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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe com borbulhas

rabiscado pela Gaffe, em 27.07.16

Uma das vantagens dele dormir de rabo para o ar - diz-me a minha querida amiga -  é a de não ressonar. A outra permite-lhe o deslumbramento que é poder mirar e admirar o que virado para cima se expõe.

- Tem um rabo belíssimo! - esbardalha-se a rapariga.

Segundo a mesma, o rapaz tem dois gomos redondos com uma cor que tem a textura de veludo. Um fruto mais que perfeito boleado pelos deuses que deixaram duas marcas, dois sulcos, duas mossas dulcíssimas no finalizar das costas, a ladear a coluna. Duas taças invertidas, amoras, travo a sal, a suor brevíssimo, a chocolate espesso, a tangos bem dançados, a concertina, a cetim que se derrama nos dedos.

Os predicados não foram tão líricos, mas a ideia passou.

 

Mas no beijar a nádega direita a rapariga encontra o desarranjo do perfeito. No centro de um dos hemisférios, ao Nordeste do prazer, uma espinha deslavada e virulenta.

 

Pergunto-me: A imperfeição espreme-se?

 

A resposta não é de todo simples.

Ao contrário do publicitado, a atracção pelo oposto não perdura a médio prazo. Não há paciência que aguente hard rock a vida inteira quando apenas desejamos Maria João Pires a fazer esvoaçar Chopin pelas nossas horas todas. Não há rabinho que aguente sessões contínuas de cinema húngaro quando queremos ver somente a pistola de John Wayne nas nossas telas.

 

O casal duradouro é aquele em que predicados e pecados se deixam contaminar mutuamente e em que cada um dos elementos da união é infectado pelas virtudes e defeitos do outro, produzindo uma parecença que pode chegar a ser física.

 

Malhereusement - dito assim não é tão deprimente - raras são as vezes em que uma soma simples produz apenas um resultado igual ao de uma parcela.

Nos casos mais banais, maioritários, somos dois vagos e breves companheiros de viagem, prontos a mapear rotas que nos afastam um do outro, sem levar no coração um qualquer recuerdo significativo.

 

Nestes casos, a imperfeição não se espreme.

Nestes casos, a imperfeição inflama insuflada e inflacionada.

 

Um homem que nos enfeitiça do alto da sua centenária biblioteca, durante um jantar à luz das ilusões e usando a perfeição que lhe inventamos, é descoberto insignificante quando nos revela de repente o seu enorme fascínio pela apanha do berbigão.

Um homem que é capaz de humilhar Tarzan, não com a potência do gritedo, mas com a selvagem beleza das savanas do seu corpo olímpico, é visto Quasimodo no instante exacto em que lhe encontramos pontos negros nas costas musculadas ou um pelo a sair pela asa do nariz como a pata de um grilo gigantesco.

Um homem com um maravilhoso ar Gucci, com barba de dois dias rigorosamente talhada por mãos peritas de barbeiro caro, que se prepara para contar azulejos no irrepreensível WC do nosso apartamento, se - contrariando os assomos de timidez ou de recato procurando uma proximidade de reserva e discrição com a porcelana que silenciará o inevitável, mesmo usando um sofisticado ar de quem está ali, breve, de passagem, entre aviões ou alfa-pendulares - erguer o poderoso jacto de aflição, afastado do alvo um valente metro medido por defeito, como um boçal e barbudo anjo de jardim barroco, pode contar com a viagem só de ida no foguetão da NASA mais caseira.

 

A imperfeição deste modo não se espreme. Torna-se borbulha purulenta e nauseante que invade e soterra o mais ínfimo sinal de união quando o somatório de duas vidas sobrepostas dá sempre o resultado que se espera em matemática.    

 

Nós, raparigas espertas, somos exageradamente picuinhas nestes casos.

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A Gaffe sardinheira

rabiscado pela Gaffe, em 21.07.16

Há uma tribo constituída na sua maioria por rapazinhos mais ou menos empertigaitados, com a capacidade de nos humilhar de fininho com espetadelas de alfinetes miudinhos quando aparecemos todas dispostas a mandar a Chanel para as urtigas.

 

São como sardinhas pequeninas. Não servem para conservar e são precisas muitas para acompanhar um arroz com tomates. 

