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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na chuva da avenida

rabiscado pela Gaffe, em 12.10.16

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 Há chuva na avenida.

 

Dentro da chuva há gente. Um cão que ladra e uma folha de papel sem mais nem menos.

Ninguém se vê. Ninguém confunde ou olha ou pasma, deslumbra ou desfalece. Passo por gente que rompe pela chuva já sem tempo de olhar e de sorrir, de se voltar para trás para tornar a ver.

 

Nos dias de tempos idos, mesmo rasando a luz do entardecer, sentava-me no banco do jardim da avenida e havia apenas névoa e cães e folhas de papel presas ao chão e sempre me sentia alguém que eu não sabia, diferente e igual a mim, mas nunca eu.

Agora há chuva e sinto-me cansada de me sentir sentida. Sinto-me e penso que o sentido chega daquela que é pensada por mim, que não sou eu. Sinto-me a pensar e estou cansada.

 

Há chuva e sinto-a como um cão que ladra dentro do que penso.

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Gavetas:

A Gaffe de navalha

rabiscado pela Gaffe, em 10.10.16

Em Montmartre, no tempo Ocupado por navalhas, os homens traziam-nas no bolso. Navalhas de barba com cabos trabalhados. Serviam de ameaça ou de defesa, de passe para a fuga ou para o ataque.


Madame, todas as tardes em Montmartre, braço dado num amor francês, procura que Paris lhe tolde a persistente memória do amor perdido.


Em Montmartre, no tempo Ocupado por navalhas, a mulher insistia em ler as sinas.
Aberta na cinza de Montmartre, a palma da mão do amante de Madame, na tarde em que vencido ele desiste.
Não há lugar, nem indício, nem risco ou linha que fale de Madame! Não há no seu destino o rasto da amante. Madame não existe nas linhas da sua vida.


O homem saca da navalha e abre um golpe fundo na mudez das linhas da sua mão.
- Lê outra vez. Agora já a tenho - ordenou ele.


Madame sorri enquanto fala daquele tempo ocupado por navalhas, debruçada sobre uma confidência desgostosa. Retira depois da caixa de madeira antiga a navalha de cabo de trabalho.


- Guardo-a há demasiado tempo. Agora é sua. Rasgue o seu destino. 

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A Gaffe numa saudade

rabiscado pela Gaffe, em 09.09.16

 

Na água o meu reflexo no fundo da cidade ou no correr das fontes de Paris, atravessa o negrume da minha nostalgia iluminada.

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A Gaffe no trapézio

rabiscado pela Gaffe, em 02.09.16

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Todas as manhãs madame Renard dava migalhas aos pombos. Inclinava-se na varanda e entregava aos bicos vorazes pedaços de pão esfarelado. Todas as manhãs invariavelmente a via, velha, de cabelo branco, de bata de porteira e meias grossas metidas nos chinelos, debruçada sobre os pássaros escuros.

Todas as manhãs, na esplanada do café em frente à livraria, debicava à mesa com vista para os títulos, o croissant adocicado do costume.

Todas as manhãs o tempo era um copo com sumo de laranja feito ali e o rapaz que passava com livros e sem nome, mas que apetecia fazer com que eu inclinasse o corpo nas grades do desejo e atirasse grãos de olhar para o passeio.

Todas as manhãs, madame Renard atirava migalhas aos pombos e eu esperava sempre que eles chegassem, esbaforidos e medonhos, em debandada e cheiro adocicado e nauseante. Esperava sempre madame Renard e os seus pombos e imaginava um rasgão invadido de cor de circo na parede e tentava ouvir a voz do homem da cartola estridente:

 

Mesdames e Messieurs:

LA DAME AUX PIGEONS NOIRS!

 

Depois vinha madame Renard debruçar-se nos ferros da varanda coberta de asas pretas, bicos abertos como flores carnívoras e circulares olhos vermelhos, a atirar lantejoulas e confetis enquanto os pombos tenebrosos se viam no oscilar do trapézio de grades.

 

Todas as manhãs, esperava ver passar sobre as migalhas do croissant, na esplanada do café em frente à livraria, o rapaz de preto a esvoaçar com livros.

 

Numa destas manhãs gostava tanto de ser outra vez a adolescente do trapézio!

 

Foto - André Gamma

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A Gaffe e a prostituta

rabiscado pela Gaffe, em 26.08.16

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Lembro-me como descobri o miserável preconceito que carrego.

