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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe com duas avós

rabiscado pela Gaffe, em 26.12.16

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Tinha olhos que lembravam um País arrancado ao mar e a fragilidade insuspeita da tulipa. Tinha esguios dedos sem anéis e um colar de pérolas eterno que enrolava nos dedos. Tinha a benevolente paciência dos ouvintes ternos e a doçura das palavras certas ditas baixinho para não doer. Tinha cabelos de seda apanhados na nuca por travessões de tartaruga e usava calças cigarette, blusas de gola alta que a alongavam e a transformavam em cisne ou em espiga de trigo. Tinha a voz dos meigos, aquela voz que é bom ouvir quando troveja, e um sorriso de lua a crescer numa noite de Verão. 

A minha avó materna.

 

Tinha olhos avelã e espertos, ladinos, marotos. Usava Chanel à toa, misturando tudo por não ter paciência para combinar. Usava adereços gigantes e tinha um anel com um rubi espalhafatoso como o planeta Marte. Tinha o cabelo branco, com ondas e quebras, sempre em desalinho e blusas com folhos para não contrastar. Era bem mais pequena, mas era mais arisca. Tinha perdido a paciência pelo mundo fora e cortava as conversas sem dó nem piedade, fazendo ficar discursos a meio. Enganava-se em tudo, disfarçava depois espetando farpas em palavras soltas que surgiam incautas na boca dos outros. Tinha um sorriso aberto de lua a pairar nas noites de Verão.

A minha avó paterna.

 

As duas amigas. Cúmplices perfeitas. Chegavam, braços dados, à Ceia de Natal da família toda.

Devagar, as duas disfarçando o tédio, sentavam-me no meio dos perfumes díspares que teimavam usar.

 

- Viemos ter consigo. Aqui a menina é a única coisinha a funcionar.

 

As minhas Avós.

 

Neste Natal, não estiveram comigo. Não me sentaram nos aromas que espalhavam, e no entanto nunca esta casa teve um Natal tão perfumado pela maravilha da memória delas. 

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A Gaffe angélica

rabiscado pela Gaffe, em 23.12.16

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No pátio principal da casa existe um lago onde as manhãs de Inverno deixam películas de gelo enganadoras.

No centro desse lago existe um anjo de pedra.

Um dos joelhos mergulha na água enquanto o outro apoia o braço que leva a mão ao lugar onde devia haver um coração. Curvado, a asa esquerda está quase submersa enquanto a outra fechada o envolve em penas de pedra. A mão sem coração toca estendida a pele da água onde as carpas em dias de nevoeiro parecem faíscas vermelhas ou serpentes anfíbias como os deuses.

 

As árvores desgrenhadas desfazem, como em pecado, a ordem do jardim, a meticulosa descrição da dor da seiva, a geometria vegetal, reflectidas no espelho onde o anjo as inverte tocando-lhes as copas.

Cúmplice de todos os murmúrios. Senhor do petrificar da nódoa no silêncio que é encharcado com o perfume imenso da asfixia.

 

Enreda-se o frio nas asas do anjo e no corpo da água.


Sempre senti que a mão que lhe toca o peito encontra um ninho abandonado pelo coração que aprendeu o voo. Talvez ainda sinta o calor do corpo e do dormir do que perdeu, mas tem de procurar o bater de asas nas faíscas vermelhas das carpas que deslizam.  

 

O divino delapida. Anjos e humanos são vítimas dos deuses.

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A Gaffe no balneário

rabiscado pela Gaffe, em 12.12.16

ginásio.gifA Gaffe foi convidada para um jantar de negócios com o mano.

 

Não foi a sua primeira escolha, mas a enxaqueca da irmã – mais enxa do que outra coisa – impediu-a de se fazer presente e de endrominar um casal de idosos ingleses que decidiram recuperar um casarão no Douro e fazer de conta que são viticultores.

 

Estaciona o carro perto do ginásio onde o rapagão completava coisas que fazem suar imenso e espera.

Espera até lhe começar a doer o cashmere trench coat – estamos a falar de ingleses, convém treinar -, que usa depois de chantagear a dona. Sente-se enregelada, já que se recusa a ligar o aquecimento do carro, porque para além de ficar enjoada não sabe onde, nestes carros moderníssimos, o tubo do calor desemboca e receia respirar qualquer coisa desagradável … ou coisa que o valha.

