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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe das nails

rabiscado pela Gaffe, em 02.11.17

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A Gaffe observa com pasmo dantesco a menina da recepção que toca as teclas do seu PC com a polpa dos dedinhos encimados por uma espécie de floretes esmaltados.


A Gaffe fica fascinada com a perícia com que os dedos erguidos apontando o céu conseguem tocar as vítimas, enquanto as unhas, as nails, o gel, vão riscando o monitor em arrepio de giz.

Ao lado, uma loira ripada e explosiva, atira os dedos e faz deslizar outros punhais de gel no telemóvel, arriscando lancetar a jugular da companheira com um mover das armas mais violento.

A Gaffe fica encantada, enquanto se introduz nas suas envergonhadas e tímidas unhas por prolongar até à curvatura do espaço, a suspeita da maldição que as donas das nails carregam pelas suas vidas íntimas envernizadas em todas as suas extensões e prolongamentos.

 

É evidente que estas duas mulheres não sentem, por exemplo, a fricção que é, postas perante um rapagão perito em física atómica - e demasiado atraente para que o ouçamos narrar as aventuras dos electrões, dos iões, dos protões e dos positrões, despido pela nosso imaginário mais maroto que deseja apenas que lhe acelerem as partículas -, pousar o nosso dedinho indicador nos lábios carnudos do potentado intelectual e fazer com que os nosso olhos deslizem pelo deslize que vamos desenhando, impedindo-o de continuar a perder tempo.

Com certeza que, no caso em que o gesto é protagonizado pelas duas portadoras de nails, o pobre rapaz acaba com um olho vazado, ou pronto a ser embalsamado à boa maneira egípcia que arrancava o cérebro pelas narinas.

Por razões similares, as coleccionadoras de nails arriscam ser excisadas durante os seus devaneios e solilóquios, transformando ocasiões propícias a alegrias várias - relembremos que saber estar só revela saúde mental - em trágicas subtracções de capacidades autonómicas. Torna-se também evidente que quando a alegria é partilhada, o lamentável parceiro de folguedos tem grandes hipóteses de ficar sem as bolinhas, mesmo que sejam de Berlim e fáceis de azedar, reconhecendo-se também que a piloca corre grandes riscos de ser aberta a todo o comprimento como uma sardinha sanjoanina ou como uma salsicha de feira popular - de preferência alemã.

 

A Gaffe não vai por decência - atributo que muito a caracteriza - reportar-se às idas ao WC destas portadoras de armas brancas, sobretudo porque acredita que as criaturas não usam as sanitas. São provavelmente como Beth II, que a Gaffe em criança acreditava piamente não ter intestinos - por razões que excedem o âmbito deste pequeno rabisco. Em consequência, os resíduos alojam-se no cérebro.

 

Posto assim, há que admitir que existem algumas das mais importantes intimidades gravemente abaladas pelo uso de nails cuja única vantagem é apenas a possibilidade de se usarem como chaves de fendas, pese embora o problema referido atrás.

 

Antes de colar nos dedos os parolos punhais da mais rafeira das escolhas estéticas, pensem, minhas queridas, que cravar as unhas naquele físico atómico lindo de se morrer repleta de descargas - sendo bem-vindo tudo o for que se dispare - não implica um entendimento literal da acção enunciada. Basta, meus, amores, um dedinho nosso, de garras recolhidas, a contornar os lábios com silêncios.    

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19 rabiscos

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De Edite a 02.11.2017 às 15:04

Compreendo a necessidade estética da coisa, mas não entendo os exageros. Unhas descomunais (e sapatos vertiginosos) não se coadunam com a tarefa de escrever. Uma conhecida usa unhas enormes pontiagudas e o bichinho da curiosidade levou-me a perguntar a quem a conhece como é que ela fazia quando ia à casa de banho ou lavava a loiça. Ao que parece faz tudo com os nós dos dedos com os dedinhos dobrados.

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De Gaffe a 02.11.2017 às 15:27

Qual necessidade estética?!?!?!
A tolice nunca foi estética e a imbecilidade parola e pontiagudo nunca foi uma necessidade.
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De Anónimo a 02.11.2017 às 16:23

Estava a referir-me às unhas de gel normais.
Retomando, compreendo a necessidade estética para quem roí as unhas ou para quem gosta de fazer todos os trabalhos de casa sem andar a retocar todos os dias a pintura das unha, mas não sou adepta nem de exageros no tamanho nem da qualidade "artística"
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De Gaffe a 02.11.2017 às 20:19

Talvez sejam úteis nesses casos. Não sei. Sou uma proscrita nessas áreas.
:)
Mas há unhas de gel "normais"?!
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De Edite a 02.11.2017 às 21:22

Claro que sim. São unhas curtas, bonitas e de cor única. Dificilmente percebes que são de gel. Já usei (umas 3 vezes). Mas têm a desvantagem de fazer perder imenso tempo e as radiações não me deixam confiante, pois tenho lido por aí que podem provocar cancro da pele.
Quanto às garras que referes no post, acho incrível como é que elas conseguem fazer a mais simples das tarefas. E o tempo? Ui, umas duas horas para as fazer. E pior, as manicures é que escolhem a cor e os desenhos artísticos.


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De Gaffe a 02.11.2017 às 23:49

Suspeito que sou muito preconceituosa em relação a manicures. É uma coisa muito desagradável.
Também não simpatizo com esteticista, mas apenas depois de uma delas me ter proposto desenhar um coração onde nem sequer tinha material para esculpir o que quer que fosse ...
Foi muito constrangedor. Nunca mais recuperei.
:)))

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