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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe bibliotecária

rabiscado pela Gaffe, em 28.08.15

biblioteca.jpgA biblioteca do meu avô – agora minha por desejo dele -, é um lugar aprazível e recatado, com cheiro a couro antigo e um breve timbre de cânfora que não desagrada, porque nos faz respirar como se estivéssemos a beber água com limão, mas sem açúcar. Sempre na penumbra – as avalanches de luz são impedidas pelos cortinados pesados, polícias respeitáveis, temidos e imponentes -, a atmosfera permite, nas tardes de Primavera que entra coada pela água do lago do lado de fora, vislumbrar as partículas de pó e de pólen que flutuam douradas nas autorizadas lâminas iluminadas de silêncio.

 

Ao lado da caixa de madeira de cedro onde o meu avô guardava, catalogadas com inimaginável mestria, os milhares de fichas de leitura que permitem ainda encontrar a obra que quisermos em poucos minutos e que humilham a pedante informatização mais recente, existe uma escada que pode ser presa às estantes intermédias possibilitando alcançar as obras colocadas nas prateleiras mais altas, junto ao tecto. Lembro-me que o meu avô, suspenso num degrau dessas escadas, de braços estendidos, parecia um dos homens que vindimavam o telhado do alpendre construído por cachos de uvas roxos e gorduchos. Disse-lho um dia e ele confirmou. Era também um vindimador.

 

Num tempo já ido, mesmo aqui tão perto, nos finais de Agosto, o meu avô revia e actualizava as fichas do seu catálogo, acrescentando as obras que entretanto tinham sido adquiridas.

 

É a minha vez de abrir a caixa de cedro.

 

Em menina, não mais de quatro anos, acompanhava-o sem perceber que me iniciava no modo de operar que seria meu, por desejo dele, e nessa altura, contrariando todas as recomendações, o meu avô deixava que brincasse com as obras mais próximas do chão, que era o meu tamanho.

 

Da estante baixinha que guarda a Questão Coimbrã, retirei ontem O Crime do Padre Amaro que tinha escolhido com o tino da infância. É um volume supostamente autografado por Eça, com dedicatória à minha bisavó materna que acolheu o seu spleen francês com o estoicismo e humor das parisienses da época.  

Ao folheá-lo revi as minhas ilustrações. Rabiscos vermelhos, azuis e amarelos, com apontamentos verdes que se passeavam pelas páginas ao sabor da pena e do lamento da minha mãe e do traço rombo dos lápis de cor de uma menina de quatro anos. Ninguém retirou e protegeu das mãos da pequena criminosa o volume precioso que perdeu a áurea divinal que alardeava e que acabou por ver reconhecido o seu valor real, que não o inflacionado por uma assinatura comprovadamente falsa.   

 

Folhear o volume que encontrei tem a consistência do milagre.

Percebo claramente, para além de ter aprendido a povoar a caixa de cedro do meu avô, fui compreendendo que amar um livro é torna-lo tão nosso como se abríssemos as asas quando nos perguntam se sabemos voar.

 

Não vou ter filhos. Soube muito cedo que não sou uma galinha de óvulos de oiro. Se pudesse ter um filho, sei que o traria, nos finais de Agosto, à minha biblioteca para abrir a caixa de cedro e aprender comigo sem saber a catalogar os livros que chegavam e a ilustrar aqueles que próximos do chão lhe iam dando asas.  

 photo man_zps989a72a6.png

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Gavetas:


24 rabiscos

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De eduardo a 28.08.2015 às 13:50

olá gaffe graffiti
haverá certamente diversas razões que me trazem ao seu espaço
uma é achar que pensa pela sua cabeça e expõe razões e sentimentos que fogem do vulgar e do politicamente correto
outra é gostar de me imiscuir nesses ambientes pessoais e familiares que vai referindo e partilhando amiúde onde me revejo de algum modo
a luz penetrante nos salões caixas verdadeiras que guardam e revelam segredos escadotes onde sobem e descem alguns cristos para labores fundamentais que não cabem às hienas
poderia dizer muito mais sobre este texto mas não pretendo ofuscar o seu autógrafo com os meus rabiscos
gulbenkian falava das suas peças de coleção como os seus filhos à margem dos seus herdeiros de carne e osso
de modo mais prosaico permita-me duas sugestões bibliotecárias para uma vez que tomou posse dar-lhe novo toque pessoal clássico e modernista
um livro la femme qui inventa la beauté uma biografia de helena rubinstein
e já agora como é uma rapariga esperta e bibliotecária por direito próprio poderá doravante passear-se de didot bookbag nas mãos e nos braços que poderá encontrar en vente chez assouline
há bibliotecas onde se pode respirar e viver mesmo a sério e o livro que descreve anãozinho é isso mesmo é mesmo isso
quem imaginaria em agosto silly season tão capaz para os lados desse lago
bjs carimbados com sinete
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De Gaffe a 28.08.2015 às 14:27

Como sempre, o seu comentário é extraordinário.
:)

Vou tentar encontrar, de preferência, um didot bookbag de Louis Vuitton.
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De eduardo a 28.08.2015 às 18:25

aceito o elogio e devolvo-o com um arabesco dizendo que não sendo os seus olhos menina são os seus estímulos cachopa
e como sei que nunca se engasga com respostas digo-lhe com a boca no trombone esqueça o luís que tem uma consagração que ninguém lhe tira não pode mas está mais parolo que nunca
visite ou revisite a assouline e diga lá com esse atrevimento à moda das tripas se não se passeia assim tão feliz pelas avenidas do porto decrépito e chique e pelas alamedas do douro vinhateiro
se e f e t i v a m e n t e não gostar das sacolas eu sugiro uma mala de cartão tailandesa de perder a cabeça que não lhe passa pela mona nem ao som do borbulhar revigorante de schweppes
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De Gaffe a 28.08.2015 às 20:39

:)))
Vou tentar seguir os seus conselhos.

(O menino é fascinante!!!)
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De Maria Araújo a 28.08.2015 às 14:49

Um post deliciosamente encantador.
Há uma frase muito rica e que gostei especialmente: " o meu avô, suspenso num degrau dessas escadas, de braços estendidos, parecia um dos homens que vindimavam o telhado do alpendre..."
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De Gaffe a 28.08.2015 às 15:08

Obrigada.
Como sempre, repleta de amabilidade!
:)*
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De Maria Araújo a 28.08.2015 às 18:26

Não é amabilidade, é admiração.
Nem imagina o que senti quando li o post.
Beijinho
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De Gaffe a 28.08.2015 às 20:37

Obrigada!
Mesmo sabendo que é imerecida.
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De Magda L Pais a 28.08.2015 às 15:47

"amar um livro é torna-lo tão nosso como se abríssemos as asas quando nos perguntam se sabemos voar"
Perfeitissima ! esta frase. O resto do texto - perfeito!
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De Gaffe a 28.08.2015 às 16:06

Falamos de livros e a menina vem logo a correr!

Obrigada, minha querida.
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De Paula a 09.10.2015 às 11:08

Os livros lá de casa também não vão ter herdeiros! Quando era miúda, o gosto pelos livros fazia-me sonhar com ser grande e trabalhar numa biblioteca!
Imaginar uma biblioteca pessoal, com fichas de leitura e que na qual as crianças tinham a liberdade de usar livros, para perceberem como estes são importantes, faz-me ter vontade de entrar já numa biblioteca e sentir aquele cheiro fabuloso de livro usado! E desfolhá-los a bel prazer!
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De Gaffe a 09.10.2015 às 11:15

É estupendo.
Herdei toda a biblioteca do meu avô. Toda a sua vida trabalhou para que fosse eu a herdar os seus tesouros. Sou agora a guardiã.
Não posso ter filhos. Creio que vou ter de escolher com maior critério alguém que me suceda.
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De Paula a 09.10.2015 às 11:22

O que fazer com.... também pensamos nisso, especialmente a colecção de cinema do rapaz lá de casa!
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De Pequeno caso sério a 11.01.2017 às 17:58

Ora aqui está algo que tenho a certeza o teu avô ia gostar de ler.
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De Gaffe a 11.01.2017 às 18:15

Tremo só de pensar nisso! Era tão crítico e tão sapiente que morreria de desgosto com estas tolices escritas pela neta.
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De Pequeno caso sério a 11.01.2017 às 18:30

Estás enganada.
Escreveste com o coração e isso percebe - se.
Reafirmo : o teu avô ia adorar.
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De Gaffe a 11.01.2017 às 21:58

Provavelmente ranhava-me.
- Então tu, minha menina, já te esqueceste que as palavras que soltamos são um carrossel sem controlo?!
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De Pequeno caso sério a 11.01.2017 às 23:39

Não me referia ao blog em geral mas a este texto em particular.

Mas sim, tens razão. As palavras que soltamos podem trazer-nos muitos dissabores...sejam elas escritas ou ditas.
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De Gaffe a 12.01.2017 às 09:42

Sabes que nunca me preocupei muito com esse facto?!
Sou uma irresponsável.
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De Pequeno caso sério a 12.01.2017 às 19:07

Irresponsável ou genuína?

Aposto todas as minhas fichas na segunda hipótese.
;)
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De Gaffe a 12.01.2017 às 20:13

Esperemos que sim.
:)

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