Sai atordoada pela impaciência, já com o bâton misturado com a espuma da fúria e tenta empurrar a porta de entrada no ginásio com o glamour que sobreviveu à intempérie.   

 

 - Ah! ... Ainda está a fazer a aula.

 

Deve ser dito que fazer a aula é das expressões mais irritantes que a Gaffe conhece. Aliás, fazer o que quer que seja incomoda-a muito. Descalça a luva, toca no cabelo que para pentear em banana custou mais do que duas horas de desespero ao seu querido Miguel, traça o casaco com um ar de diva ofendidíssima e recomenda:

- Não se importa de ir lá dentro recolher os ingredientes. O homem já fez a aula, garanto-lhe.  

A mulher, de unhas de gel e fato de treino, com um carrapito oxigenado ligado directamente ao cérebro por onde emitia ondas electromagnéticas que se sentiram hostis, vociferou:

- Entre você se está com pressa.

Foi um erro pensar que a Gaffe desistia perante a ameaça de testosterona aos pinchos e a fazer alongamentos.

 

Entrou fazendo os possíveis por parecer Ava Gardner.

 

Uma doentia humidade quente atacou a leveza dos seus passos. O seu cabelo domado ganhou vida e num instante sentiu-o a encaracolar, a encarapinhar, como a juba da Barbie que a sua infância levou para o banho decidindo depois, para a secar, usar um secador na potência máxima; o seu casaco colou-se ao corpo com a pressão atmosférica e quem visse diria que pilotava um caça a uma velocidade hipersónica, porque sentia a cara toda distorcida. Escorregou no pavimento, mas esse pormenor ficou agarrado às paredes.        

Recompos-se. Uma rapariga experiente sabe que entrar em pânico faz suar e é fatal.

 

Abriu finalmente a porta que lhe daria acesso à sala onde a besta bufava.

Deu consigo no balneário.

 

O que viu não é aconselhável uma rapariga de boas famílias. Não é propriamente recomendável - mesmo não sendo desagradável de todo -, uma menina ter uma data de pilinhas espantadas a olhar para ela, que nem sequer tem à mão uns óculos escuros.

 

Uma situação absolutamente embaraçosa para os rapazes.

  

No meio do nevoeiro e depois de uma análise breve, mas muito profícua, do meio ambiente - enunciará em breve as conclusões a que chegou -, avista o maninho também com a pilinha a olhar para si e finalmente compreende o clube de fãs que este rapaz conseguiu povoar. 

Se Ava Gardner não hesita, esta rapariga também não. Avançou determinada, sorriu polidamente para os conhecidos e para as desconhecidas, agarrou no saco do mano com a desenvoltura das ginastas, voltou a sorrir e:

- Convém que te despaches. Eu já levo o saco para poupar tempo. 

Não foi brilhante, mas também não se pode exigir Shakespeare nas situação em que se contracena com pilinhas.

Saiu quase a desmaiar e a abanar-se toda com a luvinha e a suspeitar que desta vez o calor que sentia não era o do ginásio.

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A Gaffe lendária

rabiscado pela Gaffe, em 10.12.16

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Quando começa o Inverno, na hora parda que alastra a cor acidulada reflectida nos espelhos da água da cisterna mais pequena, na face Norte da casa, no lugar mais frio, há uma brisa que sentimos quase verde.

Desce as escadas de pedra e percorre todo o labirinto esguedelhado do jardim, entra pelas portas e janelas, corre corredores, afaga os móveis e as louças, sacode a poeira breve dos tapetes, confunde a ordem dos ponteiros dos relógios, despenteia jarras, inclina quadros na parede, desfaz a simetria das cortinas, obriga as mulheres a compor os lenços que usam traçados no peito, desarranja todos os recantos e canteiros, para depois voltar ao lugar onde nasceu, no lado Norte da casa, perto da cisterna mais pequena, e desaparecer por entre a imperceptível ondulação da água.

 

Dizem os homens que não é brisa sorrateira e branda a nascer ali, que não é o vento a estender um braço de sono e a recolhê-lo depois de o espreguiçar.

