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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e uma jóia

rabiscado pela Gaffe, em 07.07.16

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Há alguns anos, vi e ouvi pasmada e rendida a gravação de um concerto de Carlos Paredes e de Luísa Amaro.

 

Sei que este cantinho não é o lugar para lamentar o facto de nos países pobres, e nos pobres países, o entorpecimento total em relação aos talentos que os povoaram se ter tornado uma constante só quebrada se causar proveito aos que os dominam.

Sendo este um cantinho de uma rapariga fútil, avesso a discussões incomodativas, pousemos os olhos, em consequência, num elemento cenográfico - creio que o único - do concerto.

Com uma iluminação perfeita e minimal, no pescoço vestido de negro de Luísa Amaro, chispava um belíssimo, largo e denso colar de diamantes. O resto era escuro. A guitarra de Paredes contracenava com o cintilar do adereço, sobrepondo-se ao seu fabuloso fulgor gelado.

 

Lembrei-me deste cenário, quando dei comigo avassalada por uma enormíssima quantidade de fotos do objecto da imagem que invadem a net e sobretudo os blogs da especialidade.

Não nego a possibilidade de o considerar um belíssimo adereço, mas recordo de imediato o colar de Luísa Amaro submetido e domado pelos sons das guitarras e da virtuosidade do mestre e percebo que, para transportar um objecto com o poder, a força, o peso e a carga que este - mas sobretudo o de Luísa Amaro - possui, não basta um cenário negro. É necessário que o saibamos fazer esquecer, diluído no pescoço de uma maior e mais impalpável autoridade.

 

Fiquemo-nos portanto pela tripla e discreta fiada de pérolas oferecida pela avó.

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A Gaffe sem glamour

rabiscado pela Gaffe, em 06.05.16

 

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Há mulheres que só com o perfume nos humilham. Provocam-nos um colapso nervoso ou desencadeiam uma depressão profunda quando passam por nós, que somos raparigas espertas, mas sem uns trocos jeitosos na carteira para poder lavar a alma com umas compras muito Jackie O.


Normalmente olham para nós como se tivessemos obrigação de lhe ter lido o CV antes de lhe fazer a vénia.


O que mais impressiona não é a maquilhagem. Uma mulher elegante deve parecer que não usa desde a adolescência tola um pingo de make-up  - sejamos internacionais, - um pincel de sombrear os olhos ou um bâton, mesmo daqueles que nos fazem empenhar o apartamento para os comprar, e no entanto estar empapada em blush e encharcada em rímel, com a balança em desequilíbrio por causa do peso do eyeliner.

 

Também não causa grande intriga o tailleur ou o colar, ambos verdadeiras jóias e ambos de arrasar o ordenado de uma miúda banal, mesmo daquelas que se estafam no trabalho. Uma mulher elegante pode ter a veleidade de empenhar seja o que for em nome de Dior.


O que causa espécie, como diria a minha avó, são as meias e os sapatos!

 

Há mulheres com pernas magníficas! Duas esculturas que quase lhes chegam à garganta e que terminam, nos lados que ficam perto do chão  - digo perto porque mulheres daquelas só flutuam - nuns sapatos pretos simples, bastante fechados, com uns tacões agulha, do tipo usado nas urgências para espetar adrenalina no coração dos mortos.
Fica uma rapariga a pensar que daria tudo, era capaz até de emprestar o homem dos seus sonhos, por ter um par igual. Não de sapatos, mas de pernas. Depois, já com mais calma, a rapariga simples repensa o caso e acaba por concluir que, e para aquilo funcionar sem gastar muito, teria de andar de gatas pelas lojas das meias, à procura de um par mais baratito e pedir à Nossa Senhora de Fátima  - padroeira dos equilíbrios, sobretudo em cima de oliveiras - ajuda para se poder manter segura naquelas duas torres gémeas, pretas de verniz.

 

A elegância genuína é cara. Não é contraditória a afirmação. É complementar.


