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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe por princípio

rabiscado pela Gaffe, em 17.09.15

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Uma rapariga esperta deve, por princípio, levar sempre para a cama um bom livro ou então um homem que tenha acabado de o ler.

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A Gaffe bibliotecária

rabiscado pela Gaffe, em 28.08.15

biblioteca.jpgA biblioteca do meu avô – agora minha por desejo dele -, é um lugar aprazível e recatado, com cheiro a couro antigo e um breve timbre de cânfora que não desagrada, porque nos faz respirar como se estivéssemos a beber água com limão, mas sem açúcar. Sempre na penumbra – as avalanches de luz são impedidas pelos cortinados pesados, polícias respeitáveis, temidos e imponentes -, a atmosfera permite, nas tardes de Primavera que entra coada pela água do lago do lado de fora, vislumbrar as partículas de pó e de pólen que flutuam douradas nas autorizadas lâminas iluminadas de silêncio.

 

Ao lado da caixa de madeira de cedro onde o meu avô guardava, catalogadas com inimaginável mestria, os milhares de fichas de leitura que permitem ainda encontrar a obra que quisermos em poucos minutos e que humilham a pedante informatização mais recente, existe uma escada que pode ser presa às estantes intermédias possibilitando alcançar as obras colocadas nas prateleiras mais altas, junto ao tecto. Lembro-me que o meu avô, suspenso num degrau dessas escadas, de braços estendidos, parecia um dos homens que vindimavam o telhado do alpendre construído por cachos de uvas roxos e gorduchos. Disse-lho um dia e ele confirmou. Era também um vindimador.

 

Num tempo já ido, mesmo aqui tão perto, nos finais de Agosto, o meu avô revia e actualizava as fichas do seu catálogo, acrescentando as obras que entretanto tinham sido adquiridas.

 

É a minha vez de abrir a caixa de cedro.

 

Em menina, não mais de quatro anos, acompanhava-o sem perceber que me iniciava no modo de operar que seria meu, por desejo dele, e nessa altura, contrariando todas as recomendações, o meu avô deixava que brincasse com as obras mais próximas do chão, que era o meu tamanho.

 

Da estante baixinha que guarda a Questão Coimbrã, retirei ontem O Crime do Padre Amaro que tinha escolhido com o tino da infância. É um volume supostamente autografado por Eça, com dedicatória à minha bisavó materna que acolheu o seu spleen francês com o estoicismo e humor das parisienses da época.  

Ao folheá-lo revi as minhas ilustrações. Rabiscos vermelhos, azuis e amarelos, com apontamentos verdes que se passeavam pelas páginas ao sabor da pena e do lamento da minha mãe e do traço rombo dos lápis de cor de uma menina de quatro anos. Ninguém retirou e protegeu das mãos da pequena criminosa o volume precioso que perdeu a áurea divinal que alardeava e que acabou por ver reconhecido o seu valor real, que não o inflacionado por uma assinatura comprovadamente falsa.   

 

Folhear o volume que encontrei tem a consistência do milagre.

Percebo claramente, para além de ter aprendido a povoar a caixa de cedro do meu avô, fui compreendendo que amar um livro é torna-lo tão nosso como se abríssemos as asas quando nos perguntam se sabemos voar.

 

Não vou ter filhos. Soube muito cedo que não sou uma galinha de óvulos de oiro. Se pudesse ter um filho, sei que o traria, nos finais de Agosto, à minha biblioteca para abrir a caixa de cedro e aprender comigo sem saber a catalogar os livros que chegavam e a ilustrar aqueles que próximos do chão lhe iam dando asas.  

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A Gaffe de Afonso Cruz

rabiscado pela Gaffe, em 30.07.15

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A Gaffe ficou sentadinha à espera que Afonso Cruz entrasse no Contentor 13 e ficou apaixonada.

