Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe por entre os vidros

rabiscado pela Gaffe, em 23.03.17

396.jpg

Os sons da chuva entram pelo impossível laqueado das janelas.

Atravessam os vidros, as minhas pálpebras e entram no interior dos meus olhos. Sons visíveis.

Lembram flores. Flores que se abrem num espaço que dura apenas o tempo de assomo do meu espanto à janela.

 

Daqui vejo o mar. Parece um mimo. Mudo. A gesticular em modos de afogado.

Descubro que por entre as minhas janelas intransponíveis há intercepções de águas de línguas diferentes e é neste maravilhar que me emudece que pouso as minhas mãos e lavo os olhos.  

 

Fotografia - Sara Facio

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe e as lolitas

rabiscado pela Gaffe, em 21.03.17

1.jpg

  

Todas temos, nas mais matreiras das esquinas da nossa alma, prontas a saltar e a jogar à macaca, lolitas tão ou mais perigosas que a original.
 

Somos pérfidas, perversas, maliciosas e, quase por instinto, reconhecemos que a mais pueril das inocências se pode transformar numa lâmina que não vai apenas escanhoar o esperado. Ignorar as lolitas que espreitam, espertas, picantes, o momento exacto em que podem fazer silvar o chicote de uma das mais implacáveis formas de sedução, é arriscar demais, de olhos vendados.

       

O poder que subjaz a uma consciente inocência, tangente a uma infantilidade controlada, transforma uma mulher num crime. É inodora, incolor e não traz sal à superfície, mas não é seguro, para um rapaz desprevenido, entrar nesta aparente transparência. Mergulha, solto e leve, refrescado e calmo e duas braçadas depois, há sangue na água.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe em narrativa simétrica

rabiscado pela Gaffe, em 14.03.17

Rachel Ruysch.jpg

 

O que torna uma mulher reconhecível no meio de uma multidão de extraordinária beleza?  

 

Os estudiosos declaram que é a simetria. Um rosto absolutamente simétrico possui a capacidade de ser considerado belo em todos os lugares e em todos os tempos. Atravessa as civilizações e nelas deixa marcas indeléveis, consegue aglomerar em seu redor a generalizada opinião que eleva as suas formas à condição de excelência e produz invariavelmente a unanimidade em relação à formosura que possui.

 

Eventualmente será assim.

 

No entanto, um querido amigo tem uma teoria diferente.

 

O que torna impossível uma mulher ser ignorada pode não ser a simetria do rosto, que de perfeita é incontornável, mas a história que o rodeia. A deslumbrante capacidade de prender o olhar, não a forma correcta do nariz ou o langor dos olhos iguais, quase duplicados e reflectidos por milagre, ou a harmonia constante das maçãs do rosto, mas a possibilidade de reter histórias ou a faculdade de despertar enredos no imaginário do mais comum dos mortais.

 

A beleza indestrutível é um misto de narrativas por escrever. Acorda o talento inventivo de cada um de nós e permite-nos a adivinha, o jogo, a fantasia, o devaneio e a ilusão de podermos alcançar a quimera que vamos sem saber construindo a partir do que não lemos.

 

A simetria auxilia a beleza, mas é o poder que a mulher retém de provocar histórias que faz dela única e a torna impossível de ignorar.

 

Imagem - Rachel Ruysch (Séc. XVII)

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe em Março

rabiscado pela Gaffe, em 28.02.17

770.jpg

 

O corpo deitado do meu amante vi-o esta manhã.
Na planície do terceiro mês.

Um lírio aberto.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe fisgada

rabiscado pela Gaffe, em 22.02.17

 

Se resta alguém que pense que somos feitas de rendas, folhos, organza e tule, de esvoaçante poesia imaculada e virgem, de asas diáfanas envoltas em alvas madrugadas, que tire o cavalinho da chuva.

 

Podemos ser tudo o que se pensa e mais do que isso, mas jamais nos esquecemos de trazer, junto à alvura da inocência e do cristalino esbracejar das nossas asas, a arma que fez tombar Golias.      

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe numa fotografia

rabiscado pela Gaffe, em 21.02.17

C..gif

 

Tenho lido com particular atenção as opiniões que vão surgindo relativas à foto vencedora do World Press Photo onde o assassínio do embaixador russo é captado alguns momentos após ter sido cometido.

