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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe da Ministra

rabiscado pela Gaffe, em 17.10.17

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Os preparativos do baptizado estavam aprontados e a madrinha rejubilava.

O padre da Freguesia, homem dos seus trinta e poucos anos, serrano, robusto e bonacheirão, recusou terminantemente a indigitação da felizarda.

A agora lavada em lágrimas desolada mulher não podia ser a bafejada, porque era divorciada

.- É impura - afirma inflexível o jovem padre.

 

Estamos em Outubro de 2017.

 

Estes absurdos civilizacionais, estas anomalias temporais, estas aberrações culturais, não se confinam a uma área restrita. Estão assustadoramente dispersos por todos os cantos e esquinas em vias de abandono de um país que levou à letra a expressão que lhe agradava e que o dizia um jardim à beira-mar plantado. O que não cabe nesta parola representação, ou se abandona, ou é paisagem. O resto vai-se transformando - mais rápido do que seria seguro e passível de controlar -, em parques temáticos, ocos quando a noite deixa por alguns instantes de se prolongar, visitáveis por multidões que exigem apenas um aglomerado brutal de prestadores de serviços, excluindo, por inúteis, o pensamento crítico, a racionalização do uso do espaço urbano, o uso cultural que dele é feito, as manifestações de inteligência interveniente e a proliferação da ideia abstracta. As cidades entram em gestão. São comandadas por empresários que gerem a urbe exclusivamente como destino turístico. Veneza ou Barcelona, Zadar ou Atenas, Porto ou Dubrovnik - entre outras tantas -, são asfixiadas por milhões de turistas que não se vão dizendo, por ser incomportável - e inconveniente referir em panfleto - os números astronómicos a encontrar no interior de cidades que os não aguentam, cidades grávidas de lixo, cidades que não estão pensadas para os albergar de modo orientado.

 

Como se um coração fosse arrancado a um corpo, forçado a mimar uma existência, bater só por bater, para inglês ver, por se entender que a um corpo inteiro, todo, basta um órgão só a latejar. O resto transforma-se em nada.

 

É neste abandono que há mulheres impuras e se fazem queimadas, de mulheres e de restolho.

É deste abandono que é feita a tragédia.

É neste abandono que arde a tragédia.

 

A necessidade de decapitar um indivíduo, culpabilizando-o pelos cenários dantescos que foram erguidos em fogo, agora - três incêndios por minuto - e há quatro meses, reflecte provavelmente o medo de nos sentirmos responsáveis, o ilibar da nossa consciência, a desculpabilização, a crença na nossa inocência, a convicção de estarmos unidos e de sermos piedosos e humanamente impolutos, capazes de aliar a nossa urbanidade imprescindivelmente turística, o nosso citadino movimento de ancas, à terra mais extrema, onde pasta a solidão azeda, onde uiva a noite mais cerrada, onde a lama não é cosmética e onde morrem velhos sem ninguém saber.

Acarreta ao mesmo tempo a possibilidade de, ao fustigarmos alguém no adro da Igreja, amedrontarmos os outros que, acreditamos, coadjuvaram o maldito. Basta chicotear um indivíduo na frente do povo, para que a multidão que assiste não repita o erro cometido pelo suposto infractor. As ditaduras acreditam neste pressuposto e às vezes nós, tão democratas, não nos importamos nada de o fazer.

 

Ficamos sossegados. Tranquiliza-nos exigir cabeças. Satisfaz-nos ver sacrificado alguém em prol do nosso apaziguamento. Podemos então fazer biscoitos e bolinhos de maçã para acompanhar o chá e acomodar a nossa cosmopolita indignação. 

 

É medonha esta espécie miúda de vingança tresloucada que continua a possibilitar que se exija apenas a culpabilização demissão de uma senhora que nos aparecer sempre como se estivesse em vias de expelir um cálculo renal - sai de quando em vez, quando ela fala -, para que, pelo menos, sintamos que foram punidos os responsáveis e os mortos assim homenageados, mesmo reconhecendo que o trágico resultou de um somatório de circunstâncias naturais impensáveis, extremas e incontroláveis, aliadas a outras velhas, velhíssimas, e sabidas causas, que se arrastaram, se alimentaram e se abençoaram durante décadas, aniquilando os modos de vida das gentes, desolando terras, povoando-as de indiferença, vergando-as a interesses financeiros esconsos ou inscritos em papel de gabinete, ignorando planos de desenvolvimento sustentável das florestas e de reestruturação florestal, e permitindo que a incompetência, a falta de inteligência, a vigarice, os submarinos, a trumpolinice, a privatização dos meios de combate a incêndios, a corrupção daninha, magra ou de grande vulto, o mastodonte da burocracia que atrasa escandalosamente a ajuda a qualquer vítima, a escabrosa manipulação dos planos municipais de ordenamento do território, a correria quase psicótica nos corredores das licenciaturas da Protecção Civil, os 230 milhões anuais arrecadados pelos sucessivos governos que tributam as exportações de celulose - e mais que não se diz, porque há vergonha, há lamento e há uma senhora outrora responsável pela agricultura, mar, ambiente e ordenamento do território, que decide apresentar uma moção de censura ao governo, tentando que se esqueça o que não fez e o que assinou - Lei do Eucalipto Livre -, e um primeiro-ministro a avisar que isto é assim - se tivessem abatido e se tivessem governado durante muito mais que dois anos e quatro meses de mais que certas inoperância, ineficácia e incompetência aliada a uma manifesta falta de tempo para acudir a este lixo acumulado durante décadas, tirar férias ou ir ao cabeleireiro. 

