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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a sussurrar

rabiscado pela Gaffe, em 21.06.17

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Nas minhas memórias arrasto o passado sem olhares de ânsia inútil ou sem qualquer amarfanhar de alma que vem do desejo de recuo. Olho para mim e acredito que tudo o que vivi não agarra e não contém o germe capaz de fazer rebentar flores carnívoras.

Lembro, por exemplo, da primeira vez que vi a Luzia, mas tal recordação não me leva a nenhum sentir doloroso. Sei que a vi à entrada da casa, junto ao portão de ferro forjado. Havia ainda a alameda de vinhas despidas e um caminho de terra calcada que teria de percorrer até me chegar. Ao longe, a Luzia parecia ainda mais pequena do que realmente era. De vestido cinzento, comprido e tubular, de avental gigantesco, imaculado, e um lenço enrolado no pescoço. Um lenço amarelo tostado, liso e limpo, emergindo do antracite do conjunto. Permaneceu quieta por momentos e depois arrancou com passinhos decididos. Através da janela, via-a aproximar-se. Primeiro foram os olhos. Negros, minúsculos e aguçados, pareciam andar mais depressa do que a dona. Chegaram de repente e apanharam-me desprevenida. O seu olhar cheirava a perigo. Era predador e eu julguei ser a caça. Antes da mulher ter chegado completa, já me tinha escondido dentro do colo da minha avó.

O seu amor absoluto foi-me entregue todo e exactamente por isso acabei presa inevitável. A sua ternura sempre contida, sempre doseada nas relações com os outros, tornava-se comigo uma vigilância doce e protectora.

Amava-me, mas nunca o deu a perceber de forma clara. Como se o seu sentir fosse dado adquirido ou facto a ignorar porque revelador de falhas. Sentava-se a uns metros de mim e ficava ali, quieta e em silêncio, de mãos pousadas no avental, a provar que era amor aquilo que eu via. Com o tempo percebi que nesses momentos a Luzia vigiava. De olhos aguçados, cheirando o ar, atenta ao mais irrisório movimento, afastava-me da vida sem perceber que essa protecção tornava predador o amor que me entregava.

 

No início das tardes, depois do almoço, a Luzia alisava com as mãos o tecido branco da toalha. Preparava o jogo, perante a impaciência da minha avó, que adiava, de braços cruzados e murmúrios entre dentes, a ordem de se limpar a mesa. Fazia depois minúsculas bolas com o miolo do pão. Colocava-as alinhadas e marcava a meta, largos palmos longe delas, com um traço de unha sobre o pano.

Tínhamos, eu e o meu irmão, de soprar as bolas de pão ao mesmo tempo, com força e de forma contínua, até que uma tocasse no risco da meta. A vitória era levada por uma colher ao boião de mel, embebida nele e oferecida como guloseima. O jogo foi adquirindo algumas variantes e, com o tempo, para além do sopro, deveríamos ser capazes de ciciar, de fazer escapar as sibilantes, encontrando o sinónimo da palavra que a minha avó, que se rendia sempre, tinha escolhido e que inevitavelmente seria solta com sons de assobio.

À espera de um rumor, as duas cravavam os olhos na minha boca e na do meu irmão à espera que um de nós articulasse os sons desejados. Mas as bolas de pão que o rapaz soprava eram sempre mais rápidas e chegavam à meta antes de se soltar qualquer soído de serpente. Dia após dia, mês após mês, colheres mergulhadas em mel passaram inúteis pela minha esperança que teimava em jogar e que eu sabia, tão bem como minha avó, ser absurda.

Nunca ganhei.  


A minha absoluta fragilidade de alma, a minha indomada e dolorosa insegurança nasceram ali e cresceram soltas, perto dos olhos vigilantes da Luzia, uma das mais fenomenais mulheres da minha casa.

 

Morreu ontem, pela noitinha.

 

Um dia perguntei-lhe qual era o seu maior sonho. Disse que me iria rir se o soubesse.

Jurei que não.

Queria muito ver os macacos no Jardim Zoológico.  

Nunca chegou a ver os macacos enjaulados e eu nunca ganhei o jogo das toalhas brancas.

 

Só agora sei o que significa sussurar.

 

Imagem - Denis Sarazhin

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Gavetas:


12 rabiscos

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De Pedro Wasari a 21.06.2017 às 14:31

Este seu sussurro mais parece um "grito de alma"
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De Gaffe a 21.06.2017 às 14:44

Não é.
É apenas uma vida vivida como tal, vivida em sussurro.
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De Fleuma a 21.06.2017 às 16:53

Terá de me ser perdoado o desabafo, mas creio piamente que quando a sua escrita se escorre assim, labiríntica e a exorcizar a alma, algo se torna gigante e ultrapassa o que habitualmente aqui leio...

É uma sensação estranha e ainda assim reconfortante.

Talvez porque existam muitas maneiras da alma viajar.

Sim. Estas são palavras com um brilho muito próprio.
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De Gaffe a 21.06.2017 às 19:07

E no entanto, o que escrevo habitualmente ajuda-me muito a evitar que me doa a alma.
:)
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De Pedro Wasari a 22.06.2017 às 09:12

E nada melhor para a dor de alma que um grito, mesmo vindo a forma de um sussurro.
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De Gaffe a 22.06.2017 às 19:41

Suspeito que todos os sussurros são gritos apagados.
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De Kalila a 21.06.2017 às 20:13

Lamento muito, Gaffe.
Ficam as lembranças.
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De Gaffe a 21.06.2017 às 22:00

Obrigada.
Foi uma honra tê-la ao meu lado.
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De Pequeno caso sério a 21.06.2017 às 23:35

É maravilhoso ver a maneira como falas dos que te marcaram.

Curiosamente, amanhã vou ao jardim zoológico. Quando estiver perto dos macacos posso deixar por lá uma bola feita com miolo de pão...
Queres?

:)*
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De Gaffe a 22.06.2017 às 00:14

É uma bela ideia. Provavelmente estás a brincar, mas se o fizeres, por favor, diz-lhes que é a Luzia que a oferece. A Luzia iria gostar muito.
:)*
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De Pequeno caso sério a 22.06.2017 às 00:19

Não estou nada a brincar. Vou MESMO ao zoo.

Fica combinando. A bola de miolo de pão será entregue.

:)*
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De Maria Araújo a 25.06.2017 às 14:50

Sem palavras.


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