Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no Douro

rabiscado pela Gaffe, em 03.05.16

Quando se abre a janela do quarto fechado, o Douro entra de rompante, soberbo, gigantesco, arrecadando o respirar dos que surpresos nunca o tinham visto daquela forma vertiginosa, daquele ângulo que o faz um golpe de prata na paisagem, um profundo golpe aberto ou uma veia cheia, curva, serpenteada. A esmagadora força com que o rio, o golpe, entra nas almas, transforma em silêncio o ar que chega sempre frio.

 

A manhã esmorece pausada no ténue reflexo do arvoredo baixo e a terra ergue lento o clamor da água, erguendo a prumo o corpo furibundo dos socalcos.

 

Quando se abrem janelas sobre o Douro, Deus existe parado a ver.

 

Fotografia - Rui Pires

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe enciclopédica

rabiscado pela Gaffe, em 12.02.16

Afonso Cruz.jpg

Não consigo falar de um fôlego só dos meus dois amores que surgem à frente da novíssima e pobre vaga de escritores portugueses.

A obra Matteo perdeu o emprego de Gonçalo M. Tavares, é aquela que escolho para depois, apenas porque soa ainda na sala o som aquático de Afonso Cruz.

Da série Enciclopédia da Estória Universal, Mar recolhe breves pedaços de água em sal entrelaçados, intrinsecamente ligados por uma inevitabilidade que agarra de forma terrível a infância e à maturidade, atravessada, a primeira, por uma rapariga que colhe cartas de amor presas em garrafas por um músico que escreve a perdição da esperança, e, a segunda, por homens tresmalhados, como aquele que traz tatuado o céu na pele.

 

Um livro que abre com a inquietude presa a uma estupenda e crua imagem de invernia:

 

1 Um recado: “Estou lá fora, morta, não tragas a miuda”.

2 Prevaleci agarrada à mão do meu pai.

3 Ficámos os dois parados.

4 A olhar a porta.

5 O pai saiu, o bilhete caiu no chão. Senti aflição e ranger de dentes.

6 Do outro lado via-se a mãe a baloiçar no plátano.

7 O plátano não tinha folhas porque era Inverno e o Inverno extermina as folhas dos plátanos.

 

Depois, cada letra, frase, cada passo no aforismo, cada escolha de trecho a citar, enche-nos de sal e de reflexos de humanas emoções de náufragos que somos - e não ilhas.  

 

Uma obra imperdível.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe por escanhoar

rabiscado pela Gaffe, em 05.02.16
(Paul Newman)

A Gaffe tem de confessar: caras barbudas provocam-lhe arrepios muito pouco próprios de uma rapariga recatada, embora seja necessário mais do que o desgrenhado Gandalf ou o ternurento Zach Galifinakis para que esta destravada suspeite que 10 dias bastam para transformar um idiota num possante e irresistível lenhador barbudo.

 

A Gaffe lamenta que, de acordo com o The Scotsman, 98% da lista dos homens mais ricos da Forbes estejam bem barbeados, porque talvez seja por isso que ainda se continue a aliar a barba a uma classe trabalhadora, rude, suada, demasiado exausta e empobrecida ou então a vadios e românticos flaneurs sem poiso ou ninho, mas fica mais tranquila quando os amáveis investigadores Barnaby J. Dixon e Paul L. Vasey declaram que os homens com barba não estão associados, neste momento, a qualquer marginalidade ou franja social menos dignificada ou mais desfavorecida, afirmando que são os homens de barba a possuir neste momento maior status social do que os homens bem barbeados.

(Christian Göran)

A verdade é que a barba, em tempos idos sinónimo de prestígio ou de poder, de honra, de sabedoria, de maturidade, de nobreza, e de virilidade, tem um longo caminho a percorrer para recuperar sua antiga glória. Não houve um presidente dos EUA com uma barba digna de menção desde 1893 e o tonto, enfraquecido e alquebrado Al Gore de 2001, imitando um lenhador de colarinho branco, deu apenas razão aos políticos que identificam pêlos faciais com fracasso e vergonha, embora o consultor da campanha Jeff Jacobs sugira que se John Kerry tivesse barba, talvez não fosse tão fácil para a campanha de Bush ter conseguido pintar o adversário como um pusilânime vagamente aristocrático vira-casacas.

(Ricardo Baldin)

O psiquiatra Allan Peterkin, um querido que desatou a escreveu livros sobre barbas - já lá vão três -, sugere que a partir de um ponto de vista evolutivo, os macacos machos projectam as mandíbulas porque parecem desta forma mais poderosos quando encontram inimigos. A barba amplia a mandíbula e o homem com mais folículos é geralmente lido como mais masculino.

A Gaffe acha um mimo esta razão! Mas acredita haver outras bem mais prosaicas e menos primata ancestral.

(Fabian Schweizer)

É provável que uma rapariga mal intencionada suspeite que há algo a esconder sob aquela pilosidade impecável, mas, ao contrário do que imagina, sob a densidade atraente destes bosques bem tratados existe uma pele suave, perfeita e livre de defeitos. Acne e foliculite - uma inflamação absolutamente maçadora do folículo de cabelo - são muitas vezes o resultado do uso de navalhas que podem irritar a pele. As bactérias são criaturas horripilantes também nestes casos. A barba conserva o óleo de hidratação natural do rosto e protege-o de ventos amargos. Não há vermelhidão ou secura numa face peluda.