 

Dizem as mulheres que todos os Invernos vem do fim da água um anjo condenado por se atrever a amar aquela que guardava e que em brando desespero procura o que, por tanto desejar, deixou desamparada.

 

Ao fim da tarde, depois, volta a morrer, porque se perde constantemente a vida quando sabemos que o nosso amor, de tanto, desnuda e aniquila os que desmesuradamente nós amamos.

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A Gaffe duriense

rabiscado pela Gaffe, em 06.12.16

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No Douro há dias em que atravessamos os corredores com a lentidão dos vermes.

Dias em que se vê por dentro. Não da alma,- que desaparece afugentada e temerosa como bicho pequeno e ameaçado que procura esganiçado a mais funda lura para se imobilizar, para deixar passar o perigo, - mas por dentro do corpo.

Há dias em que se sente por dentro do corpo e o corpo em que se sente por dentro é como uma casa sem janelas. Muros, telhado e uma porta por onde apenas se entra. Sair não é possível até findar o sentir-se ou acabar o dia.

Nesses dias em que acontece este sentir, sabemo-nos alterados. Envelhecidos. Descobrimos dentro a maior desilusão, o maior dos abandonos, a maior das misérias.

Percebemo-nos idiotas. Entendemos a ausência, a solidão e toda a procissão de sentires magoados, como se abandono, desilusão, miséria e despovoado fossem órgãos iguais ao coração, cérebro, fígado.

Há dias em que atravessamos os corredores com a propositada lentidão dos cortejos fúnebres, para que os vermes tenham tempo de comer o nosso sentir lá dentro.

 

No Douro há também os dias em que a superfície dos lugares nos toca a pele.

As árvores desprendem os perfumes dos ramos. Descem os aromas pelos troncos como bichos cansados, roçam-nos a pele, farejam, e mergulham nas águas arrastando os líquenes e o musgo húmido para o fundo negro sem vista.

São como segredos.

Quebram devagar a película que nos envolve, como folha de cristal, como fina folha de cristal por sobre a pele.

Entendemos então a mais distante segurança que é entregue aos que escolheram o refúgio do rio onde o tempo esquálido flutua. Entendemos então os passos do silêncio. Esta espécie de felicidade em nada ter, porque se tem à tona da pele o imenso engano da quietude fria. Nada se move. Nada. Os dias são os dias já passados e nas madrugadas as árvores escondem o sussurrar do vento, o tilintar da chuva ou a luz que interrompe as frestas da penumbra, os rasgos de ruído pelas pedras.

 

Entendemos os dias do Douro porque os temos pousados na alma.

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A Gaffe livresca

rabiscado pela Gaffe, em 05.12.16
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Sinto sempre uma certa tristeza quando olho para aquilo que outrora foi acarinhado por mim como relíquia a conservar pela vida fora e que agora, embalado e atado, é apenas importante porque o foi no passado.
 
Vou levar comigo livros velhos de histórias menores, com capa de couro, lombadas com letras douradas e rebuscadas, folhas carcomidas e cheiro a mofo.

Pertenciam à minha gente. Gente que nunca poderia conhecer. Pessoas que morreram antes do meu avô ter nascido.

Há uma imensidão deles, colocados nos pesados armários do sótão, exactamente como os tinha guardado quando os descobri, já lá vão dez anos. Na altura, pensei que tinha encontrado, não um acervo valioso, mas belíssimos pedaços de memórias que se inscreviam nas margens das folhas pelos donos destes livros. Lembro-me das anotações a tinta, numa letra tombada e toda floreada, num livro de receitas de alguém que me parece ter dominado a cozinha em tempos idos.

Esse não vai.

Vão os que trazem pequenas anotações acerca de Voltaire, de Diderot, de Balzac e um ou outro de autores menores, mas que mereceram apontamentos extraordinários, mais outro que sublinha e comenta os soneto de Camões - tão mal amado e tão mal interpretado por Voltaire.

 

Isto de ter de escolher pedaços de memória é doloroso.