O homem é lindíssimo, apesar da barba mal tratada! Tem uns olhos do tamanho do mundo, doces e ternurentos, uma boca e um sorriso de deixar a Gaffe derretida e a pensar se as estrelinhas que vê pertencem apenas ao libidinoso sonho de acordar com ele na cama.

A masculinidade do rapagão desaba sobre nós com uma suavidade inesperada e a voz baixa e ligeiramente cava arrasa-nos o coração.

 

Os depoimentos que coadjuvavam o documentário foram inúteis. O testemunho da senhora que o edita, escapa e é ouvido sem surpresas, mas é desastrosa a participação da amiga do escritor. Surge de repente uma mulher pedante a esbardalhar análises literárias pretensamente eruditas, com um cheirinho psicanalítico misturado com Voltaire que esconjura sempre que pode, fazendo-nos suspeitar que decorou o nome na véspera.  Uma chata inútil com a boca repleta de frases feitas que consegue a façanha de aborrecer mesmo quem a deixou de a ouvir logo de início, embora não tenha deixado escapar a barbaridade que soltou ao comparar o amigo a Gonçalo M. Tavares, mas com alma, subvalorizando o escritor em foco, aproximando-o de um outro ainda por cima da mesma geração, vivo e a mexer – é sempre aconselhável comparar um autor vivo com um autor morto há muito tempo -, e reduzindo Gonçalo M. Tavares a uma máquina que produz uma gelada intelectualidade. A verdade é que Afonso Cruz às vezes, longe, muito longe, lembra o mais ínfimo e o mais imperceptível risco breve de Gonçalo M. Tavares, mas o contrário também é visível. É uma tolice retirar a alma a um para valorizar o outro.

 

A Afonso Cruz devia ter escolhido um inimigo.

 

É evidente que este homem é um magnífico escritor. A Gaffe ficou rendida debaixo dos seus guarda-chuvas, mas o impacto físico do rapaz, nunca adivinhado nas pobres fotografias, deixou-a muito bem impressionada e decidida a dispensar os habituais e maçadores critérios literários na apreciação dos novos vultos da nossa escrita. Há imensa gente que escolhe os livros pelas capas ou pelos títulos, a Gaffe não vê nenhum inconveniente em seleccioná-los pelos rabiosques dos autores.

Se José Luís Peixoto tem as perninhas curtas e gorduchas e um sorriso macabro; se Valter Hugo Mãe nos surge anafadito e baixinho pronto a rebentar os botões das camisas pretas, com uma barba empolada que até lhe alarga as ancas; Se Tordo tenta ser tão pouco atraente como é tão pouco escritor e se Gonçalo M. Tavares quer parecer um civilizado troglodita tímido e tão interiorizado que não deixa espaço para uma visão mais do exterior, a Gaffe fica reduzida às estupendas nádegas e aos volumosos peitorais de Afonso Cruz que são sempre óptimos de ler ao deitar.

 

Tendo em conta os factos, a Gaffe espera ansiosamente que o rapagão escreva muito mais.

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A Gaffe na estreia

rabiscado pela Gaffe, em 04.07.15

Saul Leiter     Paris     1959.pngHá tempos alguém disse que há sempre alguém exímio a falar de si, mas que nunca consegue falar de mim.

Esta impossibilidade de nos projectarmos em alguém, este encarceramento em nós, não tocando as algemas dos outros, mas colhendo o que é comum naquilo que é humano, trespassa o que é escrito. Chama-lhe Amor de Vera Lúcia Silva não é apenas a mudez e a surdez do outro que impede a chegada do doloroso lamento de quem é ferido, é também a nossa ausência no outro que nos desespera e endoidece. Choramos sempre de forma humilhante quando o abandono, aquele que sentimos aberto como chaga na pele que já não fecha, nos toca o interior e o expõe à chuva que chega das chuvas que passaram e que sentimos como ilusório refúgio.