.

A barba é uma das fontes da juventude. De acordo com uma pesquisa recente da Universidade de Southern, Queensland, a barba absorve até 95% dos raios UV minimizando o risco de melanoma e atenuando o envelhecimento provocado pela oxidação da pele. Manter a barba é criar um filtro solar natural e atrasar o aparecimento das famigeradas rugas.   

Uma pesquisa realizada no Verão passado constatou que caras sombreadas por uma barba parecem oito anos mais maduras, mas não mais envelhecidas, do que aquelas que são escanhoadas. Quando a um grupo de mulheres se mostrou uma foto do príncipe William, de 31 anos, com barba, todas as raparigas lhe atribuíram uns belíssimos 36. Sua Alteza parecia mais madura, mas sem o ar cansado ou prematuramente envelhecido de quem já viveu mais do que conta.

.

A Gaffe corre o risco de apelar a um cliché, mas um estudo publicado na Evolution and Human Behavior prova que a barba torna os homens reconhecidamente mais masculinos do que realmente são, sobretudo se a barba tiver 10 dias, tempo necessário para que atinja o comprimento que a torna mais atraente para as mulheres.

 

Talvez seja por causa dos espessos e barbudos rostos de homens como Ben Affleck, Sean Connery ou George Clooney; talvez seja por causa da crescente popularidade do desalinhado, mas o certo é que os barbudos continuam em ascensão e cada vez mais homens procuram complexos vitamínicos e até mesmo medicação que estimula a produção de diidrotestosterona, provocando um extraordinário aumento de vendas  - 47% este ano - de aparadores de barba na Amazon.co.uk.

(Gary Cooper)

Seja como for, a Gaffe pode andar na rua segura pela mão de um barbudo, numa tenebrosa noite escura, sinistra e aterradora. Um estudo publicado em 2011 na Ecologia Comportamental revela que os homens com barba são mais intimidantes e afastam com maior facilidade as ameaças do que um escanhoado rigoroso. Nenhum desbarbado ousará transtornar uma rapariga esperta que usa a tiracolo um matulão repleto de picos na cara.

 

Há que rentabilizar todos os espinhos que a rosa da vida contém.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe eleitora

rabiscado pela Gaffe, em 24.01.16

voto.JPGJá foram votar?

A Gaffe espera que não se esqueçam que o único voto útil que existe é apenas o que reflecte o que acreditamos e que nos aproxima daqueles que podem representar o que, estamos seguros, deve ser defendido.

A outra utilidade apenas nos prova que partimos do princípio que seremos sempre derrotados e que é a resignação que escolhe trocar as nossas convicções pelo medíocre do mal, o menos.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe criticada

rabiscado pela Gaffe, em 20.01.16

Acabo de viver uma experiência que jamais sonhei poder acontecer!

 

Os meus primeiros quinze minutos da manhã são passados num pequeno e agradável café, com imensa gente sossegada espalhada pelas mesas ainda sonolentas. Leio as notícias e consulto a minha agenda, atrasando o acordar.

Normalmente as mesas estão todas ocupadas e há pouco espaço, mas é um lugarzinho acolhedor e muito pouco ruidoso apesar disso.

A única mesa disponível era a que se encontra quase colada à minha. Um par de belíssimas velhotas simpáticas e matinais tinha-a desocupado depois de ter beberricado um chá e mordiscado uma torrada.

O jovem casal entrou e sentou-se. Ficaram de costas para mim. Ele, um yuppie vagamente ultrapassado, de fato apertado, azul nocturno, gravata regimental e sapatos bicudos. Ela, loiríssima, a arrastar a asa para o platinado, bonita, barulhenta.

A proximidade fez com que visse o monitor do rectângulo digital preso nas unhas nacaradas da rapariga. Tocava no ecrã com a perícia de um indicador treinado e de mindinho erguido.

 

Foi inevitável ver o que o que ela via.

gaffe 1.JPG

 

A Gaffe e as Avenidas ocupava o ecrã e o dedo atentíssimo da menina.

Os brincos, dois mochos de pechisbeque, baloiçavam escandalizados perante a desfaçatez que era lida e a irritação provocada pelos posts ruivos disparou no momento da cotovelada nos rins do rapazinho.

- Não entendo como gostas desta tipa!

O homem encolheu os ombros, olhou de soslaio as Avenidas que a companheira de infortúnio percorria e sem qualquer entusiasmo espalhou na mesa:

- Não gosto. Acho piada.

- O que ela precisa sei eu. – Roncou a candidata a platinada.

- Se calhar é do que tu tens a mais. – Insinua o yuppie mal disposto, afagando a testa com os dedos.