 

Sei que os livros que ficarem se vão deteriorar irreversivelmente. Custa-me deixar para trás os volumes que foram importantes e acarinhados por alguém, um dia, no passado. Parece-me que os desrespeito, aos livros e aos antigos donos, mas há memórias que devemos embalar e levar connosco e outras que, por muito que lamentemos, devemos deixar ficar ao abandono.

 

Até nestas decisões derradeiras as bibliotecas são parecidas com a vida.

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A Gaffe com saudade

rabiscado pela Gaffe, em 25.11.16

1.92.jpgChegava a ti de Inverno. Pelo Natal. Tu insistias.

Sempre te amaram a ti. A mais ninguém. Deram-te um nome no momento exacto em que te viram (haste de lírio, jarro, baloiço do meu peito naufragado).
Amaram-te no instante em que pousaram na catedral dos olhos que eram teus (incêndios transformados em lareiras).

Quando não chove, o entardecer de Inverno vem azul trepar às árvores. Levanta-se poalha prateada. Esmaecem os contornos das pedras e dos passos.

- Não! Não vás, avô. Não é preciso nada.
- Não sejas tonta. Eu volto já. Eu não demoro.

O tempo lancetado. Suspensa a vida. O meu alento contigo, atrás de ti, como um cão estropiado.
Quanto tempo era o tempo que amputava? Ficava muda e surda à espera da alma.

Vinhas pela alameda de mimosas, desengonçado e frágil, lentíssima faísca, unir o Tempo.

Um dia vieste e abraçaste-me (braços de pedra, Príncipe do Lago). Era eu meninaSenti na nuca a dor do teu anel. O meu nome na tua boca por três vezes teu, biblicamente três, a estremecer como um minúsculo coração de insecto.
Agora tenho medo do meu nome não soar. Fiquei sem nome.


- Eu volto já.

Ainda espero por mim por entre todos os ramos enredados.

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A Gaffe lendária

rabiscado pela Gaffe, em 18.11.16

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Gosto de lendas. Não sei muitas, mas há uma que me agrada particularmente.

Em casa dos meus avós há um reservatório de água que parece um espelho.
Mete medo! Profundo, gigantesco e circular, guardado por árvores que agora sei serem teixos, muito velhos, muito altos e muito altivos. Não encontramos facilmente esse lugar. Está literalmente escondido, encerrado como se guardasse mil segredos. Chegamos até ele por um caminho estreito e só sabemos que nos encontramos perto pela imensa frescura e pelo silêncio que faz lá dentro.
O reservatório é alimentado por um fio de água que vai tombando devagar sem fazer o mais ínfimo ruído.
É quase mágico e quase assustador de tão pacífico.
Reza a lenda que quando o fio de água que desliza se apagar, o último senhor será realmente amado e por amor morrerá sozinho.

O fio corre ainda, mas amedronta-me a palavra último.

 

Mas esta é uma lenda tão velha como estas árvores. Não conheço uma menos perdida no tempo e mais urbana.


Inventemos uma!

 

Escolhemos um mês. Pode ser Novembro. Um dia da semana. A escolha não será difícil, porque há poucos. Sexta-feira, por exemplo.
Agora façamos chover. É sempre bom existir chuva numa lenda.
Falta o mais difícil. Personagens.
Façamos assim: desenhemos uma apenas. Um homem sozinho. Jovem? Não. Vamos envelhecê-lo prematuramente, dar-lhe os contornos da tristeza e do desterro.
Ninguém suspeita que ele passa pelas ruas friorentas. É invisível entre a chuva. Usa sobretudo e botas esgotadas e traz luvas de couro demasiado grandes que lhe escondem os dedos.
Vem pela chuva, indiferente e frio.
Vamos colocá-lo agora num Café qualquer, de manhã cedo.
Veio de longe e espera. Uma vez por ano, vem e espera. Sentado numa cadeira qualquer, num Café, numa Sexta-feira de Novembro.
Olha para o relógio. Espera e não gosta de esperar. Tem medo que não venham.


Ninguém vem. Nunca ninguém veio.
Uma vez por ano, século após século, ninguém chega para o vir buscar.
O homem desiste e lentamente deixa que a chuva o apague.
Numa Sexta-feira de Novembro.

 

Há fios de água em todos os tempos que se enredam em todos os homens que morrem de amor.  