 

Era Inverno e o homem olhava sem perceber que o via. Habituei-me àquele olhar e sei de todos os lugares onde ele chega ou nos quer levar, porque se vê de longe.

 Levantou a gola grossa do casaco azul de marinheiro, apertou os botões velhos com âncoras gravadas e uniu com força os dedos enluvados de modo a que o couro das luvas se ajustasse melhor aos movimentos das mãos. Sorriu com vento e gaivotas empurradas aos gritos e aos guinchos no meio de rajadas com uivos de frio.

Ouvia o barulho das abas do mar batido e encolhia os ombros, curvava ligeiramente a coluna a tentar esconder a face exposta ao frio, afiando a cabeça na direcção do vento, a seu favor - do vento, que tem apenas um casaco marinheiro abotoado.

Adivinhava-lhe as mãos geladas. Escondia-as cruzando os braços, enfiando-as nas axilas e batia com força cada passo que dava no granito do passeio de modo a que o vibrar da pedra assim batida lhe quebrasse a certeza de que o gelo lhe ferrava as solas dos sapatos.

 

A mulher aproximou-se.

- Tens lume? - uma minimalista.

Não. Não tinha lume.

 

Brincou, reproduzindo o estafado apalpar dos bolsos e disse de súbito aquilo que eu sabia:

- Mas tenho um corpo lindo! - fez aparecer na cara duas covas ao sorrir.

Apesar do queixo voluntarioso, o nariz aquilino e a forma como as madeixas de cabelo se comportavam como asas de pássaro apanhado em desespero de armadilha, mantinha um ar tímido que o frio acentuava entregando a sensação de que havia pressa nos olhos ansiosos daquele homem. Uma aceleração das emoções ou dos desejos, uma urgência de dizer o que não quer, provocadas pelo medo de gelar, de ser picado pelas gaivotas que gritavam lancetadas pelo vento como farrapos de cabelo desnorteados.

 

A mulher tinha feições que esqueceria logo que o vento amainasse e o meu casaco se fechasse sobre o entardecer friorento de outra praça, de outra Avenida e de outros rostos. Era loira, oxigenada e frisada e afagava os cantos da boca inflamada de batom. Apenas isso.

- Não beijo na boca - minimalista e rotineira.

Diz-lhe depois dos preços com a serenidade de quem atira um orçamento que se sabe pobre e sustentável.

 

- Não tenho dinheiro e beijo bocas.

- Só faço isto por causa das propinas.

- Tenho a certeza que sim, mas não tenho dinheiro e beijo bocas. Desculpa.

 

Ofereceu um serviço mais barato e não abrandou o passo quando o recusaram. Seguiu-o e falou-lhe de praças desertas nas horas mais pardas e nas avenidas paradas como esconderijos. Deixou-se de saber se é negócio ou ócio o sexo daquelas prestações.

Desceu as escadas. Depois o declive que a levava a areia. Encostou-se ao muro à espera com a mão na virilha e os olhos levantados de promessas por orçamentar.

- Tens de procurar outro. Eu estou só à espera de uma amiga.

 

A gola do meu casaco grosso levantada e o vento a zunir à minha volta.

- Vê o que as tempestades nos podem fazer.
Estava mais velho o homem e ainda mais perfeito por estar só. Todas as solidões são maiores que a vida.

Afastou-se a mulher oxigenada e de unhas pintadas de vermelho do muro das promessas e das propinas por pagar.

 

- Eu sei que tu tens lume – murmurei-lhe.

Com o braço marinheiro cobriu-me o ombro e num sussurro que o vento apanhou e fez desfeito:

- Um pouco mais de sol, eu era brasa.

 

Foi este exacto momento que me fez perceber que jamais conseguirei compreender as prostitutas. Nunca entenderei esta espécie de violação consentida a troco de dinheiro. Não concebo qualquer razão que a justifique e sinto que a redenção, o aclamado heróico redimir, o engrandecido já fui, mas já não sou, não é mais do que uma espera até que a vida encontre novas pedras que fazem tropeçar.

Não consigo - não quero - aliar-me aos benévolos e benevolentes que conquistam a força de carpir a infelicidade que empurra estas mulheres para estas esquinas, nem sei sequer admirar e ampliar as que se dizem delas descoladas.  

 

Até o vento a ganir não apaga, não empurra com um golpe de asa, uma mulher que se sente a desfazer.

