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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a festejar

rabiscado pela Gaffe, em 02.02.18

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Entrou como alteração climática.

Tenho de sair. Há demasiado tempo que não me divirto. A festa de aniversário reúne toda a gente que conheço.

- Enfim, quase toda a gente, porque a tua irmã também foi convidada.

Estou miserável.

- Não! Estás óptima. Nunca estiveste tão perfeita.

Tenho nos pés umas pantufas em forma de ratazanas, um pijama azul melado com um slogan a rosa desbotado - Where Are You Friday? - e o cabelo parece ter servido de ninho aos animais que trago calçados.

É admirável como se torna fácil reconhecer que a mentira pode ser também um pequenino oportunismo egoísta que se escapa inconsciente quando dela depende a nossa satisfação instantânea.

- Ninguém vai reparar que não te divertes desde que o coiso foi enfiar o braço até ao cotovelo no pipi das vacas do Minho, por causa daquilo dos ovos. Isto não soa nada bem, mas tu entendes o que quero dizer. O homem é estranho!

Suspiro.

- Meu amor, só as freiras esperam que o paraíso chegue, enfiadas numa cela doentia. Nós que somos saudáveis temos GPS.

 

Desisto.

 

Duche, vestido preto, colar pequenino, sapatos confortáveis e cabelo desgovernado que não tenho forças para legislar.

- Estás tão Meg Ryan … claro que antes da pobre ter mumificado!

Não faço ideia se devo, ou não, considerar elogiosa a aproximação. Só recordo a actriz na cena em que simula um orgasmo numa cafetaria qualquer e, para ser honesta, sempre achei que as minhas simulações eram melhores.

 

- Leva o casaco com capuz de vison, que de noite faz frio, como diz a velha. Dizes depois aos ecologistas parvos que lá vão estar que só mataste os netos dos bichinhos que estão agora protegidos, porque que não sabias que tinhas de aturar a porcaria dos vegan.

Inútil ver esclarecido o assunto.

 

Voamos.

A festa de aniversário de um amigo merece sempre as asas de um albatroz. Neste caso de um albatroz tresloucado e impaciente, capaz de transformar em lenço de Isadora Duncan as criaturas que se atrevem a pisar as passadeiras. Receei inúmeras vezes chegar ao local do encontro com gente no tejadilho do carro ou colada ao pára-brisas.

 

É extraordinário o impacto com aqueles que conhecemos, ainda que vagamente, mas que não encontramos há muito tempo.

Foi curioso ter verificado que a esmagadora maioria dos homens - trintões, já que a festa se compunha deles - usava barba. Um amontoado de barbas muitíssimo bem desenhadas, rasas, pequenas, grandes, gigantes, todas lustrosas, todas delineadas, todas perfumadas, todas hidratadas, todas design – diria a velha – todas hipster, todas aborrecidas e todas prontas a seduzir, esquecendo o facto de, pela quantidade, nos confundir os donos e nos obrigar a tentar identificar o barbudo através de outras características menos mediáticas. As calças, por exemplo, ou o que dentro delas nos chega aos olhos. Foi interessante encontrar as que provavelmente são usadas para evitar o laser, os cremes e as ceras depilatórias, pois que, de tão justas, quando arrancadas, sacam toda a pilosidade por onde passam e, no caso dos mais incautos, a piloca vem apensa. Conseguir um movimento largo dentro delas é um mistério quase do tamanho de um dólmen, pese embora não se tenha avistado nenhum megalítico esteio por entre a multidão.

Outra minudência observada reporta-se às camisas todas de um branco imaculado dos moçoilos, com o colarinho apertado a anunciar o esmagamento da jugular que ouve, já morta, jazz – do mais puro e do mais duro - e vai debitando considerações acerca das performances recentes da nova intelectualidade internacional.

 

As meninas baloiçam bugigangas caras pousadas em Chanel, escrupulosamente, impecavelmente, divinalmente penteadas, e riem-se imenso, imenso, imenso, imenso, saltitando de Sartre em Sartre até, se encontrar Simone perfeitamente maquilhada num charro mergulhado em vodka martini.

 

Faço avançar por entre a multidão as labaredas tresloucadas do meu cabelo, abrindo alas com a ameaça de incêndio e beijo o aniversariante que, esmagado de ternura e de presentes, tenta sobreviver aquele tsunami de imbecil e plastificada sofisticação.

 

Deuses! Só um drone - e eu dentro dele - me faria suportar uma pindérica imitação da maravilhosa fotografia de David Stewart.

 

Sinto-me velhíssima!

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4 rabiscos

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De Pequeno caso sério a 02.02.2018 às 22:51

Sabes que das poucas vezes que saio à noite já me sinto...desenquadrada?
Logo eu que durante anos gozei todas as noites que pude...com tudo à que tive direito.
Agora prefiro 1000 vezes ir a um bar mas sem nunca ficar até muito tarde.
Nunca pensei dizer isto mas porra, há que aceitar que o tempo das "nights" já passou.
:/
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De Gaffe a 03.02.2018 às 00:04

Sabes que não foi por me sentir desenquadrada? Não me senti. Foi por ter a perfeita noção que deixei de me identificar com a minha geração, ou com parte dela, pelo menos.
Uma tristeza.
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De Maria Araújo a 05.02.2018 às 21:38

Adorei o "Meg Ryan".
Já constatei que as barbas andam em todos os rostos masculinos.
E tudo o mais aqui registado parece ser igual em tudo e todos.
Velha?!
Não!
Selectiva e única.
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De Gaffe a 06.02.2018 às 09:15

Todos os homens da minha família usaram e usam barba. Sou muito exigente em relação a esse detalhe. Estou habituada a detectar qualidade.
:)
Selectiva, creio que sou exageradamente.

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