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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de pisca-pisca

rabiscado pela Gaffe, em 21.11.17

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 A Gaffe, em viagem, não se importa de ser parada pela polícia.

 

É evidente que há pormenores que a preocupam nestas ocasiões.

Receia que lhe perguntem pela caixa negra, porque sabe que o modelo que guia é de bom gosto, não possuindo apetrechos que violam a privacidade de pessoas de berço. Para além disso, garantiram-lhe que o paralelepípedo colocado ao lado de imenso fios, era a bateria, o que muito a desiludiu. Supera este embaraço, assumindo uma pose de quem está quase a desmaiar de nojo por ter sido incomodada. Resulta, se fixarmos um ponto na nossa frente - convém que seja imóvel, pois de contrário andamos de cá para lá com as órbitas tornando tudo bastante suspeito -, baixarmos os cantos da boca, como D. Clemente a avisar que não quer forrobodó nos seminários, e entregarmos a papelada com a ponta dos dedos, tendo o cuidado de não fornecermos as cópias que usamos para apanhar o cocó do caniche dos comentários anónimos nos blogs.

 

Tomadas estas precauções, a Gaffe fica deliciada quando um matulão alto e espadaúdo, com um rabo apertado numas calças que devem ser milagre, ou que o fazem pela certa, a aborda e lhe pede a papelada.

 

Apesar disso, da última vez que tal ocorreu, não correu bem.

 

A Gaffe viajava com a prima, uma sósia de Rita Hayworth e a quem se exige a compostura que não teve. A Gaffe de soslaio, para não se afastar muito do ponto que fixava, ficou mesmo assim quase cega pelo brilho dos olhos esbugalhados da mulher que chispavam de cobiça e suspeitou que a baba que começava a escorrer doa boca aberta da prima, não era consequência de AVC, porque a mulher continuava sem nada torto - a maldita!

 

Compreendeu quando seguiu - uma vez não conta -, a direcção do olhar da petrificada cintilante e quase espetou os Valentino que protegiam o seu mavioso olhar, na piloca do polícia - que se tinha erguido - o polícia, não a piloca, embora connosco haja razões de sobra para elevações diversas -, para separar o que lhe interessava do resto dos tickets das compras -, ali na frente, toda desenhadinha no tecido das calças.

Um milagre, uma aparição, nunca é exagero repetir. A Gaffe não entende como D. Clemente não ergue uns santuários pela estrada fora. Uma falta de empreendedorismo muito pouco católica.      

 

Este enorme percalço - sublinha-se enorme, para encorpar o tecido do texto -, não invalida o gosto que a Gaffe tem quando é mandada parar por agentes muito pouco informados que cometem deslizes engraçadíssimos que resultam, como é evidente, do desconhecimento da mecânica de uma mulher, e que apenas encontra equivalente na ignorância dos homens das garagens.

 

- A menina precisa de mudar os calços.

Como se os nossos sapatos tivessem mais de duas semanas.

- A menina qualquer dia fica sem travões!

Como se alguma vez os tivéssemos.

- A menina tem de mudar o óleo.

Como se não usássemos o da Cartier. Que tontos! Tão cómicos!

 

- A menina tem de ir à revisão.

Enfim. Há também casos de assédio.

 

O que a Gaffe não entende são os sinais de luzes que avisam os condutores da presença esconsa da polícia nas esquinas da multa.

 

Vai uma pessoa apressada a enviar SMS ao senhor que segue no carro ao lado e que tem a amabilidade de lhe oferecer umas amostras irrisórias do imenso que traz na mala da viatura, e é encadeada pelo pisca-pisca dos faróis do irresponsável que surge na frente e que não entende que pode provocar um acidente quando o cavalheiro das amostras guina de súbito para inverter direcções.

 

Vai uma pessoa interessadíssima por suspeitar que, no camião que segue, segue um psicopata assassino com a arma disfarçada de tubo de escape e meia dúzia de porcos a estrumar as bermas espargindo cocó, e surge um pisca-pisca de luzes a obrigar o condutor a manobras doidas que podem perfeitamente fazer disparar os porcos, atingindo-nos com presuntos - toda a gente sabe que os danos que estas situações causam nos nervos dos bichos equivalem aos que ocorrem nos fumeiros.  

 

Vai uma criatura de Moët & Chandon à tiracolo e com uns binóculos invertidos cravados nos olhos, à espera de encontrar D. Sebastião por entre o nevoeiro e os vapores que entretanto se ergueram das garrafas e do hálito, e aparece um pisca-pisca pela frente a destroçar esta valorosa demanda histórica.

 

Vai uma pessoa de berço a catrapiscar a novíssima obra da Bobone, presa no volante - o livro, a Bobone só emperra na embraiagem -, e apanha com os mínimos do carro da frente a dar-a-dar. Uma afronta, pois que com a Bobone apenas os máximos são justificados.

 

Vai alguém em paz e sossego com um carrito emprestado a prazo indefinido que coadjuvou um levantamento um bocadinho explosivo no multibanco da aldeia, e é encadeado pelo pisca-pisca alheio que não tem consciência que vai perturbar os sonhos dourados do que agora é obrigado a retroceder, encetando a rota por trilhos menos nobres.    

 

Este vício português - trafulha e patifezinho - de accionar o prevenido pisca-pisca dos faróis quando a polícia está na curva a seguir, sugerindo aos anormais que surgem pela frente a fuga discreta, caso estejam a exercer os seus talentos psicopatas conduzindo anomalias - a Gaffe suspeita que não faz sentido sugerir a fuga a carros dentro das normas estipuladas e a condutores sérios -, leva esta rapariga a congratular-se com a desgraça da amiga que, depois de se ter esbardalhado numa canseira imensa a fazer sinais de luzes ao condutor do camião das mudanças que com ela se cruzou, avisando-o que tinha a polícia logo ali à frente, chegou a casa e percebeu que os seus electrodomésticos tinham deixado de existir. Os arredores inquiridos declararam que não tinham estranhado coisa alguma e que não desconfiaram de nada quando viram uns simpáticos senhores a enfiar uma televisão e um frigorífico num camião de mudanças. Só ficaram chorosos ao perceber que iriam perder uma tão amorosa e tão prestável vizinha.   

    

A Gaffe - pelo sim, pelo não -, mal vê piscar uma luz passa a usar óculos escuros. Disfarçam imenso e impedem que as pessoas maliciosas se apercebam que esta rapariga fica sempre muito atenta ao que a autoridade lhe revela.

O único problema é a baba que teima em tombar, embaraçando-lhe a pose, embora se possa sempre justificar o percalço deslizante com a ocorrência de um AVC provocado pela visão apocalíptica de um ameaçador casse-tête.  

 

Na foto - a prima da Gaffe apanhada na situação referida

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Gavetas:


13 rabiscos

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De Genny a 21.11.2017 às 13:58

Ora bolas! Só a mim é que não aparecem polícias desses...
Em que estradas é que circulas, mesmo?
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De Gaffe a 21.11.2017 às 14:20

Estão por todo o lado! É só separá-los do amontoado de paspalhos disformes que às vezes os acompanham - o que é cada vez mais raro.
Em Espanha são MARAVILHOSOS!

Viva a Catalunha!
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De Genny a 21.11.2017 às 16:09

Gaffe Maria, isso não se faz! Em Espanha? Em Espanha?! É longeeeee

(Há um departamento da polícia que parece que os escolhe a dedo - acho que é a polícia de intervenção. Alguns são realmente um regalo.....para os olhos )
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De Gaffe a 21.11.2017 às 16:18

Vês como encontras cá por casa?!
Mas olha que ainda mais longe, os franceses são uma perdição.

É o corpo de intervenção... ...

... Só com dois valium é que o podemos visitar...
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De Pequeno caso sério a 21.11.2017 às 20:09

Desculpem a intromissão mas NADA se compara aos Carabinieri.

De repente, fiquei com calor...vou ali à janela e aproveito para limpar a baba.
;)

P. S- "... as cópias que usamos para apanhar o cocó do caniche dos comentários anónimos nos blogs."

AHAHAHAHAHAHAH...
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De Gaffe a 21.11.2017 às 21:16

Ah!
Os carabiniere são deuses!
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De Anónimo a 21.11.2017 às 22:44


- A menina tem de ir à revisão.
Enfim. Há também casos de assédio.

Ahahahahahahah!

Já me ri, Gaffe com este seu post.
Boa noite.
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De Maria Araújo a 21.11.2017 às 22:48

Desculpe, Gaffe.
Mais uma vez, o anónimo sou eu.
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De Gaffe a 21.11.2017 às 23:09

:)
Não tem importância. Eu reconheci.
O válido é que se divertiu.
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De Edite a 22.11.2017 às 10:35

Muito bom!
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De Gaffe a 22.11.2017 às 11:11

:)
Merci!
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De Carlos Berkeley Cotter a 22.11.2017 às 16:52

Tenho-me rido imenso, consigo.
Muito bem escrito, sempre.
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De Gaffe a 22.11.2017 às 16:55

Gosto de o saber a rir comigo.
:)))
Obrigada.

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