Atrás deles, à distância de um voltar de cabeça, está a tipa que merece o desdém irritado daquela mulher e que desperta um vago interesse no homem que não morre de amor pelo que lê. Perdi-me por completo a saborear a delícia extraordinária de me sentir olhada sem que o observador desse disso conta. Experimentei, naquele instante, o sabor que a Gaffe tem e dei conta da possibilidade que, embora irrelevante e muito ténue, um blog tonto tem de irritar projectos de platinadas que sabem, com a certeza que é construída pela experiência, que aquilo que preciso é o que esbanjam à toa e em todo o lado e de provocar um qualquer sorriso pouco empático num homem de sapatos bicudos, vítima dos dispersos exageros que a companheira pensa que me faltam.

 

Foi uma delícia sentir a Gaffe manuseada por estranhos!

 

Nota - Aproveito a oportunidade, pois decerto me lerá, para lhe sugerir, minha cara, que troque de brincos. Os mochos de pechisbeque abanavam demasiado e ameaçavam soltar-se do poleiro e a si, querido leitor que me acha piada, devo aconselhar o abandono definitivo das peúgas camufladas em tons de verde tropa.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe dos impossíveis

rabiscado pela Gaffe, em 15.10.15

The Holy Grail.jpgMais uma vez, a minha querida Quarentona me desafia. Devo indicar as 10 coisas que nunca farei na vida. Apesar de renitente, eis o meu rol de impossíveis.

 

I

Mudar de sexo

Não que me aflijam cirurgias complicadas, mas receio que, após a alteração, acabe a envelhecer com um morcego morto no meio das pernas.

 

II

Ser mãe

Morram de indignação os baby blogs. Atirem-me à fogueira dos seus úteros fecundos e extasiados. Vou cedo ou tarde transformar-me numa rainha ruiva, rabugenta, seca e furibunda, sem paciência até para continuar a pensar que deviam ser presas as senhoras que são donas de blogs onde se vendem os filhos.

 

III

Comer caracóis e pipocas

Não necessariamente ao mesmo tempo. A minha mãe proibiu-me de morder até os meus e a minha avó considera que comer pipocas é sintoma de um transtorno de personalidade que afecta as pessoas que não conseguem deixar de mastigar o cérebro enquanto impedem que alguém tente compreender o que se passa.   

 

IV

Nudismo

Se o sol me escalda o narizito exposto todo o ano, recuso-me a imaginar o que faria ao meu rabinho perfeito que decididamente nasceu voltado para a lua.  

 

V

Ler Margarida Rebelo Pinto

O meu avô ensinou-me que mais vale jejuar como um anacoreta que passar os olhos por uma gastroenterite.

 

VI

Cozinhar

Exceptuando o mais banal, o mais aflitivo e o mais constrangedor, não vou aprender a cozinhar. A confecção das iguarias do Norte está vedada à minha proficiência, com grande desgosto meu e ainda maior apetite. A única vez que tentei cozinhar um rolo de carne com ameixa, pensaram que tinha incendiado a casa e que estava a tentar fazer com que alguém engolisse os cavacos calcinados. A minha cadela vomitou durante uma semana.  

 

VII

Mudar de perfume

Depois de encontrar o que nos pertence, não o conseguimos trocar, por muito agradável que isso seja. Deixei de sentir o meu em mim, mas percebo quando me esqueço de o usar pela manhã. Quando me dizem que já sabiam que tinha chegado, porque sentiram o meu perfume, suspeito sempre que me ensopei e que vou ter de distribuir máscaras químicas.  

 

VIII

Deixar de amar Paris

Paris tem os mais belos sorrisos do planeta.

Tem luz doirada e azul no final da tarde e cafés com mesas pequeninas nas esquinas redondas das ruas que me perdem e onde pouso a vida como quem se esquece de dormir.
Domar Paris é como ter um gato ou molhar o corpo com o azul dos anjos.
Paris é minha! Desde que eu a vi, há muito tempo.
Sei o que ela quer e dou-lhe tudo: Um rasto de Dietrich, azul e ruivo; um traço de Dean, sem causa, apenas rebeldia; um risco de mistério emoldurado no traçar de pernas instintivas e o caixilho doirado e perfumado de um corpo.
Em Paris eu sou o que cidade exige: Uma obra sua. O destino é o Louvre.

 

IX

Esquecer um lema

Se não sabes o que queres, entra. Eu tenho.

Um amigo encontrou-o perdido há muito tempo. Não se esquecem Amigos a partir do instante em que os reconhecemos - os amigos não se fazem, reconhecem-se - e eu nunca soube exactamente o que queria, mas sabia que ele tinha.

 

X

Morrer de amor

Só no Père-Lachaise.

 

 

Na foto - John Cleese - Monty Python - ou a Gaffe a ilustrar a alínea n.º 1

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe eleitoral

rabiscado pela Gaffe, em 29.09.15

eleitor.jpg

A Gaffe atribui grande importância à eleição da Miss Universo. É tão simples!

As candidatas são giras, não maçam muito, sabemos que querem em uníssono acabar com a guerra e com a fome no mundo, mas que a duração do mandato permite apenas acabar com a delas e ninguém apanha a surpresa de as ver fazer o contrário do que dizem. Nelas, o inverso do Nada é uma questão filosófica e toda a gente sabe que a filosofia é para aqueles que têm imenso tempo livre.