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A Gaffe com pronúncia do Norte

rabiscado pela Gaffe, em 17.11.16

Dolores Del Rio.jpgSem pedigree, sem cartas de recomendação, sem árvore genealógica para poder levantar a patita, sem vacinas e sem chip, o cachorrinho chegou embrulhado num cobertor macio com peixinhos estampados.

O amor à primeira vista é um facto incontornável. A paixão por aquelas patas grossas, pelo focinho gelado, pelos olhos tristes, pelas orelhitas tombadas, pela neve manchada por rodelas toscas de castanho dourado, é imediata e assolapa-nos o coração que parece ter sido invadido pela onda de um tsunami de ternura.

Vem triste e assustado e com saudades, mas, beijoqueiro, adopta a minha mãe que não resiste a uma entrega tamanha.

 

Não tem nome.

 

A discussão estala, incendeia-se como rede social. Os palpites são como fogo de artifício na romaria da aldeia. Não há quem trave os amuos de quem vê rejeitada a sua escolha, multiplicam-se as portas que batem dentro de irritações patetas e esbardalha-se a paciência desta rapariga que sabe desde o início das tormentas o nome do maravilhoso pequenino.  

AVEC

É como se diz no Porto cão, em francês.

 

Na foto - Dolores del Rio

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A Gaffe na sala das senhoras

rabiscado pela Gaffe, em 17.11.16

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A sala é minuciosamente feminina. Permaneceu imutável. Dali partiam as decisões que governavam a casa no tempo contínuo de mulheres. Com chávenas de chá e bolachas quentes de manteiga, as senhoras riscavam os destinos dos homens e nos bastidores eram bordadas as rotas e os trilhos que desenhavam no Douro as escadarias de terra.

É mantida intacta.

É a minha sala preferida. Limpa com um desvelo exagerado e quase doentio. Perfeitos todos os minúsculos detalhes, todos os insuspeitos cantos e recantos, todos os vértices e angulares esquinas, todas as boleadas superfícies dos objectos e os mais ínfimos, invisíveis, pormenores.

Nunca aquela sala permitiu ser masculina.

 

Lembro-me que entrei à procura da minha irmã que a reconheceu como o cérebro da casa e se aproxima da sensação de poder que ainda lá dentro lateja.

 

Vi-a.

 

Estava de costas para mim, imóvel, voltada para a janela.

Tentei sair sem fazer barulho. Sei que não devo estilhaçar os silêncios escolhidos por aquela mulher que sempre os teve múltiplos. Foi no instante em que rodei o corpo, em que senti que ia conseguir apagar na sala a minha entrada, que a ouvi de manso, sem se mover ainda:

- Às vezes não sei quem sou.

Fiquei parada e muda. A sala enorme e eu tão breve e tão pequena.

- Às vezes não sei quem sou - insiste - nem sequer sei que imagem tens de mim.

Continua de costas para mim e eu calada e queda. Vejo-lhe o cabelo liso e loiro e amordaçado por um gancho largo e inusual, as calças justas presas nas botas pretas com orla de couro castanho, o casaco de fazenda parda com reforços ovais nos cotovelos e o aflorar quase imperceptível do lenço castanho amarrado ao pescoço.

 

Que imagem tenho eu dela, se perto dela nem de mim eu sei?

É imutável como aquela sala e ao mesmo tempo a pedra contra os vidros.

É o contraste brutal, um confronto aberto com os espaços, a imagem que me chega desta mulher. Como se fosse pedra arremessada contra a superfície dos cristais, como se fosse um paradoxo, desarmonia e erro. Incerta em cada canto, em cada sítio. Errada em cada sala que ela invade.

Ali, de costas voltadas para mim, destrói propositada o feminino que a envolve. Destruirá da mesma forma outros espaços, porque é nela que os espaços se resumem. É por ela que os vemos, que os sentimos, como se não houvesse lugar impune àquele corpo esguio, como se nada houvesse ou tudo fosse nela.

Há gente assim. Quase perfeita. 

 

- Às vezes não sei quem sou.

 

Ouvi-lhe o lamento na sala das senhoras, imóvel, de costas voltadas para mim e já não sei se foi há pouco tempo ou se a voz chegava de outras eras, repetida.

