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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a arder no Inferno

rabiscado pela Gaffe, em 30.11.16

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Vou arder no Inferno para toda a Eternidade.

 

Provavelmente sentirei desde já as brasas dos comentários anónimos que com certeza receberei, o que me permitirá uma adaptação ao clima e não me fará estranhar a forquilha do demo.

 

É forçoso dizer que não sou adversa a qualquer crença religiosa. Deus me livre! Gosto imenso do lema - de pé diante dos homens, de joelhos diante de Deus - do velho Bispo do Porto, gosto imenso de seminaristas, admiro as cores dos monges budistas, são fabulosos os cânticos hindus de índole religiosa, apesar de não simpatizar com vacas, tenho algumas a trabalhar comigo e mais que não se diz, por ser infindo, mas sou muito terra, muito pedra, muito bruta, muito pouco espiritual, muito má e raramente me lanço nos espaços siderais ou divinais sem o pragmatismo de uma escada.

Sendo assim, e fiel à minha costela científica, percorri com afinco os blogs católicos que por aqui lançam perfume.

 

Fiquei perplexa.

 

Além das orações intermináveis, da transcrição de salmos infindáveis e de versículos bíblicos ameaçadores que nos condenam a penar agruras se desviarmos um olho durante um segundo da face luminosa de Deus para o pousarmos na braguilha do pecador que passa, somos obrigados a assumir que somos todos uma multidão de gente má, infeliz, condenável, horripilante, digna de todas as torturas celestiais e capaz de assassinar a Madre Teresa só porque a velhinha não usa um véu em condições.

A bondade impera por todo o lado - inclusivamente nas barras laterais, - e as boas acções enfiam-se pelos nosso olhos dentro mirrando-nos a nossa já perdida alma com a vergonha de não termos sido tocados pelo dedo divino, dando primazia a outros menos celestes e mais ou menos conspurcados.

 

Felizmente - é o que nos salva -  somos abençoados pela condescendência, pela abertura de braços, pela disponibilidade, pela tolerância, pela capacidade de perdoar e por todas as virtudes que se queira inventar, apanágio destes anjos da blogosfera que não hesitam um segundo - são crentes - em esbardalhar sem qualquer reserva ou pudor as fotos de família, captada nas mais impensáveis e nas mais corriqueiras situações, sempre acompanhada por gatinhos e por criancinhas que são expostas minuciosamente até lhes vislumbramos as auréolas.

 

É estranhíssimo como ao trespassar estes pergaminhos de excelso bendizer, de sobrenatural elevação, espiritualidade, bonomia, penitência, oração, dedicação ao outro, solidariedade, altruísmo, fé incondicional, celestial visão da universo e impoluto viver, me senti ameaçada, assustada e intimidada.

 

Creio que foi por perceber que até nas luzinhas ali a cintiliar, espreita o muito escuro.

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61 rabiscos

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De Corvo a 30.11.2016 às 21:38

É capaz de se safar.
Mostre-se arrependida, adopte um gato vadio, traga para casa um cãozinho esfomeado, vá dar milho aos pombos e depois já pode pecar o que lhe apetecer sem reservas que tem o lugar reservado.
JESUS AMA-A!!!
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De Gaffe a 30.11.2016 às 21:45

Vou descartar as suas sugestões, porque sei que Jesus me ama mesmo assim.
Os homens barbudos numca me resistiram.
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De Rapunzel a 01.12.2016 às 15:29

Cresci com uma educação católica. Foram-me transmitidos e cultivados todos os seus princípios. Nunca me senti confortável nessa religião, mas desde pequena que me ensinaram que era assim. Cresci com medo e terror de pecar. A ideia que me foi transmitida foi que qualquer pecado deveria ser expiado, prática assustadora e dolorosa. Muitas vezes, me perguntei porque é que as piores pessoas que fui conhecendo ao longo da vida eram as mais fervorosas católicas.
Tinha uma vida pela frente, os princípios estavam implantados e nunca perdi tempo a questionar o que me fora ensinado.
Casei. Com alguém completamente diferente, que com facilidade e rapidamente rebatia todos os meus conceitos pré-concebidos. Os seus argumentos cativavam a minha atenção, eu que sou uma rapariga de ciências exactas. Tinham imensa lógica e punham a descoberto todas as minhas dúvidas acumuladas ao longo dos anos e para as quais nunca tivera explicação. Foi uma transição rápida e fácil. E acho que hoje posso dizer que sou antiteísta. Deixei de ter medos e ganhei paz.
Hoje, aquilo em que acredito, é que há situações boas e más. Algumas podem ser resolvidas outras não têm solução. Situações alegres, outras de enorme tristeza, acontecimentos magníficos outros destroçantes. E que é a isto que se chama viver.
A minha vida tornou-se mais fácil, e tenho de ser honesta, foi das melhores coisas que ele me ensinou. Também tentou que eu aprendesse a viver sem me agarrar ao passado. Confesso que isso me é muitíssimo mais difícil. Tenho uma excelente memória e a tendência para ser acumuladora. O tempo vai passando e cada vez lhe dou mais razão. Para se ser feliz temos de olhar, principalmente, em frente. Nem sempre é fácil... Mas, actualmente, já consigo libertar-me um pouco de alguma tralha, seja física ou emocional, diariamente.

P.S.-Esta é uma declaração de amor a quem eu já muito amei e já não amo. Como tal, acho que esta é a forma de dizer obrigada a essa pessoa. Porque nem tudo foi mau e feio, mas também, houve coisas muito boas e bonitas. São estas que quero conservar, não as outras.
Para ti, D.
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De Gaffe a 01.12.2016 às 16:03

É um privilégio ser a depositária desta declaração. Obrigada.

Fui educada segundo todos os preceitos judaico-cristãos, mas sempre existiu nos meus educadores um sentido crítico e uma racionalidade exarcebados que impediram que resvalasse ou que me encharcasse de misticismo. Mostraram-me a divindade, mas nunca me quiseram convencer do seu poder infinito. Escapei ilesa.
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De Rapunzel a 01.12.2016 às 16:20

Obrigada. Um beijinho para si.
Passear por estas Avenidas é muito melhor que passear na Avenue Montaigne ou na George V.
;)
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De Gaffe a 01.12.2016 às 19:11

O que até nem é difícil, tendo em conta que não gosta de Paris.
:)
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De Maria Araújo a 01.12.2016 às 19:20

Era miúda, ao sábado, ia confessar os meus pecados e lembro-me que era um problema porque não fazia mal a ningué e pensava que as asneiras que fazia em casa eram pecados, logo dizia sempre o mesmo ao padre e detestava as perguntas que ele fazia.
Cresci,confessava-me quando me apetecia, mas sempre de pé atrás com este ato da confissão.
Um dia, adulta que era, numa confissão o padre fez-me uma pergunta a qual respondi por meias palavras.
O gajo diz-me que não me dá a absolvição e para procurar o padre da minha freguesia.
Não procurei o padre da minha freguesia, deixei de acreditar na palavra destes homens.
Na minha opinião, matar, roubar ou fazer mal ao meu semelhante é pecado.
Não matei, não roubei, não fiz mal a ninguém, desde então, e já lá vão 34 anos, nunca mais me confessei.
Mas tenho a minha fé.
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De Gaffe a 01.12.2016 às 20:16

Nunca me confessei, ou melhor, nunca me confessei a um padre.
Que coisa abominável! O homem é um estranho.
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De Maria a 06.12.2016 às 11:10

Ardes mas não ardes sózinha! Encontramo-nos lá!
Muito bem escrito MESMO!
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De Gaffe a 06.12.2016 às 11:19

Suponho que vamos ter que fazer filinha...
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De Maria a 06.12.2016 às 11:22

AHAHAHHA
Aquilo deve ter várias entradas, portas largas e acreito que não tenhamos de ser sujeitas a detector de metais, isso sim provocaria filas enormes!
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De Gaffe a 06.12.2016 às 11:24

detector de metais, não acredito.
Há sempre gente a entrar repleta de jóias!
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De Geraldo a 06.12.2016 às 13:28

"Nesse momento pensei em Ti, talvez porque acabara de ver uma Bíblia na gaveta da mesinha de cabeceira ou provavelmente porque sempre Te achei alguém bastante sombrio.
Eu vi o demónio. E independentemente do que possas dizer sobre ele, não podes negar que é empreendedor. Definitivamente, não se senta com as mãos no regaço, discutindo com ele próprio.
Não diz:- E se eu fizesse isto, e se fizesse aquilo?
Não pergunta:- Devo incendiar tudo? Talvez fosse melhor deixar que outros tratem disso. Ou esperar até amanhã. Sim, suponho que seja melhor adiar até amanhã.
Não, ele não se esquiva às tarefas, e os resultados da sua obra podem ver-se todos os dias. Guerra, doença, morte e fome; falsas promessas e ganância, inveja e desonestidade. Vira uma pessoa contra outra e a humanidade há de estar eternamente dividida em duas fações. Ouvimos segredar nas esquinas sombrias e sabemos que estão a ser maquinadas conspirações. Não, a sua obra não deixa ninguém de fora. Está sempre ocupado, o companheiro lá de baixo.
Mas Tu? Então e Tu? Onde estás quando é preciso? Porque Te escondes na névoa nessas alturas?
Em tempos ter-me-ia zangado Contigo. Não te conseguia entender e costumava olhar para o meu coração, na crença cega de que era responsável pela minha própria felicidade. Mas os meus olhos foram-se abrindo gradualmente e comecei a suspeitar que a Tua indiferença não era acidental. Será um cobarde?, perguntei-me, ou talvez já não se preocupe com a contenda. Faz com que as pessoas vivam na esperança da salvação, prometendo-lhes a vida depois da morte.
Se acredito na Tua existência? Oh, não sei. Sem dúvida sentir-me-ia melhor se pudesse responder incondicionalmente de uma forma ou de outra, mas infelizmente não é possível. Chego por vezes a confundir-vos aos dois, Tu e o teu companheiro lá de baixo. Qual dos dois poderá estar por detrás disto?, pergunto-me às vezes quando folheio um jornal e leio uma notícia acerca de um desastre, mas nunca descubro a resposta. Então, através da janela o sol brilha na minha mesa, nos cogumelos, amoras, patos ou gansos, e o vento sussurra doces nadas ao choupo e os meus pensamentos viram-se felizmente para outras coisas."

Olaf Olafsson, O Regresso a Casa.
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De Gaffe a 06.12.2016 às 14:15

Muito bem.
Obrigada.

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