Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe bazófia

rabiscado pela Gaffe, em 29.11.16

1.94.jpg

É habitual a Gaffe estampar fotos de rapazes que passam o tempo a humilhar o comum dos mortais, atirando-lhe à cara a esplendorosa forma física em que se encontram e despertando a esplendorosa inveja dos mostrengos mais desfavorecidos.

 

Apesar destes portentos não passarem por nós ao virar da esquina - são criaturas parecidas com os unicórnios, - a Gaffe apanha demasiadas vezes umas cornadas destes bichos, vindas das paredes e dos muros, das páginas das revistas e do armário do vizinho de gabinete que tem posters destes colados ao fundo - do armário.

 

A Gaffe não fica nem excitada, nem incomodada. Isto funciona como o acordo ortográfico. Embora não simpatizemos com ele, vamo-nos habituando à grafia até deixarmos de sentir que estamos perante um erro. Acabamos vacinados e, de certa forma, imunes. Aquilo marcha sem que lhe prestemos uma atenção especial.

Ora, se o que foi escrito agora não passasse exactamente disso, uma banalidade idiota, a coisa até nem pareceria muito mal. Acontece que hoje de manhã a Gaffe cruzou-se com um unicórnio destes e deve dizer, para acalmar, que o bicho que se avistou dentro de um fato  - e de facto - não se inscrevia no conto de fadas tradicional. Era um unicórnio de todo o tamanho!

 

Isto prova, sem lugar para dúvidas, que, por muito que o neguemos, não passamos de umas bazófias com uns trocadilhos todos marotos em relação às excelentes formas físicas chapadas nos cartazes das montras que nos impingem, mas que, perante os factos de fatos justos, perante todos aqueles músculos em carne e osso, até as bainhas das saias se nos eriçam.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe perfumada

rabiscado pela Gaffe, em 23.11.16

La mort.jpg

Ela usa agora Le Baiser du Dragon porque soube que contém uma toxina eventualmente perigosa.

- Uma diva tem de ser envenenada por aquilo que ama.

 

Vive-se dentro de uma colecção de clichés, de lugares-comuns, de slogans publicitários, de frases feitas, de fragmentos estropiados de confetis.

 

É assim que quero.

 

O dia banal que se baba pelas ruas, quotidianamente repetido, repetidamente adivinhado, cansa-me de tão previsível. Escolho recortar dos dias a surpresa rara ou a mais ínfima promessa de risco ou desafio. O resto esgota-me de tão igual ao resto e mesmo a arquitectura dos dias que desenho é uma arquitectura obediente por preguiça, por desprezo, por incapacidade de reagir ao logicamente óbvio, ao previsivelmente enunciado. Está longe de ser a arquitectura do desconforto, defendida com alma pela minha irmã.

 

Querem um minarete no jardim da casa no reino dos morcegos de uma aldeia velha em Trás-os-Montes? Que saia um minarete.

 

Adapto a ideia, reduzo-a a ninharia, contorno e atraiçoo, mas não escapo ou luto, ou entro em guerra num campo de batalha já exaurido. É cansativo. Inútil. Não me excita.

 

Depois a existência dos outros é previsível. Adivinho gestos, pensamentos, reacções alérgicas, toxinas, brilhos de pedras falsas nos colares, horas nos relógios de platina, valium e imunodepressores, cantigas entre dentes e palavras nos sentidos, danças macabras e concertinas doidas, eróticas pantominas e fantasmas, equilibrismos e redes de cabelo, odores e tintas pretas mascaradas, correrias de gare ou aeroporto, encontros desastrados, corredores, mãos e profetas, notas, sinfonias, dinheiro e miseráveis dentes cariados e a vida inteira nua e choca, podre, fácil, nojenta e asquerosa em todas as esquinas.

 

Sento-me na esplanada como um cliché com charme. Sei o que fazer para acicatar o lugar-comum que sou e quero ser.

Se olhar duas vezes para o homem da outra mesa, num perfil que ainda não me viu, vou tê-lo num instante a recompor lugares. Arranco-lhe os olhos num momento. Uma vez. Uma outra vez e vai mudar a cadeira de lugar. Uma outra vez e basta. Levantou-se? È previsível. Muda de sítio e fica frente a mim, para banhar os olhos na minha indiferença agora já desperta. Não passa de um pateta. Fácil, como um objecto que se atira e parte só por tédio.