Podemos nascer de diadema, com um allure de arrasar parola, snifar diamantes e espirrar caviar ou ter o charme indiscutivelmente francês de Jackie O, mas se não formos amantes dos Onassis ou de família que reine em qualquer lado, acabamos cheias de olheiras, a trabalhar à bruta e à maluca, para poder no fim do mês comprar umas chanatas - chiques, mas chanatas mesmo assim - e largar as meias que mais se parecem com arraiais minhotos de tantos foguetes.


Sejamos felizes, portanto! Há mulheres elegantes que só têm o érrima porque têm carteira.

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A Gaffe e a mãe dele

rabiscado pela Gaffe, em 05.05.16

Um dos maiores perigos que uma rapariga esperta corre, inicia-se quando o rapagão que pensava descartável lhe anuncia que gostaria de a apresentar à sua santa mãe.

O cérebro faz disparar o alerta vermelho, fazendo-a ouvir as sirenes das cooperações de bombeiros de todas as periferias e as cornetas dos regimentos e das fanfarras da União Europeia.

 

- Vais ver. A minha mãe é uma óptima companhia!

 

Uma iguana é melhor companhia do que a mãe dele. Aliás, se pensarmos bem, tudo o que termina em ana  - como ratazana, princesa Diana ou mesmo, com algum esforço, o Dolce e o Gabanna - é preferível a ter como parceira esta santa idolatrada.

 

- Vais ver. A minha mãe tem um excelente gosto!

 

Se já não conseguíamos entrar na Bershka com receio de sairmos com os tímpanos desfeitos e transformadas em trapos iguais ao que nos impingem lá dentro, agora, sendo a senhora surda, seremos arrastadas para um vórtice de decibéis inimagináveis somando ao catrapum-pum-pum-catrapum-pum-pum da loja, os gritos das empregadas que tentam dizer-lhe o preço das peças muito giras que restaram dos saldos.

A mãe dele não vai nunca entender, com preços tão em conta em peças tão modernas, porque é que olhamos de soslaio a montra, mesmo em frente, onde resplandece um casaco Galliano, extravagante, exuberante, extraordinário e com um preço a merecer os mesmo adjectivos, embora tentemos desesperadamente fazer-lhe entender que o costureiro é tão querido como ela, sobretudo bêbado e posto a falar num café qualquer de Paris.  

 

- Vais ver. A minha mãe vai ensinar-te a receita do cozido à portuguesa que é do outro mundo quando sai das mãos dela!

 

Este é o instante em que sabemos, sem a menor réstia de incerteza, que a partir dali, o homem, se o aguentarmos depois deste deslize, jamais enfardará cozido à portuguesa ao nosso lado. Se sentir saudades deste exemplar gastronómico, sabe onde o procurar: no outro mundo, ou seja, em casa da mãe dele.

 

- Vais ver. A minha mãe é uma mulher muito aberta! Vai adorar-te.

 

Embora parte do dito mereça o nosso acordo - a referência à abertura da senhora não é metáfora, porque a idade não perdoa e faz aumentar a tendência para se abrir, ou para dificultar fechar, tudo o que deveria permanecer discreto, como a boca, -  vai adorar-te sugere não ser má ideia sermos acompanhadas por um exorcista. Não nos podemos esquecer que há mulheres que mesmo depois de dobrada a menopausa, continuam a viver como se todos os dias fossem os dias difíceis. Normalmente gostam de vampiros.  

 

- Vais ver. A minha mãe tem um sentido de humor fabuloso.

 

 Esta tenta proteger-nos. É amoroso da parte do rapaz que admite, com o mais disfarçado dos receios, ouvir a mãe calcinar as nossas irrisórias idiossincrasias com alusões subtis à toxicodependência, ao tráfico de órgãos e aos comunistas.

 

Não temos hipóteses, raparigas. A mãe dele jamais será a nossa avó - embora nos pareça sempre ter idade para isso.

 

Nesta figura com estilo, existe um único consolo: possibilita-nos, sempre que o homem nos contradiz, nos contraria, nos irrita, nos resiste, nos abespinha, nos aborrece e nos refuta, não baixa a tampa da sanita ou nos diz que o sushi que lhe preparamos sabe a pastilha de Xau para máquina de lavar loiça e se parece com uma, podermos pensar em surdina:

 

A culpa é da mãe dele.  

