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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe assediada

rabiscado pela Gaffe, em 03.11.17

Qistina Khalidah 2017.jpg

 

Sempre considerei que uma mulher que luta pela igualdade entre géneros, é uma mulher sem ambição.

 

Nunca foi minha intenção ser igual aos homens. Jamais foi meu plano equiparar-me ao senhor que na minha frente bate com os joelhos na barriga quando cruza as pernas, de rabo alapado na poltrona dos poderes. Não quero a igualdade apregoada pelas caricaturas do feminismo que grassam nas redes sociais, que se cruzam comigo nas ruas e me conspurcam o sossego límpido da minha pacatez segura pelos ferros do que quero e pela certeza de que o machismo - e mesmo a misoginia - é apenas mais uma ferramenta de trabalho que nos é entregue e que pode servir os intentos das mulheres bem melhor que um panfleto feminista de pacotilha.

 

Sou indiscutivelmente uma mulher. Quero ser mimada, apaparicada, protegida da chuva, levada ao colo para atravessar a lama, receber gigantescos ramos de flores no amanhecer de um pequeno-almoço de lençóis de linho, ser considerada frágil demais para mudar um pneu que suja imenso as minhas mãos angelicais, ter asas que despertam a Poesia e - entre o mais que me cansa descrever - ser defendida das bestas por um musculado gigante bem barbudo. Não quero que se descartem estas obrigações masculinas em nome de uma igualdade de pantomima. Não quero sentir as obrigações, os deveres e as regras instituídas que fazem a tradição do macho/cavalheiro, esbatidas ou diluídas, porque sou mulher e logo igual e imediatamente tratada como se tivesse uma pila no cérebro antoniodamasiano.

Não quero.

Quero, isso sim, que os meus direitos solidifiquem. Poderão eventualmente distar daqueles que a mulher do quinto esquerdo decidiu que seriam os dela, mas convém que os dela recebam igual deferência e reverência.

Quero - à laia de exemplo -, ter o direito de usar o véu islâmico no centro dos que sabem em Paris, apenas porque me fica bem ou porque me converti; quero que a senhora do andar de cima use saias terríveis e apertadas sem que lhe digam que sabia para onde ia quando foi atingida pelo escarro das palavras do troglodita da esquina; quero levar para a cama todos os amantes que desejar sem me sentir, através dos outros, maldita, mal dita e culpabilizada; quero ser virgem o tempo que quiser, quando e enquanto assim o decidir; quero mover-me sem peias nas decisões que deslocam montanhas, sem que os ratos paridos o sejam por mim; quero ser livre sem que me aborreçam com a treta da minha liberdade acaba quando começa a dos outros.

Não quero ser igual aos homens. Não quero ter os mesmos direitos. É um tédio. É limitado. É circunscrito. A falta de ambição levada ao extremo.

Quero ter os meus direitos. Se os adquirir e preservar, com certeza que contribuo para a preservação e solidificação dos alheios.

 

É evidente que encontro abrolhos.

 

A beleza de uma mulher e o poder que adquire - sobretudo o simbólico -, são demasiadas vezes engulhos que contradizem e negam de modo ínvio os direitos que reivindica - e estes direitos são sempre subjectivos, metamorfoseando-se e amadurecendo de modo diferente em cada uma de nós -, e é quase circense, de uma mediocridade quase trágica, apercebermo-nos que são demasiadas vezes outras mulheres que negam e boicotam a Mulher e lhe arrimam a primeira pedra, embora seja polido e eivado de moral e bons costumes esconder a mão - e não refiro Donna Karan, porque sinto pena.

 

Os casos que vão surgindo e que nos informam da miríade de atentados, assédios, violações e estupros cometidos por machos hollywoodescos sobre mulheres belíssimas e detentoras de um capital simbólico significativo, são subvalorizados, porque - li eu, escrito por mulheres - uma grande parte das ofendidas sabia para onde ia. As vítimas destes crimes são assim prostitutas - e a prostituição é sempre uma violação consentida -, pois que apenas as prostitutas sabem para onde vão quando permitem uma violação em troca oportunista seja do que for. A beleza, o talento e o poder feminino são desta forma usados para incriminar e produzir sentenças que rastejam disfarçadas de bem senso, lógica e evidência, aos pés do acórdão coadjuvado pela juíza da Relação do Porto.

Implica este silogismo torpe que apenas as mulheres feias, miseráveis, pobrezinhas, órfãs da sorte e marcadas pela fatalidade e fado maldito, são vítimas reais - as que vivem nos antípodas são oportunistas que sabiam para onde iam -  e dignas de se fazer ouvir, mesmo que a queixa seja apresentada séculos depois do crime cometido, como se o tempo, o espaço, a circunstância, o medo, a culpa, a vergonha, a sobrevivência - a multidão de razões dramáticas que induzem o silêncio quase eternizado -, não fossem as mordaças de todas as mulheres sofridas e violentadas.

 

Talvez seja por isto que, não querendo ser igual aos homens, também não queira ser igual a um demasiado vasto grupo de mulheres.

Escolho ser um sedutor ramo de flores nos braços de um homem, garantindo que no meio delas há sempre uma carnívora. 

 

Ilustração - Qistina Khalidah

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23 rabiscos

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De Outra a 03.11.2017 às 14:06

Brilhante.
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De Gaffe a 03.11.2017 às 14:07

Neste caso, gostava que fosse sinónimo de verdadeiro.
:)
Obrigada.
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De Maria Araújo a 03.11.2017 às 14:36

Tem razão.
Não comento mais nada.
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De Happy a 03.11.2017 às 16:27

Não me costumo pronunciar sobre este tema porque normalmente acabo a ser criticada, mas pronto. Disseste tudo.
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De Gaffe a 03.11.2017 às 16:38

Mas sabes que a crítica nestes casos específicos tem de ser profundamente pensada e sustentada por argumentos realmente válidos. Neste caso específico, qualquer crítica vazia é apenas um foguete. Morre depois de rebentar.
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De Psicogata a 03.11.2017 às 17:56

Fantástico texto.
Defendo a igualdade de direitos e oportunidades, não a igualdade dos sexos.
Enquanto as mulheres não entenderem que são elas que se apunhalam umas às outras, enquanto se nivelarem pelos homens em vez de se estabelecerem pelo seu valor, nunca teremos os mesmos direitos.
Iguais nunca seremos e ainda bem.
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De Gaffe a 03.11.2017 às 19:39

Evidentemente.
Difícil é lutar contra o feminismo bacoco, exacerbado, de panfleto e de pacotilha.
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De Pequeno caso sério a 03.11.2017 às 21:52

Sou gaja e, pasme - se , gosto de o ser.

Gosto muito de gajos mas não quero ser como eles.Mesmo.

Se gosto sempre de ser gaja? Não. Há dias que é insuportável ser gaja mas creio que os gajos também devem ter dias desses.

Fico lixada quando ouço de gajos comentários sexistas mas fico ainda mais quando o mesmo tipo de comentários chegam de outras gajas.

Não ando por aí a queimar o soutien mas não me calo se acho que tenho algo válido a acrescentar. Sobretudo quando me dizem para não o fazer porque há coisas que ficam mal na boca de uma mulher. Recuso - me a aceitar que coisas que ao homem dão currículo, à mulher dêm cadastro.

Gosto de receber flores e não vejo mal nenhum em dá -las também.

Gosto de um bom abraço,daqueles que se consegue ouvir o coração do outro a bater. Venha ele de um homem ou de uma mulher. Não importa o sexo, desde que seja verdadeiro.


Deve ter sido por tudo isto que tive o privilégio de ter uma filhA . Passar-lhe tudo o que acredito como certo e esperar que ,um dia , ela o faça também ...pode ser que a coisa se multiplique e , daqui a uns anos, homens e mulheres se aceitem nas semelhanças e diferenças com naturalidade.


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De Gaffe a 03.11.2017 às 21:56

Ámen, minha amiga!
E que as "outras" tropecem nas obscenidades que vão vomitando sobre nós, homens e mulheres.
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De Corvo a 04.11.2017 às 03:28

A natureza faz as mulheres, mas não as Senhoras.
Um excelente fim-de-semana
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De Gaffe a 04.11.2017 às 08:46

Mas há mulheres naturalmente senhoras.

Bom fim-de-semana!
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De Corvo a 04.11.2017 às 11:06

Pois há!
Aquelas que sabem discernir que se na verdade todas as senhoras são mulheres, nem todas as mulheres são senhoras.
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De Solteiro a 04.11.2017 às 08:29

Subscrevo, 100%
Não apenas o barrigudo sentado na cadeira do poder mas também o magro espadaúdo que acredita que é o dever da mulher de se deitar sempre que a ele lhe apetece...
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De Gaffe a 04.11.2017 às 08:47

Estamos nesses casos a falar de débeis mentais, não é?
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De Solteiro a 04.11.2017 às 11:12

Evidentemente minha cara... por pura debilidade mental, educacional ou debilidade cultural. Infelizmente no nosso mundo a igualdade é muito subjectiva aos olhos de tanto troll :)

Bom fim de semana :)
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De Gaffe a 04.11.2017 às 14:42

As três debilidades juntas enformam tanta gente!
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De Carlos Berkeley Cotter a 04.11.2017 às 13:31

Mais uma vez me curvo perante o seu Texto, não como homem mas como pessoa.
Admirável, o último parágrafo.
Parabéns e um excelente fim de semana.
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De Gaffe a 04.11.2017 às 14:41

Como homem apenas, não seria de todo insuficiente.
:)
Obrigada.
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De Diogo a 04.11.2017 às 20:03

Desde que me lembro que fui corrido à paulada por uma dessas tais feministas-cartilha, espécie de praga, porque um homem no Observador estava a citar um artigo da imprensa francesa em que se chamava à mulher do presidente «Barbie com menopausa», que fujo. Para longe (dessas discussões e dessoutras). Homossexuais não é o meu género, de todo.
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De Gaffe a 05.11.2017 às 01:55

:)
O feminismo de cartilha é lido em todo o lado e sempre sem virar de página.

É curiosa a sua observação! Fui ler o que escreve - invejavelmente, diga-se - e encontro de imediato um artigo muitíssimo bem pensado sobre Pasolini.
:)
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De naomedeemouvidos a 04.11.2017 às 22:42

Concordo. Em grau, género e número. Principalmente, no género.
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De Gaffe a 05.11.2017 às 01:50

Somos de uma sensatez bastante significativa.
:)

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