Comum ao que é humano, e por essa razão a falar de mim, a narrativa que se aproxima do diário, repele um alegado feminismo que não tem lugar na dor, já que a dor sentida não tem causas. É simples, lugar nu, braseiro e coisa térrea. Não sendo um elogio do que é fêmea, é a voz de uma mulher, portanto é tão feminista como o grito que revela e rasga outras mordaças que nos prendem a alma.

O irromper das pausas é, ao lado da dor descrita, a narrativa do quotidiano externo a si, aquele que se prevê, o intervalo entre sentires magoados. A derrocada é mais nítida quando nos apercebemos da existência dos outros lados na montanha, mesmo quando da montanha seja o lado que tomba o que nós vemos.

Vera Lúcia Silva produz uma narrativa em círculos – ou em ciclos, coisa mais feminina -, que se vão riscando em redor do impiedoso sentir do abandono e que se esbatem por instantes numa dispersão de encontros breves com a ilusão do esquecimento possível e da cura, retornando sempre ao que se tornou para a protagonista o essencial que se vai diluindo num medo de perder a memória do que por fim é quase físico.

Esta lenta consumição, esta inexorável caminhada obscurecida pela consciência da latente loucura, este ameaçar do esquecimento total que se tenta evitar, vão sendo urdidos ao longo da narrativa por uma escrita enganadoramente sóbria, de traições poéticas. É uma escrita agreste e cruel, capaz de nos entregar a vida nua  de uma mulher que, como diz a autora, é tão banal que não passa de uma tipa comum que no Sábado foi calçar umas meias.

 

Hoje, é este a único modo que tenho de a espreitar a ser feliz.

Parabéns!

 

Foto de Saul Leiter

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A Gaffe Número Zero

rabiscado pela Gaffe, em 29.06.15

Umberto Eco.jpgMuito mais do que a história de um jornal que jamais verá luz do dia, muito mais do que a narrativa aparentemente tresloucada de um redactor paranóico que aparece assassinado depois de ter desaencatado ou reconstruído uma conspiração que envolve Mussolini, o Papa Luciani, a CIA e as Brigadas Vermelhas; muito mais do que a suposta revelação da fraude que que dura desde o fim da Segunda Guerra até aos nossos dias, Número Zero de Umberto Eco é sobretudo a denúncia do cada vez mais constante mau jornalismo e a demonstração dos meios mais ou menos subtis usados e abusados pelos meios de comunicação social na manipulação, controlo e domínio da opinião pública.

 

É irónico perceber que a apresentação televisiva de Número Zero coube a José Rodrigues dos Santos que pouco antes tinha sido responsável pela vergonhosa reportagem sobre os gregos, vazando a sua opinião no que era dito, modelando, orientando e dirigindo dessa forma a do público e atribuindo a todo um povo - sem pudor e através de insinuações ou afirmações aparentemente objectivas - comportamentos anómalos, fraudulentos e corruptos de determinadas classes que detinham algum poder na Grécia.

 

Número Zero é uma obra de referência, bastando para tal a capacidade que detém de acordar o leitor tornando-o capaz de gerir a informação que recebe com parcimónia, sobretudo em alerta constante e usando lamentável mas obrigatoriamente a desconfiança da primeira à última leitura.

 

A alternativa é deprimente.

 

"Amor, não estás a considerar que, pouco a pouco, também a Itália se está a tornar como os países de sonho para onde te queres exilar. Se somos capazes, em primeiro lugar, de aceitar e, em seguida, de esquecer todas as coisas que nos contou a BBC, isto significa que estamos a habituar-nos a perder a vergonha.

