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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e a amiga

rabiscado pela Gaffe, em 15.07.16

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Tenho uma amiga, com um cérebro capaz de proezas incríveis, que adicionou o filho, rapaz dos seus dezanove anos e longe do alcance materno, à sua lista de amigos do seu facebook.

 

Nenhuma senhora, por mais genial que seja, deve adicionar um rebento ao seu facebook e esperar não ter surpresas desagradáveis. Melhor ainda, nenhuma senhora genial deve ter facebook. Ponto.

 

Acontece que a minha ilustre amiga percebeu que no mural do facebook do filho, os que por lá passavam se tratavam no feminino. Aquilo era estás linda para aqui, és maravilhosa, mulher, para acolá, ficaste ranhosa e o rímel esfarela, porca, um bocado para os lados.

 

Como é evidente, não foi por o rapazola não ser adepto do sexo oposto - sendo o facto do conhecimento materno, não foi por lá que o gato foi às filhóses, ou a qualquer coisa do género, - por ter vislumbrado um lapso gramatical ou ainda por ter percebido que os amigos do rapaz não acertavam com o género que devia dominar os comentários, que a senhora se irritou e cravou no filho aquilo a que se pode chamar um raspanete de nos fazer morrer fulminadinhos logo ali. Uma escândalo momumental.

 

Compreendi, quando ela me explicou, a indignação que lhe provocou a troca dos pronomes pessoais e aplaudi a reacção que teve.

 

Não quer que se defendam os direitos do filho, que não considera sequer beliscados, com um gritedo cor-de-rosa abichanado, às portas das Assembleias e não acredita que o rapaz tenha passado uma procuração para que alguém lhe proteja o que ela considera capaz de ser defendido com um estalo certeiro. Não consegue respirar normalmente, sem largar cobras e sapos pelas narinas, quando vê dois senhores beijocarem-se, estando um deles vestido de noiva, véu e rabona incluídos. Recusa ver o filho representado por um bando de gente de turbante arco-íris e manifestação de purpurina, que age como se estivesse a defender uma manada de búfalos em vias de extinção ou a tentar salvar os cães e os gatos que são abandonados pelos donos em férias. Não percebe como não é considerado uma falta de ambição miserável reivindicar o direito a vivenciar determinada sexualidade, sem entender o incontornável o facto de se existir e de ser impossível negar ou renegar essa existência, sem se roçar o transtorno e a deformação mental.

 

Cresceu segura de que o que vê, lê, escreve, faz, cheira, tacteia, resmunga, diz, sente e tudo o mais que é, é dela por direito adquirido, inevitável e inalienável. Não há forma de negar a evidência e, assim como reconhece esta evidência no Outro e a respeita, a dignifica, a assume e a considera intocável, exije sozinha - exactamente como devemos ficar perante aquilo que é da nossa inteira responsabilidade - que lhe seja retribuído o que naturalmente lhe é devido.

 

Quando os amigos do filho o tratam no feminino e são brindados da mesma forma, seja lá onde for, não acha graça nenhuma. Não é jocoso, nem fresco, nem saltitante, nem descontraído, nem risonho, nem amável, nem refrescante e nem sequer possui aquele humor muito saudável de adolescente inconsciente que parece querer fazer passar. É apenas um amesquinhar tolo e um devassar do respeito que exigimos, por ser nosso por inerência, e da dignidade que lhe está apensa.

 

O filho da senhora que conheço trata, e recebe troco igual, por amigas, por queridas, por elas, ou apenas por ranhosas, aqueles que passam no seu muro facebookiano e não percebe que tal idiotice não é prova de cumplicidade ou de intimidade mais firme ou mais solidificada. Não é sequer vestígio de identificação de grupo ou de pertença a qualquer eventual círculo formado transitoriamente por necessidade pontual. Não é capaz de criar laços da mais banal e descontraída das ligações, porque é uma imbecilidade contaminada pelo vulgar, pelo inútil e pelo desnecessário.

 

Com toda a carga pejorativa, ridicularizante, amarfanhante e diminuidora que a palavra também contém, é apenas bicha.

 

Felizmente tenho uma amiga com um cérebro capaz de proezas incríveis.

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6 rabiscos

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De Corvo a 15.07.2016 às 12:04

Raios, Gaffe.
Profundo de mais para o meu tacanho entendimento.
A ver se a menina utiliza a ética e faz posts mais condicentes com o entendimento do comum mortal.
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De Gaffe a 15.07.2016 às 12:10

"A ética é a aprazibilidade do rebanho.
Todo aquele que não segue o carreiro, tende sempre a ser desfavoravelmente julgado pela ética do pastor."

Estava ansiosa. Tinha mesmo de o plagiar.
;)
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De Corvo a 15.07.2016 às 12:59

Oh! Gaffe,
Nem sei que diga. Deixou-me sem jeito. Quanta honra!
Mas não é um plágio. A menina faria muito melhor, simplesmente não lhe ocorreu.
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De Gaffe a 15.07.2016 às 13:34

Não.
O mérito é seu.
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De PT a 15.07.2016 às 17:18

E adiantará?
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De Gaffe a 15.07.2016 às 19:23

Acredito que sim.

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