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A Gaffe de soutien

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.16

A Gaffe foi comprar lingerie e saiu esbaforida, furiosa, desgrenhada e capaz de estrangular com o fio dental que lhe foi mostrado a menina do sorriso cor-de-rosa que a atendeu e a informou os únicos soutiens que pululavam por ali partiam da copa 38. Encontrar os dignos de tocar nas suas maminhas que cabem perfeitas, como os corações do poema de O’Neill, nas palmas das mãos de um valente rapagão, foi tarefa inglória.  

   

É certo e sabido que uma rapariga com um par de maminhas de proporções avantajadas tem um péssimo gosto em relação a sapatos. Não conseguindo ver os pés em condições as escolhas do calçado não são as mais perfeitas.

As divas dos anos 40 e 50, com os seus soutiens de barbas de baleia espetados e ameaçadores, não contam, porque o corrupio dos aderecistas seleccionava o que as estrelas podiam calçar evitando a pata-choca e os grandes planos do rosto da divina Garbo impediam que percebêssemos as parcas dimensões das suas maminhas ou que soubéssemos que Rainha Cristina ou Ninotchka foram filmados com a belíssima actriz de chinelos de quarto a arrastar, contradizendo o postulado anterior.

 

As maminhas são duas peças essenciais na engrenagem publicitária - são-no noutras engrenagens, mas sejamos controladas. Quem tem maminhas significativas, ou seja, do tamanho de melões de Almeirim cultivados em estufa, aparece em excelente forma física na capa de qualquer revista cor-de-rosa. Quem não as tem é porque não pede, porque, como toda a gente sabe, quem não pede, não mama.

 

Uma rapariga desunha-se por um par das ditas capaz de fazer figura num concurso da TVI apresentado pela Teresa Guilherme ou numa qualquer geringonça da concorrência que normalmente catapulta a dona para outros voos mais chorudos e com mais presenças.

Se a mãe natureza foi madrasta, deus é pai, mesmo que deus tenha nestes casos de vestir uma bata cirúrgica e desatar a rabiscar com um marcador a plana estepe do peito desejoso de montanhas.

É curioso ver a quantidade de raparigas - e uma enormíssima percentagem de homens, alguns nem sempre pelos motivos óbvios - que lutam por um par de maminhas XXL para depois o apertar, esmagar, espartilhar, exibir, esconder, cobrir, atirar à cara dos transeuntes mais desprevenidos, esmagar com soutiens exíguos, desvendar, velar, transformar em aríete, arremessar ao ex que nunca o viu tão agressivo ou fazer passarinhar, bamboleando, pelas ruas da amargura das rivais mais comedidas.

Parece não haver nada tão atraente como duas esferas imensas, parecidas com a famosa bola .NIVEA. das nossas férias vintage, onde se apensa o resto de uma rapariga.

 

Esta ambição mamária descontrolada acaba por fazer esquecer a gravidade. Deixamos de ter a noção de que existe o chão - daí o erro nos sapatos, - e de perceber que o tempo é cúmplice desta força maldita. Vamos envelhecendo com dois mamutes presos ao peito sem entender que a nossa vida sexual vai ficando limitada. Não conseguimos encontrar o paraíso sem ser deitadas num… espírito de missão, porque, se arriscamos outras modalidades, nos cai tudo, tudo nos é puxado para baixo, asfixiando o pobre que sob nós se afoga em dois pesados assuntos pendentes e não adianta recorrer a firmezas oriundas de bisturis, de preenchimentos ou de infiltrações, o peso do resto fará com que fiquemos parecidas com dois abcessos que cresceram numa casca de carvalho encarquilhado.

 

Rapazes, é tempo de reconhecerem que a ecologia mamária é velejadora do Green Peace ou temo que nós, raparigas average, comecemos também a desejar ver inflacionadas as vossas rubricas mais pendentes. 

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A Gaffe a voar

rabiscado pela Gaffe, em 27.04.16

Todas as mulheres são pássaros.

Nem todas capazes de voos profundos ou de longo curso, mas todas com capacidade para escapar abrindo as asas.