 

Entretanto, ainda há mulheres impuras nos buracos deste jardim à beira-mar plantado, premiado internacionalmente como depósito de turistas.

 

Ilustração - Eliza Ivanova

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16 rabiscos

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De Corvo a 17.10.2017 às 15:37

Ó Gaffe. Antes de mais a menina escreve. Porra!
Desculpe a interjeição, mas não encontrei melhor para qualificar tamanho deleite descritivo.
Então esse padreco, certamente do signo Virgem, pelo menos escorpião não era, não devolvia a pureza à desvalida senhora através de uma confissão, assim meio alongada de molde a poder escutar, discutir pormenores e depois aconselhar e perdoar os pecados da "Messalina?"
Depois, sabe como é. Um bom bode-expiatório sugerido por um, ouvido por dois, aceite por três e apresentado à multidão vociferante, serve perfeitamente e é incomparavelmente mais proveitoso como justificação culpabilizadora que um milhão de consciências culpadas.
Ou não fôssemos nós uma terra de nobres gentes.
Agora e voltando atrás. Que a menina escreve, escreve.
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De Gaffe a 17.10.2017 às 15:50

Sabe, meu caro Corvo, que eu defendo a demissão da ministra, não pelas razões que ouço e leio, mas como acto simbólico - não creio que seja mais do que isso - da falha inconcebível do governo, mesmo com a culpa repartida por todos nós e por algumas décadas de indiferença.
A ministra devia demitir-se.
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De Corvo a 17.10.2017 às 15:58

Não sei, talvez: apenas como justificação a um limpar de imagem.
Porque de resto, é a menos culpada.
A Gaffe o disse. Décadas de indiferença.
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De Gaffe a 17.10.2017 às 16:30

Nada nos fará recuperar o perdido.
Mas os homens sempre precisaram de símbolos - de queda e de ascensão.
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De Anónimo a 17.10.2017 às 16:19

Mais uma vez, rendido ao admirável texto e ao seu conteúdo.
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De Gaffe a 17.10.2017 às 16:30

Fico orgulhosa.
Obrigada.
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De Maria Araújo a 17.10.2017 às 16:28

Que texto, Gaffe!
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De Gaffe a 17.10.2017 às 16:53

Pode não parecer, mas é um texto de lamento.
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De Anónimo a 17.10.2017 às 20:19

Eu percebi.
O seu estilo é admirável.
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De Gaffe a 17.10.2017 às 21:28

Não.
É demasiado benevolente, mas agradeço.
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De Pedro Wasari a 17.10.2017 às 17:12

Cara Gaffe

Como gostava de ter escrito o que acabei de ler. Parabéns!

Demitidos seriam todos aqueles que promoveram politicas que potenciaram o abandono do interior do País. Na barra dos tribunais todos aqueles que, do flagelo dos incêndios se banqueteiam às custas de um negócio que entra olhos dentro, como se de uma fagulha empurrada pelo vento se tratasse. Negócios de milhões em meios aéreos, com a Força Área parada à espera do pré ou da pensão, sabe-se lá. Uma organização com fardas pomposas e boinas que imitam as tropas de elite a que se dá o nome de Protecção Civil. Elite? De quê?

E já agora a todos aqueles que deixaram os idosos sós e miseravelmente isolados à mercê dos cadongueiros do voto, que de quatro em quatro anos sujam as mãos e se designam descer ao povo, o meu muito obrigado. Obrigado também aos farsantes do Hemiciclo, por exibirem a sua falta de vergonha ao fazer da tragédia, um arremesso de passa culpas. Temos os dirigentes que merecemos......E depois é sempre bom mostrar a caridadezinha é uma coisa que fica sempre bem em qualquer casa.

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De Gaffe a 17.10.2017 às 21:09

Só ainda não vimos a líder do principal partido da oposição a visitar as áreas afectadas, porque ainda não encontrou galochas da Hello Kitty.

Que vergonha.
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De Grace a 18.10.2017 às 15:00

Minha cara,

Colocou em escrita belíssima aquilo que me vai no pensamento.
O povo sempre gostou de açoitamentos em praça pública... mitiga-lhes a sede de sangue. Rolando algumas cabeças, podem poderão prosseguir com a sensação de que se fez algo...
Como diria a rainha de copas: "Cortem-lhes a cabeça", eu acrescento: Cortem a todos, sem excepção...
E depois outros virão e melhor não farão...
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De Gaffe a 18.10.2017 às 15:25

Não sejamos pessimistas. Há tempo para chorar depois.
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De Grace a 18.10.2017 às 16:54

Cara Gaffe,
Desculpe o anonimato, mas não tenho blog nem facebook (sou um dinossauro, eu sei...)...
Correcção de erro no meu rabisco anterior "podem poderão": poderão, é claro.
Em relação ao pessimismo, só posso dizer que, efectivamente, é um dos meus inúmeros defeitos.
Mas, sim, há tempo para chorar depois (só que não vou chorar, tornei-me resiliente com o passar dos anos)
Continue a escrever "coisas" assim, que eu continuarei a ler.
Grace

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De Gaffe a 18.10.2017 às 18:35

Ah! Mas deixar de chorar não tem forçosamente a ver com a juventude que passa. Deixar de chorar relaciona-se bastante mais com a capacidade que se adquire de fazer silêncios.

Espero aqui por si.
:)*

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