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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe anunciada

rabiscado pela Gaffe, em 07.07.17

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Passo todos os dias por um esconso e velho café encardido que me bate logo pela manhã com um cheiro de fritos mal a porta abre para deixar passar o dono, musculado e bazófia, com as cadeiras de plástico branco da esplanada curta. 

 

A porta do café encardido serve de montra de obituários. Aparecem vastas vezes colados ao vidro os anúncios de morte. Papéis A4 onde a fotografia de alguém encima a notícia, fornecendo ao mesmo tempo, entre parênteses, as datas do início e do fim do retratado, logo seguida da indicação da idade - para evitar fazer contas -, e os agradecimentos da família que informa o local das exéquias e a data da missa do sétimo dia.

 

Já vi, colados ali ao mesmo tempo, quatro avisos, uns ao lado dos outros. Lembrei-me de eleições. Não sei porquê.

 

Sempre me surpreendeu que um café encardido e vadio tenha esta vocação, mas disseram-me que era hábito nas terras pequenas colar nos estabelecimentos anúncios de gente que passou para o outro lado de modo a que mesmo os vagos conhecidos fiquem a saber desse desfecho.

Sempre me atraíram estes anúncios tétricos que mostram gente que sorri numa fotografia tipo passe ou naquela mais bonita, que favorece, tirada por um profissional, ou a outra, que foi captada quando havia tempo para se estudar a pose.

 

Paro e leio.

 

Preocupa-me com a idade dos que morreram - as fotografias nem sempre revelam a contabilidade da vida que acabou -, como se a velhice me concedesse uma surpresa menor, de menor qualidade, de menor hipocrisia.   

Era já velho – perdoo à morte.

E era tão novo quando me deparo com o extremo oposto.

 

Nunca reconheci ninguém, mas sinto que me cruzei algures com todos. Perscruto a ruga na união das sobrancelhas, o trejeito no lábio, o desenho dos olhos, o sinal na bochecha, a verruga na testa, a mais ínfima pista que me indique o lugar onde aquela fotografia passou por mim ainda viva. Nunca os vi. Não me lembro de os ter visto. Nunca me viram. Não me lembro de os ter visto a ver-me. A vida deles passou-se longe da minha e é apenas o anúncio colado na porta do café encardido que me faz chegar ao sítio onde pararam.

 

Fico a pensar que muitas vezes, demasiadas vezes, ficamos de repente a olhar alguém que caminha ao nosso lado - vivo e ao nosso lado, regulando os passos pelos nossos, interrompendo o movimento dos braços com abraços -, e a descobrir que olhamos para um anúncio de morte colado na porta do café da nossa alma encardida e que nunca conhecemos o rosto de quem naquele instante é percebido findo.

 

Às vezes, penso que a vida é aquele velho café encardido a cheirar a fritos logo pela manhã, onde Caronte vai montando a esplanada curta com cadeiras de plástico, e que não somos mais do que anúncios que vai colando depois no vidro da porta.       

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Gavetas:


6 rabiscos

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De Kalila a 07.07.2017 às 19:39

Parabéns por isto, Gaffe!
Ia a passar a correr mas tive que me deter a saborear. Muito muito bom!
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De Gaffe a 07.07.2017 às 20:55

Obrigada.
:)
Ultimamente toda a gente passa por mim a correr!
Espero que seja apenas com pressa de ir para férias...
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De Kalila a 07.07.2017 às 21:13

Os outros não sei, eu é mesmo por falta de tempo... É caso para pensar: "ninguém me mandou meter nisto!" :)))
Bom fim de semana, amiga.
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De Gaffe a 07.07.2017 às 21:35

Mas ainda bem que isso aconteceu.
:)
Bom fim-de-semana.
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De Pequeno caso sério a 07.07.2017 às 22:37

Nem todos, minha amiga, nem todos.
Há quem se demore em ti. E goste.
; )*
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De Gaffe a 07.07.2017 às 23:14

"Demorarmo-nos em alguém."
É uma expressão fabulosa.
:)

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