 

São rapazinhos doidos por mostrar que a cadeira onde devíamos alapar o rabinho devia chamar-se Le Corbusier e não ter o aspecto miserável das minhas, que se chamam Nunes - grande português que vive em Carrazeda de Ansiães e tem bigode farto, - e foram compradas baratas na carpintaria com o mesmo nome.

 

Gostam de referir as viagens que fazem à Patagónia, apesar do tempo, e mostrar-nos que não dá, de todo, um bom ar esbardanhar o corpinho na areia mais próxima de casa, no pino do Verão.

 

Gostam de visitar museus e arranjam modo de verificar se a Mona Lisa dava com a chaise-longue que há no hall dos apartamentos pipis que arranjam com o dedo mindinho no ar.

 

Criticam todas as nossas expressões mais banais e acreditam que a Princesa Diana foi assassinada.

 

Costumam dizer-nos sem qualquer tipo de pudor que leram Shakespeare aos cinco anos, Tolstoi aos dez e com onze andavam enfronhados em Dostoiévski e, quando se referem à pintura, pasmam-nos declarando que foi aos sete aninhos que descobriram as subtilezas do expressionismo e as nuances todas curvas do barroco. Não percebem que não somos parvas e que reconhecemos que uma criança de cinco anos dedicada a Shakespeare ou à talha dourada dos séculos passados sofre de graves perturbações que num futuro por tratar a transformarão numa psicopata.  

 

São, para espanto meu, quase todos magrinhos e na sua maioria até são girinhos. Usam jeans apertaditos, camisolas de malhinha com decote em V para deixar que se veja a t-shirt branca, rentinha ao pescoço, uns ténis aguçados muito D&G e trazem umas pulseiras ranhosas e podres, de tecido colorido, apertadas com um nó que se tem de desfazer para dar sorte.

 

Raramente andam sozinhos. Arranjam sempre um compincha meio débil e com um QI vagamente numerável que lhes apara o pião e lhes vai dando razão, imitando-o nas farpas e nas opiniões. Dizem umas coisinhas com ar de quem decorou os resumos dos manuais escolares e gostam imenso de arranjos florais.

 

São pios e vão à missa, mas nunca rezam ajoelhados para não dar azo a ditos maldosos. Não são gays, são, quando muito, gente moderna e solta, sem teias de aranha, nem vestígios de preconceito e podem, eventualmente, dar uma ou outra escapadela com o mecânico que lhes arranja o mini, mas é tudo por uma questão higiénica: já que o rapagão tem a mão na agulheta, pode muito bem desentupir-lhes os canos. Nada de misturar sexo com isto, porque com estes moços, sexo é só entre iguais.  E são muito iguais estes rapazes.

 

Andam a passear o rabinho por todo o lado e depois, como quem não quer a coisa, vão informando que são os filhos mais novos de qualquer Direcção.

 

Frente a um rapazinho filho mais novo de qualquer Direcção que se permite produzir o rebento descrito, logo se percebe que o rapaz tem a mãe entrevada. Há que ter o dobro da paciência e arranjar maneira de o mandar apanhar sardinhas sem despertar muita atenção.

 

Já não se fazem homens como dantes! - diria a minha avó olhando de soslaio os moldes das molas de rapazes mais peludos.   

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Gavetas:

A Gaffe dos fofinhos

rabiscado pela Gaffe, em 12.07.16

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Dentro das polémicas, divertidas e muitas vezes pouco seguras classificações antropológicas, sociais ou culturais, que os estudiosos costumam referir e que descrevem tribos urbanas, subculturas ou subsociedades, que vão desde o punks, o headbangers, o neo-punk, o rockabilly, o nerd, o emo, o skatista, passando pelos ligeiramente insossos peper e pelos assustadores skinheads, perdendo-se numa panóplia de denominações que custa memorizar, mas que reúne grupos ou agregações com características comuns e identitárias que apresentam uma conformidade de pensamentos, hábitos e maneiras de se vestir, de agir e de pensar, não existe o que a Gaffe considera um dos mais queridos. Os ... 

 

Fofinhos.