 

A Gaffe, nas campanhas para as próximas eleições para a Assembleia da República, não espera ver os candidatos em fato de banho e embora tenha tido o choque amarelo dos calções justíssimos de António Costa, considera o acidente um percalço isolado e prefere avaliar outras miudezas.

A verdade é que, nestas ocasiões, uma rapariga esperta fica sem cenários adequados. O amontoado de gentalha mal vestida, as feiras de gado, as ruas apinhadas de paus e de panos com padrões absolutamente pindéricos, a papelada que se desperdiça – a Quercus devia congratular-se. Mais uma campanha e ficamos sem a época dos incêndios! - e a barulheira descomunal dos tachos e dos apitos, impedem que qualquer pessoa de bem possa interpelar o candidato, pedir um autografo a Mariana Mortágua - que enfrenta banqueiros como uma Valquíria, mas que se torna liliputiana na frente do povo -, ou apalpar o rabiosque a João Galamba.

 

A Gaffe vai restringir-se, em consequência, aos candidatos mais proeminentes, deixando, por exemplo, Gonçalo da Câmara Pereira longe da ribalta, apesar de ser mimoso vê-lo empolado e empolgado a tentar ler o teleponto ao mesmo tempo que procura perceber o que se está a passar ou Marinho Pinto a berrar que nos vai processar a todos. Não se atreve a tocar no MRPP, porque tem medo de ser morta, nem no NOS, porque está fidelizada à MEO. 

 

Resta-lhe o habitual.

 

A Gaffe tem medo de Paulo Portas. Desvia os olhos quando o senhor esganiça no púlpito, com um bicho morto e espalmado na cabeça e um globo ocular gigantesco na barriga. A Gaffe fica arrepiada quando o ouve a modelar o discurso aproximando o timbre das catequistas anzoneiras de província ou das beatas que dentro dos missais escondem estampas pornográficas. A Gaffe sente que Paulo Portas é o sinistro gato - sempre o mesmo - que aparece nos colos dos mauzões. Ninguém sabe o que lhe acontece quando os vilões são apanhados.

 

Passos Coelho parece ter qualquer coisita enfiada no rabo, mas não quer que o eleitorado se aperceba disso. Sorri, como quem abre um figo com os dedos. Dir-se-ia, caso quiséssemos ser cabras – e nunca o desejamos - , que foi de plástico numa anterior encarnação e que ambiciona voltar a sê-lo num futura. Entretanto, é de barro, moldado na peanha de uma troika.

 

António Costa aparece como um tio bonacheirão. Toda a gente sabe que a eternidade é um tio desses que nos promete a fortuna se dele cuidarmos. Acabamos sempre por descobrir que vai estourando as parcas moedas que tem com as mulheres da má vida. A Esperancinha, dizem, ronda cada esquina. Veste-se de verde. Vem um burro e come-a.  

 

Jerónimo de Sousa é o último pedaço que resta das Ideologias. A Gaffe lembra-se de Álvaro Cunhal, sem as sobrancelhas de carpélio, quando vê surgir este velho e calcinado capitão. Surpreende-se quando percebe que o respeita, porque sempre considerou uma tolice a insistência tenaz com que alguém se esbardalha. Simpatiza com Jerónimo de Sousa, porque reconhece instintivamente que mesmo nas derrotas, podemos sempre recusar a venda burguesa por grifar e mostrar o rabo proletário ao vencedor. 

 

Catarina Martins é pequenina. A porcaria do ditado que a aproximará da sardinha, se não erguer a banca da oposição, é ameaça eleitoral. A peixeirada está macerada de contínua e o pescado de tão exposto cobre-se de moscas. Os eleitores esperam ansiosamente vê-la nua, vê-la depois de burka, depois de Índia Tupi, mais tarde de Louça e a usar as bananas de Carmen Miranda para a poder comparar com as rivais.

 

Elencados os candidatos predominantes, resta reparar na pobre gente que neles votará.

A Gaffe já só tem palavras esgotadas - porque gastámos tudo menos o silêncio, porque metemos as mãos nas algibeiras e não encontramos nada -, e uma fotografia avulsa de um dos eleitores. Eugénio de Andrade terá portanto aqui de bastar, em esperas inúteis, já que os elegíveis parecem as Misses.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe escreve ao Ministro

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.15

Gabriel Ritter von Max.jpg

Meu caríssimo Nuno,

 

Devo dizer, antes de tudo, que o considero o ministro mais atraente do governo, sobretudo quando aparece ao lado de Mota Soares.  

Posto isto, e sabendo que uma rapariga ajuizada está sempre predisposta a não acolher com bons olhos as diabruras com que criaturas mal intencionadas e feias costumam sujar o chão pisado por um homem sensual, prontifico-me a enfrentar por si a turba esfaimada.

Admiro a sua sensatez, fico deslumbrada com a lógica matemática sublimada nas suas decisões e não posso deixar de prestar a minha homenagem e de lhe apresentar total solidariedade, quando o vejo martirizado perante acusações injustíssimas que lhe ferem o orgulho e minam as suas boas intenções.

