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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e os spornossexuais

rabiscado pela Gaffe, em 13.06.14

Depois do teste, é altura de os conhecerem.

Se pensava que o mankini era uma forma tenebrosa que apoiava a tendência dos homens a revelarem na praia muito mais do que o necessário, chegou agora a um nível totalmente novo: o mankini híbrido, uma espécie de meio-fio dental.

Minhas queridas, se é isto que alguns homens pensam da sensualidade, então estamos todas condenadas.

(towie-pants)

Embora as patéticas criaturas da imagem não sejam frequentes e representem o vértice desfocado e apalermado da pirâmide, preparemo-nos, porque há alguns patamares mutíssimo mais aceitáveis que já desfilam, se quisermos acreditar na ascensão da chamada spornossexualidade que engloba uma nova espécie de homens que usam e abusam de produtos, práticas e prazeres anteriormente apenas domínio das mulheres e dos gays, dando início a uma nova existência, um novo conceito de sexo e versão corpo-obcecado.

 Mark Simpson, que cunhou o termo metrossexual, explica agora o spornossexual:

Um homem das selfies, obcecado social, mergulhado na sua aparência, no desporto e na pornografia. Rapazes-músculo que tornam o corpo o acessórios final, moldando-o no ginásio, tonificando-o, perfumando-o e gravando cada ondulação em selfies que espalham no facebook, fazendo do desenvolvimento dos abdominais quase uma prática masturbatória.

A capacidade do mercado para vender uma imagem é surpreendente!

As mulheres tiveram de suportar esta comercialização durante anos. O fadário começa no masculino em 1990 com o aparecimento dos metrossexuais.

Mas o metrossexual deixou a adolescência e completou 20 anos. O jovem solteiro com um rendimento elevado, que vive ou trabalha na cidade (porque é na cidade que as melhores lojas se fixam) foi o mercado consumidor mais promissor da década, mas o futuro da masculinidade está já hidratado e apesar do metrossexual continuar a ser a menina dos olhos de rapina do consumismo, as revistas de fitness fazem brilhar peitorais e ondular abdominais, promovendo uma cultura de celebridade com a sua luta darwiniana para se ser notado.

Em defesa da metrossexualidade, existia o facto de, pelo menos, essa tendência se basear no refazer do corpo e do allure para se ser atraente para os outros. Havia de certa forma uma natureza e uma razão social. O spornossexual , pelo contrário, está realmente interessado apenas nele, com o seu olhar de si e em si – é um narcisista quase patológico.

(Dan Osborne - direita - exibe a sua spornossexualidade em Marbella - foto Rex Features)

Não só não é certo, como é também perverso numa era de austeridade que exige uma maior consciência das armadilhas do consumismo e um maior espírito de envolvimento social, que se assista a uma celebração da cultura da celebridade com a sua luta darwiniana para se ser notado através de um visual, de uma marca, no mundo finalmente afastou os restos de Victorianismo (Mark Simpson). O narcisismo, sugere o autor, é o inimigo do puritanismo vitoriano, assumindo que Wilde teria apreciado um mundo em que os homens procuram ser parecidos com estrelas porno.

Claro que a idade da Old Spice está atrás de nós. Já não há paciência para um bigode espesso e desgrenhado ou para um corpo a cheirar cerveja, a gordura e a cocó de cavalo, mas passar horas a admirar ao espelho o resultado do ginásio, pode significar apenas o triunfo do charme e inteligência de um gorila rapado.

É verdade que Óscar Wilde disse que a beleza era mais elevado do que o génio, porque não requer explicação, mas O Retrato de Dorian Gray  (todo o excesso, assim como toda renúncia, traz a sua própria punição) prova que a estética tem limites morais ou pode merecer até censura. Quando se busca a perfeição para usufruto, acaba-se corroído.

Este paradoxo que Wilde teria saboreado, não é superficial. Não se trata de tratamentos faciais e manbags, guyliner e chinelos. Não se trata de homens femininos ou gays. Trata-se de homens que se tornam tudo, apenas para eles, mesmo que necessitem depois de estampar na embalagem a chupeta fálica da palavra HOMEM.

Com corpo meticulosamente esculpido, esta espécie de metrossexualidade de segunda geração está menos preocupada com o vestuário do que a primeira. Ansiosamente auto-objetifica-se tornado os corpos os acessórios finais, partilhados e comparados num mercado online.

Esta nova imagem de homem destaca e sublinha o sexual na metrossexualidade, como se o desporto fosse para a cama com a pornografia enquanto o Sr. Armani tirava fotos.

Ao contrário dos metrossexuais de Beckham, em que os seus atributos são possivelmente reforçados de modo artificial, os spornossexuais têm photoshop na vida real porque querem ser procurados pelos seus corpos, não pelo seu guarda-roupa e, certamente, não pelas suas mentes.

 

Suspeito que Óscar Wilde aprovaria.

 photo man_zps989a72a6.png

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7 rabiscos

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De omundodosoutros a 13.06.2014 às 21:45

Muito bom. São sempre muitos bons. Como é possível escrever tão bem.
Mas este, em especial, pelo seu valor educativo devia fazer parte do Plano Nacional de leitura.
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De Gaffe a 14.06.2014 às 00:48

Obrigada!
Vindo de ti, deixa-me muito orgulhosa.
:)
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De Quarentona a 14.06.2014 às 23:41

Fabuloso, as always :))))
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De Joana a 17.06.2014 às 12:09

Confesso que me atraem mais homens com pelos e sem esses corpos que parecem esculpidos, mas cada vez são mais raros. Espero que o meu não me fuja, se não estarei tramada e acabarei sozinho o resto da vida...parece-me.
Quanto aos rapazitos da primeira, faz-me um bocado de confusão como é que conseguem segurar aquele trapito que trazem vestido. caramba eu não me sinto muito à vontade quando uso soutien sem alças!
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De Gaffe a 17.06.2014 às 12:29

às vezes penso que nada bate um bom, terno e sensual troglodita!
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De C. a 17.06.2014 às 14:55

PORRA!
tu não me digas que os 1ºs me fugiram?!
eu sabia que devia ter escolhido psiquiatria!

os restantes estão aprovados. parecem muito... "saudáveis"...
depois, quem se interessa pelo cérebro quando existem órgãos mais ao dispor e bem mais desenvolvidos?

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