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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dos homens tristes

rabiscado pela Gaffe, em 04.10.17

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No Douro, os homens amadurecem a dor. Amadurecem a tristeza.

No Douro, a tristeza dos homens - daqueles que conheço -, vai envelhecendo com eles. Pacifica-os. Entrega-lhes uma benevolência calma e uma tranquilidade benévola, que são metamorfoses da indiferença.

 

Ao contrário dos homens, as mulheres do Douro param na tristeza. Urdem casulos pretos onde escolhem esconder a vida que estancou. Fechadas dentro da alma, espiam de negro amargo o voltear das estações, assistem enlutadas ao inexorável oxidar do tempo, detêm-se hirtas na demora da morte da memória.

Ficam só elas.

 

A tristeza dos homens, aqui no Douro, é um corpo a envelhecer ao lado deles, com o sossego do inevitável, com a delicadeza do silêncio que acompanha o paradoxo que é ter, ao mesmo tempo, uma espécie de cortesia oriental, dócil, delicada, emudecida, translúcida, submissa, e a combatividade dos retorcidos troncos das videiras.

A tristeza dos homens do Douro, usa mantos tatuados com dragões coloridos, sobreposições de sedas e de cores. Faixas pacientes. Tem cabelos lisos, pretos, presos por travessas de jade trabalhado, olhos de pálpebras fechadas, pés impalpáveis com passos delgados e mãos de chá puro de ritual antigo.

 

O rosto de alabastro.

 

A tristeza dos homens tristes, aqui no Douro, vem e vai, sempre atrás deles.

Acorda-os com o som do Shamisen. Vê-os brutais comer, despedaçando a carne ensanguentada, e toca os alimentos com a brandura dócil da deferência. Canta-lhes como cantavam as Goze, enquanto suam curvos pelas vinhas.

A tristeza dorme sempre aos pés dos homens tristes ou fica acordada a guiar o vento para lhes amainar os corpos destroçados.

 

Ao contrário das mulheres, aqui no Douro, os homens tristes nunca ficam sós.       

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9 rabiscos

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De Carlos Berkeley Cotter a 04.10.2017 às 11:59

Texto de beleza branda e serena.
Muitos parabéns.
Obrigado pela delícia.
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De Gaffe a 04.10.2017 às 12:10

Sempre às suas ordens, Mr. Cotter.
Obrigada.
:)
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De Fleuma a 04.10.2017 às 17:10

Isto.

Ao acordar. Entre silêncio e uma imensa chávena de café negro.

Esta escrita de labirintos e ( sempre, sempre!) atmosferas.


Por agora chega.

Saúde...
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De Gaffe a 04.10.2017 às 18:57

Por agora chega, meu querido Fleuma. Há atmosferas que em mim me assustam. Deixemos repousar o chiar do vento.
:)
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De j.campião a 06.10.2017 às 17:11

Andas por lá, por entre as videiras, a observá-los; sentas-te à mesa com eles... E depois fazes uma inesperada comparação com a cultura japonesa, que resulta muito bem!
Gosto que me despertem e atirem contra outras pessoas, contra outros lugares.
Obrigado pela viagem.
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De Gaffe a 06.10.2017 às 18:58

Lembrei-me de um fado!
"... mas a tua vida não. ."

Mas este é um povo sem viagem.
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De Maria Araújo a 10.10.2017 às 22:39

Uma vida serena e triste.
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De Gaffe a 11.10.2017 às 09:55

Não sei.
Não sei se há serenidade nestas vidas.
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De Maria Araújo a 11.10.2017 às 17:32

Sim, tem razão.

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