O ditado que refere que mais vale um pássaro na mão do que dois em pleno voo, esquece, por ser apertado pelas margens do estereótipo, que há mulheres que voam parecendo estar presas nas mãos de quem as aperta.

Nem todos os homens sabem disso.

 

Imagem - Hiro (Getty Museum)

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A Gaffe feminina

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.16

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O facto de me tentarem exigir um esforço adicional para atingir determinadas metas, de subtilmente procurarem provas do meu mérito ou atribuírem os louros que esporadicamente recolho ao facto de ser mulher, deixa-me descaradamente insensível ou é olhado com relativo humor.

 

Na mesma linha, os meus fracassos são observados com lupa e as hipérboles surgem constantes - embora não haja dano, porque ninguém como eu para empolar as minhas lamentáveis falhas.

 

Tudo, porque sou feminina.

 

Ser-se feminina ao contrário do pensado, pode não ser vantagem séria. O facto de se ser mulher serve muitas vezes de desculpa e de álibi ao fracasso do macho e há sempre a possibilidade de encontrar no caminho a irónica exigência de apresentação de capacidades acrescidas para reter o que é nosso, por direito ou por esforço, mas que é visto sempre atenuado ou esbatido, visto como sucedâneo muito provável daquilo que somos fisicamente.

 

Nunca tal me fez agitar mais do que o devido.

Nunca permiti que me exigissem fosse o que fosse para além daquilo que forçoso seria de esperar.

 

O estratagema usado pelos meus rapagões, rivais na profissão, apenas me desperta a consciência do corpo e, se o ser feminina é uma poderosa arma - de que me esqueço nos campos de batalha onde pensar é ordem de serviço, - quem a dispara é sempre o acusador.

 

Às vezes, possuir a arma da feminilidade não significa necessariamente que a usemos, mas é provável que o façamos no meio de sacanas, quando o inimigo nos lembra que ela existe.

 

Na foto - Virna Lisi

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A Gaffe até aos tornozelos

rabiscado pela Gaffe, em 30.03.16

É de importância capital o que nós raparigas fazemos com as pernas.

Esquecemos frequentemente que são, por muito incompreensível que para nós seja, uma das armas que dispomos para reforçar vitórias.

São punhais, são serpentes e são rios por onde poetas e flaneurs fazem desfilar todas as palavras, traçando todas as rotas, deixando-se ferir por doces lâminas de carne e envenenar pelo néctar suave que desliza invisível rumo aos tornozelos.

As nossas pernas, minhas caras, são muito mais do que dois instrumentos que nos levam simples e directamente do ponto A para o ponto B. Neste percurso, cabem labirintos e o erro de os ignorar ou desbravar pode atingir-nos de forma fatal fazendo-nos perder dois magníficos trunfos.

 

No jogo, os homens conquistam usando artimanhas tontas, acreditando que o poder de uma gravata Gucci ou de um Armani perfeito, os torna eficazes. A guerra pelo poder no masculino é feita sobretudo com homens vestidos. A nudez masculina, quando usada na guerrilha, jamais acorrentará uma vitória ao tempo. Os homens lutam vestidos e nem sempre é segura a almejada conquista. As mulheres podem - devem - usar todos os recursos que um machismo idiota lhe entregou de mão beijada.

As pernas de uma mulher - mesmo quando vagamente cobertas por redes de seda - são, nos campos das batalhas pelo poder, dois dos mais possantes e incompreensíveis mísseis de que há memória. Sempre detectados pelos radares, mas nunca recusados pelo inimigo.

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Gavetas:

A Gaffe vaidosa

rabiscado pela Gaffe, em 24.03.16

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Uma rapariga pode saber que é, nos olhos de quem a ama, a mais esplendorosa das deusas do Olimpo, mas quase sempre requer uma segunda opinião.

 

Este pequeno defeito, esta minúscula incerteza, esta dúvida constante, esta necessidade de afirmação e de segurança, confunde-se largas e amiúdes vezes com Vaidade exacerbada.


- Não passam de fenomenais vaidades! – Murmuram tristes, com olhos quase resignados.  