(…)

Não mais claros-escuros do barroco, coisas de Contra-Reforma – os tráficos emergirão en plein air, como se os impressionistas os pintassem: corrupção autorizada, o mafioso oficialmente no parlamento, o evasor fiscal no governo, e na prisão só os pilha-galinhas albaneses. As pessoas de bem continuarão a votar nos patifes, porque não acreditarão na BBC, ou não quererão ver programas como os desta noite, porque terão aderido a qualquer coisa mais trash, provavelmente as televendas de Vimercate acabarão no horário nobre. (…) Quanto ao resto, um bom filme à noite, o weekend aqui em Orta – e que se lixem todos os outros. Basta só esperar: um vez que, tendo-se tornado definitivamente Terceiro Mundo, o nosso país será plenamente habitável (…)

(…) A vida é suportável, basta conformarmo-nos."

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A Gaffe leitora

rabiscado pela Gaffe, em 20.05.15

a-elegancia-do-ourico.jpga-elegancia-do-ourico.jpg

Li há algum tempo uma entrevista implicante em que do alto da sua resmunguice blasé António Lobo Antunes declarava que os únicos livros importantes são os que nos modificam a vida.

Não faço ideia, minúscula que sou, se o escritor se referia àqueles, muitos, que nos vão com subtileza acrescentando ou surripiando pedaços à alma ou se mencionava os dele e uns poucos mais, dignos de inclusão neste supostamente claríssimo critério.

Sei , definitivamente sei, que existe um livro que me altera a vida todas as vezes que o abro e sofro o impacto brutal do que tem dentro. É sem dúvida o meu livro de eleição, batendo sem a mais ténue dificuldade o meu amantíssimo Proust.

O Livro do Desassossego de Pessoa.

Foi dentro desta ferida colossal que encontrei a frase mais extraordinária que conheço e que só por si elevaria o autor ao estatuto de génio.

 

A minha vida é como se me batessem com ela.

 

Sei que nunca li nada tão universal e acredito piamente que este monumento, mesmo isolado, deveria ser considerado património da humanidade.

 

Se Lobo Antunes se referia apenas a impactos destes, já não sei.

Sei contudo que há obras que não possuindo, nem em sombra, a dimensão pessoana – quem a tem?! – e não provocando sismos e catástrofes, avalanches ou tsunamis, conseguem fazer tremelicar o que temos com certo, permitindo-nos a grandeza de questionarmos o que pensamos ser e o que realmente somos.

Falo de dois.

Não teço considerações literárias, não me atrevo à crítica do género, porque perante um livro sou apenas a que o lendo o reescreve. Mostro-vos os títulos apenas. Indico autores. Acredito porém que quando os abrimos, há pequenas almas dentro da nossa que se movem.

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A Gaffe promove a leitura

rabiscado pela Gaffe, em 11.04.15

biblioteca.jpgA Gaffe dá consigo a pensar que a desertificação das bibliotecas talvez se possa também atribuir às rígidas normas de funcionamento destes depósitos de livros e à falta de iniciativa dos bibliotecários.

Se um rapagão tatuado, de tronco bem legível e com o resto dos capítulos dignos de figurar nos escaparates do MET, ousasse quebrar as regras de compostura e folheasse posições inusitadas, balançando-se ao ritmo do passar das páginas, com o beneplácito da Instituição, a Gaffe acredita que uma chusma de raparigas e um razoável número de congéneres no masculino, até os dentes cravariam nas estantes à procura do título que se lê com tanto despojamento musculado.  

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A Gaffe de guarda-chuvas

rabiscado pela Gaffe, em 19.03.15

parao onde vão os guarda-chuvas.jpgÉ pecaminoso deixar passar em branco a obra de Afonso Cruz e quase criminoso ignorar Para Onde Vão os Guarda-Chuvas.

O romance está pleno de intertextualidades. Tocando a literatura infantil, a fotografia e a ilustração, implica de modo subtil o toque no objecto físico e torna mais difícil uma abordagem digital.  É uma obra também paraliterária, no sentido que constitui o para-além-da-literatura e não o que a Teoria Literária qualifica e que agora se adapta por fazer sentido.