 

São esmagadoramente muito jovens e com um allure feérico que perfuma de ingenuidade as nossas artimanhas maquiavélicas destinadas a catrapiscar-lhes a inocência. Gostam de cardigans com jacquards tradicionais, ou t-shirts vintage, e usam uma espécie de ceroulas de malha lassa e bamboleante que nunca deixa de estar sintonizada com a imagem simultaneamente estudada e descuidada que se complementa com adereços em pele ou pêlo. A rudeza e agressividade das botifarras que usam quando descalçam as all-star, são atenuadas pelos quebradiços atacadores soltos e sem nó, que nos fazem imaginar o tropeçar do fofinho e a queda subsequente nos nossos braços que o esperam.

 

Apesar de revelarem algumas preocupações ecológicas, estão vocacionados para a defesa dos animais mais amorosos, coalas, golfinhos e pandas, deixando os monstros de Chila e os demónios da Tasmânia para depois do jantar, quando chega a hora de deitar, que é o momento em que demónios e lagartixas venenosas são frequentes debaixo das camas dos meninos. Apesar de desportistas com um elevadíssimo fair-play, não gostam de competir com os pares e preferem as braçadas solitárias em piscinas de cristal. Um onanismo atlético de que não resulta perdedor.

 

Conseguem ler romances com menos de trezentas páginas, mas esquecem facilmente os autores com que se cruzam passando os dedos pelas lombadas das estantes das bibliotecas onde fazem esvoaçar os seus olhares tristonhos e distraídos.

 

Os fofinhos, óptimos companheiros de uma tarde de ócio ou de um entardecer de ópio, possuem uma das mais atraentes características de que há memória: uma aparente candura e desamparo que nos desperta o instinto protector e nos leva a cometer os maiores dislates, as maiores marotices e as mais inconfessáveis das asneiras.

 

São como os grandes diplomatas: tiram, parecendo que nos dão.     

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A Gaffe utilitária

rabiscado pela Gaffe, em 06.07.16

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Embora concorde com a esmagadora maioria e assuma que é proveitosa a aliança entre o útil e o agradável, há excepções que convém sublinhar.

 

Nem sempre esta união se torna eficaz e prazenteira. No amor, o útil e o agradável podem não coexistir, sem que disso venha grande mal ao mundo. Apaixonamo-nos com frequência por gente que não nos fornece grande coisa, a não ser um palmo de cara, e muitos palmos de outras coisas, para exibir nas feiras das nossas mais raquíticas vaidades. Entregam-nos os agradáveis momentos em que nos vingamos da amiga que nos roubava os atletas mais invejados da turma e um bando de horas em que perdemos o tino, olhos em bico, boca a babar, a amarfanhar lençóis e a gritar desalmadamente por Deus, Nosso Senhor - embora saibamos que este tipo de uivo não é considerado oração por Sua Santidade.

 

É evidente que a utilidade desta paixão está implícita, mas é daquelas que nos fazem corar na presença da nossa avó e, confessemos, encontramos o mesmo produto numa esquina qualquer, sem que para isso tenhamos de admitir sentimentos muito elaborados. É agradável, mas não é relevante, nem contribui para a sensação de vida preenchida - embora nos pareça que recheia uma pequena parte dela. A utilidade é passageira e não deixa rasto quando o homem adormece.  

 

Talvez por isso seja de considerar a máxima que nos repete que deve ser bom amar um homem feio.

 

Apaixonarmo-nos por um homem desagradável à vista desarmada, possibilita a aparente vingança da amiga a quem roubávamos os atletas mais invejados da turma e em relação ao amarfanhar dos lençóis e aos gritos desalmados pela calada dos corpos, crescem as possibilidades de controlo do som, porque com um homem feio temos sempre mais botões.

 

A paixão sentida por um homem que não é bonito de morrer - de grandes mortes - assenta numa espécie de oportunismo, ou mesmo de vampirismo, nosso. Acabamos por amar o conteúdo, tentando não desfazer a embalagem, cuidando do laço e conservando o nó. Cravamos-lhe os caninos na alma e sorvemos, fazendo nosso aquilo que nos fez perder de amor. Aprendemos que é idiota o ditado que repisa que quem ama feio, bonito lhe parece, porque quem se apaixona por um homem destes, percebe rapidamente que tem, para além do aumento exponencial da possibilidade de não ser se traída, a acentuada certeza de ficar ao lado do homem que se escolheu à revelia da inconsciência de Cupido e isso não tem nada a ver com o que nos parece.

