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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe anciã

rabiscado pela Gaffe, em 11.01.17

biblioteca.jpg

 

Escondia-me no minúsculo compartimento, mandado construir por ordem da minha avó, no vão das escadas. Ouvia as mulheres de lá para cá, à minha procura sem muita vontade, cada vez mais lentas, até desistirem e se sentarem a um canto onde mastigavam o silêncio.

Era ali, apertada e abafada, que sentia poder viver naquele sítio para sempre. Subdividia o chão e destinava espaços para os meus brinquedos mais importantes. A luz que escorria das frinchas da madeira traçava no chão do cubículo compartimentos onde seria possível construir histórias independentes. Quase imóvel, movia-me. Os meus olhos corriam desenfreados procurando não perder nada do que se passava no chão. Durante horas brincava sem me mover, sentada no chão, de cabeça pousada nos joelhos.

 

Por vezes espreito o despovoado que ficou depois do abandono. As tardes da memória voltam outra vez. Aproximam-se voando como minúsculas folhas de papel desenhado que vou colando à toa, sem qualquer critério. Nunca fui uma boa coleccionadora. As estampas da minha infância foram todas amealhadas em parceria com outros que acabavam por ficar com as colecções completas e com a minha anuência. Não sei catalogar tudo o que encontro cá dentro, mas apuro todos os sentidos quando procuro aquela em que o meu avô me encontrou.

 

Era franzina. Magricela. Tinha olhos transparentes de espanto e timidez e labaredas corajosas no cabelo. Segurou-me no colo e prometeu que me daria um lugar melhor para eu ficar e que seria meu para todo o sempre.

 

Deu-me a biblioteca.

 

Sem que eu percebesse, o meu avô iniciava naquele instante a minha aprendizagem literária.  

 - Lê primeiro os velhos. Não conseguirás crescer se não souberes por onde começar. Ao contrário do que te dizem, os velhos são sempre o lugar de onde partimos. São sempre o início de qualquer coisa tua.  

 

Depois, já mais crescida, envelhecíamos juntos nas alamedas do jardim.

Encostava a cabeça ao braço dele, depois - primeiro o pé esquerdo, depois o outro, depois os olhos, depois os dedos, depois cada palavra pisada no caminho -, íamos envelhecendo o coração.

 

Mostrou-me Fernão Lopes que mais não disse por ser a verdade, fez-me ouvir os sons das batalhas nos Lusíadas, ouvi o Padre e fui também um peixe, ri-me com Eça dentro do riso que me ia guiando, atravessei países, conheci Cervantes e corri ao lado das irmãs Brontë.  

 

Dante. Shakespeare. Balzac. Proust. Mann. Elliot. Joyce. Auden. Musil. O maldito Celine. Mallarmé. Baudelaire. Shelley. Withman. Keats. Byron. Os Gregos. Os russos.

Os outros velhos todos por onde me perco por não saber dizê-los.   

Assim. Misturados. Como se surgissem à toa e sem critério nos lanhos de luz do esconderijo para que os ouvisse a contar histórias.

 

Era frágil e franzina. Tinha olhos transparentes de espanto e pequenez e labaredas tontas no cabelo. Ele segurou-me no colo e deu-me o melhor lugar para eu ficar.

Agora é meu e sei envelhecer.

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18 rabiscos

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De a mãe dos PP's a 11.01.2017 às 11:16

e como é bom saber envelhecer
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De Gaffe a 11.01.2017 às 11:26

Sobretudo num lugar igual a este.
:)
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De Cecília a 11.01.2017 às 11:36

que delícia, gaffe
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De Gaffe a 11.01.2017 às 11:37

Ele era.
:)*
Obrigada.
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De Corvo a 11.01.2017 às 14:06

Poças, Gaffe. Isso é que é!
Entrou logo na equipa sénior sem passar pelos iniciados, infantis, juniores e vai logo para os pesados.
Já eu fui com moderação. Primeiro Romano Torres, depois Corin Tellado, seguidamente a Ségur, avançando para Verne, passando por V Hugo, conhecendo Zola pelo caminho, lançando-me para Dumas e os pesados só lá por volta dos dezasseis, dezassete
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De Gaffe a 11.01.2017 às 14:12

Ah! Não!!!
Passei pela Literatura infantil e juvenil, como seria de esperar. Foi um envelhecimento lentíssimo e extraordinariamente bem orientado.
Jamais se cometeria esse erro. Nunca me lançariam às "feras" sem primeiro ser preparada condignamente.
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De Corvo a 11.01.2017 às 16:13

Ah, mais descansado. :)
E nesse progressivo e salutar envelhecimento, por acaso ainda se lembra do seu primeiro livro?
Eu lembro-me do meu e nunca o esquecerei.
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De Gaffe a 11.01.2017 às 16:44

Lembro! Claro que me lembro!

"Contos de Perrault". Era inevitável.
:)))
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De Corvo a 11.01.2017 às 18:03

Claro, inevitável e previsível. Também li, mas não foi o primeiro.
O meu primeiro até me recordo do título, era "a gatinha encantada" da colecção Manecas editado pela Majora.
Foi-me oferecido por uma indelével e generosa senhora que queria ser minha mamã, quando eu andava à volta dos nove anos.
Tratava-se de uma menina muito desobediente que uma fada má castigou transformando-a em gatinha, ( onde se comprova que as fadas más que castigam as meninas desobedientes já vem de longe) )
O que eu me fartei de chorar. Mas não se ria porque a pedagogia de então não era propriamente a de hoje.
Seguramente se fosse hoje, com essa idade, mandava às urtigas o sofrimento da menina desobediente e avançava para o "jogo do muelle"
Recordações, Gaffe; tudo são recordações.
Valem pela beleza que encerram, enquanto as dolorosas não chegam.
Bonito post.
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De Gaffe a 11.01.2017 às 18:14

No antigamente das estrelas havia jogos bastante ousados e igualmente perigosos. O problema é que foi há tanto tempo que já ninguem se lembra deles.

(A minha avó usou o "Capuchinho Vermelho" para me explicar a menarca. Entendi tão bem!)
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De Corvo a 11.01.2017 às 20:33

Pois eu como não tinha avozinha diligente só desvendei o enigma do capuchinho por volta dos meus quinze; e de caminho, o da branca de neve e dos sete querubins.
Mas não se estranhe; os seus onze, doze aninhos, data provável em que a avozinha chamou a a netinha para ao pé dela, por comparabilidade com os meus existe um espaço temporal, assim por alto, de uns quarenta ou mais anos.
Foi portanto aos quinze, dezasseis que as portas do conhecimento profundo se me escancararam para a clarividência.
Quatro anos depois, de arma em punho matava gente. A partir daí foi sempre um ver se te avias no adquirir de conhecimentos.
Teve uns avós fantásticos.
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De Gaffe a 11.01.2017 às 21:54

A partir de certa altura, o menino vinga-se.

Tive avós de tal forma magníficos que acabo a espantar-me com a minha tão profunda imperfeição, com a minha pequenez, a minha ignorância, a minha irrisória existência, a minha banalidade e a pobreza dos meus sonhos.
:(
Apenas sei que os tenho dentro. Digam o que disserem, guinchem o que quiserem, esse facto transforma-me, orgulha-me e eleva-me. Basta saber e sentir que descendo deles para ser maior do que eu. Nenhuma voz se sobrepõe à minha, nenhum facto me contradiz. Sou a neta deles.
:)
Não adianta uivarem.
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De Corvo a 11.01.2017 às 22:06

Muito bem, Gaffe.
O orgulho que perpassa nesse grito de alma: Sou a neta deles!


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De Gaffe a 11.01.2017 às 23:27

Nenhum guinchar, nenhum zunir, nenhum conspurcar de tacanhez, nenhuma mesquinha mediocridade e nenhum risco no vazio pode alterar esse facto.
É exactamente ele que me faz maior do que eu.
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De Pequeno caso sério a 11.01.2017 às 17:55

Grande senhor esse teu avô. Ofereceu - te dos melhores presentes que podemos ter : afeto e leituras. Pelo que de ti vou conhecendo, ofereceu - tos na mesma medida. Não admira que sejas...especial.

;)*
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De Gaffe a 11.01.2017 às 18:18

Sabes que os grandes senhores são afectuosos e amáveis por natureza. Apenas os medíocres são arrogantes e incultos.
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De Maria Araújo a 13.01.2017 às 14:15

"Ao contrário do que te dizem, os velhos são sempre o lugar de onde partimos"
Adorável, Gaffe.
O avô deixou-lhe um bela herança e conhecer todos esses clássicos, não é para todos.
Li alguns dos que referiu: Dante, Shakespeare, Balzac, Elliot, Joyce, Baudelaire, Withman, Keats e Byron.
Tenho uma coleção de livros de alguns destes autores.
Li-os há muitos anos. Lamentavelmente, e não tenho qualquer problema em dizê-lo, pouco me recordo do que li.

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De Gaffe a 13.01.2017 às 15:13

A minha vida foi preenchida pelos meus avós. Ensinaram-me o que sou e a respeitar a minha força e as minhas fragilidades.
:)
O meu avô foi lentamente, muito lentamente, abrindo os horizontes literários. A minha avó foi a que os solidificou.

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