 

Conta a história de um homem que ambiciona ser invisível, de uma criança que gostaria de voar como um avião, de uma mulher que quer casar com um homem de olhos azuis, de um poeta profundamente mudo, de um general russo que é uma espécie de galo de luta, de uma mulher cujos cabelos fogem de uma gaiola, de um indiano apaixonado e de um rapaz que tem o universo inteiro dentro da boca.

 

Mas não narra apenas estes deslumbres. 

 

No  Apêndice – fragmentos persas – ouve-se dizer:

Um dia, Deus debruçou-se demasiado sobre um bocado de barro e caiu para dentro do Homem.

Basta abrir este romance para que ele tombe dentro de nós.

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A Gaffe literária

rabiscado pela Gaffe, em 19.02.15

livros.jpgNão existe boa e má literatura. Ou há literatura ou não há.

É tão errado referir determinada obra como má literatura, como classificar uma outra como pertença do inverso. É maçadora a discussão em redor dos fenómenos que permitem o reconhecimento dos escritos como peças literárias, nem sempre os cânones incluem as que eventualmente se consideram dignas de figurar no seu historial e as exclusões correm sempre o risco de encontrar discórdia, mas é sempre possível treinar a capacidade de se reconhecer instintivamente um bom livro, porque, não existindo boa e má literatura, existem contudo maus livros. Não é conflituoso reconhecer os agrupados nos universos literários que usam todos os crivos que foram construídos ao longo de séculos pela Teoria da Literatura, mas os que sobram estão na origem de uma questão que permanece:

 

Ler seja o que for, é melhor do que não ler nada?

 

A resposta afirmativa que se justifica alegando que ler seja o que for, gera o hábito de leitura, promovendo-a e incentivando-a, não colhe dividendos. Admitir que é possível ler a Maria ou medíocres romances de cordel e desaguar numa escolha mais criteriosa e de maior qualidade no futuro, é esperar sentado que chegue Godot. Um mau leitor é demasiadas vezes iniciado pelo consumo de peças de duvidosa qualidade literária para facilmente retroceder, alterando o caminho. Os maus livros são livros fáceis e a facilidade é aditiva.

A sujeição do leitor, por exemplo, ao uso de fórmulas nos romances de aventuras juvenis de sucesso mais do que adivinhado, quando não aliada a alternativas mais complexas oferecidas por outras obras do género, torna mais fácil o desenvolvimento do que se convencionou chamar Síndrome de Blyton. A repetida fórmula - grupo + problema/mistério + envolvimento do grupo + perigo + resolução do conflito pelo grupo + final feliz -, origina um casulo mental que se torna difícil quebrar com a introdução de premissas diferentes ou mesmo alterando a sua ordem. Um consumidor assíduo e exclusivo destas fórmulas, é mais susceptível de se tornar um adulto com maior dificuldade em acompanhar uma obra que não possui estas artimanhas ou estas armadilhas, e aos que partilham esta opinião chamará intelectualóides, presunçosos, castradores da liberdade de ler, fascistóides ou mimos similares.

Dificilmente gostaremos de Proust quando sempre caminhamos à sombra das Marias em flor ou nos viciamos em medíocres guerras de tronos, sagas vampirescas e melosas tramas de cordel delicodoce.  

A apelidada educação para a leitura é uma oficina de trabalho árduo, mas essencial para a formação de um bom leitor. Nesta tarefa temos a obrigação de contar com a extraordinária capacidade de selecção daqueles que se iniciam nestas andanças. Seria tontice esquecer que a clássica Literatura Infantil é uma literatura de apropriação e que foram as crianças que se apoderaram de obras que não lhes eram destinadas. A Cabana do Pai Tomás, Oliver Twist ou Huckleberry Finn e mesmo Mulherzinhas foram retirados da biblioteca dos adultos por crianças que as entregaram à mais apurada lista de literatura infanto-juvenil.