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A Gaffe atraída

rabiscado pela Gaffe, em 06.07.16

 

Os homens mais atraentes que conheço não desfilam, pavões inexpressivos, pelos tapetes do glamour, de brilho impávido nos olhos vestidos pelo deslumbre de uma griffe. Cruzam-se comigo em cada rua, banais, quotidianos, corriqueiros, cansados dos lugares onde procuram arrancar das pedras pedaços de vida e trazem nas mãos a nudez completa dos que trocam por sonhos o esplendor da glória.

 

São homens banais, heróis já quase feitos apenas de cansaços ou palavras.

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A Gaffe e o charmoso

rabiscado pela Gaffe, em 05.07.16

 

Um dos mais complexos conceitos que existe para nos assombrar os momentos de lazer em que desejamos ser fúteis e vagamente levianas, refere-se ao charme masculino.

Confundem-no muitas vezes com carisma por este ser igualmente complicado, embora de mais fácil detecção.

 

A Gaffe acredita piamente que o tão escorregadio charme - masculino ou feminino - evolui necessariamente com a maturidade ou mesmo com o envelhecimento sapiente e é simplesmente a inteligência que se escapa suave, mas incontornável e notória, pelos poros.

 

Nenhum rapaz, rigorosamente nenhum, possui o charme irresistível, poderoso e avassalador, de um homem maduro que passa despojado de insignificantes adereços do quotidiano mais cosmopolita, urbano ou colorido, seguro de que lhe basta a vida que decide e a decisão de a viver ao som do pulsar seu próprio raciocínio.

 

Uma rapariga esperta, no entanto, tem sempre presente o que o velho inglês sublinha:

 

A man of such obvious and exemplary charm must be a liar.

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A Gaffe proustiana

rabiscado pela Gaffe, em 23.06.16

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O mais maravilhoso dos meus amigos é moreníssimo, possui uma juba leonina, com caracóis soltos, negros, descontrolados e olhos pretos como carvão. É um homem belíssimo. É também agreste e indomável - características mediterrâneas herdadas do pai, que a mãe tem a suavidade frágil e aparentemente submissa que quase sempre acompanha as elegantes de gema, - pratica pólo aquático desde criança, é professor agregado numa das mais prestigiadas Universidades do mundo e vai de bicicleta para o trabalho.

 

Estas especificidades fazem deste maduro trintão um magnífico exemplar da espécie e muitas vezes penso que se a divina Natureza tivesse de organizar um catálogo, esta criatura poderia figurar na capa.

É evidente que tem defeitos tenebrosos. É irascível, mal-humorado, rezingão, muito pouco social e sobretudo implacável com os responsáveis pelo mais pequeno deslize que implique uma falha na análise da relação complexa entre Aschenbach e Tadzio ou a localização desta particular obra de Thomas Mann numa Veneza de Inverno.

 

O magnífico e poderoso guerreiro não entende rigorosamente nada de trapinhos. É cego e surdo - tendo uma voz tonitruante - em relação àquilo que veste e apunhala os invasores que lhe sussurram ao ouvido que os tons cor de terra não são os que mais o favorecem.

 

Usa invariavelmente camisolas de gola alta e casacos de tweed, espinha ou texturas subtis, com cotovelos protegidos por ovais em pele, calças de sarja – normalmente chinos, - apertadas por cintos de couro corroído e arrogantes e robustos sapatos picotados de solas possantes. No Verão, a imagem não se afasta muito destas características, substituindo apenas a textura e espessura dos tecidos e trocando as golas altas pelos colarinhos de camisas brancas.

 

É inevitável o ar absolutamente vintage que contribui de forma decisiva para o seu encanto e fascínio.

 

O apelo a um dos meus mais queridos amigos não é inocente - raramente o sou. Existe porque me recordei que, quando lhe fizeram notar a indiferença com que tratava o seu guarda-roupa, respondeu de modo ambíguo e um bocadinho irritante:

- Se não ando atrás das modas, a moda virá atrás de mim.