 

Ilustração - Beesse para A Gaffe e as Avenidas

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A Gaffe reencontrada

rabiscado pela Gaffe, em 23.08.16

BoyIsMine.jpgAmar Paris não tem que se lhe diga. Basta encontrar numa outra língua, de repente, declarações de amor numa rua que tem o nome do velho Cardeal.

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A Gaffe retroparva

rabiscado pela Gaffe, em 29.07.16

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Fui assistir, há tempos, a um concerto ao ar livre dado por uma banda muito interessante. Uma homenagem a Tom Jobim. Esvaiu-se o nome da banda e o da vocalista. Só sei que era brasileira e que tinha uma voz muito bonita que não envergonhava o Jobim. 


O que me esfacela o entendimento é a cambada de homens que serigaita sempre nestes acontecimentos. São quarentões já rançosos, alguns já entrados nos cinquenta, geralmente barrigudos com pernas fininhas, mas muito cool. Muito Willie Nelson. Muito country.

 

Usam pólos deformados, azuis ou pretos ou então t-shirts lisas, gastas e todas mal amanhadas; sapatos moles, com aspecto de nunca terem visto melhores dias ou sapatilhas mais que ressequidas; Jeans descaídos, sem cinto, bastante sujos e com mau aspecto e um inseparável saco de couro muito usado. Trazem o cabelo mal cortado, com umas madeixas na nuca todas oleosas ou usam um rabo-de-cavalo raquítico, embora sejam quase carecas em cima. Fumam sem parar coisas que fabricam com a perícia de um ourives, não percebendo que o que nos mata deve chegar já feito. Vão buscar as cervejas, com uma rapidez fulminante, e bebem-nas quase sempre pela garrafa ou deixam os copos vazios pousados em todo o lado. Não se sentam, mesmo havendo cadeiras à disposição por todo o lado, para se esbardalharem à nossa frente e serigaitam para trás e para diante como se tivessem grandes planos para o resto da noite. Falam alto e bom som acerca do que ouvem para mostrar que estão por dentro; criticam o tom da voz que canta, com ar muito conhecedor, e referem a data em que a canção foi escrita - fiquei a saber que há canções do Jobim com 50 anos que são ouvidas hoje como se tivessem sido escritas ontem. Nestas andanças, as irritantes criaturas não olham para ninguém. Entram e saem para trazer bejecas com os olhos de quem está a cumprir uma missão em África e desatam às gargalhadas vá lá a gente saber porquê, mesmo no meio do refrão. 


Quem os acompanha são normalmente raparigas iguais. Muito modernas, com calções curtinhos e casaquinho de malha fininha e deformada, por cima da t-shirt com logos gigantes ou citações revolucionárias; cabelo desgrenhado e volumoso, espigado, e chinelos do tipo havaianas, mas decorados com umas florecas murchas, todas retro. Bebem brandy que também trazem cá para fora. Há as que empurram carrinhos com crianças dentro que, suspeito, provam as bebidas dos pais antes de sair de casa, porque estão sempre a dormir e com ranho seco no nariz.

 
Comecei por achar que não passavam de representantes do estereotipado intelectual de esquerda gasta, mas sou nova e não penso. Da esquerda só os que são canhotos. O resto é maneta. 


Há-os por todo o lado e desfazem por completo o prazer que há em se ouvir em sossego uma canção de Jobim. 


São os retroparvos.

 

Ilustração - G. Haderer

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A Gaffe uniformizada

rabiscado pela Gaffe, em 28.07.16

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Pela brevíssima brisa anoitecida, a Gaffe sacode os caracóis, faz esvoaçar o vestido azul petróleo de seda fresca e com o allure que chega dos anos 50, flutua na Avenida, alterando o sossego do mar.

 

O que se lhe depara é um cenário de um filme de ficção científica de miserável categoria.

 

Gente vergada, iluminada pela luz azul de rectângulos que vibram presos à mão, que caminham sem ver, que palram e balbuciam monossílabos, com todos os tubos ligados à Nintendo, que param e disparam com um dedo que sorri depois, que arrancam das mãos esfomeadas dos petizes a ganância e a incontrolável vontade de apanhar as bolas no banco que foi detectado no brilho de espectro do pequeno aparelho.

 

Caçam Pokémons.

 

A Gaffe repensa a uniformização da infantilidade, a globalização do inútil que se desculpa com o movimento que impulsiona, e decide procurar alguém que mereça o cantarolar da última diva de Hollywood, uma das suas mais esplendorosas deusas, a que merece ser encontrada em qualquer ponto do globo. Ruiva, como não podia deixar de ser.

 

Pokémon por pokémon, que, pelo menos, se consiga uma resposta.

 

Ilustração - Pawel Kuczynski

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A Gaffe descarrilada

rabiscado pela Gaffe, em 26.07.16

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O calor é muito.

Talvez próximo do mar a temperatura desça e possa respirar em vez de me sentir a morder esta canícula.

 

Não gosto de gares de caminhos-de-ferro, do barulho dos comboios nos carris; dos passageiros que sopram o ar do inferno enquanto esperam; do zumbido das placas corrompidas que anunciam chegadas e partidas; dos horários em papel presos por fios; das salas de espera nauseabundas onde há sempre um casal apaixonado a sussurrar; dos vagabundos como pombos magros; dos encontrões das mulheres cheias de sacos, das pontas de cigarros pelo chão; dos quiosques atulhados em jornais por onde espreita sempre um velho revisteiro; das malas com rodinhas; dos cafés de plástico sem esplanada; das fardas dos que passam maquinistas; dos relógios que nunca acertam horas nem destinos e do pescoço da mulher que olha o mudar sucessivo dos lugares, no quadro que encima as bilheteiras, e que nunca vai partir, porque nunca chegou a nenhum lado.

 

Não gosto de gares de caminhos-de-ferro. Não gosto de sair e me encontrar com doidos vagabundos a lancetar o tempo, troncos nus, sonhos sentados e malas onde amarfanharam o destino.

 

Foto - Anders Petersen

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A Gaffe a observar

rabiscado pela Gaffe, em 16.07.16
 

As constantes oscilações de humor desta rapariga são vastas vezes da responsabilidade da sua incómoda capacidade de observação.

A Gaffe observa o palpitar de tudo, escuta os batimentos dos corações dos objectos, perscruta com afinco o respirar da vida, cata com minúcia o pêlo daquilo que acontece e pesquisa à procura de faíscas escondidas nas tempestades e nas bonanças que ao seu lado pairam.

 

A observação prolongada, constante e obsessiva da vida, fornece ao observador a capacidade imediata e quase involuntária de descobrir em quase tudo pequenas migalhas, diminutas pepitas de ouro, pedacinhos de chumbo ou fragmentos de névoa, que, para os distraídos, não são mais do que absolutamente nada, mas que adquirem sob as lentes do nosso microscópio interior, valor imenso e importância clara e primordial.

 

Desses pequeninos encontros se vão erguendo histórias internas impossíveis de separar da nossa alma que se estrutura e constrói a cada passo e se reorganiza a cada momento com réstias daquilo que nos é dado olhar.

 

Quando a observação é extrema e somos dela dependentes mórbidos ou reincidentes, inveterados viciados, veteranos dessa guerra ou dessa paz, humildes servidores ou donos seguros do olhar lançado sobre as vidas, acabamos empurrados e levados, impulsionados e envolvidos, puxados e amarrotados, dominados ou a dominar, mesmo sem o querer, o observado. Somos parte integrante do que olhamos, quer quando o observado fica a milhares de vidas longe daquela que é a nossa, quer quando o que vemos está nas nossas mãos.


Inevitável é esta estranha forma de globalizar a alma e que ninguém pergunte por quem os sinos dobram. Todos os sinos dobram quando a vida é tida por inteiro, quando em nós existem e ficam retidos os traços da vida dos outros, quando em nós o olhar é muito mais que o ver.

 

Assim, a Gaffe oscila e deambula pelas emoções sem medo ou desgraça. Sabe que o baloiço é empurrado sempre pelas diversas mãos do, por demais amado, sentir do mundo a sentir. 

O resto é apenas a Gaffe de asas abertas.

 

Foto - Jiyen Lee

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A Gaffe atraída

rabiscado pela Gaffe, em 06.07.16

 

Os homens mais atraentes que conheço não desfilam, pavões inexpressivos, pelos tapetes do glamour, de brilho impávido nos olhos vestidos pelo deslumbre de uma griffe. Cruzam-se comigo em cada rua, banais, quotidianos, corriqueiros, cansados dos lugares onde procuram arrancar das pedras pedaços de vida e trazem nas mãos a nudez completa dos que trocam por sonhos o esplendor da glória.

 

São homens banais, heróis já quase feitos apenas de cansaços ou palavras.

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A Gaffe adolescente

rabiscado pela Gaffe, em 01.06.16

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Encontrei o meu olhar de anjo inocente e ingénuo que fica muito próximo, quando o vejo reflectido nos espelhos, do mais sacana dos olhares de caça, à porta do Clube Siècle em Paris. 

 

Preocupada, sabendo-o sem carro, a minha tia suplicava que fossemos esperar o reservado esposo e o acompanhássemos a casa são e salvo. O pretexto - se fosse necessário para estas incursões pela noite dentro, - seria o melhor e o mais abnegado.  


Não tínhamos permissão para entrar. Fechavam-nos cá fora. Ficávamos na rua soltas e com frio, à procura de risos e de lume. 
O jogo que encontramos para empatar a espera tinha no corpo aquela sinuosa inocência que roça levemente o que é perverso, mas que se agarra sempre à cândida ingenuidade das meninas. Escondiam-se umas das outras e uma apenas uma, encostado à noite mimava uma Lolita.

 
Esperávamos a saída dos senhores reservados e potentes como grandes e pesados animais de pântano e de charco e, muito aplicadas dentro dos papéis ou do que deles imaginávamos ser o que era o certo, jogávamos a sedução, esperando aquele que nos daria os pontos elevados e que, dizia-se, ser Bispo e muito digno. 


De todas, fui sempre eu, a mais novinha, a vencedora. Das raparigas mais adultas nenhuma chegou a reunir os instantes necessários para tal. Perdiam sempre, presas a uma ineficácia desgraçada e uma inaptidão confrangedora.  


O meu jogo era o do olhar.  


Aprendi a construir a perigosa e insondável inocência de Lolita e os meus olhos decoraram os textos do insidioso abismo da candura, adivinhando o cio paquidérmico. 


Nunca à porta do Siècle eu vislumbrei o Bispo. Com dezasseis anos acertamos de preferência nos acólitos.

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A Gaffe "et l'amour démodé"

rabiscado pela Gaffe, em 17.05.16

Sinto falta de Paris.
Sinto saudade da cidade onde a luz doirada espreita os mais secretos desejos, as mais minúsculas delícias.
Paris dos bairros em torno do Sena, onde esvoaçavam rapazes fugidos do campo dos deuses e onde me assaltava, sem dó nem piedade, a surpresa de me ver olhada com o mesmo desejo com que os descobria.


Paris limitada pela Torre Eiffel, Arco do Triunfo, Bastilha e Panteão. O mágico traçado, o incomparável espaço, onde, dentro, a cidade esmaga por se sentir perfeita.
Avançava pelo Boulevard Saint-Germain, desde a Île Saint-Louis, cravando o olhar, subitamente, no coração de Saint-Germain-des-Prés.

 

Brasserie Lipp ... Flore ... Les Deux Magots.

 

- Des croissants, comme d’habitude?

- Oui et comme d’habitude Paris au bord du lit.

 

 

Le Divan, a poeirenta livraria velha dos poetas que se esquecem e de Artaud, louco e deslumbrante, abocalhada por Dior.
Cartier mastigando as velhíssimas lojas onde a música espirrava como chuva no centro das praças.
Louis Vuitton olhando sobranceiro Les Deux Magots que teima em servir croissants perto da minha saudade.
L’air du temps que muito antes de ser aroma Nina Ricci, era tudo o que se colhia nas ruas de Paris e que fazia bem e que soava bem e que girava nas cabeças tontas dos rapazes.
Paris onde fiquei presa nos dedos do primeiro choro de amor que eu encontrei.


- C’est fini, ça? C’est dépassé! C’est fini l'amour.

 

O Amor não é igual em todo o lado e mesmo em Paris se pode ser pateticamente apaixonado.

 

Lembro-me parada e sozinha, encostada à porta onde viveu Chopin e onde o Ritz se torna mais tristonho.

A esplanada estava quase deserta àquela hora.
A minha irmã sentou-se extenuda depois de ter sido recebida pela Casa Cartier, ali ao lado, onde espreitam por uma janelinha, aprovando ou recusando o suplicante.