Se o primeiro passo na construção de um mau leitor se faz demasiadas vezes com a escolha, aquisição ou oferta de um mau livro, não é lícito concluir que um bom leitor se macula quando toca numa obra menor. Não a proibe ou excumunga, nem se esgadanha quando encontra uma pelo caminho. Normalmente ignora-a de forma natural e quando não o faz, passa por ela sem por ela ser tocado.

 

A literatura universal está nas mãos de todos e é de tal forma imensa e povoada que perder tempo - e que imensa perda de tempo! -  com um mau livro, quando poderíamos em troca tricotar um cachecol, devia ser entendido como pateta ou, no mínimo, fazer com que nos sentíssemos a usar um pechisbeque quando nos entregam todas as colecções de jóias que a nossa vida pode imaginar.

 

Nota da redacção - Todo este rabisco teórico, salpicado por uma ligeira demagogia e polvilhado por uma dose substancial de blá-blá-blá, deve ser lido como uma espécie de esfregão da consciência um bocadinho pesada da Gaffe que é indiferente, vergonhosamente indiferente, ao que os outros costumam ler, se está borrifando para os livros que se vendem ou se deixam de vender e que, no que diz respeito à leitura, segue o famigerado "cada um sabe de si e os editores sabem de todos".

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A Gaffe na estante

rabiscado pela Gaffe, em 10.02.15

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estante 1.pngTalvez não a encontrem nos armazéns IKEA, mas é facílima de encomendar a um matulão com as ferramentas apropriadas. Parece tão dinâmica! Tem um ligeiríssimo sabor a Mondrain, evita a multiplicação caótica de livros sobrepostos e não parece pronta a esbardalhar-se com o peso dos volumes.

Uma belíssima ideia para quem não é morcego na biblioteca de Mafra.    

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A Gaffe sombreada

rabiscado pela Gaffe, em 10.02.15

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A rapariga sentada num dos sofás da FNAC não parecia ter história. Roliça, quase tosca, encravada num blusão polar, jeans desbotados, botas militares e mochila grávida.

Parecia tensa, rígida, com os movimentos limitados ao folhear de um livro e ao pêndulo dos olhos. Tinha a boca aberta, os olhos sobre as páginas e uma guedelha escura a cobrir parte do rosto. Se se eliminasse estes únicos sinais de vida, suspeitaríamos que tinha falecido esbardalhada a um canto.

O livro que a fazia catatónica era o badalado As Cinquenta sombras de Grey.

 

Como será evidente não vou tecer considerações literárias acerca da obra. Não a li e não tenho competências para dissertar acerca do que quer que seja.  

O que penso ser curioso é o facto de ser uma obra muitíssimo mais comentada por mulheres do que por homens, independentemente do facto de a apreciarem ou não. A esmagadora maioria das opiniões que leio são femininas.

No início esta rapariga tonta pensou que a obra era uma versão em papel da série televisiva Anatomia de Grey onde as meninas cortam os pacientes com unhas envernizadas e pestanas postiças, mas muito rapidamente se apercebeu que, apesar de se falar em cortar uma pequerrucha e de se poder acabar no hospital, as várias Sombras de Grey não usam máscara cirúrgica.

Curioso é também descobrirmos que apesar de claramente mais lido por um público feminino, ou o único que assume que o faz, a obra desperta o sacana tratante que ouviu algures falar deste assunto e que se cruza com a leitora nos transportes públicos. O seu olhar malandro e um sorriso torcido deixa-nos a pensar que foi o protagonista do livrinho, a sua personagem principal e que não se importa nada de a reencarnar no aconchego do nosso lar.

Suspeito que não é muito apropriada a leitura do livro em locais muito frequentados. Não é simpático ouvir a amiga perguntar toda arrepiada em frente de uma manada de búfalos transpirados que viajam connosco:

- Então?! Em que página vais?

Para ter de responder serena:

- Estou na página em que o homem dá umas valentes vergastadas nas maminhas da moça.