 

Mas a sala é minuciosamente feminina. Tudo está certo. A casa cuidará da sua dona.

 

Imagem - Nicolaes Eliaszoon Pickenoy Retrato de Jovem Mulher (detalhe), 1632

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A Gaffe dá uma "voltinha"

rabiscado pela Gaffe, em 14.11.16

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 A Gaffe aceitou, depois de massacrada durante algumas penosas horas pelo mano, dar uma voltinha de moto.

 

Esta rapariga é apologista - ou podologista, como diz a Mélinha, - de coisas grandes enfiadas no meio das pernas, ou seja, de valentes motorizadas, mas admite que não contava com o tamanho do touro metálico que lhe foi orgulhosamente exibido.

Um bicho assustador! Uma montanha bruta de couro e de metal a reluzir a um sol de S. Martinho mirrado e humilhado por só poder oferecer umas castanhas pindéricas e sem rodas a uma ruiva capaz de ousar as maiores aventuras on the road.

 

Depois de perguntar onde estava o cinto de segurança e de ter sido olhada em silêncio macabro durante alguns instantes, aceitou que o capacete - negro, para sublinhar o risco, - lhe esmagasse os caracóis e que a viseira a transformasse numa bandeja com tampa.

Após uma espargata vertical usada para alcançar o dorso do colosso e já sentada no lombo do animal com as cuequinhas esbardalhadas e de elásticos a rebentar - não sabemos se de medo -  a Gaffe perguntou ao mano onde se encontrava o dispositivo que permite a uma rapariga ao vento segurar a dignidade nas curvas.

A Gaffe foi informada que se devia agarrar ao tronco do condutor o que não lhe pareceu de todo favorável ao pobre, tendo em conta que há sempre a possibilidade do terror mais acelerado provocar um espasmo nas garras e serem arrancadas as miudezas do guerreiro do asfalto.

 

Depois de agrafada às costas do mano, como uma carraça psicótica, a Gaffe nem teve tempo de gozar o incestuoso pensamento que lhe atravessou o ar e que catalogou os músculos do mano como muito elegíveis, bastante largos, duros e confortáveis, porque o animal desatou aos urros, como se fosse um aglomerado maciço de ursos em fúria depois de uma feijoada.

 

Com um solavanco digno de um embate de placas tectónicas, a Gaffe viu-se de repente a cavalgar um tsunami.

 

Receou perder o capacete, depois ficar careca, depois soltar os dentes e perder os olhos, logo depois de ficar de mamocas ao léu e de mamilos gelados - provavelmente de medo. Receou ser projectada, centrifugada, transfigurada, teletransportada para longe da estrada depois de a comer - um trocadilho com Ray Charles fica sempre bem quando acreditamos que nunca mais voltamos, - com os peitorais do mano presos nas gadanhas ou de ficar esbardalhada e a esfregar o asfalto com as pestanas sempre que o bruto curvava.

 

Aquilo parou, finalmente.

 

A Gaffe sentiu que aquela meia hora lhe tinha fornecido o entendimento de toda a teoria da relatividade. Desmontou, tentou não falecer quando percebeu que o espaço e o tempo se tinham desencontrado e que ainda estava em movimento acelerado, tendo chegado muito antes de chegar e a cambalear, de pés tortos, mamocas esgrouviadas, rabo transformado em duas azeitonas, cabelo finalmente liso e umbigo colado às costas, a Gaffe meditativa concluiu que mais vale tentar ultrapassar a barreira do som alapada num triciclo do que dar uma voltinha ao quarteirão a cavalo de um míssil psicopata.

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A Gaffe adocicada

rabiscado pela Gaffe, em 08.11.16

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Na minha memória há aromas adocicados.

O cheiro das beladonas da minha infância que escorre para a boca, transformado em viscoso lago de sabor que tentamos expulsar roçando a língua contra o palato e cuspindo os grãos pequenos de cheiro já com corpo. No entanto, é uma memória morna que protejo, que mimo e me que faz parar os olhos de repente.


As beladonas a crescer, cor de carne pálida, rosada. Perigosamente a crescer nos canteiros das janelas do andar de cima. Perigosamente afastadas dos parapeitos.