A premonição acaba de se cumprir e, mais uma vez, o homem sorri desdenhoso e sobranceiro.

Nunca como hoje o allure masculino que nos empurra para um tempo quase proustinano foi tão reforçado e elogiado. Ser-se vintage é possuir um je ne sais quoi imprescindível a uma urbanidade que pretende ser cosmopolita e perene.

 

Esta busca de um tempo perdido está ligada, como não poderia deixar de ser, àquilo a que os peritos chamam frustração do presente e às convulsões e desilusões sociais e societais que invadem o quotidiano do mais comum dos mortais. Este retorno à uma ilusão de segurança e solidez passada pode ser insidioso, insinuado e insinuante, mas surge de forma clara na actualização, visível a olho nu, sobretudo das correntes de rua.

 

Cíclico e circular, até este movimento se faz ao som da Lei de Lavoisier, repescando e tornando actual a imagem vagamente anacrónica de um homem que acaba perseguido e apanhado pelas mais recentes tendências da ilusão dos trapos.

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A Gaffe e um poeta

rabiscado pela Gaffe, em 12.05.16

O envelhecer masculino não implica necessariamente uma decadência física em que as rugas significam o amarfanhar da sedução.

Há uma invulgar espécie de criaturas em que o tempo toca de modo feiticeiro e lhe entrega o incontestável poder de metamorfosear a inexorável conquista do passar da vida, na potente capacidade de nos proporcionar o fascínio das madeiras antigas que, rugosas e agrestes, repletas de atritos e de farpas, conseguem manter a esperança nos veios erodidos, e através dela, nos conceder o milagre de tocar nas arestas já tão gastas como palavras pela ruas.

Às vezes trazem peixes verdes nos olhos e acreditamos, perto deles, que todas as coisas são possíveis.

 

Trazem um Poeta no passado dos corações e fazem-nos sentir que temos tudo para dar e que tudo neles nos pede água.

 

Foto de Christophe Cufos 

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A Gaffe a piscar

rabiscado pela Gaffe, em 11.05.16

Rapazes, saibam que, numa derradeira análise, só existem dois modos de nos piscarem o olho. Convém que os conheçam antes de pensarem que somos donzelas indefesas perante um pirata de testosterona. É verdade que uma rapariga esperta não desdenha a perna de pau e a cara de mau, mas acreditem que dispensa o olho de vidro, mesmo que dentro exista uma luzinha de Natal a tremelicar, que faz parecer que anda por perto um AVC.

 

 O taralhoco

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Um piscar inexperiente, mas que, dependendo das circunstâncias, do lusco-fusco e do dono do bruxulear, nos pode seduzir. Enruga um dos lados da cara e apesar de amoroso fica bem apenas a homens com mais de 1.80 m, espadaúdos, de barba rija e dentes lavados nadadores olímpicos de speedos exíguos e seminaristas marotos. Os homens que não se incluem nestas premissas correm o risco de se verem enfiados numa ambulância rumo aos cuidados intensivos ou ao mais próximo Hospital psiquiátrico em busca de cura para os traumatismos provocados pela nossa crueldade espantada. Nós, raparigas espertas, somos implacáveis.

 

O badalhoco

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Um piscar experiente, produto do uso e abuso desta manobra. Vem apenso a homens que estão convencidos que se fecharem apenas um olho um dos seus valentes peitorais se ergue em simultâneo impressionando o alvo entretanto anestesiado pelo encanto. Normalmente é treinado ao espelho e talvez por isso acabe por engatar apenas o dono. Os adeptos desta variante estão convencidos que ao piscar o olho conseguem o milagre de acreditarmos que só tentam impedir que se escapa por ali a inteligência e o charme.

Mais banal e mais fácil do que a primeira modalidade, porque, segundo é dito, é como andar de bicicleta. Um dia tiramos-lhes os selins.

 

Rapazes, acreditem! O modo mais sedutor de nos piscarem o olho é simplesmente erguerem num sorriso as mais tímidas das sobrancelhas e esperarem que sejamos nós a arriscar.  