- Ah! Então estás quase a chegar à página em que ele lhe arranca o soutien e lhe ata com as alças as pernas aos cotovelos, depois de lhe espetar com uma colher de sopa duas galhetas no rabo.   

Não é bonito e chama a atenção dos búfalos. 

Freud explicaria de modo convincente o sucesso que a obra alcançou junto do público feminino e talvez nos falasse da atracção e do desejo inconsciente de submissão a uma autoridade, simbólica ou não, de que padece a alma da mulher e se esqueceria convenientemente de referir que este sinistro anseio, embora sublimado, não é um exclusivo feminino, encontrando-se à espreita até mesmo nas civilizações, nas religiões, nas rebeliões, nas multidões e em vários outros locais com a mesma terminação. Mas a verdade é que o mundo seria muito mais divertido sem Freud e sem Woody Allen.

Confesso que não me sinto atraída por uma história mais ou menos erótica que narra as aventuras de uma moçoila que gosta de levar duas valentes lambadas nas maminhas todas as vezes que encontra nu o homem dos seus sonhos que a previne sempre antes de lhas espetar – creio que é a sinopse mais elucidativa que li -, mas admito que seria mais atraída pelo inverso e nem sequer precisava de um envolvimento emocional com um rapagão lindo de morrer.

Há tantos homens a quem apetece ter o prazer de partir os dentes!

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A Gaffe de Dautremer

rabiscado pela Gaffe, em 19.01.15

Rébecca DautremerÉ impossível seleccionar ilustrações de Rébecca Dautremer sem deixar pelo caminho traços de inacreditável poesia.

O traço quase imaterial com que é contada a história; a suavidade com que são usadas as cores, mesmas as mais dramáticas; a maravilhosa recriação de ambientes e de cenários; a atenção aos detalhes que são tratados como elementos primordiais nos universos criados; a líquida palavra desenhada; a fragilidade diáfana do movimentos das figuras; a interferência de elementos chegados de outras fantasias; o cuidado com as palavras escolhidas e o modo como são manipuladas as formas rumo à harmonia, fazem de Rébecca Dautremer uma das mais encantatória ilustradoras/autoras para a infância da actualidade, envolvendo os adultos que se deixam inevitavelmente deslumbrar pelo encantamento das obras-primas.

Todas as suas construções pertencem à estante da magia.

Ver mais )

 

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A Gaffe estrangeirada

rabiscado pela Gaffe, em 07.12.14

Jantar em casa.jpg- Mas tu tens o olhar de uma estrangeirada. - Conclui o meu pai enquanto corta a carne em pequenos pedacinhos. Abandonará a faca e, com o garfo na mão direita, debicará a refeição sem jamais a usar. Este hábito, quase um ritual, é mantido desde sempre e precede o desfazer do origami do guardanapo branco e do rodar do cristal do copo batido contra a luz.

A minha indignação absoluta e absoluto nojo frente à eventual corrupção de um político do meu país governado pelos irmãos Metralha, irritaram o almoço que deveria ser pacífico e, por exigência da minha mãe, apenas com fait-divers tontos e leves sobre os pratos.

- Exactamente, minha filha. A menina usa um olhar treinado pelo Cavaleiro de Oliveira. - Finaliza a minha mãe, molhando os lábios rosa pálido Dior em água fresca, enquanto faz rodar a aliança grossa com o polegar e deixa escapar o mais maroto dos sorrisos.  

Sempre usou este modo vaporoso e inteligente de alterar o rumo das conversas que considera inoportunas ou perturbadoras.

Faz esvoaçar nos olhos azuis uma personagem e solta-a na já desperta curiosidade dos que a ouvem, fazendo com que a procuremos situar nas páginas da obra donde foram subtraídas.

Resulta sempre.

 

A minha irmã desconhece a personagem.