 

As demoras nos inícios dos anos lectivos, imputados escandalosamente à ineficácia da equipa que lidera, são claros atrasos dos professores que por tradição chegam sempre quinze minutos depois do segundo toque. Toda a gente sabe desde tempos imemoriais que os alunos esperam imenso que o docente se arraste pelos corredores até chegar à sala, sempre a queixar-se que não tem tempo para dar o programa todo com turmas formadas por um número infindável de alunos. Todas as pessoas de bem sabem que um professor é como um general! Deve saber liderar os seus soldados, incutir-lhes valores morais, cívicos e disciplinados, castigar quando prevaricam, exercitá-los até que reajam em uníssono perante a sua voz de autoridade. Se um general não admite liderar um batalhão de dois ou três pindéricos, um professor não tem o direito de choramingar quando é honrado com uma turma de trinta soldadinhos para treinar.

 

Uns piegas.

 

Este indecoroso comportamento inclui a cegueira humanitária desta gente que é controlada por um homem de bigode estranho. Os professores são indiferentes aos refugiados que - valha-nos Deus! - parecem moscas a assolar a nossa querida Europa fazendo crer que a pobre já está morta e em decomposição. Não vislumbram sequer que as distâncias que estes pobres percorrem são muito superiores àquelas que separam as suas casotas das escolas onde ficam colocados. Não sei se estes migrantes têm casa lá na terra. Penso que vivem naquelas tendas fantásticas, cobertas com tapetes maravilhosos e paisagens de nos tirar a respiração, mas não os vejo a lacrimejar por terem de caminhar alguns Kms até chegar aos seus postos de trabalho.

 

É compreensível a sua indignação, assim como é lógico que impeça que os nossos impostos sejam atirados aos ventos que são as Escolas Artísticas. Temos a Joana Vasconcelos, temos o José Rodrigues dos Santos, Temos o Pedro Chagas Freitas, temos o José Avillez e até temos a versatilidade do Goucha, mas onde estão os picheleiros? Os torneiros mecânicos, seja lá o que isso for? Os serralheiros? Os serventes dos trolhas e os nossos serventes?! Urge apostar nestas formações básicas e acabar com os pliés os tendus e os frappés. Se queremos ver dançar temos o NY City Ballet. É imprescindível que se trave o acesso das multidões desvairadas ao Ensino Superior e ao Ensino Artístico começando, como muito bem prevê - visionário que é -, a dirigir as crianças mais ranhosas para as formações mais práticas e mais úteis, que não vampirizam os nossos impostos e que duram dois ou três meses. O Instituto de Emprego e Formação Profissional é pioneiro e tem larga experiência nestas andanças, mas é a um Ministério esclarecido que compete dar envergadura a estas iniciativas que não descuram, de todo, a vertente cultural da aprendizagem. O ensino do Inglês no primeiro Ciclo é disso exemplo.

 

Pese embora as tolices dos especialistas que afirmam que aprender a falar e a escrever a língua materna exige uma imensa actividade cerebral e que a exposição simultânea e de teor académico a outra língua interfere de modo negativo no processo de aprendizagem, o meu querido Nuno não se deixa enganar e taxa com chumbo quem não torcer o pepino inglês na 4.ª classe.  É claríssimo o disparate dos que defendem que o 1.º Ciclo deve apenas ser embalado com os sons da língua inglesa que vagueiam nas cançonetas e lengalengas de Sua Majestade britânica ou por desenhos, jogos e teatralizações que permitem apreender de forma involuntária e mesmo inconsciente as subtilezas de uma língua estranha. Não nos deixemos enganar! Pagamos os serviços e queremos resultados. Decorar verbos, construções frásicas, frases idiomáticas, vocabulário, a árvore genealógica da rainha e as linhas de caminhos-de-ferro que servem o Reino Unido, produz adultos poliglotas, se na escolinha for também servido o mandarim e coisa assim. É certo que já ninguém sabe - e odeia quem o diz -, onde nasce, passa, tropeça e desagua o rio Alfusqueiro ou o rio Fasfião, mas foi uma aventura sujeita a chumbo decorar estas maravilhas portuguesas. Há que recuperar esta produtiva pedagogia.

 

Mais lhe teria para dizer, meu querido Nuno, mas se já ninguém atura os manuais escolares que se alteram de hora em hora, para que serve uma missiva de uma pobre fã dona de um blog?!

 

Após vénia mimosa, receba um beijinho da Gaffe.       

 

Imagem - Gabriel Ritter von Max

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe na cama

rabiscado pela Gaffe, em 27.07.15

15.jpg

Deus dorme.

Deus dorme numa Hästens. Aliás, para os mais fervorosos, Deus é uma Hästens.

 

A loja do Porto, aberta recentemente, tem no atendimento um cruzamento entre um arquivista conservador e um playboy de meia-idade que usa como referência Cristiano Ronaldo para nos impressionar com os escolhidos dois metros quadrados de paraíso celestial garantido por 25 anos, de que a vedeta não prescinde.

A Hästens é o Rolls-Royce das camas, apregoa. O slogan não deixa de parecer ranhoso, mas acaba por se revelar bem conseguido, tendo em consideração a excelentíssima qualidade do produto sueco e o seu preço que, como seria de esperar, não admite negociação. 70% no acto da encomenda e o restante no da entrega.       