- Eu trato da mulher e deixo-te com ele. Tens de o seduzir. Se não resultar, trocamos - falava do casal, o único sentado à nossa frente, fluvialmente apaixonado. Molhavam-nos com a água que lhes vidrava os olhos.
Tentamos.
Usamos todos os insuspeitos trunfos, todos os mais escabrosos estratagemas, todas as mais vis e malignas insinuações, todas os mais planeados movimentos, dos mais subtis, aos mais desavergonhadamente descarados.


Nada!

 

O rapaz tinha colados os olhos no rosto da mulher que trazia todos os planetas pendurados nas pestanas.
A rapariga, mais tímida, afastava brevemente o olhar do centro do Universo, no ponto exacto onde se via reflectida, para logo a seguir procurar de novo os espelhos dos olhos do homem.


Será que o Amor, de tanto se olhar, se transforma em Narciso?

 

- oh! l'amour! L’amour c’est démodé.

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A Gaffe diferente

rabiscado pela Gaffe, em 19.04.16

IRL.jpgNão há muito tempo, à saída do aeroporto, Pequim na mira, fui abordada por dois chineses velhíssimos que excitados suplicavam que tirasse ao lado deles uma fotografia.

Acedi.

Percebi pela alegria gestual das milenárias criaturas que era o facto de ser ruiva a razão do alarido. Provavelmente seria como captar uma imagem ao lado de um unicórnio ou, mais prosaicamente, de um orangotango aos caracóis que ruivos deveriam ser também. A verdade é que, em contrapartida, os obriguei a posar comigo, numa recordação só para mim. Não podia perder a oportunidade de registar o momento em que me cruzei com duas múmias da dinastia Ming.

 

Não há muito tempo, na Irlanda, passei despercebida.

Um país absolutamente indiferente à minha cor, porque é o local do planeta onde existe a maior concentração de ruivos por metro quadrado. Mais uma, menos uma, é coisa de pipocas.

Para além de ruivas e de ruivos – há que respeitar todos os blocos, - a Irlanda tem cavalos, ovelhas, cães, muita erva e um tempo desgraçado. A conjugação destes factores provoca saudades da China, onde pelo menos encontramos alguma excitação a tentar não atropelar ninguém no meio da cortina de névoa envenenada.

 

Este confronto com tão diferentes conceitos de normalidade deixa-me siderada.

É maravilhoso o modo benigno como neste planeta a diferença é às vezes olhada! É extraordinário perceber que é apenas a lei das maiorias a definir a regra e, em consequência, a provocar o preconceito – origem básica de todo o erro do julgar, - mas que, ao mesmo tempo, é capaz de acolher quase de forma divertida a fuga aos que dela escapam.

 

É encantador compreender que nos portamos todos como tontos num planeta povoado pela diferença, como somos ingénuos e teimosos quando incensamos o nosso umbigo fornecendo-lhe o estatuto de vedeta e de modelo único e que, ao mesmo tempo, ali bem perto, consideramos que uma fotografia ao lado da dissemelhança merece ser mostrada aos netos como triunfo sobre o quotidiano.

 

É esplêndido porque nos faz vislumbrar que no meio da paisagem irlandesa apetece muito e é tão bom poder encontrar dois velhíssimos chineses para lhes suplicar uma foto em conjunto.  

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A Gaffe de Evelyn

rabiscado pela Gaffe, em 14.04.16

Evelyn McHale tinha 23 anos e acabara de se despedir do noivo. Subiu ao 86º andar do Empire State Building, onde fica o deck de observação, e atirou-se.
Deixou um bilhete no qual dizia que o rapaz seria mais feliz sem ela.

 

Não poderei ser uma boa esposa para ninguém.


O estudante de fotografia Robert Wiles ouviu o estrondo assustador e captou a cena quatro minutos depois.

Foi catalogado como O mais belo suicídio do mundo.

É uma imbecilidade o título que ostenta. É de certeza uma das mais belas fotografias de um suicida, mas o trágico absoluto não pode ser tratado com leviandade glamorosa.

A extraordinária feminilidade da suicida, a sua imensa fragilidade enluvada, o recato do gesto que segura o colar e a serenidade do rosto que parece adormecido, contrastam com a animalesca força da morte, com o desumano estilhaçar do corpo e da alma de uma rapariga que decidiu calar todas as dores.

 

Mais uma vez a dor e a morte produzem boas fotografias.

É uma brutalidade perceber que Evelyn poderia perfeitamente ser a capa da Vogue.

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