Humildemente reconheço que os discursos que a foto vai provocando acorrentam a minha pobre opinião às tábuas da tolice, mas socorro-me de Geneviève Serreau para entregar alguma racionalidade àquilo que penso acerca do assunto.

 

A autora, algures num estudo sobre Bertolt Brecht e a propósito de uma fotografia onde é nos é mostrado um massacre de comunistas gualtemaltecos, refere que o horror não está no que vemos, mas porque o vemos a partir da nossa própria liberdade.

 

Admito que é complexo este postulado. No entanto, com a ajuda preciosa do pensamento de quem me está próximo e é anos-luz mais racional do que eu, acabo a entender que não basta ao fotógrafo mostrar-nos a abominação para que a sintamos.    

 

A linguagem internacional do horror é documentada de modo a que saibamos interpretar os signos. É elaborada de forma hábil - usando contrastes, aproximações ou reconstruções subliminares -, facilitando-nos uma leitura já preparada, que não nos toca grandemente, porque pensou por nós, sentiu por nós, sofreu por nós e de certa modo indignou-se por nós.

Intelectualmente aquiescemos, mas não nos sentimos realmente ligados a estas imagens. Estão isentas de histórias, impedem que as inventemos porque já estão narradas pelo autor.

 

A foto premiada não obedece a estes pressupostos. Segundo o autor foi um acaso. Acreditou mesmo ser apenas uma performance a decorrer no espaço visitado - o que só por si daria um tratado relacionado com a banalização do terror e com a distorção, o esmagamento e amálgama de signos distintos. Esta alteração acaba por impedir o aparecimento de elementos propositadamente contrastantes e contrastados e, sendo em directo, sem reconstruções ou interpretações prováveis, dar-nos-ia, em consequência, a possibilidade de sentirmos.  No entanto, a captação do instante surge ainda contaminada pelo construído, torna-se demasiado intencional, porque está imbuída da vontade de se usar uma linguagem incómoda e acaba por nos merecer apenas o tempo de uma leitura instantânea. A foto não nos desorganiza, porque se reduz a uma linguagem específica, isentando-nos do verdadeiro confronto com o escândalo.

 

Nas imagens do terror que nos mostram existem signos claros e nítidos, mas sem a ambiguidade, a textura a espessura que deve caracterizar um signo.

 

A foto do assassinato do embaixador russo espanta porque parece estranha, paradoxalmente calma, porque está privada da nossa explicação privada, usa a linguagem - que já falamos, que já entendemos - internacional do horror, e, custe o que custar, por causa disso ainda tem a presença do fotógrafo.  

 

É literal.

Introduz-nos ao escândalo do horror, mas não ao próprio horror - diria Barthes.    

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe não chora em português

rabiscado pela Gaffe, em 20.02.17

image.jpg

 

Por amor chora-se demais.

 

Pertence à mulher a maior parte das lágrimas. O homem transcende o mito, manifestando, ao contrário do dito, a sua virilidade quando se afasta da censura que o mantém longe das lágrimas e causa o espanto cantado por Piaf - ... Mais vous pleurez, Milord?! ça je l'aurais jamais cru!

 

É abertamente permitido ao feminino o choro de amor e chora-se sempre pela partida e pela ausência - a traição, o ciúme, a não reciprocidade ou outras razões que quisermos aliar ao choro desta natureza, são sempre metamorfoses do abandono. A mulher, sobretudo a portuguesa, foi sempre a sedentária que ouviu dizer às velhas da praia que ele não voltava. O mar, a guerra e a emigração - que é, em última análise e forçando a metáfora, uma mistura dos dois - sempre forneceu versos ao Fado, que é maioritariamente uma história de abandono de uma mulher que chora a partida ou a ausência do homem que ama - tornando-se por isso o reverso do Tango, em que é sempre o homem a lamentar a perda da mulher amada.

 

Choramos copiosamente, desfazemo-nos em lágrimas, rompemos em lágrimas, chegam-nos a lágrimas aos olhos, choramos todas as lágrimas do corpo, soltamos um fio de lágrimas, ficamos de olhos marejados. Choramos de formas diferentes para públicos diferentes. O choro é também um enviesamento que vai submeter o outro à sua própria sensibilidade, solidariedade ou indiferença. Todas as lágrimas são mais do que palavras, mas acabam por salgar uma exposição quase chantagista impressa no vê o que me fizeram! Vê o que fizeram de mim! Chorar exige destinatário.