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A Gaffe testando

rabiscado pela Gaffe, em 10.05.16

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A Gaffe sempre teve alguma dificuldade em identificar os rapazes que não são fãs do sexo oposto, mas que transbordam de masculinidade. Nunca sabe se aquele magnífico exemplar de homem das cavernas requintadas, sentado na esplanada à beira-mar, absorto na leitura de um romance ou em devaneio diáfano pelas ondas do azul das avenidas, pode, ou não, ser convidado para ver a sua colecção de borboletas. Nunca adivinha se o convidado, mal chegado à sala, vai desatar a vasculhar todo o armário à procura de asas prometidas, deixando esvoaçar por todo o lado a ruiva mariposa da desilusão.

 

Descobriu para colmatar a tremenda falha um pequeno subterfúgio.

 

É essencial que a vítima esteja distraída. Solitária e imersa na lentidão que chega num longínquo repouso arrebatado. A tranquilidade, a paz, a beatitude, a placidez e a calma do homem a testar são condições para que resulte a manobra traiçoeira.

 

Pé ante pé, a Gaffe aproxima-se da enlevada vítima e prega-lhe um susto.

BOOOOO! tradicional é suficiente.

 

Se apenas sobressalta o matulão que erguido agora do seu alheamento, com uma voz que chega das profundezas graves da garganta, lhe refere a imbecilidade de o ter feito perder uma palavra do texto que relia embevecido, a Gaffe reconhece o título do romance.

 

Se dá com o rapaz preso pelas garras ao toldo da esplanada, depois de ter estilhaçado um grito desalmado e de rasgar o horizonte que se avista, a pobre rapariga entende logo que o que é lido não contém, nem para amostra, o fogoso amante de Lady Chatterley.

 

Resulta sempre.

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A Gaffe e a mãe dele

rabiscado pela Gaffe, em 05.05.16

Um dos maiores perigos que uma rapariga esperta corre, inicia-se quando o rapagão que pensava descartável lhe anuncia que gostaria de a apresentar à sua santa mãe.

O cérebro faz disparar o alerta vermelho, fazendo-a ouvir as sirenes das cooperações de bombeiros de todas as periferias e as cornetas dos regimentos e das fanfarras da União Europeia.

 

- Vais ver. A minha mãe é uma óptima companhia!

 

Uma iguana é melhor companhia do que a mãe dele. Aliás, se pensarmos bem, tudo o que termina em ana  - como ratazana, princesa Diana ou mesmo, com algum esforço, o Dolce e o Gabanna - é preferível a ter como parceira esta santa idolatrada.

 

- Vais ver. A minha mãe tem um excelente gosto!

 

Se já não conseguíamos entrar na Bershka com receio de sairmos com os tímpanos desfeitos e transformadas em trapos iguais ao que nos impingem lá dentro, agora, sendo a senhora surda, seremos arrastadas para um vórtice de decibéis inimagináveis somando ao catrapum-pum-pum-catrapum-pum-pum da loja, os gritos das empregadas que tentam dizer-lhe o preço das peças muito giras que restaram dos saldos.

A mãe dele não vai nunca entender, com preços tão em conta em peças tão modernas, porque é que olhamos de soslaio a montra, mesmo em frente, onde resplandece um casaco Galliano, extravagante, exuberante, extraordinário e com um preço a merecer os mesmo adjectivos, embora tentemos desesperadamente fazer-lhe entender que o costureiro é tão querido como ela, sobretudo bêbado e posto a falar num café qualquer de Paris.  

 

- Vais ver. A minha mãe vai ensinar-te a receita do cozido à portuguesa que é do outro mundo quando sai das mãos dela!

 

Este é o instante em que sabemos, sem a menor réstia de incerteza, que a partir dali, o homem, se o aguentarmos depois deste deslize, jamais enfardará cozido à portuguesa ao nosso lado. Se sentir saudades deste exemplar gastronómico, sabe onde o procurar: no outro mundo, ou seja, em casa da mãe dele.

 

- Vais ver. A minha mãe é uma mulher muito aberta! Vai adorar-te.

 

Embora parte do dito mereça o nosso acordo - a referência à abertura da senhora não é metáfora, porque a idade não perdoa e faz aumentar a tendência para se abrir, ou para dificultar fechar, tudo o que deveria permanecer discreto, como a boca, -  vai adorar-te sugere não ser má ideia sermos acompanhadas por um exorcista. Não nos podemos esquecer que há mulheres que mesmo depois de dobrada a menopausa, continuam a viver como se todos os dias fossem os dias difíceis. Normalmente gostam de vampiros.  

