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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de chiffon vermelho

rabiscado pela Gaffe, em 13.10.16
Era Verão e havia vento.

 

A memória alheia introduz-se na minha e é criada uma entidade nova, somatório das duas, pertença minha e do outro que ma deu, mas de que tomo posse, como de um objecto que foi moldado em barro por duas mãos diferentes, mas que é pousado no chão da nossa alma e ali fica, a ver-nos.

 

Havia vento e era Verão.

Ele contou-me.

 

A mulher loira de sorriso brando, vestida de chiffon vermelho, com os pés nus na areia. O vento espalhava a mancha de sangue do vestido, ao sol. De pés nus na areia. Sorria, a mulher com o vestido de sangue que esvoaça. Sorria sempre e havia vento. Cada gesto seu ondulava e o oiro do cabelo tinha de ser preso pelos dedos finos, brancos, com anel, como o lugar onde tenho esta memória.

 

Nunca conheci esta mulher, morta antes de a poder olhar e no entanto, se fechar os olhos, a nitidez com que o meu espanto a encontra é de tal forma clara e branca que a memória que dela tenho é minha sem o ser e multiplica-se noutros cantos e em lugares diferentes, longe do vento de Verão de chiffon vermelho.

 

A mesma mulher num Hotel de charme. Nas portas que rodam, a guiar o filho. De casaco grande. Caxemira, de bolsos gigantes com vento de Inverno. De rosto redondo e olhos que o filho recebeu de herança.

- Como um carrossel, meu rapazinho, as portas giram sempre. São mágicas. Como num carrossel, meu rapazinho, encontras-te contigo se sonhares.

 

Na memória rodopio, mulher que me chega na memória alheia. Na que me pertence porque me foi dada e é branca como um vestido de chiffon vermelho ou como um carrossel de vento a girar num sonho.  

 photo man_zps989a72a6.png

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2 rabiscos

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De Maria Araújo a 14.10.2016 às 23:35


Vestido de chiffon vermelho de sangue, com o casaco de caxemira de bolsos gigantes com vento de inverno.
Uma personagem que gosto.
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De Gaffe a 14.10.2016 às 23:57

Uma mulher estranha e fascinante, sem dúvida. Exactamente como a vida que viveu.

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