A composição das Hästens é complexa. Recorre-se a métodos de fabrico artesanais e as matérias que as constituem são rigorosamente escolhidas e de qualidade extrema. As camadas distintas, sobrepostas, produzem um espaço insonorizado e proporcionam um conforto a que só os deuses costumam ter direito.

As duas classes existentes - escandinava e continental - diferem ligeiramente no preço, mas são ambos de uma perfeição inigualável.

A entrega demora cerca de oito semanas, porque uma Hästens é sempre personalizada pelo cliente e executada à medida dos seus desejos que devem no entanto respeitar o padrão que a identifica.

 

Se Deus dorme numa Hästens, é altura de acordar com ele ao lado. 

 

No Porto - Av. Marechal Gomes da Costa, 218 / Rua de Jorge Reinel, 40

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe em êxtase

rabiscado pela Gaffe, em 21.07.15

Quando a vi pela primeira vez, soube de imediato que seria uma das minhas obras-primas favoritas.

 

As razões serão várias, inumeráveis, mas a principal é ter achado que as horas de cada um podiam pertencer as ondas do manto da freira em êxtase, ao turbilhão aflito do mármore do hábito da freira trespassada.

 

Na Igreja de Santa Maria da Vitória, na Capela Cornaro, Bernini tinha erguido Santa Teresa em Êxtase e tinha esculpido uma das mais perfeitas representações do erótico.

Não ceguei. Não me despojei. Não fui trucidada pelo esmagador deslumbre de uma das mais perfeitas estátuas barrocas. O que quis foi procurar no bronze e na pedra os rastos de Bernini.

 

Teria lanhos nos dedos? Como havia o homem sofrido o rosto daquela mulher? Que mordia, que mastigava, que cantarolava, que dizia, enquanto erguia o braço daquele anjo? Que motes e que quadras, que lanços, que degraus, que mortes e acasos e que doridos dias?

 

Depois, e mais depois, e muito mais depois, senti vontade de olhar os dentes cariados de Bernini, saber-lhe dos piolhos, dos eczemas, das maleitas, das venéreas chagas incuráveis, dos achaques, do cheiro nauseabundo de suor e pão azedo, dos vómitos do vinho fermentado e velho e dos mais imundos trapos que vestia.

 

É imprescindível tocar o homem, mísero e mesquinho, para poder tentar depois tocar nos deuses. 

 

 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe grega

rabiscado pela Gaffe, em 28.06.15

Haderer.jpgÉ irónico – de uma ironia trágica como seria de esperar – que o povo que criou e ofereceu o conceito de Democracia à Europa seja aquele que a Europa vai humilhando e destruindo numa espécie de freudiana vendetta da era pós-democracia.

 

Ilustração - G. Haderer

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe e os pecados capitais

rabiscado pela Gaffe, em 16.05.15

J. Leyendecker.jpgA Gaffe decidiu elaborar uma lista de dez mimos que os rapazes NÃO devem ousar oferecer a uma rapariga esperta sob pena de se tornarem aos olhos da vítima uns parvos ignorantes que conhecem tanto as mulheres como esta rapariga entende da composição dos anéis de Saturno.

 

1 -  Perfumes - Uma rapariga esperta sabe qual o perfume que tem de usar. É tão fiel a um determinado aroma que o deixa de sentir, tão entranhado ele já está. Arriscar oferecendo-lhe outro é meio caminho andado para a idiotice. Oferecer-lhe o que ela usa é falta de imaginação e não há nada mais fedorento do que um homem pouco imaginativo.

 

2 - Caixas com bombons - É deprimente. Cria de imediato a imagem de uma lontra a mastigar chocolates, esbardalhada no sofá a ver telenovelas. Uma rapariga quando decide mordiscar umas bolinhas escolhe sempre as que a ocupam demasiado e a impedem de ver seja o que for.

 

3 - Electrodoméstios - Por muito sofisticado que seja, um electrodoméstico é sempre uma escolha suicida. Nenhuma rapariga vai encarar com bons olhos o facto de ter de carregar um aparelho sabendo de antemão que não o utilizará a não ser que tenha hipótese de convencer alguém a usá-lo por ela.

 

4 - Porta-moedas - (com excepção dos Prada) – São ofensivos. Uma rapariga esperta espera sempre que seja o cavalheiro a pagar as contas.

 

5 - Contrafacções - Por muito elaborada que seja uma contrafacção é imediatamente detectada por uma rapariga que tem um faro apuradíssimo em relação a estas bugigangas. O homem que acredita no contrário arrisca-se a ter de repensar a sua vida sexual. É garantido que a partir do momento que faz uma oferta destas, todas as raparigas espertas vão considerar que o pobre traz nos boxers uma falsificação irrisória. A publicidade pode ser implacavelmente negativa.

 

6 - Bilhetes para um espectáculo - Nunca! Quando queremos assistir a um espectáculo, seduzimos o produtor ou namoriscamos o aderecista. Um bilhete destes é uma declaração de indiferença. Se um homem quer que uma rapariga se desloque sozinha a um teatro qualquer, arrisca-se a que a veja regressar pendurada nos braços do bailarino principal (nem todos são gays!) ou do actor menos talentoso (geralmente o mais giro).