As pedras, o começo dos estames, a parede branca.

 

As minhas mãos miúdas não apanhavam nunca beladonas e o desejo de as ter, de lhes esmagar o caule lancetado, perto da ferida que lhes fez o corte, vinha drogar-me sempre que as via. Subia ao último andar, abria uma janela e deixava que o cheiro quente e enjoativo me lambesse a cara. Mastigava-o depois, como se fosse carne. E debruçava-me. Sentia os pés separados do chão e os músculos da barriga a doer esmagados contra o parapeito. O corpo oscilava e com pequenos solavancos, imperceptíveis impulsos, forçava-o a aproximar-se das flores.

 

Nunca arranquei nenhuma. Surgia sempre alguém, pálido, de dentes cerrados e olhos desmesuradamente abertos, que as cortava por mim, depois de me segurar pela cinta e me colher.

 

O acesso àquele quarto foi-me proibido. Havia ficado sete vezes setenta vezes com a cabeça virada para o abismo, quase a pairar, acima da terra, e não tinha asas. Setenta vezes sete foram os perigos que largaram desfraldados para me assustar. Sete vezes setenta foram os perdões com que me agraciaram, chorando às vezes, agarrados ao meu corpo salvo, gritando outras, abanando os meus ombros pecadores. As beladonas continuavam a rogar por mim. Mal elas floriam e abriam a carne do seu cheiro, o meu corpo oscilava no parapeito das janelas. A proibição inevitável de entrar no quarto do pecado arrastou uma consequência imprevista: a consciência da intransponibilidade dos meus abismos, que, lá dentro, vagamente longe, vagamente nada, transparentes, se iam tornando cada vez mais um acenar breve de vento manso que nos corredores escapa quando se abrem duas portas paralelas.

As beladonas passaram a ser lancetadas sem mim. No jarro da entrada, inchavam de perfume e apodreciam.

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A Gaffe na sombra do rio

rabiscado pela Gaffe, em 07.11.16

banco.jpgPor entre as árvores, os limoeiros vergados estalam com o peso do perfume.

A seu tempo explodirão mimosas nas alamedas e as sardinheiras de Espanha nas margens da cisterna.

As hortênsias azuis, enxofre e cobalto, rebentarão redondas, gigantescas nos sopés da escadaria principal.

Os jarros, de imaculada cor, copos virgens, adormecidos na presença alva do sossego.

As rosas tornarão agarradas as videiras. Possíveis de imolar na vez das uvas. Sinais de alerta rubros e bravios.

As beladonas decadentes nos frisos de granito da janela. Mortas, as flores e as portadas, as tombadas guilhotinas das janelas.

As cores invadirão a casa, reféns do vento, cativas, secretas dentro da sombra do rio que as ignora.

 

Depois as árvores.

 

As que preservam os braços invadidos por lâminas verdes e castanhas e as outras, de uma nudez retorcida que angustia.

Ao longe, mesmo ao fundo do caminho, os dois teixos medonhos, centenários, mergulham as sombras na planície da água que inverte a paisagem, invertendo os tempos, os compassos de espera em cada batida do meu coração.

 

À janela do meu quarto, a luz vem frouxa. Trepa coada pelo rio que avisto. Há água nas pedras e nos sinistros braços dos anjos corrompidos de asas mergulhadas no lago onde peixes vermelhos mordem os segundos.

 

Esta é a romântica peçonha, a ogiva do desterro e o inexplicável aninhar do esplendor sombrio.

Este é o lugar do tempo à espera, inexoravelmente recolhida, inalterável, transformada em terra.

 

Existe junto à água deste rio um banco de jardim abandonado. Diz a gente que era ali o lugar onde passava o tempo longe, o rapaz esguio, de linho, pés descalços, de palavras raras, sem sorriso.

Sentava as tardes nas sombras, sorvia a frescura como dele fosse a luminosidade húmida das águas e fazia rolar por entre os dedos o destino da terra, como é rolado um terço e ele uma oração repetida em surdina.

O banco de jardim deixou de o ver há muito.

A água às vezes toca-lhe a madeira. Nessas alturas das marés de um rio, o banco do jardim abandonado volta a sentir a lonjura triste do rapaz que passou pela vida como se a vida fosse sombra num jardim ou a oração rolante deste rio.