Mas o que é a vaidade senão o tique das mulheres que temem a sua própria nudez?

 

Ilustração - Frederic Varady

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A Gaffe femininista

rabiscado pela Gaffe, em 08.03.16

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O desprezo votado por alguma imprensa misógina obrigou o feminismo a ser relegado como emanação ultrapassada e retrógrada de um passado fantoche em que se queimavam soutiens e se exigia o direito de voto para as pobres criaturas a quem só muito recentemente a Igreja Santa reconheceu possuírem alma.

A reinvenção e a reestruturação de um universo menos patriarcal, em que se verifique uma organização de comunidades, sistemas políticos, espirituais, sociais e societais, são absolutamente necessárias.

A visão hierárquica masculina e os seus consequentes sistemas de organização esmagadoramente patriarcais, entraram em colapso e, por muito que se apele ao que de feminino o homem retém, serão as mulheres a adquirir as competências, as capacidades e as aptidões, para de forma vigorosa encetarem a mudança.

 

São as mulheres a derradeira esperança. O grande recurso intocado do mundo, a metade da população que pode reformular a equação humana.

 

Rapazes, saiam da frente.

 

Ilustração - Jon Whitcomb

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Gavetas:

A Gaffe paradisíaca

rabiscado pela Gaffe, em 05.03.16

 

Chega até mim, pela mão daquele que em segredo me agrada ousar pensar ser o meu secreto admirador, uma espécie de fim-de-semana repleto de paraísos.
Tenho de verificar se todos usam as jóias certas, que não sendo as britânicas, me ficam bem se as colocar no corpo.


Não é fácil pesquisar nos relances destes corpos, pecados comprometidos com o paraíso, mas há sempre indícios e pistas e rastos de um suor estranho, de um discreto arranhão, de um olhar suspeito e de um perfume a pousar no corpo errado.
Sou perspicaz e muito atenta a todos os sinais de brilhos escondidos e, confesso, agradam-me sempre estas procuras, porque são morosas, meticulosas, lentas e sobretudo porque me dão prazer. Um prazer medonho que alaga as velas e desfaz as ondas.
Procuro. Merece sempre a pena sermos aprendizes.
Há ensinamentos que são como a maçã: trazem a serpente como cúmplice e um paraíso que se oferece ao nosso.

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A Gaffe "par délicatesse"

rabiscado pela Gaffe, em 24.02.16

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Amamos e somos delicadas.

 

Delicadamente nos tornamos ideais. Resguardamos os compartimentos anteriores a nós por onde a alma do amado vagueia nas tardes dos sentidos que não acompanhamos por termos acabado de chegar. Damos lugar ao gato, ao periquito e à iguana, mesmo quando somos arranhados pelo felino desgrenhado, mesmo quando se nos inflamam as articulações ouvir o timbre do pequeno pássaro ou mesmo quando nos repugna até ao vómito a textura do réptil.

Somos ideais e retiramo-nos da alma da criatura amada quando as portas se abrem às investidas do passado onde não estivemos e que, por respeito, não queremos conspurcar com os nossos passos trémulos, mesmo percebendo que é impossível atravessar aquele espaço saltando sobre as mesas com os tacões dos sentidos já despertos.

 

Emudecemos, civilizadamente, enquanto os outros recriam a multidão de sons que ensurdecem.

Obedecemos aos semáforos.

Atravessamos as ruas quando há passadeiras.

Não espirramos no centro de uma ópera.

Não tombamos cadeiras nas palestras.

 

Por amor, somos delicadas e mesmo quando os beijos que damos à criatura amada deixam de ser o que por nós respira, somos educadas, correctas, dignas, respeitáveis e inventamos um choro à parte, um choro disfarçado, um uivo no bico de um pobre periquito.

A farsa convincente e oportuna, civilizada, urbana, culta, cortês, gentil, polida.

Amamos e inventamos um espaço que supera e invade e substitui aquele que é o nosso por direito. Um lugar de delicadeza irresistível onde o Amor não é um animal, um instinto básico, um cataclismo bruto e natural, um turbilhão de carne e de pedaços de alma e mesmo sabendo que Amar é como cometer um crime e não fugir - para não ter de voltar - da alma onde acontece. Escolhemos a cortesia de forrar as armas com veludo.

Não atacamos. Ficamo-nos pelo esgrimir de facas protegidas pela bainha de uma inventada ladainha cómica, patética.

 

Acabamos irremediavelmente a chorar dentro do espaço desenhado a prumo pelo nosso pulso, com rigor amável e elegante, delicado, ou próximas de um sketch bastante convincente, porque lhe entregamos uma verosimilhança vagamente perturbante que confunde aqueles que olham apenas o que recriamos.

 

Par délicatesse, j'ai perdu ma vie. É Rimbaud que se revê nesta comédia.

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A Gaffe num recomeço

rabiscado pela Gaffe, em 18.02.16
 

Nenhuma circunstância pode permitir a descaracterização daquilo é apanágio do feminino, a não ser a guerra e a miséria levada ao extremo que, normalmente unidas, se tornam lugares de aniquilação total da dignidade natural do ser humano.

Às mulheres sempre foi atribuída a tarefa da reconstrução e da renovação, mesmo quando lhes é dito que não há alternativas, nem utopias.

Estilhaço a estilhaço, as mulheres conseguem sempre reconstruir a vida, mesmo que para isso tenham de usar as ferramentas habituais da morte.

 

Na foto - uma mecânica da Lockheed - Burbank, 1944

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A Gaffe do segredo da Vitória

rabiscado pela Gaffe, em 15.02.16

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É assumida tolice repisar um assunto que de tão esgotado e inútil já só contém espinhas e, mesmo essas, boleadas por tanto terem batido nas pedras dos fundos dos rios dos debates, mas a Gaffe não quer deixar de beliscar a indignação que saracoteia quando um dos modelos Victoria's Secret surge em todo o seu esplendor alado para assombrar as gordinhas.

 

Não adianta esbracejar e massacrar com ameaças de anorexia o planeta onde desfilam. As mulheres são belíssimas. Não há nada a fazer a não ser contratar um profissional mafioso, de preferência gay, capaz de as despachar de uma rajada, retirando este glamour de carne magra dos balcões do talho.

É feio e nada BCBJ sentir ciúmes destas gazelas irritantes que aumentam a sua capacidade de enfurecer as mais dotadas não se importando um pirolito com as acusações que lhes fazem.

 

A verdade é que o conflito entre gordas e magras, transformadas em obesas e anorécticas, não se resolve com a marcação de consulta no Dr. Póvoas - até porque o Dr. Póvoas pinta o cabelo - ou numa qualquer tresloucada nutricionista castradora, mas pela selecção mais criteriosa das nossas amigas. Uma mulher sente-se magra se souber escolher apenas amigas muito gordas.

 

É uma tontice atribuir a responsabilidade de todos os distúrbios alimentares que atingem as adolescentes da galáxia às copas dos soutiens de  Victoria's Secret ou declarar que nos sentimos umas balofas baleias só porque o mundo se viciou em esguias enguias. Não é agradável atirar o irreal feminino para a cama de um hospício ou sanatório enquanto trituramos sem descanso os Ferrero Rocher do Ambrósio, esbardalhadas nos sofás do sedentário e enfiadas num vestido ranhoso de cetim amarelo a ameaçar explodir.  

 

Deixemo-nos de parvoíces.

 

Viver não tem nada a ver com as asas de anjo coladas em qualquer desfile ou com plumas que surgem do meio das mamas que cabem em soutiens exíguos ou cravadas em rabos que são metade da norma, mas mesmo assim perfeitos.

Viver é aprender que com asas de morcego ou de albatroz os abismos que temos de atravessar todos os dias são bem maiores do que uma passerelle.

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Gavetas:

A Gaffe depila-se

rabiscado pela Gaffe, em 02.02.16

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 Uma rapariga esperta depila-se.


Comigo os pêlos não têm tempo para crescer. Faço meia-perna e axila, diz a minha esteticista, como se eu fosse perneta e no lugar de um braço tivesse um apêndice ligado directamente ao tronco sem aquela covinha tão atraente que uma rapariga esperta gosta de beijar quando a encontra perfumada e apensa a um guerreiro de fazer perder a alma.

Para meu pasmo, quando ontem decidi que a minha meia-perna parecia um porco-espinho, ouvi uma das propostas mais intrigante da minha curta vida. Perguntou-me a madame J., Coiffure & Esthétique, salon Iver & Spa - inventei, porque sou discreta - se eu queria retocar os meus pelinhos da púbis (sic)!
A minha púbis tem muito pouco para retocar, mas o espanto foi tamanho que não resisti a questionar a proposta. Sou informada que há uma imensidão de meninas que solicitam os prestimosos serviços de madame J. que, com imensa perícia tenho a certeza, lhes vai desenhando, com cera depilatória, estrelinhas, luas, rodinhas e mickeys onde o amoroso diabinho deles jamais poderá esquecer as botas e sobretudo os afins.

Para complemento da minha surpresa fiquei a saber que esta liberdade artística já tem seguidores masculinos. Há rapazinhos que gostam de ver a vergonhosa encimada por um belíssimo dragão ou por, quiçá, uma reprodução da Mona Lisa em tons carne e pêlo correspondente aos seus tipos físicos.

Fico abismada. Sou uma rapariga esperta, mas assumo que há dentro de mim uma estúpida ingénua e gorda pronta a saltar assustada e a abrir a boca de espanto perante modernices deste teor.
Infelizmente não tenho matéria-prima para semelhante arrojo. Acabo por lamentar. Gostava de ostentar um tigre da Malásia a abocanhar a Torre Eiffel com iluminações de Natal ou, em alternativa, um pequeno tesouro publicitário como o que foi um dia encontrado por um querido amigo:

 

Se não sabes o que queres, entra. Eu tenho.

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A Gaffe e a "ecomommy"

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.16

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Não sou grande fã de bebés. Não é uma coisa bonita de se dizer, mas é a verdade.

Deitadinhos de costas, com os bracinhos no ar e a gemer de vez em quando, confesso que os prefiro passados uns bons 20/30 anos. Fazem praticamente a mesma coisa, com mais alguns extras que surpreendem, com a vantagem de não usarem fraldas nem nos vomitarem com tanta frequência.

 

Mas o que eu não suporto são as mamãs dos bebés! Sobretudo as modernaças.

Ontem estive com uma dessas. Casou com um rapagão podre de rico. Tão podre que já se nota no hálito. É muito ecológica. Aquilo é muito yoga, muita meditação, muito artesanato, muito Tibete, muito concerto para relaxamento do bebé, muita massagem pueril, muito contacto, muita apalpação, muita beringela.

Anda com umas porcarias ao peito feitas por ela, todas mal acabadas, quando podia perfeitamente furar-nos os olhos com um valente alfinete Dior. Toda artesanato, compra trapos nas lojas alternativas que cosem os tecidos com cordel e rematam as costuras com os dentes. Toda esguedelhada, com folhas secas, mortas, putrefactas, no cabelo, muito outonal, muito tom terra, muito planeta, muito budismo. Toda defensora dos golfinhos, dos mais giros e que até dão saltos, porque dos morcegos e das osgas haverá quem trate. Toda desbotada, toda esbardalhada, a debicar sementes importadas que sabem a papel e a papagaio, compradas numa loja muito vegan, mas que se alcança a pé e sempre a pé, não vão os gases destruir o vento.

 

Massajadora compulsiva das carnes do bebé ao som de sinos e demais sininhos, a criatura verde seco e terra, azul planeta, mostra o rebento amassado e triste.

- Quando é que te decides a escrever ao Pai-Natal a pedir um igual?! - Questão pertinente, tendo em conta que não os posso ter. 

- Só quando tiver o envelope que tu tens e for o teu marido a lamber o selo. - Respondo com pouco critério.

Meteu o miúdo na enrolada tira de tecido em batik tribal e, botas de couro com tiras atadas, desandou trombuda.

 

Sorrio ao seu amuo, colado no rabo roliço como um post-it amarelo, e suspiro de alegria só por saber que uso o Gmail.  

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