O outro, na mesa ao lado, aquele ainda menino que palra sem parar, sem tino ou viço ou calma, atrapalhando as frases e os ouvintes. Tem um corpo que me agrada e olhos desatentos. É fácil arrancar-lhe o tempo de atenção que quero ter. Basta que no olhar que o prende haja um sorriso breve preso ao anzol dos olhos e aqui o tenho já calado e mudo, a suar de súbito, a sorrir e a olhar, a olhar e a sorrir, sem o pudor dos peixes moribundos que no estertor final apenas movem o leque asfixiado das guelras impotentes.

O homem já maduro a beber sumo de laranja com limão? Aquele de camisa de seda e boca de cetim? Um aceno meu, um subtil aceno com a cabeça, a rede dos olhos presa nos rochedos e ei-lo já de pé, à espera.

 

O amor?

Eu sinto apenas cheiros. Cheiros espalhados, esmagados, pelas ruas. Agradam-me os cheiros dos corpos que passam distraídos. Aproximo-me das nucas e abro as narinas e sorvo o quente odor dos corpos acabados de banhar.

Farejo.

O meu amor é olfactivo. Não tenho outro a dar.

O resto é náusea ou tédio, desprezo ou indiferença.

O Resto é morte, a entediante morte ou a solidão, que é uma espécie de morte distraída que nos deixa o corpo a apodrecer ainda vivo e foge desgraçada com o coração e a alma a sangrar nos dentes.

 

La Mort...

Je la chante et, dès lors, miracle des voyelles

Il semble que la Mort est la soeur de l'amour

La Mort qui nous attend, l'amour que l'on appelle

Et si lui ne vient pas, elle viendra toujours

La Mort.

 

Odeio a sujidade dos dias espalhados pelas ruas. A vida sem-abrigo. A inércia torpe dos que acreditam que no mais ínfimo pormenor está a diferença. Não existe pormenor que não seja um estilhaço perdido na ruína, que lhe pertence, que é parte integrante do desastre, inútil como um facto. Recuso o lamento na vida dos outros com o nojo de me sentir igual às pedras das esquinas, aos lugares descritos medíocres, mas com a pretensão da alma de Zola.

 

Escolho a inclusão no lugar-comum, no cliché que monto, no fotograma que construo sem pudor, troco o meu cavalo por um reino até que a minha vida inteira se reduza a pontos que cintilam.

 

Le Baiser du Dragon. Efémero e fatal.

 

Na foto -  Eleanor Parker, 1952

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe a divagar

rabiscado pela Gaffe, em 18.10.16

Christo Dagorov.jpg

 

A sombra das árvores encharca-se de pássaros como quem veste uma camisa branca.

Pousa no silêncio a cor das fontes e a crina das raízes rasas de água.

Chove nos vidros de cetim dos olhos dos lagartos, no sono dos sapos, no risco dos insectos sobre a cal cega de frio.

A chuva é uma rosa branca aberta nos meus braços. Nua escorre rumo ao rio.

 

Ilustração - Christo Dagorov

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe pluvial

rabiscado pela Gaffe, em 17.10.16

243.jpg

Outra vez a chuva. Sílaba a sílaba, pálpebra a pálpebra. Chove e durmo no minúsculo coração das gotas de asa.

Sílaba a sílaba, pálpebra a pálpebra, chove na terra sem cavalos e sem juncos.
Chove e durmo no minúsculo coração das uvas.
Nos meus lábios há o voo raso do pássaro das águas. Nos meus dedos a nuvem que começa presa no coração das gotas de asa.

A luz de linho antigo desfaz o nó das sombras sob as árvores e no coração estrídulo de um pássaro.  
Chove e adormeço.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe na chuva da avenida

rabiscado pela Gaffe, em 12.10.16

g.jpg

 Há chuva na avenida.

 

Dentro da chuva há gente. Um cão que ladra e uma folha de papel sem mais nem menos.

Ninguém se vê. Ninguém confunde ou olha ou pasma, deslumbra ou desfalece. Passo por gente que rompe pela chuva já sem tempo de olhar e de sorrir, de se voltar para trás para tornar a ver.

 

Nos dias de tempos idos, mesmo rasando a luz do entardecer, sentava-me no banco do jardim da avenida e havia apenas névoa e cães e folhas de papel presas ao chão e sempre me sentia alguém que eu não sabia, diferente e igual a mim, mas nunca eu.

Agora há chuva e sinto-me cansada de me sentir sentida. Sinto-me e penso que o sentido chega daquela que é pensada por mim, que não sou eu. Sinto-me a pensar e estou cansada.

 

Há chuva e sinto-a como um cão que ladra dentro do que penso.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe de navalha

rabiscado pela Gaffe, em 10.10.16

Em Montmartre, no tempo Ocupado por navalhas, os homens traziam-nas no bolso. Navalhas de barba com cabos trabalhados. Serviam de ameaça ou de defesa, de passe para a fuga ou para o ataque.


Madame, todas as tardes em Montmartre, braço dado num amor francês, procura que Paris lhe tolde a persistente memória do amor perdido.


Em Montmartre, no tempo Ocupado por navalhas, a mulher insistia em ler as sinas.
Aberta na cinza de Montmartre, a palma da mão do amante de Madame, na tarde em que vencido ele desiste.
Não há lugar, nem indício, nem risco ou linha que fale de Madame! Não há no seu destino o rasto da amante. Madame não existe nas linhas da sua vida.


O homem saca da navalha e abre um golpe fundo na mudez das linhas da sua mão.
- Lê outra vez. Agora já a tenho - ordenou ele.


Madame sorri enquanto fala daquele tempo ocupado por navalhas, debruçada sobre uma confidência desgostosa. Retira depois da caixa de madeira antiga a navalha de cabo de trabalho.


- Guardo-a há demasiado tempo. Agora é sua. Rasgue o seu destino. 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe numa saudade

rabiscado pela Gaffe, em 09.09.16

 

Na água o meu reflexo no fundo da cidade ou no correr das fontes de Paris, atravessa o negrume da minha nostalgia iluminada.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe no trapézio

rabiscado pela Gaffe, em 02.09.16

AG.jpg

Todas as manhãs madame Renard dava migalhas aos pombos. Inclinava-se na varanda e entregava aos bicos vorazes pedaços de pão esfarelado. Todas as manhãs invariavelmente a via, velha, de cabelo branco, de bata de porteira e meias grossas metidas nos chinelos, debruçada sobre os pássaros escuros.

Todas as manhãs, na esplanada do café em frente à livraria, debicava à mesa com vista para os títulos, o croissant adocicado do costume.

Todas as manhãs o tempo era um copo com sumo de laranja feito ali e o rapaz que passava com livros e sem nome, mas que apetecia fazer com que eu inclinasse o corpo nas grades do desejo e atirasse grãos de olhar para o passeio.

Todas as manhãs, madame Renard atirava migalhas aos pombos e eu esperava sempre que eles chegassem, esbaforidos e medonhos, em debandada e cheiro adocicado e nauseante. Esperava sempre madame Renard e os seus pombos e imaginava um rasgão invadido de cor de circo na parede e tentava ouvir a voz do homem da cartola estridente:

 

Mesdames e Messieurs:

LA DAME AUX PIGEONS NOIRS!

 

Depois vinha madame Renard debruçar-se nos ferros da varanda coberta de asas pretas, bicos abertos como flores carnívoras e circulares olhos vermelhos, a atirar lantejoulas e confetis enquanto os pombos tenebrosos se viam no oscilar do trapézio de grades.

 

Todas as manhãs, esperava ver passar sobre as migalhas do croissant, na esplanada do café em frente à livraria, o rapaz de preto a esvoaçar com livros.

 

Numa destas manhãs gostava tanto de ser outra vez a adolescente do trapézio!

 

Foto - André Gamma

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe e a prostituta

rabiscado pela Gaffe, em 26.08.16

prost..jpg

Lembro-me como descobri o miserável preconceito que carrego.

 

Era Inverno e o homem olhava sem perceber que o via. Habituei-me àquele olhar e sei de todos os lugares onde ele chega ou nos quer levar, porque se vê de longe.

 Levantou a gola grossa do casaco azul de marinheiro, apertou os botões velhos com âncoras gravadas e uniu com força os dedos enluvados de modo a que o couro das luvas se ajustasse melhor aos movimentos das mãos. Sorriu com vento e gaivotas empurradas aos gritos e aos guinchos no meio de rajadas com uivos de frio.

Ouvia o barulho das abas do mar batido e encolhia os ombros, curvava ligeiramente a coluna a tentar esconder a face exposta ao frio, afiando a cabeça na direcção do vento, a seu favor - do vento, que tem apenas um casaco marinheiro abotoado.

Adivinhava-lhe as mãos geladas. Escondia-as cruzando os braços, enfiando-as nas axilas e batia com força cada passo que dava no granito do passeio de modo a que o vibrar da pedra assim batida lhe quebrasse a certeza de que o gelo lhe ferrava as solas dos sapatos.

 

A mulher aproximou-se.

- Tens lume? - uma minimalista.

Não. Não tinha lume.

 

Brincou, reproduzindo o estafado apalpar dos bolsos e disse de súbito aquilo que eu sabia:

- Mas tenho um corpo lindo! - fez aparecer na cara duas covas ao sorrir.

Apesar do queixo voluntarioso, o nariz aquilino e a forma como as madeixas de cabelo se comportavam como asas de pássaro apanhado em desespero de armadilha, mantinha um ar tímido que o frio acentuava entregando a sensação de que havia pressa nos olhos ansiosos daquele homem. Uma aceleração das emoções ou dos desejos, uma urgência de dizer o que não quer, provocadas pelo medo de gelar, de ser picado pelas gaivotas que gritavam lancetadas pelo vento como farrapos de cabelo desnorteados.

 

A mulher tinha feições que esqueceria logo que o vento amainasse e o meu casaco se fechasse sobre o entardecer friorento de outra praça, de outra Avenida e de outros rostos. Era loira, oxigenada e frisada e afagava os cantos da boca inflamada de batom. Apenas isso.

- Não beijo na boca - minimalista e rotineira.

Diz-lhe depois dos preços com a serenidade de quem atira um orçamento que se sabe pobre e sustentável.

 

- Não tenho dinheiro e beijo bocas.

- Só faço isto por causa das propinas.

- Tenho a certeza que sim, mas não tenho dinheiro e beijo bocas. Desculpa.

 

Ofereceu um serviço mais barato e não abrandou o passo quando o recusaram. Seguiu-o e falou-lhe de praças desertas nas horas mais pardas e nas avenidas paradas como esconderijos. Deixou-se de saber se é negócio ou ócio o sexo daquelas prestações.

Desceu as escadas. Depois o declive que a levava a areia. Encostou-se ao muro à espera com a mão na virilha e os olhos levantados de promessas por orçamentar.

- Tens de procurar outro. Eu estou só à espera de uma amiga.

 

A gola do meu casaco grosso levantada e o vento a zunir à minha volta.

- Vê o que as tempestades nos podem fazer.
Estava mais velho o homem e ainda mais perfeito por estar só. Todas as solidões são maiores que a vida.

Afastou-se a mulher oxigenada e de unhas pintadas de vermelho do muro das promessas e das propinas por pagar.

 

- Eu sei que tu tens lume – murmurei-lhe.

Com o braço marinheiro cobriu-me o ombro e num sussurro que o vento apanhou e fez desfeito:

- Um pouco mais de sol, eu era brasa.

 

Foi este exacto momento que me fez perceber que jamais conseguirei compreender as prostitutas. Nunca entenderei esta espécie de violação consentida a troco de dinheiro. Não concebo qualquer razão que a justifique e sinto que a redenção, o aclamado heróico redimir, o engrandecido já fui, mas já não sou, não é mais do que uma espera até que a vida encontre novas pedras que fazem tropeçar.

Não consigo - não quero - aliar-me aos benévolos e benevolentes que conquistam a força de carpir a infelicidade que empurra estas mulheres para estas esquinas, nem sei sequer admirar e ampliar as que se dizem delas descoladas.  

 

Até o vento a ganir não apaga, não empurra com um golpe de asa, uma mulher que se sente a desfazer.

 

Ilustração - Beesse para A Gaffe e as Avenidas

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe reencontrada

rabiscado pela Gaffe, em 23.08.16

BoyIsMine.jpgAmar Paris não tem que se lhe diga. Basta encontrar numa outra língua, de repente, declarações de amor numa rua que tem o nome do velho Cardeal.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe retroparva

rabiscado pela Gaffe, em 29.07.16

haderer_14110.jpg

Fui assistir, há tempos, a um concerto ao ar livre dado por uma banda muito interessante. Uma homenagem a Tom Jobim. Esvaiu-se o nome da banda e o da vocalista. Só sei que era brasileira e que tinha uma voz muito bonita que não envergonhava o Jobim. 


O que me esfacela o entendimento é a cambada de homens que serigaita sempre nestes acontecimentos. São quarentões já rançosos, alguns já entrados nos cinquenta, geralmente barrigudos com pernas fininhas, mas muito cool. Muito Willie Nelson. Muito country.

 

Usam pólos deformados, azuis ou pretos ou então t-shirts lisas, gastas e todas mal amanhadas; sapatos moles, com aspecto de nunca terem visto melhores dias ou sapatilhas mais que ressequidas; Jeans descaídos, sem cinto, bastante sujos e com mau aspecto e um inseparável saco de couro muito usado. Trazem o cabelo mal cortado, com umas madeixas na nuca todas oleosas ou usam um rabo-de-cavalo raquítico, embora sejam quase carecas em cima. Fumam sem parar coisas que fabricam com a perícia de um ourives, não percebendo que o que nos mata deve chegar já feito. Vão buscar as cervejas, com uma rapidez fulminante, e bebem-nas quase sempre pela garrafa ou deixam os copos vazios pousados em todo o lado. Não se sentam, mesmo havendo cadeiras à disposição por todo o lado, para se esbardalharem à nossa frente e serigaitam para trás e para diante como se tivessem grandes planos para o resto da noite. Falam alto e bom som acerca do que ouvem para mostrar que estão por dentro; criticam o tom da voz que canta, com ar muito conhecedor, e referem a data em que a canção foi escrita - fiquei a saber que há canções do Jobim com 50 anos que são ouvidas hoje como se tivessem sido escritas ontem. Nestas andanças, as irritantes criaturas não olham para ninguém. Entram e saem para trazer bejecas com os olhos de quem está a cumprir uma missão em África e desatam às gargalhadas vá lá a gente saber porquê, mesmo no meio do refrão. 


Quem os acompanha são normalmente raparigas iguais. Muito modernas, com calções curtinhos e casaquinho de malha fininha e deformada, por cima da t-shirt com logos gigantes ou citações revolucionárias; cabelo desgrenhado e volumoso, espigado, e chinelos do tipo havaianas, mas decorados com umas florecas murchas, todas retro. Bebem brandy que também trazem cá para fora. Há as que empurram carrinhos com crianças dentro que, suspeito, provam as bebidas dos pais antes de sair de casa, porque estão sempre a dormir e com ranho seco no nariz.

 
Comecei por achar que não passavam de representantes do estereotipado intelectual de esquerda gasta, mas sou nova e não penso. Da esquerda só os que são canhotos. O resto é maneta. 


Há-os por todo o lado e desfazem por completo o prazer que há em se ouvir em sossego uma canção de Jobim. 


São os retroparvos.

 

Ilustração - G. Haderer

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe uniformizada

rabiscado pela Gaffe, em 28.07.16

Pawel Kuczynski.jpg

Pela brevíssima brisa anoitecida, a Gaffe sacode os caracóis, faz esvoaçar o vestido azul petróleo de seda fresca e com o allure que chega dos anos 50, flutua na Avenida, alterando o sossego do mar.

 

O que se lhe depara é um cenário de um filme de ficção científica de miserável categoria.

 

Gente vergada, iluminada pela luz azul de rectângulos que vibram presos à mão, que caminham sem ver, que palram e balbuciam monossílabos, com todos os tubos ligados à Nintendo, que param e disparam com um dedo que sorri depois, que arrancam das mãos esfomeadas dos petizes a ganância e a incontrolável vontade de apanhar as bolas no banco que foi detectado no brilho de espectro do pequeno aparelho.

 

Caçam Pokémons.

 

A Gaffe repensa a uniformização da infantilidade, a globalização do inútil que se desculpa com o movimento que impulsiona, e decide procurar alguém que mereça o cantarolar da última diva de Hollywood, uma das suas mais esplendorosas deusas, a que merece ser encontrada em qualquer ponto do globo. Ruiva, como não podia deixar de ser.

