bloco pequeno de capa esgotada que deixei de usar há muito tempo, mas que no medo de perder o passado riscado que contém, se tornou imprescindível; uma esferográfica que pertenceu ao meu avô, preta, polida, quente; a tradicional, mas frugal, parafernália feminina, composta por instrumentos de beleza que se misturam com outros mais técnicos, mais profissionais; um protector solar quase blindado e alguns documentos fechados, muito ordenados, numa pasta pequena de couro antigo.

 

Ao lado, mesmo ao lado do batom, trago sempre um adeus.

Nunca sabemos quando o devemos usar, não sabemos sequer a frequência com que o gastaremos, mas, seja como for, quando o adeus é usado convém-nos estar sempre com os lábios retocados. 

 

Foto - Jason Langer

 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe em equipa

rabiscado pela Gaffe, em 18.05.17

USA Soldiers

 Se não podes ajudar, estorva.

O que importa é participar. 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe a apanhar pedra

rabiscado pela Gaffe, em 09.05.17

Os rapazes possuem uma aptidão muito peculiar que me deixa perplexa e me faz repensar as razões da nossa permanência neste mundo pobre e pouco digno de respeito.

Acaba por se tornar uma característica e, em maior ou menor grau, é detectável em todos.

 

Resume-se à extraordinária capacidade de mostrarem ao mundo - e sobretudo à parte ocupada por mulheres -, como são maravilhosos a tentar fazer o que não sabem.

 

Esta tendência é proporcional à sua ineficiência. Quanto mais totós, mais capazes se sentem de realizar o que se transforma num palácio para os bois mirarem. Quando os factos os contradizem, escapam à realidade crua e nua, convencidos que apenas apanharam pedra.

 

O meu irmão, por exemplo, digníssimo representante da espécie, afiança que é capaz de pregar um prego com uma facilidade descontraída e humilhante.

As paredes estão cravadas de buracos que representam todas as tentativas de martelar um inocente ferrito que como por encanto costuma saltar disparado ao primeiro embate. No segundo o prego entorta, no terceiro o prego desaparece no ar, como um OVNI depois de ter avistado o Terço de Joana Vasconcelos.

 

- Apanhei pedra.

 

O homem apanha pedra sempre que tenta espetar a porcaria de um prego na manteiga! Suponho que esta evidência seria de vital utilidade se o pobre um dia se enfiasse em areias movediças. Caso tivesse à cinta um martelo e no bolso um prego, apanhava pedra. Salvava-se.

 

Em decoração não resulta.  

 

Os rapazes permanecem, conscientes ou não, convencidos que a genética lhes forneceu as aptidões dos grandes machos e que nós, recolectoras de corpinho frágil, estamos aptas apenas a realizar tarefas a que elas atribuem um ficheiro feminino.   

O resultado pode ser catastrófico, não só para a decoração, mas também para a imagem que deles temos e que benevolamente vamos mantendo com algum esforço.

 

Seria muito mais proveitoso assumir que são uma perfeita nulidade a trocar um pneu, a dominar uma prancha de surf, a arrastar móveis sem colapsar imóveis, a instalar um circuito eléctrico, a reparar o portão da garagem, ou, no mínimo, a provocar-nos um orgasmo, admitindo em contrapartida que são exímios a tricotar pegas de cozinha, ou a construir arranjos florais mirabolantes.

 

Não!

 

Preferem que assistamos ao descalabro que é ver a sua masculinidade, pura e dura, a exibir-se lampeira e toda competente rumo a um ocaso pousado nas ondas das nazarés desta vida para logo depois sermos obrigadas a cristãmente caminhar sobre as águas para os repescar e ouvir dizer logo a seguir, a abanar a negra madeixa ao vento, que apanharam pedra.

surf.gif

 

Uma proposta de discussão feminista a não deixar escapar.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe de Abril

rabiscado pela Gaffe, em 25.04.17

 

Às vezes, de tão cegos com o pó que se levanta pelo caminho, ficamos presos ao lugar de onde pensamos ter saído há muito tempo.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe esvoaçante

rabiscado pela Gaffe, em 06.04.17

Primavera.jpg

No Amor é imprescindível atar com um fio de aço a claridade à sombra. A força com que surge a Primavera é a mesma que acompanha o voar das borboletas.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe "turistificada"

rabiscado pela Gaffe, em 06.04.17
.

Num tempo que já lá vai, descíamos os Clérigos para visitar, no Largo dos Lóis, a velhíssima livraria onde misturado com bolor encontrávamos o antipático e bafiento empregado que quase nos expulsava à força de perdigotos; procurávamos botões antiquíssimos na retrosaria em frente, as rendas desbotadas, os entremeios, as linhas coloridas que comprávamos apenas por capricho; visitávamos o velho ferro-velho que tinha, pintado à mão, no vidro da montra, o presunçoso título de Antiquário e que vendia alfinetes de peito e chávenas de chá inglesas como se fossem relíquias arrancadas a memórias com séculos e tomávamos chá na leitaria ao lado, levadas ao céu pela fatia de bolo de mármore que não dispensávamos.

 

Não convém afastarmo-nos durante muito tempo dos lugares que nos foram queridos. As metamorfoses por eles sofridas devem ser por nós acompanhadas para não nos abocanharem de repente.

 

Levaram-me a visitar o requalificado e reabilitado quarteirão das Cardosas. Há tanto tempo a não via e que saudades, Deus meu!

 

Entro na Disneylândia!

 

Das ruas repletas de casario com um traçado arquitectónico único e plural, ficaram apenas as cascas agora uniformizadas das casas antigas. O facto de não ter existido a preocupação em reabilitar lenta, penosa e pensadamente, caso a caso, prédio a prédio, casa a casa, deu origem a um aglomerado de edifícios turistificados.

 

Esta Baixa do Porto reabilitada anuncia através de um patético slogan imobiliário o público a que se destina: Jovens casais, criativos, jovens intelectuais e novos pensadores. O preço do mais exíguo apartamento deste complexo Disney é dez vezes maior do que aquilo que o público-alvo ganharia em duas ou três décadas, se, com uma esperança do tamanho destes preços, os jovens filósofos, os novos artistas saídos das Belas-Artes e dos Conservatórios ou os novatos letrados, conseguissem hoje arranjar um emprego, mesmo um que lhes dificultasse ou impedisse o exercício das suas qualificações.

 

A actual reabilitação da Baixa portuense corre o risco de se tornar apenas uma turistificação de uma zona histórica, muito city users, muito cidade dos eventos, onde pulula o consumo gourmet com peças de artesanato de Carrazeda de Ansiães, compradas ao custo da chuva, expostas em vitrinas Philippe Starck a preços que permitem supor que compramos também a obra do designer e a cafés onde há estantes com livros com a lombada contra a parede, porque a paleta dos brancos, bejes, dos marfins e pérola das páginas fechadas que se mostram, condiz com a decoração acastanhada e não faz tanto ruído como se visíveis fossem os títulos das obras.

 

Business is business, mas tem de haver mais vidas.  

 

Turistificar não é o mesmo que reabilitar. A primeira cirurgia transforma uma cidade num imenso parque temático, a segunda, obriga a que cada caso, cada prédio, cada casa, cada esquina e cada recanto regenerado, seja capaz de continuar a produzir memórias, conservando aquelas que deles já temos e que dentro deles fomos construindo.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe com filtros

rabiscado pela Gaffe, em 05.04.17

beijo.jpg

Ouvi dizer que a forma de percebermos que deixamos de ser amados é sentir que o nosso beijo deixou de ter qualquer significado para aquele ou aquela que beijamos, sobretudo quando já significou tudo.

 

É uma formulação bastante poética e os poetas raramente se enganam.

 

Há no entanto um dispositivo escondido dentro de nós que detecta o fim de um amor sem qualquer necessidade de ler desta forma osculatória os sentimentos do outro.

 

A erosão do amor faz-se de forma lenta, mas perceptível. 

 

Tem a ver com o nosso regresso à banalidade. O desamor é o confronto com a banalidade. Daí sentirmos que a solidão nos volta a preencher os dias. Nada é mais deserto do que nos descobrimos apenas mais um ponto acrescentado à multidão de pontos que nos são iguais.

 

Deixarmos de ser amados é voltar a saber que os rabiscos que fazemos nas páginas do caderno de apontamentos não rivalizam com os esboços de da Vinci; que os traços que deixamos arrastando palavras pelo papel não são cometas; que numa gare de partida – e raras são as gares onde chegamos – somos aquele casaco que se esqueceu no braço de uma cadeira e que ninguém guarda com receio da aproximação do dono; que não pisamos nuvens quando andamos, nem os nossos gestos fazem deslizar os rios com brandura, porque caminhamos para o emprego e temos nos braços os documentos que preenchemos na véspera; que não nos alimentamos do perfume das rosas, porque temos arroz de bacalhau para o jantar e o cadáver da loiça do almoço a apodrecer na banca; que não contemos universos mágicos no peito e que a único truque de ilusionista que conseguimos fazer consiste em arranjar tempo para retirar o verniz das unhas escaqueiradas ou aparar a barba antes do horário do autocarro; que não temos a eloquência de um senador romano e que os nossos discursos são como os sopros com que se enchem balões; que não somos Charlie todos os dias que passam, porque não nos pomos a jeito; que não espargimos luz quando aparecemos, porque a lâmpada da casa de banho está outra vez fundida e não nos apetece voltar a trocá-la; que não somos passarinhos que debicam grãos de orvalho, porque a alheira nos fez azia e não há anti-ácido em casa e que a porcaria do gato que não queríamos em casa nos rasgou as cortinas e não temos os véus dos olhos de quem quer que seja como abrigo.

