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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de cinzento

rabiscado pela Gaffe, em 15.09.17

Alexandre Trauner     Fleurs, Paris     c.1940.png

Tinha um vestido cinzento. Princesa. Partiam quatro pregas fundas do corte no peito. Um laço rígido e pequeno apertava a gola arredondada. Mangas ¾, dizia a minha avó.

Era demasiado criança para tanta severidade, mas aquele vestido de Inverno tinha-se tornado um dos meus favoritos. Usava-o com meias grossas e sapatos fechados, muito masculinos.

Quando o vestia deixava de ter corpo. Só havia aquele cinzento que apagava as cores das pessoas que deixavam também de existir dentro da roupa que traziam.

A minha mãe prendia-me o cabelo com uma fita larga, num tom pouco afastado da cor do vestido e ajudava-me a colocar os minúsculos brincos de pérolas que tinha guardados numa caixinha preta que fechava com um clique que ainda ouço, nítido, sempre que me chega à memória o almofadado dos gestos que me tocavam e afastavam o cabelo e me roçagavam o rosto.

 

Gostava do vestido cinzento e daquele gesto que me enfeitava as orelhas.

Tinham silêncio.

 

Foto - Alexandre Trauner - 1940

 photo man_zps989a72a6.png

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Gavetas:


14 rabiscos

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De Maria Araújo a 15.09.2017 às 17:58

" Era demasiado criança para tanta severidade..."


Vestiram-me uma saia plissada pied-de-poule que tocava os meus joelhos de criança. Como complemento uma camisola preta.
Sentia-me pesada, velha, horrível, neste conjunto que fez o luto do meu avô paterno.
Esta imagem ficou para sempre gravada na minha memória.
Hoje, gosto de pied-de-poule, mas odeio saias plissadas pied-de-poule.



Belo post, Gaffe.
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De Gaffe a 15.09.2017 às 18:08

Eu gosto bastante de pied-de-poule. Nunca o vi plissado, mas creio que não o desdenharia.
Há memórias que agarram até os tecidos!
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De Maria Araújo a 15.09.2017 às 19:59

Não desdenhe.
Use.
Bom fim-de-semana.
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De Gaffe a 16.09.2017 às 01:07

Mas eu uso.
:)
Bom fim-de-semana.
*
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De David Marinho a 15.09.2017 às 19:15

Este pedaço deu-me nostalgia. De qualquer coisa, da vida, do tempo.
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De Gaffe a 15.09.2017 às 19:39

Ou daquele silêncio.
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De David Marinho a 15.09.2017 às 22:00

Há qualquer coisa que fica.
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De Pequeno caso sério a 16.09.2017 às 00:30

Lembro - me de ter o cabelo molhado e da minha mãe me enfiar uma camisola de gola alta. A gola deslizava pela cabeça até parar no pescoço e ficava húmida. Quase que sinto a minha mãe tirar - me o cabelo molhado para fora da gola.
- mãe...a gola pica...tira...
- tiro nada! Sabes lá o que corri à procura dessa blusa! Ficas tão gira!
- mas mãe...a gola pica...
-pica nada! Não sejas comichosa!


O tormento repetia - se com as collants.
- mãe...as meias picam...tira...
-mau! Primeiro era a blusa, agora são as collants...mas será que tudo pica?
-sim...
-até a saia, queres ver?!
-sim...a saia também pica...
-cala - te mas é e deixa - me lá acabar de te vestir. Estás linda!

Mas eu não me sentia linda.
Tudo picava . A blusa e as collants de lã picavam porque o corpo não estava totalmente enxuto. A saia picava porque era de fazenda (parecia um kilt com direito a alfinete e tudo).

Aparecia na sala e toda a gente dizia o mesmo: estás linda!
Mas eu não me sentia linda . Só queria tirar aquilo tudo e que parassem de olhar para mim .
Trinta e oito anos depois continuo a secar muito bem o corpo/cabelo antes de me vestir. Só a ideia de ter roupa vestida com o corpo -e principalmente o cabelo- húmido me dá... nauseas.


(as coisas que tu me "obrigas" a desenterrar)

; )
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De Gaffe a 16.09.2017 às 01:05

Ainda bem que o fiz.
É absolutamente extraordinário o que acabas de escrever!
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De Corvo a 18.09.2017 às 11:19

Que doces e nostálgicas sensações a Belle Demoiselle não avivou.
Tinha um vestido cor-de-rosa clarinho a taparem o joelho, meia manga, duas longas e largas fitas que depois de abraçarem a cintura apertava atrás num grande laço cujas pontas desciam quase até ao fim do vestido.
Os pezinhos calçavam meias brancas pouco ultrapassando os tornozelos, que uns sapatinhos pretos e rasos de fivela, abraçavam.
Dois totós, um de cada lado da cabeça, também eles amarrados por dois laços da mesma cor e tecido do vestido.
Linda de morrer a despedaçar um coração de nove anos.
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De Gaffe a 18.09.2017 às 12:06

As Lolitas são terríveis, meu caro.

(Tinha saudades suas!)
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De Corvo a 18.09.2017 às 14:14

Aos nove, dez anos sabia lá o que eram Lolitas. E ela com a mesma idade seguramente partilhava da mesma ignorância.
:)
Deleites dos quentes países.
Obrigado: não menos do que eu lê-la. ...às vezes. :)
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De Gaffe a 18.09.2017 às 14:40

Às vezes sentimos saudades de quem às vezes não merece que as sintamos ...
... porque está sempre presente ... digamos ...

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