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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe com papoilas

rabiscado pela Gaffe, em 07.12.16

1.97.jpg 

A Gaffe cruzou-se com o homem que a traiu.

 

Uns escassos metros a separaram do rapagão que só não a viu empalidecer porque, nas ruivas, a palidez súbita é disfarçada pelo tom de pele e já é demasiado tarde para ruborizar. 

Sorriram e numa polida atitude cosmopolita, moderna e sofisticada, o sedutor mentiroso aproximou-se e beijou-a na face perguntando em simultâneo pelos dias que correm.

Um sorrir elegante é uma das formas de fazer explodir em silêncio a lembrança da dor que nos provoca o murro brutal que sentimos no estômago quando somos confrontados com aqueles para quem um nosso beijo nunca foi mais do que nada, sobretudo quando, para nós, significava tudo.

 

A Gaffe tem de admitir que sentia, quando ao longe vislumbrava o sedutor passando como um deus pela brisa da tarde, o doloroso vácuo que a empurrava, lhe apertava a garganta e lhe amordaçava o respirar.

O tempo vagabundo, vagueando, foi atenuando e diluindo este impacto de bola de ferro contra uma parede frágil, em ruínas. Lentamente, a Gaffe foi cosmopolizando a dor. Consegue oferecer a bochecha para o beijinho urbano, polido e elegante do homem por quem daria outrora o seu universo inteiro com um peixe dentro e que a atraiçoou quebrando todos os aquários que existiam.

 

A Gaffe tem na alma o lastro de Paris e, tal como a cidade, sacode os caracóis repletos de ferrugem e descobre que somente resta o lamento, a pena resignada, a piedosa tristeza, que se arrastam vagarosos pela certeza de saber que ninguém amará aquele homem como esta cidade e esta ruiva o souberam fazer.  

 

Depois a Gaffe suspira, depois sorri, depois protege o sorriso com a gola de vison, depois atira a carteira Prada para o ombro e deixa que o sol de Inverno acabe de queimar a cor já morta da papoila do desgosto.        

 

Ilustração - R. Gruau 

 photo man_zps989a72a6.png

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Gavetas:


24 rabiscos

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De Corvo a 07.12.2016 às 16:41

Pois. Vicissitudes dolorosas da existência. Dói, mas vai passar, tudo passa.
Um excelente feriado.
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De Gaffe a 07.12.2016 às 18:06

Já passou há um belíssimo par de anos.
:)))
Foi apenas comprovar o facto.
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De Anónimo a 07.12.2016 às 18:47

Sabe Gaffe; muito embora eu seja um carácter assumidamente romântico, uma personalidade que acredita nos sentimentos, de estar absolutamente convicto que o amor quando não servindo outros interesses ou servindo uma conveniência é para sempre, tenho para mim que só se ama quem se quer, quem nos estima e merece.
Não compreendo quando, por vezes, mais amiúde do que seria desejável, oiço lamentos de amor não correspondido ou traído. Conheço até dois casos de suicídio. E porquê se nada nem ninguém é senhor da nossa vontade? Somos sempre e em quaisquer circunstâncias os donos da nossa vontade.
Por isso digo: qualquer que seja a maneira de como o amor nos atinge, só se ama quem se quer, quem nos respeita e estima, e se possível que nos corresponda, ainda que menos.



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De Corvo a 07.12.2016 às 18:50

Parece que essa dissertação acima foi como anónimo, mas é minha porque, mais uma vez, lamentavelmente esqueci de me registar. As minhas desculpas.
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De Gaffe a 07.12.2016 às 19:54

Fala no amor comandado pela razão.
Concordo. É o meu favorito.
Mas é uma aprendizagem demorada e custosa. Nem todos a alcançam. O domínio do raciocínio sobre a emoção é uma das mais espantosas provas de superioridade que conseguimos oferecer aos "gentios".
:)
Também é um bocadinho gelado, mas ninguém gosta muito de suar sem razão válida e muito proveitosa.
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De Pequeno caso sério a 07.12.2016 às 19:28

Li (como sempre) muito atentamente este pedaço de ti. Gosto imenso quando te deixas ler.

A traição é dos sentimentos mais abomináveis do ser humano e por isso ,a meu ver, imperdoável.
Há coisas que não conseguimos controlar (como o pensamento ) mas as atitudes têm de ser controláveis. Ninguém é de ninguém e por isso mesmo não há necessidade de trair. Se o amor morre tem de ficar o respeito e é em nome desse respeito que a traição pode e deve ser evitada.

Depois de ler o que partilhaste connosco não consigo parar de pensar numa coisa :
Como é que um gajo de quem tu gostas tem a triste idéia de te deixar escapar e ainda por cima , de uma forma tão pouco elegante ?

A resposta é simples e resume - se a duas palavras :
Muito burro !

(Sorte a tua. Ficaste a ganhar)

:)*
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De Gaffe a 07.12.2016 às 19:47

:)
O homem era elegante. O problema é que não há formas elegantes de trair.

Apesar de tudo, fiquei convencida que todas as mulheres que foram traídas, depressa recuperam da traição. Não conseguem aceitar que o homem que tinham escolhido goste de manter relações com vacas ou galinhas. É muito desagradável o cheiro com que depois ficam e, às vezes, os pobres animais até nem sentem grande coisa.
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De Maria Araújo a 07.12.2016 às 20:12

Não me pergunte porquê, mas tinha a certeza que um dia iria escrever sobre um amor.
Nem imagina como este post bateu-me no peito.
Mas uma mulher com classe não se deixa aniquilar.

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De Gaffe a 07.12.2016 às 20:25

Tem razão. Escrevo muitas vezes sobre o amor, mas raramente sobre um amor.

No entanto, repare, há muitíssimos textos que falam dos meus amores.
:)

(Não se apoquente! Todas as mulheres deviam sentir o perigo de se saberem traídas. Só dessa forma percebem como crescem. As outras imaginam.)
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De miss X a 07.12.2016 às 21:21

Esses seres vagueiam pelo sótão das nossas vidas, por entre as velharias do passado.
São fantasmas que já não assustam, mas ficam para todo o sempre escondidos na penumbra.
Tenho um fantasma desses.
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De Gaffe a 07.12.2016 às 21:44

Uma das soluções é transformar o sótão num magnífico quarto panorâmico.
;)
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De Maria a 07.12.2016 às 22:28

A menina foi uma SENHORA! bolas, não sei como reagiria mas sei que não retrataria o momento com esta classe... É que, no blog, botava as mãos na cintura e rodava a baiana. Parabéns SENHORA Gaffe
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De Gaffe a 07.12.2016 às 23:20

:)
Para quê?
A melhor forma de nos vingarmos de uma traição é darmos ao traidor a oportunidade de o esquecer.
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De Maria a 08.12.2016 às 09:15

Sem dúvida!
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De Anónimo a 08.12.2016 às 00:59

Mereceste. És uma cabra arrogante.
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De Gaffe a 08.12.2016 às 01:10

Sou ... mas com muito dinheiro.
;)
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De Rapunzel a 08.12.2016 às 10:59

Tenho de confessar que, também, gostei muito de a ler, de a ler a si, porque acho que tem uma personalidade fascinante. E porque a acho muito parecida comigo.
São raras as mulheres que não passam por isso. Outras, passam uma vida inteira, a fingir que não dão conta...
Foi o motivo do meu divórcio. E o que mais me magoou foi a falta de lealdade daquele que eu considerava o meu melhor amigo. Ele nunca suportou que eu tivesse tido conhecimento dessa sua falha de carácter.
Aprendi muitas coisas com o divórcio:
- Que poucos são os homens que conseguem perceber que quando a paixão passa, o amor fica. E que essa é a maior prova de amor por alguém;
- Que não se mendigam afectos. Esta frase brilhante foi-me dita por um amigo e nunca a vou esquecer. É muito verdadeira;
- Aprendi, também, com uma excelente amiga, que nunca devemos dizer mal do pai do nosso filho, ao nosso filho. Às vezes é difícil, mas é um conselho muito sábio. As crianças crescem, percebem e mais tarde reconhecem o papel de cada um dos pais;
- Constatei, também, que a amante está sempre muito longe das virtudes da esposa. Habitualmente, têm em comum uma característica, são sonsas... Ou parecem... Definitivamente, são fraquinhas...;
- Dizem também, que não há homem que não se venha a arrepender, mais tarde, da decisão. Esta parte ainda não constatei na prática, mas acho que ele preferia morrer do que verbalizar isso.
Acho que deixei de acreditar no amor, mas passei a acreditar em momentos, que devem ser vividos em plenitude e incondicionalmente. Daí o nome Rapunzel. Porque os contos de fadas só são bonitos porque, habitualmente, terminam no dia do casamento. Nunca mostram o depois. Eu agora só quero viver essa parte bonita. Ofereço-me esse direito.
É triste mas não é dramático. E tem que ser ultrapassado... E isso acontece quando, finalmente, o decidimos fazer.
Na altura, a melhor amiga da minha mãe, que tinha passado pelo mesmo disse-me: Acredita, um dia vais pensar, abençoada a mulher que por aqui passou e o levou. Na altura, não acreditei. Hoje, acho que ela tinha toda a razão. E depois, quem o faz uma vez, não hesita em tornar a fazê-lo. A perda não é grande. Se formos inteligentes, guardamos tudo o que tivémos de bom e esquecemos tudo o que foi mau. É isto que uma rapariga esperta faz. E estas avenidas são apenas para raparigas espertas.
;)))
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De Gaffe a 08.12.2016 às 11:56

Não quis guardar qualquer momento. Nem bom, nem mau. Não foi difícil apagar o que se tornou um traço na poeira sobre os móveis.
Tornou-se um desconhecido, um estranho, um estrangeiro, no exacto momento da traição.
Há este beijinho cordial e social. É o mesmo que ofereço distraída ao desconhecido que me apresentam de repente, enquanto estou entretida a conversar com amigos.
Creio que esta atitude irreversível é talvez a ausência total de empatia e o único sinal de pacificação. Às vezes, este sentir - ou não sentir - causa-me alguma tristeza. Suponho que não deveria ser assim, que deveria resguardar os momentos mais conseguidos, mas fui "treinada" a ignorar ou a banir o que não presta.
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De Rapunzel a 08.12.2016 às 12:17

Eu percebo o que quer dizer com o ser "treinada". Até é bastante útil conseguir dominar a emoção e reagir apenas com a razão. A vida submete-nos a determinadas experiências que vão modulando e alterando o equilíbrio destas duas variáveis. Razão/Emoção. Se essa foi a sua reacção perante essa situação, melhor para si, talvez tenha sido menos doloroso... Agora, nunca duvide do seu sentir. Possivelmente, selecciona "automaticamente" o que merece ou não ser sentido. Os textos que aqui escreve são, seguramente, de uma rapariga que sente. E muito.
Não seja tão exigente consigo própria. Discordo, bastantes vezes, da minha mãe, mas aprendi com ela que o óptimo é inimigo do bom.
Um beijinho para si.
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De Gaffe a 08.12.2016 às 12:27

Tem toda a razão. Selecciono, quer porque fui assim treinada, quer por instinto, o que deve ou não deve ser sentido.
Mas há universos inteiros que deixo livres para me fazer sentir.
:)*
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De Rapunzel a 08.12.2016 às 12:25

Gosto sempre dos seus comentários. Mas tenho de concordar que é difícil argumentar consigo. É ágil em raciocínio e rápida a rebater argumentos.
O que acabou de escrever, a constatação dessa "incapacidade" é muito bonita e só revela, mais uma vez, a sua inteligência.
A falta de lucidez é débil e a ignorância é arrojada.
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De Gaffe a 08.12.2016 às 12:32

É apenas a razão a dominar o sentimento.
:)
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De Corvo a 08.12.2016 às 16:06

Ou seja: um bocadinho gelado, mas ninguém gosta muito de suar sem razão válida e muito proveitosa.
:)
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De Gaffe a 08.12.2016 às 22:15

Nem mais.
Não me diga que gosta de suar sem disso tirar prazer ou proveito!

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