 

Deixarmos de ser amados é regressarmos ao que somos sem qualquer filtro. Somos banais, quotidianos, comuns, vulgares, habituais e corriqueiros, mesmo sabendo que as palavras são sinónimos.

 

Deixarmos de ser amados - ou deixarmos de amar, que também serve -, mostra-nos uma realidade que nos é adversa, a única que descobrimos ser a nossa.

Não precisamos de um beijo para nos apercebermos disto.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe situada

rabiscado pela Gaffe, em 04.04.17

casa.jpg

 

Há lugares onde ficamos presos para sempre. Como se quiséssemos ou como se fosse esse o nosso fado. Como importasse muito ter um chão, um céu ou uma árvore.

Há lugares onde acordamos sempre por mais longe que seja a nossa terra agora.

Há lugares imutáveis dentro dos nossos olhos, cegos nos caminhos que não temos.

Há lugares onde a água corre e onde morrem árvores e nascem depois árvores que vão depois morrer por onde passa a água. 


São os lugares que nos estancaram o peito no instante em que soubemos que o nosso chão, as nuvens e as árvores que morrem por onde a água escorre, são apenas os braços dos abraços que perdemos. 


Vamos para dentro.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe vencedora

rabiscado pela Gaffe, em 31.03.17

Greta Garbo.gif

Greta Garbo - The Mysterious Lady - 1928

 

Às vezes o nosso melhor argumento de defesa, é precisamente a forma como somos atacados.  

comentário2.JPG

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe mortal

rabiscado pela Gaffe, em 29.03.17

122.jpg

 

A dor tem uma propensão democrática. Não é rapariga de distinções, ou moça preconceituosa e dada a selecção de classes.

Chega, instala-se e vai tricotando o tempo, indiferente ao modo como a tratamos. É de nula importância se lhe servimos um chá e biscoitos de fino trato, ou se a alimentamos a chouriço e broa com azeitonas. Cada um a trata como quer ou pode e a ela pouco importa. 

 

Sempre me foi ensinado a tratar a dor com silêncios. Alguns a durar muito. Aprendi, por exemplo, que o luto, essa habituação à ausência de alguém, exige uma solenidade que não se compadece com declarações a pingar lirismos que ilustram o quanto se finge que se acredita que aquele que morre, não morreu, que permanece no ar que se respira e que foi dele, ou nos crisântemos que crescem para adornar sepulturas, ou nas rabanadas do Natal.

 

Mesmo quando me diziam que ninguém morre, frisavam, ainda que de modo subtil, que as metáforas que eram usadas para mo dizerem, não passavam disso. Metáforas. Algumas eram magníficas, mas traziam na cauda dos pinchos das palavras a certeza da morte. Irreparável.

 

Morre-se. Morrem-nos.

 

Aprendi - muitas vezes com dureza - a não acreditar nas lamúrias, nas choradeiras líricas, nas evocações diaristas da dor pregadas nos monitores com florinhas orvalhadas de lágrimas ou nas colagens básicas da memória do morto às árvores que rolam os ramos no vento que passa com a voz do ausente.

 

Ai, flores do verde pino.

 

Admito que pode ser um exercício de catarse este produzir de treta poética e que a ele sucumbi algumas vezes. Há no entanto em mim uma certa consciência da morte como ocorrência lógica que não permite que a neguemos com prolongamentos metafóricos.

 

Nada continua após a morte de alguém. Nada permite declarar que o que nos morre continua vivo nas coisinhas que o recordam. É demasiado pobre. Demasiado pouco. Demasiado indigno. Morrer merece mais.

 

No pescoço da minha irmã pousa o colar que foi da minha avó. É agora o colar da minha irmã. Nada mais. As sardinheiras de Espanha que o meu avô cuidava, são agora minhas e da minha responsabilidade. A vida da minha avó não está prolongada no colar e a do meu avô não continua a crescer no jardim e a memória só precisa de incentivo quando se atenua. 

 

Às vezes descubro que existe um buraco negro e fundo no meu peito que a morte deles continua a cavar ininterruptamente, mas aprendi os silêncios que lhes devo e a dignidade de os saber mortos.

Fui a neta deles. Sinto-o em cada movimento que faço, em cada decisão que tomo e em cada passo que dou e mesmo assim a vida é minha e nela nenhum passarinho ou raminho de hortelã que ouço ou corto, faz soar o canto do Proust das tardes da minha avó ou me traz o sabor a limpo do colo do meu avô. 

 

Quando eu morrer, não batam em latas.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe de mãos partidas

rabiscado pela Gaffe, em 28.03.17

79.jpg

 

Já não levanta os olhos como outrora.

Agora as pálpebras pesam como se arrastassem os que perdeu pelo caminho. O silêncio aguçou-o, ou a luz que recusa.

Agora é como uma coisa que usa, um órgão, um sinal, uma máscara ou uma luva preta. A resignação cresceu como um bicho cego, mas já não raspa o chão com os pés, como se tivesse garras.
Agora está nos olhos mal abertos.

Acompanhei-o à porta. Olhou-me de frente, recuou e abraçou-me como nunca o tinha feito, nunca assim de ferro.
O abraço tinha lágrimas nos dedos.

Vai morrer em breve.

Tinha decidido procurar-lhe a esperança, mas breve descobri que ela não constava do registo.

 

Fico esmagada perante as poderosas asas que perdemos quando ao longe, mesmo quando o longe é bem mais longe do que aquilo que pensamos, vemos tropeçar no fim os que desistem.
Deixamos de encontrar os nossos braços prontos para agarrar a queda daqueles que nos entram pelo coração adentro, mesmo ao longe que é bem mais longe do que aquilo que quisemos.

Temos mãos partidas.  

 

Fotografia - Weichuan Liu

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe à escuta

rabiscado pela Gaffe, em 24.03.17

Harry Benson.jpeg

 

Não é fácil abrir durante a noite ao mar a porta de uma varanda.

Não basta que nos aproximemos da vidraça com a lentidão que nos parece de um aguçado azul apenas porque lá fora só existem os traços cinzentos, babados de branco esbatido, do dorso das ondas rasas. Não basta tocar no puxador. Não basta curvar a palma da mão e sem esforço fazer deslizar o vidro sobre as calhas, com o som de uma gaivota a rasar a copa das ondas. Não basta acercarmo-nos do vento escuro como o breu que não tem som. Não basta perceber que lentamente o marulhar ao longe se aproxima repleto de raízes.  Não basta que aos nossos pés nus assomem as agulhas do frio liquído que alastra devagar até tocar as nossas mãos vazias.

 

Não basta.

 

Durante a noite, não abrimos a porta da varanda ao mar se não adivinharmos o som das gaivotas que pairam sobre a copa das ondas, porque abrir ao mar a porta de uma varanda nocturna é um acto solene e a solenidade exige silêncio, ou a serenidade do planar das gaivotas.

Abrir ao mar uma porta nocturna é como assomarmos ao coração de alguém, como se fossemos capazes de fazer deslizar o que nos separa dessas ondas.

 

Não é fácil abir a porta do coração de alguém sem primeiro ouvir uma gaivota a bater nos vidros.   

 

Na foto - Greta Garbo por Harry Benson

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe por entre os vidros

rabiscado pela Gaffe, em 23.03.17

396.jpg

Os sons da chuva entram pelo impossível laqueado das janelas.

Atravessam os vidros, as minhas pálpebras e entram no interior dos meus olhos. Sons visíveis.

Lembram flores. Flores que se abrem num espaço que dura apenas o tempo de assomo do meu espanto à janela.

 

Daqui vejo o mar. Parece um mimo. Mudo. A gesticular em modos de afogado.

Descubro que por entre as minhas janelas intransponíveis há intercepções de águas de línguas diferentes e é neste maravilhar que me emudece que pouso as minhas mãos e lavo os olhos.  

 

Fotografia - Sara Facio

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe e as lolitas

rabiscado pela Gaffe, em 21.03.17

1.jpg

  

Todas temos, nas mais matreiras das esquinas da nossa alma, prontas a saltar e a jogar à macaca, lolitas tão ou mais perigosas que a original.
 

Somos pérfidas, perversas, maliciosas e, quase por instinto, reconhecemos que a mais pueril das inocências se pode transformar numa lâmina que não vai apenas escanhoar o esperado. Ignorar as lolitas que espreitam, espertas, picantes, o momento exacto em que podem fazer silvar o chicote de uma das mais implacáveis formas de sedução, é arriscar demais, de olhos vendados.

       

O poder que subjaz a uma consciente inocência, tangente a uma infantilidade controlada, transforma uma mulher num crime. É inodora, incolor e não traz sal à superfície, mas não é seguro, para um rapaz desprevenido, entrar nesta aparente transparência. Mergulha, solto e leve, refrescado e calmo e duas braçadas depois, há sangue na água.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)


foto do autor








Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD