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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dos dandies

rabiscado pela Gaffe, em 04.05.15

lenhador.jpgPor inépcia absolutamente irritante, ou maldição dos referidos, consegui a façanha de apagar o post que me deu algum trabalho a compor.

Porque sou ma rapariga de ideias fixas, volto à carga e tento reproduzir o que foi extinto inadvertidamente.

Falava-se da tendência das urbes para amalgamar as suas tribos, reunindo características de outras, dispersas, e apresentando o resultado como original e sucedâneo de uma evolução diferente da que se adivinha.

O pulular de homens com idades que abandonaram há muito as inconsciências e os sonhos adolescentes, que apresentam uma imagem com laivos de tribos que se vão esbatendo, acaba por tornar curiosa uma análise ainda que breve deste fenómeno.

1.jpgHerdeiros do Lenhador (atraentemente ilustrado na primeira imagem) que por sua vez tem inúmeros pontos de contacto com o retrossexual, os rapagões que agora são alvo desta rapariga adaptam ou sublimam características oriundas do prepy, acreditando que um acréscimo de exagero e a excentricidade podem afastá-los da tribo já institucionalizada e protegida pelas classes dominantes que se passeiam por Cambridge. O cuidado minucioso com o corpo, já patente nos hipster que envelheceram entretanto, agora apoiado pela atenção desmesurada ao pormenor e ao detalhe, não é novidade e continua a ser elemento identificador de grupo e factor de reconhecimento dos pares.

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São misóginos. A barba longa, desenhada e cuidada, esconde um subtil desprezo pela mulher e mesmo o cavalheirismo que alardeiam tem colado uma subvalorização paternal do elemento feminino que não possui um reflexo na imagem que criaram e que os faz acreditar que podem ser incluídos num qualquer clube de gentleman ingleses do século XIX, restrito, anacrónico e irrecuperável.

9.jpgApesar de ser constituída por homens adultos que ultrapassaram há algum tempo a idade dos trinta, a tribo parece ser a ilustração de um adiamento da maturidade. Não se espera que rapagões já muito crescidinho passem parte do dia preocupados em coordenar a cor do laço com a cor das peúgas, ou a tentar criar a ligação mais excêntrica entre a cor dos suspensórios e a cor do elástico das cuecas.

tumblr_nmc0wo2t7Z1sn35i0o1_500.jpgA imagem que se afirma poder ser construída sem gastos excessivos, usando umas calças da Zara devidamente adaptadas, uma camisa retro encontrada numa velha loja esquecida pela inflação e um blazer vintage com sabor a riscas que ninguém já quer, mas que o alfaiate controla com o peso das tesouras e das linhas da experiência, faz esquecer que para que se reconheça a elegância de um homem basta que lhe olhemos para os pés e que Gucci, Zegna ou Valentino, apesar de imprescindíveis no cozinhar desta imagética, serão sempre os ovos ausentes das suas omeletas.

tumblr_nl8wuyGlT41sn35i0o1_500.jpgO estertor de todas as correntes estéticas que surgem no emaranhado das cidades, faz esquecer que uma identidade que se quer única é incompatível com a facilidade com que se opera a reprodução massificada e que por muito esforço que se faça para que os elementos desta tribo se aproximem do dandy já perdido, a derradeira coisa que dele ouvem é um entediado juízo que conclui que é uma tolice ver rapagões desta idade a fazer de conta

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10 rabiscos

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De Carla a 04.05.2015 às 17:06

O texto original é este. Cortesia do feedly. (:


A tendência das grandes urbes para amalgamar as suas várias tribos, tornando visível o somatório desta operação nem sempre harmoniosa, está patente no aparecimento de um determinado tipo de homem cuja imagem se vai disseminando pelas avenidas de algum descontentamento existencial.

Claramente herdeiros do lenhador (muitíssimo bem ilustrado na primeira imagem), homem próximo do retrossexual, esta tribo reúne traços nítidos de várias outras, adaptando-os ou sublimando-os, mantendo visível a recolha de resquícios preppy, exagerando-os ou entregando-lhes uma excentricidade muitas vezes exagerada, negando dessa forma o toque já institucional e a protecção das classes dominantes aos meninos de Cambridge. Os vincos uber e metrossexual surgem visíveis na atenção que dispensam ao corpo, mantendo-o como elemento de um código social muito restrito e tornando-o factor de identificação e reconhecimento dos pares, assim como agente agregador ou argamassa de grupo.

1.jpg
A imagem é suportada por homens que já ultrapassaram há muito a idade da inocência adolescente, mas, e apesar de serem uma evolução esperada dos hipster que envelhecem, é curioso verificar que resultam de um certo adiamento da maturidade. Não se espera que homens com mais de trinta anos percam horas seguidas com a coordenação do laço e das peúgas ou se a cor dos suspensórios se alia à do elástico das cuecas, dedicando a estes dilemas grande parte dos dias.

2

São misóginos. A barba longa, cuidada, controlada e desenhada, esconde um certo desprezo pelo feminino, acreditando pertencerem a um perdido clube de gentleman ingleses do século XIX e mesmo o cavalheirismo que alardeiam não passa de subvalorização paternal da excluída mulher para a qual não há o reflexo da imagem que criam.

4
A subjectivíssima elegância que dizem encarnar é, de acordo com alguns, fácil de obter. As calças Zara adaptadas ou a camisa retro encontrada na loja velhíssima esquecida pela inflação, se bem apoiadas pelo balzer vintage com sabor a riscas, pode operar o milagre da sofisticação e da mais acabada das distinções. É o tempo que perdem nestas andanças adaptativas que os fazem esquecer que para reconhecermos um homem elegante basta que olhemos para os pés e que por muito que estrebuchem Zegna, Gucci e Valentino, embora sendo os ovos imprescindível à construção destas imagens, estão sempre ausentes das suas omeletas.

3
Uma identidade incontornável e segura impede a sua reprodução em massa e não é de forma nenhuma por nos assegurarem que são um dos estádios finais de uma renovada elegância excêntrica e saudosista que os torna próximos do dandy cuja estética e filosofia dizem ter herdado e que lhes diria com certeza que os meninos são demasiado velhos para fazer de conta.
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De Gaffe a 04.05.2015 às 17:17

O que tu consegues fazer!!!!

Obrigada!

( Não difere muito do publicado. Prova que não sou muito criativa.)
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De eduardo a 04.05.2015 às 18:45

há uma linha muito ténue que separa o bom gosto do parolo.
se fosse o poeta diria linha divisória.
o comentador chama-lhe linha invisível.
something old, something new, something borrowed, something blue.
o dandy será mais snob & hacker que ovelha ronhosa com macacos no nariz e eau de toilette belzebu às mãos cheias.
pity uomo.
o street fashion tem muito disto em todos os géneros que promove globalmente, online and off.
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De Gaffe a 04.05.2015 às 19:49

Concordo inteiramente.
Pitti Uomo reduzida a " Pity Uomo"sem qualquer dúvida, mas com a agravante da falta de inteligência que às vezes por lá passa.
A linha que refere é demasiada vezes esmagada.
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De O Homem Certo a 04.05.2015 às 19:39

A gaffe é socióloga?
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De Gaffe a 04.05.2015 às 19:42

oh! Não.
Sou mais uma rapariga de bata branca.
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De Gaffe a 04.05.2015 às 20:41

:)))))
Não. Acredite que não. Lembre-se das toucas e dos "sapatos" verdes.
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De O Homem Certo a 04.05.2015 às 20:48

Ah pois é. Ninguém merece usar touca
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De Gaffe a 05.05.2015 às 09:24

... depende ...

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