 

- Vais ver. A minha mãe tem um sentido de humor fabuloso.

 

 Esta tenta proteger-nos. É amoroso da parte do rapaz que admite, com o mais disfarçado dos receios, ouvir a mãe calcinar as nossas irrisórias idiossincrasias com alusões subtis à toxicodependência, ao tráfico de órgãos e aos comunistas.

 

Não temos hipóteses, raparigas. A mãe dele jamais será a nossa avó - embora nos pareça sempre ter idade para isso.

 

Nesta figura com estilo, existe um único consolo: possibilita-nos, sempre que o homem nos contradiz, nos contraria, nos irrita, nos resiste, nos abespinha, nos aborrece e nos refuta, não baixa a tampa da sanita ou nos diz que o sushi que lhe preparamos sabe a pastilha de Xau para máquina de lavar loiça e se parece com uma, podermos pensar em surdina:

 

A culpa é da mãe dele.  

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A Gaffe correctora

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.16

A Gaffe tem a certeza que disse algures que as Levi’s 501 são as faces incontornáveis dos rabos perfeitos.

É de aplaudir o direito que temos a dar o dito por não dito ou, pelo menos, a corrigir a mão.

Há rabiosques presos noutras paragens que, de tão irrepreensíveis e exemplares, nos fazem tombar deslumbradas em qualquer lado, mesmo sujeitas a apanhar com um camião pela frente e esbardanhar a maquilhagem!

 

Como diria a avó - a Gaffe nunca chegou a entender por completo o alcance deste aforismo, - os homens não se medem pelas calças que usam, mas pelo que são, lá dentro

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A Gaffe e o Ken

rabiscado pela Gaffe, em 20.04.16

 A Gaffe não simpatiza com os metrossexuais.

 

Não é de todo agradável perceber que o rapaz que lhe prometeu no dia anterior viagens alucinantes pelo universo da masculinidade mais renhida e empedernida, lhe surge na manhã seguinte usando os cremes que lhe surripiou, escancarando as portas do armário onde se escondiam da demanda sorrateira do patife.

 

Uma rapariga fica sempre amorosa enfiada numa banheira de espuma, el cuerpo caliente, um dolce farniente sem culpa nenhum, com duas rodelas de pepino cravadas nas olheiras e a cobri-lhe a face uma pasta esverdeada que a torna, ainda que temporariamente, o Fantasma da Ópera.

Ao som de Vivaldi, a Primavera dos unguentos, das pastas, dos óleos, dos cremes, das essências, das loções, dos hidratantes, dos esfoliantes, dos depiladores, dos amaciadores, dos condicionadores, dos rejuvenescedores e de todas as outras dores que nos arrancam o tempo a pinças e tiras de cera quente, é sagrada. Jamais abdicaremos do nosso estético intervalo masoquista.

 

Não é contudo muito agradável apanhar logo pela manhã desprevenida  - em que é suposto o pequeno-almoço ser servido na cama por um matulão com a barba por fazer, de calças de pijama e tronco nu, que não se esqueceu de lavar os dentes antes de acordarmos e depararmos com esta cerimónia com um travo cliché - o susto tenebroso de termos ao lado a rígida, hirta, tesa, petrificada e esquálida face de um homem que se lembrou de estucar a cara com os cremes que usamos no aconchego da nossa mais esconsa intimidade e de vazar os olhos com as rodelas de algodão embebidas em essências que prometem a aniquilação de todas as rugazinhas que trazem pés.

Não é nada encantador, sobretudo se pensarmos que, de acordo com a Lei das compensações, se rígida está a cara do rapaz, solidificados os cremes hidratantes, é limpo que outras miudezas ficam frouxas.

 

Depois, é um desalento insípido uma rapariga ir de encontro aos peitorais de um rapagão sem que o embate seja amortecido por uma discreta e subtil almofada de pêlo ou pensar, no abrigo de um sono adivinhado, que as pernas masculinas onde se enrosca estão melhor depiladas do que as dela. A destruição do delicioso atrito causado pelos pêlos masculinos no veludo da nossa pele macia e depilada deveria ser excomungada ou exorcizada pelo Papa, repudiada pelo Dalai Lama e condenada publicamente pela Isilda Pegado - e a barba crescida não conta como atenuante.  