 

O choro solitário, o chorar para nós, por amor, torna-nos de forma subtil espectadores do nosso sofrimento. Choramos então porque acreditamos – ou para acreditar - que as dores que sentimos não são ilusórias. Oferecemo-nos um interlocutor de excelência e provamos através do corpo que ultrapassamos a palavra que traduz a possível fantasia. Cumprimos as ordens do corpo apaixonado e permitimo-nos chorar. Em nenhuma língua somos capazes de exprimir o que uma lágrima traduz. Se não somos capazes de o dizer, entregamos a voz ao que está para além da linguagem.      

 

Se uma imagem vale mais que mil palavras, a lágrima é a imagem de todas as palavras que quisermos.  

É só fazer as contas.

 

Foto - Henri Cartier-Bresson

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe cá e lá

rabiscado pela Gaffe, em 16.02.17
.

A vida lá fora, ou seja, exterior ao meu teclado e ao monitor do meu PC, não é um espaço restrito e definido, com fronteiras perfeitamente traçadas e limites conhecidos - sobretudo quando falamos de sentimentos ou emoções ou atitudes. Não somos frutos que se possam cortar ao meio separando as partes, classificando-as depois, aplicando os critérios que escolhemos por razões que mais se aproximam daquilo que supomos ser a nossa cara.

Não podemos excluir, desprezando ou subestimando, tratando como inútil ou não-emoção ou não-vida ou não-sentimento a parte, o gomo, que não se adequa aquilo que nós consideramos digno de ser lido ou olhado ou sentido como sério ou real.

A vida e as emoções e os sentimentos e as atitudes são mutáveis, renováveis, reinventáveis.

 

 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe labial

rabiscado pela Gaffe, em 10.02.17

A Gaffe traz-vos uma novidade!

 

Batom.jpg

 

Reconhecido, pelas instâncias do mais superior que há, o seu irrepreensível gosto, a Gaffe surge na Baton palrando comme d’habitude acerca do amor.

  

Não há nada como trazer na carteira uma boa revista.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe sem preço

rabiscado pela Gaffe, em 16.01.17

16-1-5.jpg

Não creio que se deva ou se possa impedir alguém de alcançar uma vitória ou atingir determinado objectivo, apenas porque é portador de determinada característica que potencia as hipóteses de sucesso ou que, de ânimo leve e consciência limpa, se possa anular a candidatura à vitória do que possui um dado específico ou eventualidade genética que o coloca de imediato na linha da frente dos pretendentes mais lógicos.  


Não afastamos, por exemplo, ninguém da competição, com desdém e sobranceria, apenas porque o indivíduo em causa mostra que tem um inato e descarado talento, um incontornável e descontraído virtuosismo, perante um outro, menos genial e menos bafejado pela sorte ou pela lotaria dos genes, mesmo que este arraste consigo um sistemático esforço, um constante labor, um suadíssimo e encarniçado trabalho de bastidor.

 

A beleza, feita de carne e de imaginação, é um factor gratuito que chega sem contar para nos colocar nos lugares onde a vitória é mais previsível, mas que cobra esse privilégio sem qualquer tipo de condescendência.
O preço é real e muitas vezes inclui o retorno inflamado daquilo que é dado e, ao contrário do esperado, quem o costuma pagar é o vencedor.
É uma arma que dispara do mesmo modo que o talento, a inteligência ou o mais elaborado dos esforços e, como tal, deverá ser considerado legítimo o seu uso na procura eventual da vitória e abertamente aceite o seu efeito potenciador de sucesso.


Pode não usar o mesmo gatilho usado pelas outras, mas supera-as muitas vezes no resultado obtido.


Não é de todo condenável que se use consciente e deliberadamente na guerrilha da vida as armas que nos foram entregues pelos genes.
O uso do poder de atrair, a pele e o sorriso, podem emudecer as mais argutas análises, podem calar as mais estudadas e sapientes conclusões que contra nós afiam dentes e navalhas.
O uso da capacidade que a beleza tem de se tornar obstáculo aos mais matemáticos estudos, às mais complexas equações, aos mais racionais argumentos, às mais límpidas demonstrações que nos negam e reprimem, não pode ser proscrito.
O uso da evidência do que é belo preso em algodão macio para destruir o que nos impede de morder maçãs proibidas, não é de descurar.
O uso da agilidade de todos os músculos que temos para domar a rigidez das decisões que não interessam, deve ser considerado como viável e certeiro.

