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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe arqueóloga

rabiscado pela Gaffe, em 27.08.16

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A hora do entardecer é a minha preferida.

As portas das varandas da sala principal do hotel estão abertas e aquele homem, voltado para a luz laranja que morre no exterior, deixa que se espalhe pela casa o aroma asfixiante dos desertos que de tarde se tinha tornado abelhas atraídas pelo odor futuro do chá.  

 

Partículas de luz ruiva, roxa, arroxeada, volteiam pela sala.

 

As mulheres rodopiam, decotando sorrisos e sacudindo as saias de linho ou seda fresca e os homens usam camisas com botões que brilham devagar no aprumo devido aos templos que visitam.  
Tilintam perto campainhas e é desfraldado o barulho dos bules e dos copos de vidros lapidados.

Há gritinhos e saltinhos das senhoras e os cavalheiros procuram a formatura que lhe permite cumprir com honra e tino o ritual já velho.

 

O cheiro esbatido do corpo do homem começa a sentir-se enrolado no ar, escondendo-se nas fendas dos móveis. É o aroma de um corpo cansado que já aniquilou o contido no frasco com travo de sândalo. É um perfume com sabor, como se tivéssemos uma chave na boca.  

 

Há um rasgo no braço da camisa e sangue seco, castanho. As pedras de Petra vingam-se, rasgando com punhais os braços daqueles que as tentam entender.

Há um anel de ouro no dedo do homem. Um anel que é a fusão de outras alianças, mortas ou prontas a esquecer, a ser perdidas, mas com o tempo suspenso e sentença adiada.

Há nódoas de terra seca nas calças do homem e o couro do cinto, velho, já manchado, tem uma fivela de metal escurecida e gasta.

Há os pés pousados no chão como se às pedras faltasse o contacto do dono para arrefecer.

Há as rugas que a fúria do sol escavou.
Há sulcos cavados no espaço que existe entre as sobrancelhas, no instante exacto do nascer da cana do nariz recto e perfeito e há riscos sem suavidade na testa larga e ampla. O tempo cravou os dedos de pedra com a crueldade dos dementes na esfacelada pele como se de barro indefeso fosse a carne.  
Há a platina da barba e há o irreparável erro de ficar.  

Há depois o olhar que já pertence todo a esta terra. O olhar que aprendeu a dar as ordens certas durante três décadas e que passou a amar definitivamente as pedras só por saber que vai morrer primeiro.  


É notório o encerrar definitivo das emoções naquela criatura reservada. A mais banal das questões é tida como lança disparada e a mais clara ou pateta das perguntas é olhada com escárnio. A nada se responde e a nada se atenta. No entanto, esta aparente indiferença parece vir mesclada com a argúcia dos adivinhos. Nada surpreende, porque tudo já foi visto.  
O tempo, que abre fendas nos rochedos, simultaneamente fechou templos e permite apenas que se vislumbre uma luz pálida do interior desta alma através das frestas que cavou no corpo deste velho arqueólogo.  
Desses vislumbres, solta-se a impaciência que o tempo de que falo exacerbou. Magoa com as botas o soalho, de lado para lado, mãos cruzadas nas costas, punhos fechados e mudez absurda, alterando o requinte vagamente absurdo das tardes de chá amargo amaciado por pequenos biscoitos de gengibre e canela. Espera que tudo esteja pronto e arrepende-se de ter permitido a invasão da ruiva esbaforida com o calor. Morde as pequenas rodelas adocicadas, mistura-as com travos de chá amargo e quente.

- Incendeia-nos de frescura esta mistela - e morde mais. 

É este o homem que prefiro, mais do que às horas dos entardeceres.

 

Envelheceu no meio de lugares que não lhe foram ditos. A consciência do seu declínio derruba as pedras e rompe arrolando os meus instantes.

 Tem sede e água ao mesmo tempo. Tem a mágoa de ter sido poupado a lugares de dor imensa, porque esteve sempre debruçado sobre o maior amor que a alma pode dar. O amor ao que sabemos que ficará depois de nós, inevitavelmente. Tem pena e todo este lamento se escoa na certeza de partir em breve - sou um velho, - de se sarar por dentro e entregar um coração qualquer, que desconhece agora, ao centro de outro lado.

Voltado para mim, ergue a sombra que o envolve. Ergue só para mim, da mesma forma, outros espaços, porque é nele que estes espaços se resumem. É por ele que os vejo, que os sinto, como se não houvesse lugar impune àquele corpo esguio e envelhecido, como se nada houvesse ou tudo fosse nele.

 

- Já nem sei quem sou.

 

Ouvia-o na sala do chá amargo e dos biscoitos de gengibre, voltado só para mim, e já não sei se foi há pouco tempo ou se a voz me chega de outras eras.

 

- Gosto tanto de si! - sou tão banal.

- Ah! Envelheci no dia em que uma mulher, a última que amei, completou essa frase. Acabou-a dizendo que gostava um dia de encontrar um homem como eu.

- Mas é uma lisonja. - espanta-se a tontinha.

- Minha pequenina Petra, eu sou um homem como eu.

 

Foto - Jane Chong

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24 rabiscos

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De Teresa a 27.08.2016 às 10:13

Sempre uma maneira de escrever tão doce! Obrigado!
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De Gaffe a 27.08.2016 às 13:23

Obrigada.
Nunca me tinham dito isso.
:)*
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De Teresa a 29.08.2016 às 19:09

É apenas a minha sincera opinião logo não há nada a agradecer!*
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De PA a 27.08.2016 às 19:45

Se me deixasse apaixonar pelo escritos, estaria apaixonado por si ;)
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De Gaffe a 28.08.2016 às 11:13

É uma razão como outra qualquer, não acha?
:)*
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De Fleuma a 27.08.2016 às 22:46

Enquanto lia estas palavras, por cima de todas as outras ideias que eu tivesse, duas recordações ficaram: absurdamente, recordei-me de Hemingway. Sinceramente, estas palavras escritas revelaram uma potência tão rasteira que me lembro de sentir algo assim apenas nas leituras de Hemingway. A outra recordação, bem mais cara e presente tem a ver com as minhas vistas frequentes à parte mais primitiva de Marraquexe e o vaguear pelas ruas estreitas e cheias de vendedores. Acabando inevitavelmente, no fim de tarde, sentado num bar a beber chá com licor e a fumar. Já estive em Petra 2 vezes. Mas foi em Marraquexe que senti muito do misto de emoções destiladas nestas palavras. Embora prefira o frio nórdico, por razões pessoais, isto teve o condão de me despertar memórias ...

Creio que o triunfo deste post, reside na atmosfera. Eu sou um vampiro atmosférico. E sinceramente, ainda não tinha lido nada tão espessamente atmosférico como este post por estes lados. Daí a surpresa.
Lamento se fui demasiado longo, mas são estas tonalidades que representam aquele soco no queixo dos incautos que raramente encontro noutros blogs.

Saúde,
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De Gaffe a 28.08.2016 às 11:28

Há um grande plano do rosto do escritor que talvez tenha sido evocado e invocado pela fotografia que escolhi.

Temos sem dúvida em comum essa "inclinação" pelas atmosferas e pela vontade de as sorver.

Nada mais faço do que tentar vivê-las em todos os locais por onde passo e nem sequer me poupo nas grandes urbes.

Sou claramente de Inverno, mas, como tonta e fútil rapariga que sou, jamais poderia deixar escapar a oportunidade de usar o guarda-roupa da belíssima Kristin Scott-Thomas no "O Paciente Inglês".

Um beijo.
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De Marcel a 27.08.2016 às 23:43

Vi-a olhar muito para mim, mas não imaginei que me fosse descrever tão detalhadamente :)
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De Gaffe a 28.08.2016 às 15:48

É bom saber que existem mais homens como ele.
:)
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De Marcel a 28.08.2016 às 21:08

Mudou a resposta...
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De Gaffe a 28.08.2016 às 21:16

Sou tão inconstante!
:)*
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De Maria Araújo a 28.08.2016 às 23:03

Gostaria de ver estes belíssimos textos que escreve, e de uma riqueza vocabular inigualáveis, num livro.
Pense nisso, Gaffe.
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De Gaffe a 29.08.2016 às 00:25

Para quê?!
Estamos tão melhor assim!
:)*
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De Maria Araújo a 29.08.2016 às 10:51


Mas teria o livro junto a mim, poderia lê-lo sempre que me apetecesse, e recordaria um dos muitos textos belos que escreve, como este.

Beijinho
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De Gaffe a 29.08.2016 às 11:03

Um PC faz quase a mesma coisa e podemos conversar as duas.
:)*
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De Maria Araújo a 29.08.2016 às 15:18


Há momentos que não suporto o pc.
Outros há que me perco a ler blogs, notícias e outras coisas que gosto, ou não.
As horas passam já não faço o que devia ou tinha de fazer. Hoje é um desses dias.
O livro faz-me companhia no sofá enquanto um qualquer programa sem interesse passa na TV, ou no quarto antes de dormir, quando o que leio me tira o sono e deixo as horas passarem até que a vista se cansa e desligo a luz.
Ultimamente ando com vontade de apagar tudo isto da minha vida: o blog e a página do FB (aliás, acabei de fazer um pequeno post sobre isto).
Mas não apagava os laços que me unem a algumas bloggers que estimo, de coração.

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De Gaffe a 29.08.2016 às 16:20

eu li e acredito.
Apaguei a minha página no FB. Irritava-me tudo o que por ali via.
Senti-me pateta.

O blog não deve apagar. É uma forma de a conhecer. Visita-o e gosto sempre. Não comento, porque raramente o faço.
Os laços que se criaram por aqui são tão bonitos!
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De Maria Araújo a 29.08.2016 às 17:18


Obrigada, Gaffe.
Eu também leio muitos blogs e não comento.
Tenho dias que leio mais uns que outros. Os comentários são breves, ou não comento, ou estendo-me neles.
Não faço do meu blog e da página do FB o meu muro de lamentações (vou escrever uma palavra que cá em casa todos odeiam) nem escaparracho a minha vida mais ou menos feliz e do jeito que gosto.
Publico fotografias da minha querida praia, dos lugares que vejo, dos jantares que tenho, só porque gosto, até porque não tenho nada que as pessoas invejem.
Tenho laços muito, muito apertados com alguns bloggers que conheço pessoalmente, estimo outros muito especiais que não conheço mas fazem parte da minha vida e são estes que me fazem desistir de apagar o blog.
O FB já esteve muito perto de bani-lo da minha vida, e não tenho lá nada nem ninguém que alguma vez me magoassem. Apenas, estou farta.




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De Gaffe a 30.08.2016 às 08:24

Espero ser uma privilegiada do grupo.
:)
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De azulmar a 08.09.2016 às 11:14

E é por textos como este que considero este blog dos meus favoritos. Sou da mesma opinião que a Cantinhodacasa, era tão bom ter sempre por perto um livro com todos estes textos maravilhosamente escritos para poder lê-los tranquilamente, num sítio calmo, de preferência numa estação fria.
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De Gaffe a 08.09.2016 às 11:39

A Estação é a certa, mas o "livro" errado.

Obrigada, minha querida.

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