 

A Gaffe lamenta a ensandecida fúria, a cruzada destruidora, a guerra aberta travada nos campos de batalha de azulejo e mármore - de Carrara ou daqui perto - dos WC das suites masculinas, contra toda a pilosidade que subsiste. Perdoa aos pecadores o desertificar, o desbravar, o arrotear, o desmoitar, das costas - não vá pensar-se que gosta de peluches, - mas não absolve os homens que a fazem pensar que acordou com o Ken XL enfiado na cama.    

 

Na foto - Juan Betancourt - Tom Ford for men

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A Gaffe piscatória

rabiscado pela Gaffe, em 21.03.16
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São os homens talentosos os únicos capazes de provocar alguma instabilidade numa empedernida e astuta rapariga esperta.

São naturalmente homens maduros, trintões ou quarentões, desesperantes. O talento é lapidado com as mesmas ferramentas que o tempo vai usando para aguçar a inteligência, inevitável cúmplice de qualquer dom. Os jovens rapagões são apenas espertos. Os velhos são apenas génios.

 

O cuidado displicente que uma rapariga deve ter com os homens banais não se aplica aos talentosos. Deve ser dobrada a atenção e deve duplicar a vigilância com que se evita os ténues fios de seda com que nos envolvem de repente.

O talento actua como um bruto TGV que quase nos trespassa quando na gare vemos passar apenas os regionais. Somos atraídas, contra o seu corpo acelerado, pela deslocação do ar provinciano e parco em aventuras.

 

Embora seja difícil resistir a um homem talentoso, não é de todo impossível identificar o modo como os mecanismos que lhe fornecem a capacidade de criar abismos de sedução estão activos. Alguns são de imediata detecção e transformam-se em sinais de alerta, minúsculos faróis acesos no cume da negrura dos rochedos:

 

1 - Rodeiam-se inevitavelmente de um cardume de mulheres que, fascinadas e rendidas, guardam a secreta esperança de se tornarem únicas, senhoras do senhor que as subjuga imperceptivelmente.

 

2 - Insinuam, ao ouvido de cada uma delas, sombras de promessas ambíguas onde a elevação ao lugar de eleita está implícita, sem nunca assinarem o decreto.

 

3 - No escuro dos cantos onde a vida dorme solitária, procuram fazer crer que estão rendidos aos lugares-comuns, às patetices, à poesia de cordel, de mel e malmequeres, que cada uma delas vai atirando às rodopiantes águas onde pesca.

 

4 - Fazem acreditar que, no meio do cardume cintilante, existe apenas uma sardinha que querem para a sua brasa e vão nadando à volta de todas as escamas, procurando não desfazer a totalidade prateada do conjunto.

 

Cedo ou tarde, o homem talentoso desilude. É nessa altura que percebe que, no meio do cardume de sardinhas, nadava uma sereia que escapou.

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A Gaffe paradisíaca

rabiscado pela Gaffe, em 05.03.16

 

Chega até mim, pela mão daquele que em segredo me agrada ousar pensar ser o meu secreto admirador, uma espécie de fim-de-semana repleto de paraísos.
Tenho de verificar se todos usam as jóias certas, que não sendo as britânicas, me ficam bem se as colocar no corpo.


Não é fácil pesquisar nos relances destes corpos, pecados comprometidos com o paraíso, mas há sempre indícios e pistas e rastos de um suor estranho, de um discreto arranhão, de um olhar suspeito e de um perfume a pousar no corpo errado.
Sou perspicaz e muito atenta a todos os sinais de brilhos escondidos e, confesso, agradam-me sempre estas procuras, porque são morosas, meticulosas, lentas e sobretudo porque me dão prazer. Um prazer medonho que alaga as velas e desfaz as ondas.
Procuro. Merece sempre a pena sermos aprendizes.
Há ensinamentos que são como a maçã: trazem a serpente como cúmplice e um paraíso que se oferece ao nosso.

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