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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Monet

rabiscado pela Gaffe, em 23.11.17

F. Vicente

Li, há tempos que já lá vão, um Tratado do Riso.

 

Um livrinho que não me despertou especial interesse e que não deixou rasto do autor. Não era com certeza um dos clássicos que sobre o riso deixam tombar a negritude pesada das suas reflexões, porque recordo que o considerei passível de ser lido enquanto se espera pelo avião.

Apesar do facto, a obra não deixava de ser curiosa, enumerando com algum afinco, segundo o autor, as razões que originam o riso, apontando - entre tantas e muitas -, o engano, a desconformidade, a deformidade, a dissonância, a desarticulação do real, o equívoco, as ocorrências que se deslocam da norma a que obedecemos e as situações que embora dissemelhantes são assimiladas como idênticas e lidas como consequentes, ocasionando o mal-entendido.

 

Admito que nunca me aproximei das razões que originam o riso. Prefiro vivê-lo sem razão. No entanto, a fantástica rapariga aqui ao lado espicaçou-me a curiosidade, provocando o meu encontro com a maldade que é sempre susceptível de provocar o riso.

 

Rimo-nos sobretudo do mal. Invariavelmente. Do mal feito, do mal acabado, do mal compreendido, do mal formado, do mal comportado, do mal educado, do mal elaborado, do mal explicado, do mal controlado, do mal conduzido e de todos os males que a vida produz. Rimo-nos de nós, que estamos errados. Suponho que o riso funciona em todos estes casos como escudo protector e mesmo o reconhecimento - risível, ele também - do erro, seja ele qual for, é capaz de nos couraçar de gargalhadas, evitando um provável colapso.

Rimo-nos, porque procuramos incessantemente o equilíbrio, a estabilidade, a normalidade, a transversalidade e a certeza de que estamos integrados num sistema coeso que rege uma panóplia de roldanas que fazem mover o quotidiano seguro, perceptível e inteligível. É ameaçadora a eventualidade que abala, afronta ou desconexa a nossa leitura comum do real e, talvez por isso, uma gargalhada se transforme tantas vezes num murro.

Perante a desordem, que deixa o não racional abalar as conexões que temos com o real normalizado, atamos o riso às margens do lógico e esperamos estar seguros do outro lado do que sentimos errado.

 

Quando a minha prima, pela Avenida Brasil - numa das suas raríssimas incursões pelo pensamento, travava comigo uma pequeniníssima batalha no campo de guerra dos Impressionistas atacando com o pincel do rímel todo o sol levante -, tropeçou numa beata de cigarro - uma rapariga de boas famílias comporta-se como a princesa ervilha, de quem, aliás, é descendente directa - saiu disparada no meio de um das meus eloquentes argumentos a favor de Monet - que ficaram, Monet e argumento, parvos e suspensos, na ausência repentina de interlocutora -, projectando com uma velocidade estonteante um dos Manolo Blahnik que atingiu um olho do Homem do Leme; provando à plateia que tinha um gosto irrepreensível na escolha das cuecas; entregando ao espectador a certeza de que era merecedora da medalha de ouro em voo em comprimento e demonstrando, para além de tudo, ser possuidora de um talento imenso como imitadora de gaivotas esgrouviadas, confesso que só depois de a ver aterrar alguns metros depois e já com a carteira nos dentes e colar enrolado nas orelhas, consegui controlar o riso, travando a quase asfixia que me vinha assolando deste o exacto instante da descolagem da pobre esbardalhada.

 

Seja como for, e pese embora toda esta inútil teoria, depois de se erguer, a rapariga fez como o sol em Monet. Levantou-se e brilhou.

O riso uniu os opostos. 

 

Ilustração - Fernando Vicente

 photo man_zps989a72a6.png

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20 rabiscos

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De Quarentona a 23.11.2017 às 12:18

Antes de mais “fantástica rapariga” é claramente um exagero, mas agradeço. Depois, aplaudo de pé a dissertação a qual aconselho vivamente ao RAP a sua leitura. De facto, uso muitas vezes o riso para disfarçar as minhas fraquezas o que curiosamente acaba por fazer passar uma imagem de grandeza, rio para disfarçar a minha ignorância, os meus medos, a minha raiva e as minhas desilusões, somente a melancolia e a saudade não consigo vestir de gargalhadas.
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De Gaffe a 23.11.2017 às 12:22

Concordas comigo então!
O disruptivo é sempre passível de provocar o riso. Mesmo a saudade e a melancolia podem ser risíveis.
:)

E, meu amor, eu sei que és fantástica. Ponto.
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De Quarentona a 23.11.2017 às 12:43

Claro que sim!
Podem pois, depende de muitos fatores, mas podem sim :)))
Bom, tenho-te como uma rapariga de grande sensatez, e se tu o dizes, eu calo-me já ;)))
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De Corvo a 23.11.2017 às 13:08

Isso é verdade. Nem subjectiva quaisquer laivos de dúvida. Para rir de situações comprometedoras somos todos uns artistas, sobretudo naquelas situações caricatas e embaraçosas. Dos outros, obviamente, que nas nossas causam-nos cá uns nervinhos de morte e rimo-nos sim para disfarçar as ganas que temos de esfrangalhar quem nos viu. :)
Se a menina não se incomodasse muito, perguntava à fantástica rapariga o que é o RAP.
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De Gaffe a 23.11.2017 às 13:10

Ah! Mas eu farto-me de rir por minha causa e de mim! Não fico com ganas de esfrangalhar ninguém por se ter rido comigo e de mim!

RAP - Ricardo Araújo Pereira. Também sou fantástica.
:)))
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De Corvo a 23.11.2017 às 13:39

Ah! Mas isso é a Belle Demoiselle e a fantástica rapariga, porque esta que lhe vou contar não deve ter tido grande vontade de gargalhar..
Foi no Verão e estou à janela. Aproxima-se um carro, vem devagar e pára mesmo frente à minha janela. Lá dentro uma acesa discussão com ela a tentar agredi-lo. Deduzi que era para ele parar o carro Sai da viatura, bate a porta com toda a força e salta para fora. O vestido ligeiro que trazia ficou entalado e ela fica em cuequinhas. Por acaso não deu para ver bem, se eram cuequinhas ou fio, mas acho que eram mesmo cuequinhas.
Enfia-se para dentro do carro e começa a agredi-lo, desta vez para arrancar rapidamente dali para fora.
E ninguém deu conta de nada. Só eu que estava à janela, mas como sou um gajo sério não me ri. Só sorri um pouco.
Como vê nem todos se riem do mal dos outros:neste caso de outras.
:)))
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De Gaffe a 23.11.2017 às 14:02

:DDDDD

Não é nada que já não tenha acontecido...

http://agaffeeasavenidas.blogs.sapo.pt/a-gaffe-demolidora-471252

:DDDDD
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De Corvo a 23.11.2017 às 14:32

Ah ah ah. Esse post passou-me ao lado, só pôde.
Eu disse vestido mas acho que devia ser uma saia, não reparei bem.
E menos reparei se era Armani. Sei que ela saiu de rompante e o vestido, ou a saia não a acompanhou.
Mas nem imagina as situações caricatas parecidas a que tenho assistido, quer da janela ou da varanda.
:)
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De Gaffe a 23.11.2017 às 15:12

Uma janela indiscreta, portanto.
Fica registado o seu interesse por Hitchcock.
:)
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De Genny a 23.11.2017 às 13:18

Boa tarde, Gaffe!
Sou de riso fácil. Quando fico nervosa, para disfarçar a timidez e pelo facto de ser meio surda sou a primeira a rir das minhas calinadas. Pior de tudo é quando relembro a situação, não consigo parar de rir.
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De Gaffe a 23.11.2017 às 13:33

Sim.
Acaba portanto a concordar comigo. Rimo-nos do que lemos como "errado", também como forma de nos defendermos.
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De Pequeno caso sério a 23.11.2017 às 19:46

Bravo, minha amiga, bravo!

Se ainda não leste , na tua próxima espera pelo avião, lê o livro do RAP "A Doença, O Sofrimento e a morte Entram Num Bar". Fala disso mesmo, da capacidade de nos rirmos das desgraças.
Eu, parva que só visto, também não fujo à regra.

A minha mãe dá um valente trambolhão e esbardalha - se no meio da rua. Veio um estranho em seu auxílio. E eu, o que fazia ? Estava encostada onde pude a rir que nem uma perdida . Quanto mais o homem ralhava comigo mais eu me ria . Foi de tal ordem que acabámos os três a rir . Eu do esbardalhanço monumental da minha mãe e ela e o homem , a rir de mim.
Nada a fazer.
Até das coisas mais parvas consigo rir.
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De Gaffe a 23.11.2017 às 20:45

Uma das enormíssimas vantagens do riso é fazer com que o peso das nossas vidas se aligeire.

O humor negro é - para além de muitíssimo difícil,-, possivelmente uma das mais inteligentes formas de lidarmos com o trágico.

A menina devia ter acudido à mamã antes de se esbardalharem juntas a rir! É dificil, mas dizem que é possível.
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De Maria Araújo a 23.11.2017 às 23:07

Não há dúvida que rir do mal dos outros alivia o nosso.
Quando há 3 anos caí e fracturei o pulso, as minhas sobrinhas riam-se perdidamente da cena.
Esqueceram-se de vir em meu auxílio de tanto rir. Um senhor ajudou-me a levantar-me e foi então que perceberam que a queda fora forte pois eu gemia de dores.
A sobrinha mais nova perguntava-me se estava bem ao mesmo tempo que se lhe escapavam as gargalhada. E os seus risos faziam-me sentir pior.
Já em casa, a pôr gelo, a preocupação delas era levar-me ao hospital, que eu recusei. Mas nesta preocupação percebia o quanto a sobrinha mais nova se esforçava por controlar a gargalhada que de quando em vez se escapava.
Nem sempre me rio das quedas dos outros, a minha reacção é imediata. Pergunto se está bem e vou socorrer a pessoa.
Nas minhas quedas, levanto-me rapidamente para mostrar que não foi nada.
Mas praguejo muito.
Uma boa noite
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De Gaffe a 24.11.2017 às 00:16

Há quedas e quedas.
Um esbardalhanço inconsequente permite a gargalhada, mas é evidente que uma queda grave é altamente preocupante e não há lugar para tolices imbecis.
Falo das primeiras. São fáceis de avaliar e não trazem consequências de maior ou danos fisicos. Apenas o ego da "vítima" fica um bocadinho pisado.
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De Maria Araújo a 24.11.2017 às 15:57

Eu percebi, Gaffe, o tom do seu post, nem sequer comentei em tom de critica.
Apenas contei o meu exemplo porque na verdade elas pensaram que eu tivera uma queda daquelas parvas, que até foi, mas à noite, os gatos são pardos.
O ano passado a minha irmã mais nova, nos seus saltos altos, cheia de vaidade, não viu a berma do passeio e estatelou-se no chão.
A minha preocupação foi ver se tinha esmurrado o rosto ou partido o nariz, mas a filha, a minha querida sobrinha, ria-se às gargalhadas e de gozo com a queda parva da mãe.
No percurso até casa, era vê-la disfarçar o riso e eu olhava-a e dizia: "não te rias da tua mãe".
Mas também já me ri das minhas quedas.
Um beijinho
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De Gaffe a 24.11.2017 às 16:12

O importante é que a queda não tenha consequências. Uns hematomas no ego, e basta.
;)
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De Maria Araújo a 24.11.2017 às 19:34

"Hematomas no ego"!
A Gaffe é única.
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De Carlos Berkeley Cotter a 24.11.2017 às 11:26

Obrigado por continuar a alegras os meus dias.
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De Gaffe a 24.11.2017 às 11:31

Obrigada por fazer companhia aos meus.

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