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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe ecuménica

rabiscado pela Gaffe, em 05.05.17

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Por serem cada vez mais raras as ocasiões em que nos encontramos em simultâneo num sítio e numa mesma hora, a minha irmã decidiu que os três manos deviam jantar juntos. Eram eliminados três bichos com uma paulada só, tendo em consideração que se acrescentava à reunião a vantagem de conhecermos a nova namorada do meu irmão e que era possível descartar, partilhando, a maçada de ter de aturar um colega japonês que colabora no actual projecto da anfitriã.

 

O restaurante foi marcado com a antecedência da praxe e, como seria previsível, fui a primeira a chegar.

 

O senhor da recepção, atrás do seu púlpito, sorriu com todos os botões do seu casaco preto abotoado e foi informado que havia sido feita uma reserva. Empalideceu, o sorriso ficou roxo e os olhos tombaram em queda livre no livrinho das reservas, soltos das órbitas, quando anunciei o nome que devia figurar na sua lista.

Carlos Fabián Villa.jpgTranquilizei-o:

- Sou apenas a irmã mais nova.

As cores regressaram e os olhos também.

Fui conduzida à mesa assinalada e sonhei por instantes fugir para devorar um cachorro quente - do tipo Grand Danois - que tinha visto fabricar na barraquinha da esquina, antes de fazer de conta que me deliciava com os beliscões culinários do Grand Chef de revista.

 

O sonho durou pouco porque o meu irmão entrou logo a seguir.

 

É incompreensível a atracção - que se tem revelado fatal - que o maninho sente por nórdicas! Ao lado, um felino loiro e alto, uma espécie de Twiggy misturada com Kim Novak, arrastava, no trocar de pés de manequim, um gelo de fiordes que condizia com o azul frígido dos olhos de iceberg. Uma mulher lindíssima, logo estúpida - em relação a estes assuntos, gosto muito de respeitar os preconceitos e a sabedoria ancestral -, que se sentou depois de me mostrar uns dentes tão perfeitos que fazem com que nos apeteça bater-lhes com o cabo da faca e de sacudir o cabelo liso, brilhante e tão sedoso que por instantes me vi nele reflectida.

José Rodríguez Mota.jpg

Lykke Svenssonolofssonbengtsson - ou coisa que o valha. Não vale a pena fixar, pelas razões que se adivinham.

 

Antes de trabalhar a amabilidade, amaldiçoei a hora que penei à procura de um vestidinho em condições, porque deparo com os velhos jeans do meu irmão tão apertados que quando os tentar despir arranca a pele e - livre-nos Deus - também a pila que, salta à vista, não tem ar nenhum ali fechada.

 

Desatam a falar alemão - a lambisgóia vive em Berlim desde os dois meses, informa o mano que corre o risco de perfurar os olhos cravados nos mamilos que enfeitam as bolas rígidas de cidade onde a dona vive sem soutien.   

Que sim, que já tinha identificado a língua e que sim, que não entendo, mas que não me importo.

 

A minha irmã, mais uma vez sebastianista, com um atraso gigantesco que se justifica apenas com a possibilidade de ter estado a sacudir das cuecas a areia do deserto onde se perdeu com o Desejado, faz finalmente a sua entrada fulgurante.

Atrás de uma grande mulher está sempre um homem, diz o povo, que o povo diz coisas. Não vejo o mocetão, porque é japonês e portanto - é mais que certo - pequenino e porque quero provocar uma brisa de indiferença soberba e sofisticada, abrindo a clutch, a pochette, a carteirinha, a porcaria da maleta anã, fazendo de conta que estou distraída à procura do Camões. A porcaria da anã é da minha mãe e encontro dentro duas aspirinas, um Ben-u-ron e a subliminar prova que sou filha dela escrita num papelinho muito dobradinho:

 

Não perguntar B(…) pelo marido. Morreu - três anos.

A L(…) cunhada M(…). Não referir P(…) - amante duas.  

Comprar Ben-u-ron.   

 

O casal chega por fim à mesa e com o meu melhor Greta Garbo enfastiada ...

garbo.gif

...  ergo a cabeça esperando cruzar os olhos com os do japonês que segundo os meus cálculos devem estar ao mesmo nível que os meus, que estou sentada - o homem supostamente é pequenito - e apanho com a braguinha do sujeito a rir-se para mim.  

 

O homem é altíssimo!

 

Deve ser o único japonês à superfície do planeta que a minha irmã cumprimentou sem se ter de baixar primeiro.

 

Fico com os olhos cravados na pila nipónica até a minha irmã a fazer sentar à minha frente e depois de os ter, para disfarçar, espetado nos mamilos da sueca sem antes ter arrancado dali os do meu irmão.