 

7 - Livros - Rapazes, nunca ofereçam livros. Não acertam nunca nos autores preferidos de uma rapariga esperta. Os homens compram sempre os livros que gostariam de ler, que jamais lerão por terem muitas páginas ou aqueles que julgam pertencer a uma escrita feminina. Nada irrita mais uma rapariga esperta do que ver um homem a falar sobre escrita feminina. Quando oferecem autores-novidade descobrimos que só os compraram porque são os mais baratos.

 

8 - Lingerie - Não nos ofereçam as vossas fantasias. Nós, raparigas espertas, já as conhecemos há demasiados séculos. Aprendemos apenas a fazer-vos acreditar que vos pertencem.

 

9 - Peluches - Ao contrário do que amiúde se pensa, nós não adoramos peluches fofinhos, nem que nos digam que parecemos aquela gatinha cor-de-rosa, com narizinho redondinho e olhinhos pestanudos e brilhantes. Quando um homem nos diz ou oferece tamanha idiotice, imaginamo-lo sempre de chupeta e ao colo da mãe.

 

10 - Bibelots - Porque não somos a vossa mãe.

 

Resta-vos uma plêiade de hipóteses que unidas ultrapassam o número de galáxias.

Sobretudo nunca se esqueçam que uma rapariga esperta deseja sempre ter por perto aqueles a que Monroe chamava os seus melhores amigos.

 

Ilustração - J. Leyendecker

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe no Dia Santo

rabiscado pela Gaffe, em 05.04.15

casa.jpgÉ estranho ver como o tempo passa de forma diferente sobre cada espaço.  
A casa nunca envelheceu em demasia. Há rugas cavadas nos muros e nas pedras do chão e a poeira é mais cerrada, mas como se o tempo tivesse dedos mansos e não a crueldade dos dementes que cravam, rasgam e esfacelam a pele das casas como se de barro indefeso fossem as paredes, não há ruína ou treva ou derrocada.  

Noutros lugares o tempo que abre fendas fundas e fecha todas as portas permite apenas que se vislumbre uma luz pálida do interior das almas através das frestas que cavou no corpo das pedras.  
Desses vislumbres soltam-se os costumes mantidos incólumes pelos tempos que aqui digo. Magoam como botas num soalho ou como quem anda de lado para lado de mãos cruzadas nas costas, punhos fechados e mudez absurda.

 No Douro nada surpreende, porque todo o tempo foi já visto.  

 

A minha avó espera que tudo esteja pronto e arrepende-se de ter permitido as invasões da Páscoa.

Da janela conseguimos ver os pontos brancos das opas dos que transportam o Senhor que é dado a beijar por estas bandas. A casa foi aberta e permitida a entrada depois de anos a fio de ausência da visita. O cheiro húmido de flores e de folhas maceradas invade as salas e enjoa de tão adocicado. As mulheres rodopiam, decotando sorrisos e sacudindo as saias pretas de domingo e os homens usam os coletes com botões que brilham devagar no aprumo devido ao Dia Santo.  
Tilintam perto as campainhas e no fundo da alameda as opas brancas desfraldam o barulho e as benzeduras. Há gritinhos e saltinhos das moçoilas e os homens procuram a formatura que lhe permite cumprir com honra e tino o ritual já velho.

  
- Bendito seja o nome do Senhor.


A senhora que por ancestral direito deverá ser a primeira a beijar a cruz, faz com que se apertem os lábios às donzelas, cerrem as bocas das matronas e com que os homens da terra aguardem firmemente a vez de humilharem os pecados.  
O nunca visto em tempo algum, aqui tem lugar em vez da santidade.  
Aproximam a cruz da boca da senhora da casa e todos rilham o ciúme e o despeito, trincando aquele Dia Santo que vai ser falado. Empurrada lentamente a mais nova das netas, a mais ruiva e a mais frágil, é oferecida à cruz para a beijar primeiro.

 

Bendito seja o nome da menina. 

 

A única mulher que nesta manhã sorriu de orgulho, aproxima-se agora tosca e temerosa. Sempre aquele medo a amarfanhar-lhe os gestos.

Que a mesa está posta como a menina pediu.

A minha irmã acena com a cabeça e agradece. Levanta-se depois e deixa uma serpente de perfume a ondular na sala.

- Para a senhora o vinho é o Chianti. – Volta a prevenir como se a mulher não soubesse das escolhas da dona da casa. - Nós bebemos o que trouxemos. O meu irmão só água.

Que sim, menina, que já sabe.

 

Sabes, mulher. Sabes onde guardas a toalha de linho branco e fino que vincaste na véspera e que estendes sobre a mesa como se fosse vela de navio e a mesa o mar ou o corpo adormecido de um amante.

Sabes dos talheres, dos copos, das terrinas, dos pratos, das travessas do serviço mais caro desta casa.

Sabes que limpas as escadarias os castiçais antigos e as pratas polidas todas as quinzenas num ritual que mistura e confunde o tempo já passado até encarcerar o dia em que desfraldas a toalha de linho e anuncias que a mesa está posta como te disseram.