 

Esconde a impaciência com o borboletear das pestanas e repentina sede. Não sabe donde surge o Cavaleiro! Se o soubesse, tinha erguido a sobrancelha e num desafio esperto de quem tem a chave do armário do triunfo, tinha disparado a pedra da funda do olhar sobre esta pobre ruiva ao lado sentada.

 

Mas eu sei!

 

Procuro na memória todos os cavaleiros que por mim passaram, todos os cavalos, todas as mulas e potros suados. Levará seu tempo, pois que cavaleiros já tenho de sobra e de cavalariças o Inferno está cheio (o meu, pelo menos, que cavalgo imenso).

- Dramático é que O Judeu partilhe igual destino, ontem como hoje. – Tinha acertado.

A minha mãe sorri, pousa a mão sobre a minha e, numa carícia cúmplice, remata:
- Sossegue... Haverá sempre Santarenos.

 

Almoçar com a minha mãe é sempre uma obra-prima.

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A Gaffe de papel

rabiscado pela Gaffe, em 07.12.14

 

A Gaffe de papel.gifTalvez a derradeira forma de acreditarmos que a palavra escrita no papel jamais dará lugar a um universo digital, seja a de experimentarmos o abrigo das páginas de um livro.  

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A Gaffe com livros

rabiscado pela Gaffe, em 26.11.14

ler.jpgLer não é, ou não deve ser, um exercício e um prazer controlado?

A leitura deve fluir no som dos ventos ou obedecer a regras implícitas na vontade de se crescer dentro das bibliotecas, construindo livro a livro a nossa própria estante?  

Lembro-me do meu querido amigo, assustadoramente inteligente, que pela noite de Paris procurou a Biblioteca que lhe esclareceria a dúvida que o impedia de dormir. Em Paris, os livros, as brutais multidões de livros, estão sempre ao dispor a qualquer hora.

É certo que a noite tinha vodka a perturbar-lhe o negrume e a sobriedade, mas o impacto, o confronto bestial com os milhares de títulos em silêncio escuro, provocou-lhe o desabar de todas as certezas. Desatou a chorar compulsivamente, porque percebeu naquele instante que jamais conseguiria ler tudo o que ali em ordem o olhava.

Esta estupenda homenagem ao livro, foi também o início de um agudizar quase obsessivo do rigor na selecção das obras que o acompanhariam posteriormente.

De acordo com este homem, ler é também um processo penoso, difícil, muitas vezes angustiante, tantas vezes doloroso e tantas vezes traumatizante. Também por isso deve ser humilde.

O leitor - falo do grande leitor - é um atleta de alta competição, mas não vai sequer vislumbrar a linha da meta se não tiver aprendido o modo como deve colocar o pé na linha de partida e não tiver percebido que cada movimento que faz é o impulso para a concretização do seguinte.

Da mesma forma, torna-se mais provável, por exemplo, não compreender Lobo Antunes se desconhecermos Faulkner.

Este reconhecer da necessidade de contínuo na leitura, de perceber que a obra que temos na mão é também um palimpsesto e que nele somos capazes de ouvir outras vozes, outros sons, outros cheiros e sabores, outras épocas e outros universos, só é possível se o passado for eterno. Transformamos uma obra numa ilha solitária e perdida se não tivermos o mapa do arquipélago e desconhecermos o oceano onde poisou.

É impossível lermos tudo. A humildade de partirmos do princípio, devagar e conscientes que não temos tempo para abarcar a Biblioteca toda, fornece a coragem de escolhermos os "velhospara podermos depois saber escolher e saber ler os "novos" sem atribuirmos grande importância ao cânone literário que será sempre uma membrana permeável e falível.

Ler é um trabalho árduo de oficina. Se começarmos muito novos, se aprendermos com os velhos mestres o modo de manobrar as ferramentas, se tivermos a modéstia de aceitar que nunca sabemos do ofício o que o ofício tem para nos dar, é muito provável que encontremos a vontade de continuarmos a ser felizes a aprender.    

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