 

E la Nave Va, fellinianamente.  

 

A girafa loira fala alemão para o namorado que lhe responde para as maminhas em inglês, para percebemos. A minha irmã fala francês para o gigante asiático que lhe responde numa língua estranha que não consigo identificar. Traduzem tudo para português, só para criar ambiente – manos amorosos!

 

Acabei por tomar as aspirinas e - pelo sim, pelo não -, engoli também o Ben-u-ron.

 

Isto de se ser ecuménico só lá vai com o Papa.    

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18 rabiscos

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De Cecília a 05.05.2017 às 12:48

ai a ONU vista pelos seus olhos tem outro pandã

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De Gaffe a 05.05.2017 às 12:56

Teria, se fosse eleita Secretária-Geral. Coisa que devia ter já acontecido.
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De Quarentona a 05.05.2017 às 15:04

Ahahahahahah :D
A Cecília falou na ONU e eu vi um outdoor da United Colors of Benetton :))))
Tão bom, Gaffe, tão bom :)))
(desejo a melhor sorte do mundo ao rapaz que ainda não descobriu os encantos de uma morena)
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De Gaffe a 05.05.2017 às 15:25

É bem verdade, embora os miúdos Benetton sejam muito mais civilizados do que nós.
:)))

O meu irmão está ainda em fase exploração. As morenas que o aguardem... ...
;)
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De Kalila a 05.05.2017 às 15:39

Por questões profissionais, farto-me de almoçar e jantar em várias línguas e sem cachorros quentes por perto. Normalmente é um enfastiamento, até pela própria comida. Dependendo do sítio do mundo e da localização das janelas, às vezes o que me vale é, simplesmente, a paisagem. Vou começar a pensar seriamente em convidar a Gaffe... :)))))))))))
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De Gaffe a 05.05.2017 às 16:51

Desde que seja servida a gastronomia do Norte de Portugal, em doses cavalares, estás à vontade. O convite é aceite.
:))
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De Kalila a 05.05.2017 às 17:13

Hum... norte da Europa, norte da América, norte de África... não serve, não é?
:))))))
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De Gaffe a 05.05.2017 às 21:41

No Norte da Europa não se come bem.
A gastronomia do Norte da América e de África não conheço suficientemente bem para opinar.
Venham portanto umas tripas à mpda do Porto!
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De Kalila a 05.05.2017 às 21:47

Ahahah! Temos que levar a marmita!
Bom fim de semana, amiga.
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De Gaffe a 05.05.2017 às 23:29

Uma marmita Louis Vuitton. Não "descambemos".
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De Kalila a 05.05.2017 às 23:59

Claro!
Ou escura, o que melhor ficar com os nossos cabelos ruivos! /*_*/
:))))
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De Gaffe a 06.05.2017 às 09:18

:)))
Dizem que a Cartier tem umas lindas...
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De Pequeno caso sério a 05.05.2017 às 19:18

:)))))

Ó minha amiga, tão bom o que escreveste! Acabei de soltar uma gargalhada gigante e a minha filha (que estava de auscultadores ) perguntou do que é que me estava a rir.

Quase que me senti sentada na mesa ao lado da tua a viver isso tudo...( fiquei com vontade de mandar um palito às mamas da sueca para ver se rebentavam) .

Só fiquei triste com uma coisa : não levaste a mala que te ofereci. Terias posto a sueca "no chinelo".

;))))
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De Gaffe a 05.05.2017 às 21:43

Olha que eram umas mamocas bem bonitas.

Não levei o teu presente, é verdade! Mas devia. Aquilo que trazia era ainda mais pequeno e bem mais feioso.
:)))
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De Corvo a 06.05.2017 às 15:25

Pronto! Já posso morrer que não me falta ver nada nesta vida.
No que concerne a uma gastronomia requintada, a Belle Demoiselle é uma desgraça. :(
Já a Kalila a desfrutar do indizível couscous magrebino, é uma felizarda.
Excelente fim-de-semana para ambas, e para todas, já agora.
:)
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De Gaffe a 06.05.2017 às 16:57

:)))
Olhe que não!
Depende da noção que cada um tem de "requinte". Para mim, por exemplo, um belo cozido à portuguesa é um prato requintadíssmo.
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De Maria Araújo a 08.05.2017 às 23:33

À parte as personagens Sueca e Japonês, as cenas da entrada no restaurante, e a descrição dos manos, são deliciosas.
Mais um soberbo post, Gaffe.



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De Gaffe a 09.05.2017 às 10:45

Tenho realmente dois irmãos fabulosos.
:)))

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