 

Pokémon por pokémon, que, pelo menos, se consiga uma resposta.

 

Ilustração - Pawel Kuczynski

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe descarrilada

rabiscado pela Gaffe, em 26.07.16

Anders Petersen.jpg

O calor é muito.

Talvez próximo do mar a temperatura desça e possa respirar em vez de me sentir a morder esta canícula.

 

Não gosto de gares de caminhos-de-ferro, do barulho dos comboios nos carris; dos passageiros que sopram o ar do inferno enquanto esperam; do zumbido das placas corrompidas que anunciam chegadas e partidas; dos horários em papel presos por fios; das salas de espera nauseabundas onde há sempre um casal apaixonado a sussurrar; dos vagabundos como pombos magros; dos encontrões das mulheres cheias de sacos, das pontas de cigarros pelo chão; dos quiosques atulhados em jornais por onde espreita sempre um velho revisteiro; das malas com rodinhas; dos cafés de plástico sem esplanada; das fardas dos que passam maquinistas; dos relógios que nunca acertam horas nem destinos e do pescoço da mulher que olha o mudar sucessivo dos lugares, no quadro que encima as bilheteiras, e que nunca vai partir, porque nunca chegou a nenhum lado.

 

Não gosto de gares de caminhos-de-ferro. Não gosto de sair e me encontrar com doidos vagabundos a lancetar o tempo, troncos nus, sonhos sentados e malas onde amarfanharam o destino.

 

Foto - Anders Petersen

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe a observar

rabiscado pela Gaffe, em 16.07.16
 

As constantes oscilações de humor desta rapariga são vastas vezes da responsabilidade da sua incómoda capacidade de observação.

A Gaffe observa o palpitar de tudo, escuta os batimentos dos corações dos objectos, perscruta com afinco o respirar da vida, cata com minúcia o pêlo daquilo que acontece e pesquisa à procura de faíscas escondidas nas tempestades e nas bonanças que ao seu lado pairam.

 

A observação prolongada, constante e obsessiva da vida, fornece ao observador a capacidade imediata e quase involuntária de descobrir em quase tudo pequenas migalhas, diminutas pepitas de ouro, pedacinhos de chumbo ou fragmentos de névoa, que, para os distraídos, não são mais do que absolutamente nada, mas que adquirem sob as lentes do nosso microscópio interior, valor imenso e importância clara e primordial.

 

Desses pequeninos encontros se vão erguendo histórias internas impossíveis de separar da nossa alma que se estrutura e constrói a cada passo e se reorganiza a cada momento com réstias daquilo que nos é dado olhar.

 

Quando a observação é extrema e somos dela dependentes mórbidos ou reincidentes, inveterados viciados, veteranos dessa guerra ou dessa paz, humildes servidores ou donos seguros do olhar lançado sobre as vidas, acabamos empurrados e levados, impulsionados e envolvidos, puxados e amarrotados, dominados ou a dominar, mesmo sem o querer, o observado. Somos parte integrante do que olhamos, quer quando o observado fica a milhares de vidas longe daquela que é a nossa, quer quando o que vemos está nas nossas mãos.


Inevitável é esta estranha forma de globalizar a alma e que ninguém pergunte por quem os sinos dobram. Todos os sinos dobram quando a vida é tida por inteiro, quando em nós existem e ficam retidos os traços da vida dos outros, quando em nós o olhar é muito mais que o ver.

 

Assim, a Gaffe oscila e deambula pelas emoções sem medo ou desgraça. Sabe que o baloiço é empurrado sempre pelas diversas mãos do, por demais amado, sentir do mundo a sentir. 

O resto é apenas a Gaffe de asas abertas.

 

Foto - Jiyen Lee

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe atraída

rabiscado pela Gaffe, em 06.07.16

 

Os homens mais atraentes que conheço não desfilam, pavões inexpressivos, pelos tapetes do glamour, de brilho impávido nos olhos vestidos pelo deslumbre de uma griffe. Cruzam-se comigo em cada rua, banais, quotidianos, corriqueiros, cansados dos lugares onde procuram arrancar das pedras pedaços de vida e trazem nas mãos a nudez completa dos que trocam por sonhos o esplendor da glória.

 

São homens banais, heróis já quase feitos apenas de cansaços ou palavras.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:





  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD