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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe do Pai Natal

rabiscado pela Gaffe, em 05.12.17

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A chaminé da lareira principal, a da sala grande, onde por decisão superior - e ao contrário do habitual -, se realizará a ceia de Natal, começou a tossir.

Uma tosse seca, mas muito discreta, quase imperceptível se não fosse o fumo que, coitada, não consegue expelir e que assombra a sala como um fantasminha cinzento e suave.

O rapaz foi chamado – por insistência minha -, que a do quarto desta frágil menina é secundária e o funil - o filtro, a chaminé, o tubo, a canalização... Oh! Mas quem se interessa?! - está ligado a esta e como se acende pouco, quando se acende faz tossir a velha.

 

Como são previsíveis os braseiros jovens!

 

Vergou o tronco para trás e de pilha acesa mergulhou a cabeça no escuro. Virado para mim ficou um corpo arqueado, sem cabeça, de braços erguidos e um dos umbigos mais perfeitos da minha vida inteira.

- A menina quer ver como está tudo bem por aqui?

Estava tudo tão bem por ali!

 

Há instantes para tudo. Se deixamos escapar um, seja ele qual for, alteramos o rumo às histórias que vivemos e apesar de ser opção do momento espreitar o abismo confirmando que estava tudo tão bem, escolhi debruçar-me sobre o espírito, deixando a carne de lado e concluí, após meditação em larga escala, que todas as raparigas espertas deviam ter a possibilidade de ver descer pelos tubos um Pai Natal que preenchesse os requisitos exigidos pelas suas quadras mais privadas.

 

É aborrecidíssimo ter sempre um velhote obeso e bonacheirão, pontilhado por suspeitas de pedofilia, a tentar oferecer-nos coisinhas embrulhadas com papéis fofos, com laçarotes e velinhas. Não é empolgante ter a descer pelos tubos um enregelado ancião gorducho, de sorriso largo e barba longa e crespa, agarrado a caixinhas coloridas que trazem tantas vezes dentro a desilusão encharcada de espírito natalício.

 

Todas as raparigas espertas - as outras ficam felizes com a oferta de uns gorros, de uns arranjos, de uns pechisbeques, de umas peúgas, de uns cachecóis cheios de carinho e amor, compreensão e ternura, dedicação e simbolismo, doçura e simplicidade e todas essas coisas lindas, muito lindas, muito lindas -, deviam ter o direito de seleccionar o Pai Natal que as visitaria nesta quadra repleta de paz e de gente da família.

O rapaz da chaminé de justo macacão vermelho e golinha de zibelina, de botifarras lenhadoras, músculos santificados, um dos melhores umbigos que vi em todos os meus parcos natais e carradas de testosterona no saco das prendinhas, estando já enfiado no lugar devido, podia facilmente alegrar a consoada, mesmo descendo de mãos a abanar.

 

Nós, raparigas espertas, sabemos que o que conta sempre são as intenções.

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17 rabiscos

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De Gaffe a 05.12.2017 às 16:49

Minha querida,
A época da solidariedade é como a época dos incêndios. Ninguém a controla, mas todos a acham uma chatice.
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De Genny a 05.12.2017 às 17:08

(sem dúvida...)

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