 

No entanto, por entre as outras árvores, os limoeiros tombam de perfume.  

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A Gaffe cúmplice

rabiscado pela Gaffe, em 05.11.16

hv.jpgGosto de manhãs de nevoeiro denso sobre a copa das árvores.

 

Gosto de me aproximar da janela sonolenta do meu quarto e ver ao longe os dois.

O envelhecer galopante do meu pai torna-o deslumbrante. Branco e esguio, magro, cada vez mais magro, cada vez mais longe e mais pacífico. Uma haste erguida frágil no sossego dos caminhos ou um livro fechado no regaço das águas.

 

Adormece facilmente. É bom ficar sentado a vê-lo assim dormir. Parece morto e nesse simulacro é imortal.

 

Às vezes senta-se na poltrona da sala que prefere, a virada a Norte e àquilo que é mais frio, e deixa-se ficar de mãos cruzadas. Imóvel e discreto. Depois, e de repente, vai-se embora, como se tivesse dito tudo ou nada mais houvesse para ser visto.

Gosto destas cavernas de silêncios pálidos.

 

O meu irmão que lhe segura o braço, ao lado dele, torna-se ainda mais terno e meigo e afectuoso.

Tem trigo nos cabelos, o meu irmão, e olhos diluídos pelas árvores.

 

Vão recolhendo nas manhãs as minhas névoas.

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A Gaffe fraterna

rabiscado pela Gaffe, em 31.10.16

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A Gaffe tem uma relação muito complexa com a irmã e por vezes deixa de aguentar a pose de indiferença e passa à mais descabelada das ciumeiras.

 

O que mais a apoquenta não é o facto de ser notório que a mana é uma mulher repleta de glamour, mas há pormenores que lhe esbardalham os nervos.

É uma loira pura e linda, linda, linda com oiro raro no cabelo liso e muito Grace Kelly, bem vestida, inteligente - aquela pose de diva altaneira só se aguenta de pé a tempo inteiro com uma dose espessa de inteligência, - podre de rica e tudo ao mesmo tempo. Tem um ar de Rita Haywoorth misturada com Dietrich e usa um perfume que se mete no nariz das pessoas até lhes fazer mirrar o cérebro de inveja. Guia um Jaguar antigo que é do pai, mas que o pai empresta, não vá a menina ter de conduzir um Porsche, que é feio.

A mulher senta-se e ao cruzar as pernas quase que nos dá com a biqueira do sapato, caro e de tacões agulha, nos queixos. É claro que mesmo alapada fica da nossa altura. Somos baixotes de pêlo cerdoso, daqueles de pata curta e de orelhinha murcha, em frente dos punhais traçados das suas maviosas pernas.

Vive num sítio onde é preciso vender as jóias da família para poder dar uma espreitadela e ficamo-nos pela cozinha, que na sala se só entra de brasão para cima. Usa bijouteria assinada e adereços gigantes que se estivessem pousados em cima de nós durante mais de uma hora tínhamos de ser levadas ao ortopedista, depois de desencarceradas.


É muita humilhação para uma rapariga só.


Estas mulheres, que felizmente são uma deslavada minoria, fazem uma rapariga do mais banal que há, de cabelo vermelho desgrenhado, de jeans entradotes e botitas tinhosas, sentir-se uma minorca gorda e sebosa.

Parece que nos esturricam!
Deviam ser todas expulsas. Deviam ser todas de papel. Devíamos todas poder pintar-lhes bigodes com marcadores grossos, desenhar-lhes cornos na testa e colorir-lhes um dente de preto.


Foi o que a Gaffe fez, mas cá para dentro, quando a mana insinuou que se esta rapariga pobre despir os jeans que usa invariavelmente por aqui a pele vai sair colada. A vedeta afastou-se depois com pêlos nas pernas, uma unha do pé encravada e com barba de dois dias e aposto que a partir de agora nenhum galã de morrer de lindo, saído das fitas de cinema, lhe vai apalpar tão cedo aquelas mamas perfeitas pintadas de verde vomitado.

 

Na foto - Daniela Peštová

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