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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe azul salmão

rabiscado pela Gaffe, em 19.06.17

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O meu vestido era de linho, de meia manga, trapézio, cor de salmão com pequenas pintas brancas e um folho grande na bainha. Apertava atrás com minúsculos botões de madrepérola.  

 

Nunca mais tive um vestido tão bonito.

 

Tinha deixado que me prendessem os cabelos no interior da copa do chapéu de palhinha de abas largas, porque dessa forma podia deambular no orgulho de ter pela primeira vez nas orelhas as pérolas miúdas que substituíam definitivamente as bolinhas de ouro disparadas há um mês.

 

A maré mansa e o vento dócil permitiam que brincássemos perto do mar.

 

A minha avó de vestido de linho, largo azul-marinho, de chapéu de abas largas e brincos de pérolas, ficava a olhar-nos. Tinha um lenço de seda no pescoço. Um lenço que parecia uma onda, tocado pelo vento. Uma onda a esvoaçar.

A minha irmã quis trepar às rochas.

- Brincar na areia é uma ideia que deves considerar – aconselhou a vigilante.

Levou o meu irmão. Galgar as rochas era muito mais aventureiro.

Fiquei ao lado da minha avó. Queria muito ser igual a ela. De vestido de linho, chapéu de abas largas e brincos de pérolas.

O meu irmão caiu e arrastou a companheira. A minha avó viu-os chegar, choramingando, da desfeita e magoada façanha montanhista. Levou-nos para casa.

 

As escoriações não eram graves. Arranhões na perna e numa das mãos do rapaz e um pequeno corte no joelho e no orgulho da rapariga a não carecer de sutura. A minha mãe tratou do jovem, ao mesmo tempo que o mimava com o sorriso do embalo.  

A minha avó trouxe de dentro o conjunto que a acompanhou a vida toda. Um frasco de água oxigenada, outro de soro fisiológico, um pacotinho de gaze e Betadine. Entregou-o à minha irmã.

 

- Eu sento-me aqui enquanto tu limpas e desinfectas esse golpezinho.

- Tu não me tratas?!

- A decisão de escalar às rochas foi tua. Foi a melhor decisão, admito. Construir castelos parvos de areia é bem menos interessante que trepar a um barco de piratas. Mas tu caíste. A tua decisão fez-te cair. Tens de parar de choramingar e tratar esse lanho. É tão teu como a tua decisão.

- Tu deixaste!

- Não. Não interferi. Lembrei apenas que tinhas outra forma de brincar. Tu escolheste a que melhor te pareceu. Decidiste subir às rochas. Foi uma bela determinação, mas caíste. Agora deves tratar das feridas que a tua decisão provocou. Não te magoaste muito, não vai custar. Convém que não choramingues. É desagradável ouvir alguém lamentar a dor causada por uma decisão que tomou.

- Ele também foi e a mãe está a ajudar – sofria a minha irmã.

- Tu convenceste-o. Aqui está uma coisa que não precisas que te ensinem: convencer os outros. Depois, minha querida, é um rapaz. Os rapazes quando se magoam, não se sabem comportar. Têm de ser socorridos.

 

Foi neste dia de maré mansa e de vestido salmão com pintas brancas que descobri que quando crescesse queria ajudar a cuidar dos outros e que comecei a ter medo de tomar decisões.  

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De Gaffe a 19.06.2017 às 18:20

Era o meu vestido favorito. É ainda o vestido que me deixa mais saudade.
:)

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