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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe anónima

rabiscado pela Gaffe, em 26.05.15

winter crane.jpgUm anónimo pode ser como o gato que o menino atira do segundo andar. Esbardalha-se-nos na cabeça quando deslizamos breves e leves pela brisa da tarde. Pode também ser a timidez que encontra no anonimato um romantismo seboso, mas esta última variante é menos vulgar.

A Gaffe não acredita que a ausência de referências que caracteriza um anónimo seja devida a uma falta de coragem. Apesar de tudo, tem de se ser corajoso até para se ser um energúmeno.    

Esta energumunice tem, entre outras, duas versões que interessa reter.

 

Há os anónimos que surgem do nada e que de dentes arreganhados, nos rosnam impropérios. Podem usar um petit nom para sossego das suas inseguranças e aparecem como o Príncipe das Trevas ou a Maluquinha de Arroios, muito literários, ou Manuel das Iscas, popular, ou ainda José Dias Aguiar, quotidiano. São os anónimos ligeiramente conservadores cujos insultos trazem um travo de moralidade azeda e de inflamações purulentas que cheiram a mofo e a catequese.

Por estranho que pareça, para além de imbuídos de um patriotismo rançoso, abanam os panos de ideologias e de causas até os rasgarem nos pregos que trazem na língua. Esquecem que para vencer uma batalha é preciso que reconheçamos que somos parte do inimigo. Não há tão grande perdedor como aquele que chega ao campo de guerra a acreditar que é o antónimo do adversário.

A Gaffe fica siderada com estes anónimos. Perante os seus comentários, fica catatônica. Jamais entenderá esta forma de se ser patético.

 

Há depois os anónimos com vago sabor a Pessoa.  

São apanágio daqueles que comentam os seus próprios escritos. O inglês vê o elogio ou a exortação – geralmente não ultrapassam estas fronteiras - e finge acreditar que o que lê é alheio ao comentado. São os mais tristes e patéticos, porque revelam uma solidão desesperada. A inutilidade deles é como que privada, transformada numa ilusória companhia, num desejo doentio de se ser ouvido e de se ter alguém a quem responder.

São os que comovem.

 

Haverá outras modalidades. A Gaffe não tem microscópio para as analisar.

 photo man_zps989a72a6.png

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14 rabiscos

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De Neurótika Webb a 26.05.2015 às 12:20

ahahaha...pelo estilo adivinha-se o autor...lindo!
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De Gaffe a 26.05.2015 às 13:24

Eu achei encantador.
:)))
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De M.J. a 26.05.2015 às 14:21

o teu amigo é incrível :)
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De Gaffe a 26.05.2015 às 14:26

Às vezes doido.
:)
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De Maria Araújo a 26.05.2015 às 14:49

A ausência de pontuação, neste espetacular texto, mostra como são os anónimos; os que, cobarde e gratuitamente, escrevem de nada.
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De Gaffe a 26.05.2015 às 15:06

Creio que o texto transcrito não é tão revelador como referes.
Aproxima-se de Sttau Monteiro (enfim, uma vertente menos conhecida) e é um de vários que são uma delícia. Visa os anónimos apenas como pretexto para uma dispersão de escrita absolutamente divertida, embora bastante cruel.
:))
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De Linda Porca a 26.05.2015 às 15:37

Sou tão fã do teu amigo, que pede que lhos bloguem e nunca-jamé usa vírgulas :)
E, mais recentemente, também tua :)
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De Gaffe a 26.05.2015 às 16:36

Meu amor!
Quem escreveu a "redacção" NÃO foi o "bloga-mos".
Tinha razão em suspeitar que estavas enganada.
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De Linda Porca a 26.05.2015 às 16:40

Great and similar minds? :D
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De Gaffe a 26.05.2015 às 16:54

Similares, não.
:)

Digamos que ambas muito interessantes.
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De Linda Porca a 26.05.2015 às 16:55

Tu, que, além de artista plástica, ainda consegues escrever em dois registos tão apurados :)
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De Gaffe a 26.05.2015 às 16:57

Não!
Não consigo. A "redacção" não me pertence, infelizmente.
O único registo alternativo que ainda vou aguentando é o do "Faz de Contos".
Mesmo esse, pobre coitado, anda como um deserto.

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De Linda Porca a 26.05.2015 às 18:16

Consegues, então não consegues?
Quem faz o Faz de Contos e a Gaffe, faz o que quer das palavras.
(Caramba, já tinha o feed pouco cheio, lá vai mais outro em poucas horas :))
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De Gaffe a 26.05.2015 às 20:26

Sabes que fazer o que quero das palavras, foi "coisa" que nunca esteve no meu horizonte?!Faço o que posso.

Normalmente são as palavras que fazem o que querem de mim.

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