A beleza funciona assim e desta forma como uma alavanca, um impulso consciente, um corte de caminho, para que às nossas mãos chegue aquilo que desejam.


Nestes processos é condição essencial - quando as armas que empunhamos são por norma as que maldizem -, que seja divertida a consciência desse uso e aguda a certeza de que o fazemos bem, sem escrúpulo algum, sem nenhuma espécie de demagógica moral, sem ética pindérica, sem benzida noção de decência ou de beato decoro.


Apenas dessa forma a beleza que utilizamos é uma outra espécie de inteligência. A inteligência que se pode espreitar, pecaminosamente, maliciosamente, pela fechadura do desejo. A agulha no palheiro.


O absolutamente exigido é que nunca nos coloquemos à venda e perceber que temos somente a perspicácia de apenas fazer com que alguns encontrem os seus preços.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe no início

rabiscado pela Gaffe, em 02.01.17

início.jpg

Levanto-me cedo. À alameda deste silêncio, chegam as primeiras sombras das tílias rendilhadas.

A luz é uma torre de marfim erguida nos socalcos do início da manhã.

 

Embrulho-me na samarra do Domingos. A samarra que visto como se fosse o sobretudo de Bogart. Encosto o corpo à pedra. A casa é fria, a cal é branca. Há portas dormentes farejando o gelo. Há espelhos descobertos erguidos pela sala com reflexos de socalcos cinzentos e esfumados pela névoa.

 
Erguem-se as vagas brancas deste início plano e o brilho leitoso dos começos sobrevoa a mão do anjo de pedra que toca a superfície do lago.

O silêncio tem cor. Este azul de palidez de mortos que trepa as escadas como um cão ferido.

 Não quero que a manhã suba aos meus dedos e abra crisântemos no meu corpo.

Gostava que tudo fosse azul-escuro e que pelo silêncio ainda calado, viessem falar-me da neve.

 

Ainda é tão cedo.


Senta-te aqui, na pedra, junto a mim. Vieste para me ver, não foi mulher? Conta-me então histórias, como sempre fazes. Habituei-me a ti e já não tremo quando sinto no cabelo as facas dos teus dedos.

Conta-me histórias.

Vamos, velha doida!

Primeiro aquela em que eu sonhava ser menina grande e ter um Norte. Depois a do vadio que apanhava conchas no areal para fazer delas barcos no chafariz da Praça ou mesmo aquela em que um bêbado por desejar a lua se afogou no mar na noite em que ela veio flutuar na água.


Se me contares histórias, velha Tristeza, prometo que adormeço nos teus braços. Prometo que abrando a frequência com que pouso a vida nas tábuas do meu quarto. Prometo deixar que o teu cabelo se misture com os veios da madeira. Prometo parar de ferir os lanhos das manhãs de poalha adormecida da memória. Prometo não tropeçar mais no teu corpo quando avanço pela sala distraída. Prometo deixar-te partir. Deixar-te numa esquina da morte, num sítio qualquer.

Os dias passarão a ser dias de soalho encerado, de madeira impoluta. Dias a passar. Dias inúteis que colarei a estes dias que vivo no lugar daqui e ficarei à espera, sem tempo para mecânicas de qualquer fluído, de olhos sem lágrimas ou palavras que enferrujem as grades que me apetece derrubar.

 

Diz o Domingos que nesta casa chora-se pouco, mas há apenas duas maneiras de transportar a dor. Por dentro ou por fora.

 

Ensinaram-me que a dor não é um derrame de rimas choramingas. Não uiva. Não se arremessa em lamentos de míngua. Não pincha em cemitérios floreados. Não ergue as caravanas de circos saudosos em  enxurrada de lágrimas contadas.

Ensinaram-me que a dor é cuidar sozinha das sardinheiras de Espanha e das hortênsias, dos príncipes de pedra com asas que afloram a superfície das águas, do fio da cisterna e deste rio, relâmpago deitado.

 

A manhã começa. É o início.

Fechar os olhos é olhar depois.

Sinto-me cansada.

Sinto-me tão cansada e este silêncio pesa como chaga.

 

 (1 de Janeiro de 2017, 06.30h)

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe em Aleppo

rabiscado pela Gaffe, em 27.12.16

1.jpg

 

As palavras crescem raquíticas nos muros da surdez e todos os gestos que começam tarde matam açucenas.

No entanto tudo está certo. Recto como um fio no abismo.
Ninguém exige o rosto dos culpados. Ninguém pergunta pela gravidez das árvores.
Mas tudo está certo e na rua brincam assassinos.
Resta a morte para alimentar os vermes.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe nas comprinhas de Natal

rabiscado pela Gaffe, em 22.12.16

Fernando Vicente.jpg

Rapazes! Não são, de todo, recomendáveis as vossas críticas mordazes e humilhantes às escolhas femininas, por mais ridículas que estas sejam.

 

É que há sempre a hipótese de serdes uma delas.       

 

Ilustração - Fernando Vicente

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe e os homens feios

rabiscado pela Gaffe, em 17.12.16

Tenho um amigo, de uma beleza invejável, cruzamento, demoníaco de belo, de genes latinos com nórdicos, que num dia chuvoso já passado, perante babadas criaturas de todas as espécies - lembro-me que havia um cão hipnotizado pelos olhos cinzentos do rapaz -, desfiou num murmúrio vagamente melancólico, uma das mais extraordinárias frases que eu já ouvi:

- Deve ser bom amar um homem feio.

 

O dito ficou a remoer a minha pobre alma de menina e moça, suavizando, apesar de tudo, o redemoinho infernal que me provocava a visão esplendorosa daquela criatura.

 

Hoje, mais crescida e mais serena, longe da perturbadora imagem do belo rapagão, consigo, ainda que de modo inábil, entender o alcance daquela espécie de confissão tristonha.

 

Creio que deve ser realmente compensador amar um homem feio - desde que não seja o Mário Crespo.

Admito, como toda a rapariga esperta que se preza, não ser a fealdade um dos esteios que suportam a certeza de que o homem nos será fiel ou mais amante. A nossa segurança, autoconfiança, convicção, inteligência, lingerie ou a nossa capacidade de manter ao longe a concorrência, nem que seja ameaçando com garfos ferrugentos os olhos das rivais, são, entre tantos, alguns mais eficazes instrumentos para que se cumpra o estipulado.

 

Há, no entanto, o fascinante efeito Cyrano.

 

As armas do meu melancólico amigo de dias mais chuvosos, estão de tal forma visíveis e palpáveis - enfim, sonhar não custa -, que mesmo que fossemos amadas por ele, sentiríamos em simultâneo que esse amor tinha uma raiz cravada no nosso desejo ensurdecedor de exactamente … sermos amadas por ele.

É que sermos amadas pelo que é belo, faz-nos sentir ainda mais sublimes, mas deixa a repugnante baba da incerteza nos vidros quebradiços das nossas almas pequeninas.

 

Amar um homem feio deve ser bom. Aceito, porque o que se esconde no amor é muito mais do que aquilo que mora nos olhos cinzentos azulados daquela beleza estonteante que num dia chuvoso lamentou o fado e creio que, quando nos apaixonamos por uma criatura feia, nos deitamos na cama que ela nos ajuda a fazer, desde a escolha das traves às dobras dos lençóis.

A solidez das paredes do quarto já é outra questão, porque amar, dizem, é como ter dinheiro. Não traz forçosamente a felicidade como apêndice.

 

Seja como for, a Gaffe, rapariga fútil, desalmada, oca, tonta e irresponsável, mesmo suspeitando que o dinheiro  - e o amor - não a faz necessariamente feliz, prefere soluçar dentro de um Bentley.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe fantasiada

rabiscado pela Gaffe, em 15.12.16

Todos os homens marotos fantasiam. Escolhem, com mais frequência, cenários onde as mulheres estão vestidas de assistentes de bordo, de colegiais adolescentes, de mimosas serviçais de mansões decadentes ou de enfermeiras de tacão agulha.

 

Não é danoso para o nosso latente ou mais exacerbado feminismo. É tudo uma questão de saber como os fazer embarcar naquele jogo quase Lolita onde servimos os deleitosos aperitivos que os deixam prostrados e prontos a aceitar as picadas das agulhas dos nossos desejos mais imaginativos.

 

Em todas estas fantasias masculinas, por muito que o neguem, são pequenas heroínas que eles desejam ver fingir que somos e é nesse fingir que dominamos a história. 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)





  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD