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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe coincidente

rabiscado pela Gaffe, em 21.03.17

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Foi exactamente numa tarde em que a minha avó se mantinha ocupada discutindo com todos a propósito da falta de limpeza do jardim, repleto de silvas capazes de estraçalhar os dedos mais calejados, que arrastei o quadro - que me parecia gigantesco - para o cubículo.

 

Não foi tarefa simples.

 

A casa andava nervosa com o alarido da minha avó e ninguém se preocupava comigo, ocupados que estavam em mastigar maldições e a mascar insultos. A minha mãe, no andar de cima, próxima das beladonas, ausente mais uma outra vez e a minha irmã, lá fora no jardim, tinha tido a bondade de começar a brincar com o único miúdo que aguentava a sua maldade. Os dois pareciam entender-se. O rapaz gesticulava mimando uma mudez idiota e ela sorria e pulava e corria junto das silvas que tinham despontado na fúria da avó, exactamente porque a neta, num dos raros momentos em que se divertia, corria o risco de ser arranhada.

 

A minha preocupação não se ligava ao perigo de ser descoberta no meio do meu crime. Tinha mais a ver com o modo de arrastar o quadro pesado que se revelava muito mais custoso do que eu julgava. A resistência que me oferecia acicatava-me o ódio e enfurecia-me a vontade de o massacrar. Representava uma mulher oitocentista, mas longe de Watteau, tal os tons escuros, sombrios, obscuros, poderosos e quase sinistros. Os braços nada maleáveis pareciam um incómodo e o vestido rígido não permitia imaginar um movimento que o vestisse. A tela, descoberta por acaso, permanecia encosta à parede da sala grande à espera de ser avaliada.  

 

A maneira mais fácil foi arrastar o quadro pelo soalho. Para o retirar e fazer com que chegasse ao cubículo, tinha de atravessar a sala grande que funciona como centro da casa por ser nela que se abrem as outras divisões e todas as escadas. O soalho é de tábuas grossas e grandes, velhas e irregulares, enceradas quinzenalmente sob a vigilância da mulher mais velha. A tela, no exacto ponto em que as pintadas fitas de cetim trepavam pelo vestido, ficou subitamente presa algures. A criatura resistia e não havia tempo a perder. Num puxão violento as fitas foram arrancadas, separadas do vestido por um rasgão medonho.

 

A tremer tentei salvar-lhe o tecido, mas o cetim tinha ficado irremediavelmente estraçalhado. Um golpe pingava fios e havia um arrepanhar da tela parecido com uma ferida mal cicatrizada. Já aflita, continuei a arrastar a minha vítima.

 

Quando consegui enfiar o quadro no cubículo senti uma sorrateira vontade de chorar a espreitar-me a garganta e a fugir-me pelos olhos. Sabia que o crime que tinha cometido dificilmente teria perdão e começava a temer as consequências. Um friso de luz coada atravessava a cara da mulher pintada, tocando-lhe na orelha, caminhando por uma das maças do rosto, seguindo tangente a uma das asas do nariz, esboroando-se na parede logo depois de lhe roçar o início do lábio superior. Foi então que retirei do bolso o lápis grosso das contas da cozinha que me haviam dado por pequeno, e segui com a grafite romba o caminho da luz. A senhora olhava-me, dentro da penumbra, impotente e humilhada. As pestanas quase buliram enquanto o traço se ia desenhando unido à fronteira que agora era marcada nítida entre a luminosidade e a sombra, mas mais nada interferiu no meu crime. Seria perfeito se, depois de ter recuperado a respiração e tomado consciência de que era obrigada a fazer o trajecto de volta, a portinhola do cubículo não se escancarasse e não tivesse sido agarrada de forma violenta pela minha avó.

 

Pousou-me no chão sem qualquer palavra, encostou-me a um canto e retirou o quadro do buraco. Os seus olhos aguçados cravaram-se no risco e eu já sentia as paredes abanadas pelo medo e alfinetes por toda a minha pele, a minha avó rodopiou com a tela presa no braço, afastando com o braço livre as mulheres esbaforidas que a seguiam, atravessou a sala e desapareceu.

 

Fiquei quieta. Já não sabia se o que corria pela minha cara era a vontade de chorar que havia sentido durante toda a cena. Sentia que se me movesse as paredes viriam contra mim, apertando-me até sufocar e no entanto via a sala crescer desmesuradamente, encher-se de espaço e de ar que, de tanto, me asfixiava.

 

Nada estava acabado. A atitude da minha avó estava incompleta. Esperava o final. Vê-la surgir já sem o fardo e fazer da minha vida um trapo sujo. O tempo de espera ajudou-me a preparar a morte. Controlei o ar e as paredes e estava heróica quando a porta da frente, a que dava para o exterior, se abriu com um barulho de inferno. Por ali dentro entrou a minha mãe e percebi que o mundo tinha acabado naquele exacto instante. Pela mão trazia a minha irmã. Senti vibrar o ar em redor delas. Havia picos a rodar as silhuetas e perigo no queixo erguido e nas narinas dilatadas da minha mãe. Entraram como duas bruxas. Uma maior, outra a voltear arrastada. Foi quando ultrapassaram a soleira, deixando a contraluz, que me apercebi que havia outro erro. Não era eu o destino da fúria. Os olhos da minha mãe atravessaram-me, mas continuaram a busca. Foi a minha irmã, que se debatia a tentar partir a tenaz dos dedos da mãe, que me fez compreender a razão da minha aparente impunidade. Tinha na cara um largo, negro, sujo risco traçado a carvão. Mais grosso que as minhas estradas feitas na terra do quintal para ligar formigueiros, o risco nascia na orelha, caminhava por uma das maçãs do rosto, seguia tangente a uma das asas do nariz e esboroava-se no início do lábio superior manchado de sangue.

 

O miúdo que com ela brincava no quintal, e que havia sido o responsável pelo desenho e pela ferida, esgotada a paciência com que devia ser tratada a companheira, foi banido para todo o sempre.

 

Encontrei-o largos riscos depois, numa mostra de arte naïf.

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12 rabiscos

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De Corvo a 21.03.2017 às 18:28

E dou por mim a pensar, desolado, nas impiedosas desfeitas do destino que inviabilizam pelo desencontro os grandes feitos da História.
Que equipa de sonho, a Demoiselle e Mr. Bean não fariam se o destino colaborasse.
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De Gaffe a 21.03.2017 às 18:55

Em idade, estava mais próxima do miúdo de "O garoto de Charlot" e o quadro não era um Wistler.

Receiocqueco meu querido Corvo tenha confundido as fitas.
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De Corvo a 21.03.2017 às 23:06

É irrelevante, a idade.
Haja arte empenho que faziam obra para sempre inenarrável.
:)))
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De Gaffe a 22.03.2017 às 07:16

E algum discernimento. "Receiocquecuma" característica que às vezes falha.
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De Anónimo a 22.03.2017 às 00:49

receiocqueco????... andas a pensar na queca? Escreves tão bem primor da palavra. O te corrector estava distraído ou com as mãos ocupadas? Não te pode deixar sozinha com as letras e o papel. Suicidas-te.
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De Gaffe a 22.03.2017 às 07:17

:))))
"Receiocqueco"!!!
Ahahahahaha
Tão bom!!!
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De M.J. a 22.03.2017 às 12:38

suicida não. mata com palavras o que almas ranhosas e pequenitas nunca entenderiam por demasiado inúteis na sua existência.

tira-me esta bosta daqui minha querida gaffe.
não merece sequer a possibilidade de pôr um dedito nojento que seja num texto onde caminha a tua avô.
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De Gaffe a 22.03.2017 às 13:03

Sabes, meu amor, que a minha avó tinha um excelente sentido de humor.

Suspeito que se divertiria bastante com as alusões sexuais, as insinuações desse cariz aqui patentes, que por norma acompanham este tipo de comentário e este tipo de criatura. Há sempre um recalcamento de índole sexual subjacente a um registo anónimo que explode nas mãos, ou nas patas, de quem é capaz de pela calada da noite vir "tocar campainhas" e fugir.

Tem piedade.
:)*
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De Pequeno caso sério a 21.03.2017 às 23:40

Sem te revelar detalhes (vergonhosos para mim) posso dizer-te que protagonizei vários (demasiados) episódios desse género onde o final era sempre o mesmo: o meu irmão (mais novo que eu 7 anos) a assumir as culpas das asneiras que eu fazia. Digamos que conseguia sempre ser muito...persuasiva.
;)

(e pronto...agora fizeste-me ficar com, ainda mais, saudades do meu irmão...)
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De Gaffe a 22.03.2017 às 07:13

Mas eu não tenho muitas saudades da minha irmã.
:)))
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De Pequeno caso sério a 22.03.2017 às 07:19

Mas tenho eu do meu que está longe...no outro lado do mundo.

:/
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De Gaffe a 22.03.2017 às 08:51

Provavelmente sou eu que estou habituada a ter a minha irmã sempre longe e dispersa por todos os cantos do mundo.
Deixei de sentir que são anormais estas distâncias.

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