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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e um homem banal

rabiscado pela Gaffe, em 13.03.17

 

Da janela do meu gabinete, consigo ver, todas as manhãs demasiado cedo, um homem que vem à rua fumar um cigarro.

É novo e parece arrepiado. Bate com os pés no chão e esfrega os braços com as mãos bonitas. Não usa resguardo ou casaco, talvez para que dentro não se apercebam que se ausentou do serviço.

 

É banal.

 

As hastes dos óculos não são as recomendadas pelos peritos - e sobretudo pelas especialistas, que decidem que hastes devem os homens transportar em determinada época - e não controla o uso de pequenos adereços. Usa-os em excesso.

Vejo-o todas as manhãs e começo a sentir que o quero esperar àquela hora e que lhe sentiria a falta se um dia o cigarro acabasse definitivamente.

 

Às vezes penso que a banalidade é um vício.

 

Às vezes penso que é a banalidade que nos faz falta. Aquela espécie de diário corriqueiro que muitas vezes lamentamos e que nos transforma a consciência da realidade num enorme dissabor ou numa desilusão difícil de carregar.

 

Não sei se alguma vez vou conhecer o homem do cigarro. É provável que não. Sempre suspeitei que andamos constantemente a fugir das pessoas certas e o homem do cigarro matinal não preenche os requisitos que lhe permitiriam pertencer ao meu círculo de amigos. É um círculo que passa o tempo a tentar escapar às pessoas certas, acreditando que as escolhas que faz são as menos comuns.

Não sabem que as pessoas certas, são banais. Que fumam todas as manhãs, à mesma hora, fora dos intervalos do serviço; que sentem frio, porque não querem que se descubra a sua pequenina ilusão de fuga; que usam aquilo que já é fora de moda; que cantarolam para dentro qualquer coisa que ouviram algures pelo caminho e que falam da tijoleira que levantou com a chuva no mesmo tom com que referem o discurso do Trump.

 

São como o homem do cigarro friorento que é a certeza de todas as minhas manhãs, à mesma hora, demasiado cedo, e que me faz tanta falta como a banalidade que mo faz esperar.

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Gavetas:


10 rabiscos

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De a mãe dos PP's a 13.03.2017 às 10:53

Lindo!
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De Gaffe a 13.03.2017 às 12:57

Ele é!
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De Maria Araújo a 13.03.2017 às 12:01


Um post tão doce, Gaffe.
À medida que avançamos na idade acreditamos que estes momentos ou situações banais, nos enchem a vida.

"Sempre suspeitei que andamos constantemente a fugir das pessoas certas..."
Esta frase caiu-me tão bem.

Um bom dia.
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De Gaffe a 13.03.2017 às 12:57

:)*
A banalidade é extraordinária.
Bom dia para si também!
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De Pequeno caso sério a 13.03.2017 às 18:25

Sou de rotinas.
Não fumo.
Sou ...banal e falo de banalidades.
Espero que baste .
;)*
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De Gaffe a 13.03.2017 às 20:43

:)*
Uma mulher nunca é banal. Os outros é que são distraídos.
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De Kalila a 13.03.2017 às 20:33

O homem deixou de ser banal mal a Gaffe reparou nele! (na minha modesta e banal opinião)
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De Gaffe a 13.03.2017 às 20:44

Normalmente sou acusada de banalizar os homens!
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De Kalila a 13.03.2017 às 20:57

Estou convicta que só os que o merecem!
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De Gaffe a 13.03.2017 às 22:12

Provavelmente todos.
Merecem (merecemos) ser banais de vez em quando. É tranquilizador.

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