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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Manuel Forjaz

rabiscado pela Gaffe, em 30.01.14

Vi ontem com alguma curiosidade o novo programa de José Alberto Carvalho, 28 minutos e 7 segundos, que tem como parceiro de aventura Manuel Forjaz.

Manuel Forjaz é um cinquentão absolutamente sedutor. Um homem elegante, repleto de charme, muitíssimo bonito, dono de um certo glamour vintage, uma capacidade de comunicação invejável capaz de cilindrar o jornalista que nitidamente o venera, óptimo gosto, culto, com dois filhos de desorientar uma freira, economista na UCP, pós graduado em Estudos Africanos no ISCTE, estudos em Social Entrepreneurship (INSEAD) e Liderança (Harvard Kennedy School of Government), Director na ANJE entre 1997 e 2004, Marketing, Head of Sales Unilever, 88-94, Director Geral da Bertrand, CEO da Medipress (Grupo Impresa), investigador no CEA, professor universitário de Mestrados no ISCTE, ISEG e dos Mestrados da Nova, fundador dos Pais Protectores, Ideólogo/inspirador do Pé de Fé – IES - e primeiro host do TEDxOporto, homo faber.

Um portento como se vê.

Para além de fisicamente arrasador é inteligente. Duas qualidades que, quando juntas, se tornam um perigo para qualquer rapariga desprevenida.

Como será evidente, não passeia por estas avenidas e não me verá a ser politicamente incorrecta, à sua semelhança.

Manuel Forjaz sofre de cancro do pulmão há cinco anos.

É exactamente esta característica secundária que motiva indirectamente o programa. Manuel Forjaz é um exemplo de sobrevivência, de coragem e de destemor (não são necessariamente a mesma coisa) e representa a mais gloriosa forma de se lidar com uma das mais tenebrosas doenças de que há memória.

 

No entanto não o consegui ouvir até ao fim nem vou fazer parte dos seus mais de 20.000 fãs no FB.

Reconheço-lhe o saudável desprezo e a arrogância eficaz com que lida com a doença e a vontade orgulhosa e quase heróica de sorver a vida com aquele marinheiro que se vê a afogar, atado e atirado a um mar que deixa de súbito de conhecer, mas ouvia-o como quem abre um livro de auto-ajuda e se cansa com a avalanche de frases feitas, de sonhados conceitos, ideais floreados, clichés, paisagens interiores retocadas e construídas pelo privilégio, motivações, justificações, razões e enlevos, conselhos e sugestões já gastos (e tantas vezes inúteis) de tanto se usarem em situações limite e passíveis de irreversibilidade.

Perante a coragem, sentido crítico, clareza, brilhantismo e ausência total de qualquer indício de desespero, depressão, abatimento (incluindo o físico) e de outros tantos sintomas que chegam apensos à doença e dela se tornam também características, senti-lhe, como criatura maldosa que sou, um laivo, uma réstia, um traço esbatido de exibicionismo que me pareceu ligeiramente ofensivo.

A glória física que Forjaz exibe não é comum, assim como não é comum o privilégio que consiste na possibilidade de se recorrer a médicos de topo (uma das ferramentas indicadas por Forjaz que coadjuvam, na linha da frente, a luta contra o cancro) cuja primeira consulta custa 600€. A manutenção da lucidez e da fria inteligência, a pujança aparente, a permanência da beleza física, a elegância cuidada, a sofisticação conservada, a dignidade preservada, a postura serena e impávida perante a maior adversidade, a consciência nítida da finitude e a exigência de nobreza neste assumir da inevitabilidade e da morte, não são comuns à esmagadora maioria de doentes oncológicos.

A brutal decadência física e o medo, o mais asfixiante e castrador dos medos, tomam tantas vezes o lugar de tudo e fazem desistir porque transformam a vida toda, todos os minutos e todos os segundos, em despedidas.

Forjaz dominou o medo e, por privilégio concedido pelos deuses, evitou a decadência. Usa as ferramentas que vai aconselhando, mas esquece-se que são poucos aqueles a quem o cancro deixa mãos para as segurar.    

Não tenho a veleidade de supor que o testemunho de Forjaz é contraproducente (não creio que seja), mas não consigo deixar de pensar que talvez não atinja os objectivos que, tenho a certeza, são bem intencionados nesta desempoeirada exposição. 

 photo man_zps989a72a6.png

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62 rabiscos

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De Anónimo a 05.04.2014 às 01:49

Fui procurar informação sobre Manuel Forjaz, pois a minha curiosidade tem andado em crescente sobre o mesmo. Encontrei a publicação Gaffe e se de inicio até senti alguma partilha com o que estava escrito, depressa me senti cansada.
Adjectivos demais? Não sei... não quero ir por aí, peço desculpa mas não senti muita inteligência emocional, senti dor e revolta, e isso não é positivo para ninguém.
Todos temos direito a uma opinião e eu não tenho que fazer juízos sem sequer saber qual a origem desse sentir. Mas gostar mesmo, gostei do comentário de Gonçalo Carreira que sinceramente me pareceu muito coerente, pacifista e terno. Boa noite e obrigada por me terem feito sair da "caixa lógica".
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De Gaffe a 05.04.2014 às 21:23

É interessante o seu comentário.

A capacidade de sentir revolta e dor (aquela a que se refere) é do domínio da inteligência emocional, mas surpreende-me que refira “dor e revolta” no que disse aqui. Não me tinha apercebido que exstiam.

Vou-lhe contar duas pequenas histórias (escolho as mais recentes) das dezenas e dezenas que tenho acompanhado.

O Sr. Amândio morreu há três semanas. Tinha 56 anos. Era doente oncológico em fase terminal. Recusou sempre o internamento em cuidados paliativos. Recusou todos os fármacos que lhe atenuariam a dor (inimaginável, indescritível). Disse-me uns dias antes de morrer que a dor era a única coisa que o cancro lhe permitia sentir. Que não o deixava pensar na vida e na morte. Deixava-o livre.

A D. Altina era florista. O cancro foi-lhe invadindo a vida toda durante cinco anos. Morreu há uma semana depois de lutar de um modo heróico. Tinha 45 anos. A última coisa que me disse é que queria morrer, para poder dormir sossegada “nem que seja por cinco minutos”.

Peço-lhe desculpa, mas quando ouço MF, lembro-me dos Sr.s Amândios e das D. Altinas e só me apetece mandá-lo à merda.
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De Anónimo a 14.04.2014 às 18:52

Minha querida anónima.
Muito obrigado pela forma como me adjectivou, o meu ego ...

Ao Manuel um até já ou até um dia destes pois também acredito muito que há mais para além da morte, pode ser só uma forma de não se ter tanto medo dela, mas eu acredito.

Para a Gaffe um sorriso e não se envergonhe de nada.

Fora de contexto:

Cirurgias no IPO canceladas devido a falta de batas.
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De Gonçalo Carreira a 14.04.2014 às 19:00

Minha querida anónima.
Muito obrigado pela forma como me adjectivou, o meu ego ...

Ao Manuel um até já ou até um dia destes pois também acredito muito que há mais para além da morte, pode ser só uma forma de não se ter tanto medo dela, mas eu acredito.

Para a Gaffe um sorriso e não se envergonhe de nada.
Fora de contexto:

Cirurgias no IPO canceladas devido a falta de bata

*Peço desculpa pelo duplicado mas o comentário não tinha o propósito de ser anónimo, foi um lapso do autor,eu.

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