Sabes das janelas que se abrem e das que não se abrem também sabes, que as abriste todas menos a que dá para o jardim que se recusa a ranger e desististe.

Sabes do tempero do cabrito assado e como rodar os ferros até ficar bem tenro e das batatas louras e do arroz nas pingadeiras com ramos de salsa e sabor de outras ervas que eu não sei. Sabes qual é o ferro negro em brasa que vai queimar o açúcar sobre o leite-creme e do arroz-doce, das palmas de azeite e das cavacas, das bolachas feitas com manteiga e dos aromas do que já está pronto.

Sabes do som dos que descem as escadas para se sentar à mesa. Sabes a origem das indestrutíveis nódoas redondas nos degraus que descem.

Sabes de mim à espera. Sabes da furiosa fome que tenho e que és tu que serves (que só a ti eu quero, e a ti apenas, para me matar a fome e tu sorris por isso) e sabes que destoas na harmonia e que decompões a simetria do perfeito que te disseram que existe e te ensinaram a montar domada.

Sabes que é assim, que sempre assim foi e sempre assim será porque tu queres e é essa certeza que tens que une o tempo, que o torna certo, desmesuradamente lógico.

 

- A mesa está posta como a menina disse.

 

A minha irmã serpenteia no perfume e não sabe de nada.

 

Bendito seja o nome de mulher.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe descodifica

rabiscado pela Gaffe, em 14.03.15

jon whitcomb.jpgQuando um homem nos coloca ao pescoço uma gargantilha de esmeraldas e brilhantes, pode apenas querer provar que usa um cartão de crédito de dimantes ou que gosta de coleiras que cintilam.

Quando nos serve uma salada com três tipos de alface fazendo questão de nos explicar como cultivou cada um deles e nos garante que se for ele a preparar a lampreia à moda do Minho que jaz em postas num alguidar de barro, mergulhada em alho, louro, salsa e dois vinhos, não disparamos cozinha fora todas arrepiadas, de olhos esbugalhados, desgrenhadas de medo do monstro necrófago, escorregadio e com umas ventosas alienígenas no terror de uma das extremidades, então ficamos a saber que para ele o nosso caso estar a tornar-se uma coisa muito séria.

 

Ilustração - Jon Whitcomb

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe vai à luta

rabiscado pela Gaffe, em 08.03.15

G. Haderer.jpgA Gaffe tinha decidido deixar passar incólume o Dia Internacional da Mulher.

As caracterísiticas, as capacidades, as potencialidades e as qualidades que particularmente neste dia são atribuídas às mulheres e publicitadas em parangonas que fazem o Correio da Manhã parecer um jornal discreto ou um panfleto do Vaticano, dão imenso trabalho a manter e são, se bem aprofundarmos o assunto, uma maçada monumental que permite aos parceiros uma vidinha abençoada.

Mas a Gaffe considera lamentável que por entre os quase santificados elogios, óbolos, laudas e sinfonias que hoje são depostos no altar do feminino, se deixe escapar três dos mais importantes dotes que são apanágio da mulher:

 

- O decote;

- As pernas;

- O beicinho.

 

A transformação vulgar que ocorre nas auréolas que nos entregam equiparam-nos muitas vezes a guerreiras. São armas de heroísmo que empunhamos e somos mais do que nós, porque enfrentamos de peito aberto e soutien à vista desarmada a insensatez humana.

Tolices.

Tudo o que é dito e é hoje apenso a nós, pertence aos mais básicos deveres, obrigações e direitos de todos e não é agradável ou justo confinar esta parafernália de heroísmos apenas a um sexo. Não é exclusiva do feminino.

 

Há no entanto, o decote, as pernas e o beicinho.

A Gaffe continua a usar a metáfora bélica e considera que estas três armas fizeram mais pela humanidade e por uma carreira de merecido sucesso do que muitas palavras de Beauvoir.

É uma tontice condenar o uso destas três jóias como desviante, indecente, indigno, abjecto, grosseiro e mercantil ou adjectivá-lo com a colecção de mimos usados por moralistas de pacotilha. Um decote, um erguer de sobrancelhas tristes a companhar um mimado trejeito de boquinha e duas pernas bem usados, apenas manipulam a idiotice do poder, apenas usam em proveito próprio a mediocridade do homem. Se coadjuvam a nossa ambição e nos permitem agarrar o que nos é negado, mesmo sendo nosso por direito, é porque a vítima não merecia sequer ser confrontada com os mais simples argumentos da inteligência.

Recusar o uso de três armas únicas e decididamente femininas em nome de um feminismo musculado, é pateta, constitui um erro de estratégia e é abdicar de uma das mais eficazes formas de controlar, dominar e vencer a patetice dos machos. Se Deus nos deu voz, foi para cantar, mas se nos deu um decote, umas pernas perfeitas e a capacidade de convencer através do beicinho, não foi proprimente para regozijo mais ou menos lúbrico dos homens. Foi para anexar ao outro equipamento e usar quando nos convém.

 

Minhas queridas, recusar o uso das armas que são exclusivamente nossas, é acabar como Frida Kahlo: de bigode, de sobrancelha única, paralíticas e, para desgraça nossa, tudo isto sem o seu talento.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)





  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD