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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe emérita

rabiscado pela Gaffe, em 02.02.15

Bento XVI.jpegNo passado dia 16 de Abril, Joseph Aloiisius Ratzinger comemorou os seus 88 anos de modo muito discreto e em latim.

Apesar do Vaticano não ter produzido calendários que dessem oportunidade às pessoas de emoldurarem a fotografia do papa agora emérito pendurando-a depois toda dourada na parede do hall, a Gaffe recorda com saudade o impacto visual deste seu querido alemão:

Bento XVI.png

Bento XVI.jpgRatzinger foi um papa injustiçado. A verdade é que tinha cara de quem o merece ser, mas compensava com uma erudição principesca, uma timidez incomum e um bom gosto irrepreensível.

Quando, por muito que pareça o contrário, não tencionamos ou não podemos mexer ou fazer mexer uma palha, convém que o façamos pelo menos a perceber que a diferença entre as normas protocolares, as formalidades do nada fazer, e um sequestro, é que apesar de tudo podemos sempre tentar negociar com os sequestradores.

As quebras de protocolo do papa Francisco são amorosas e fofinhas. Não usa aqueles sanitários transparentes em cima do automóvel e dá beijocas aos fiéis, esbardalhando a segurança que se vê grega, antes do Syriza, para o proteger. Não usa os paramentos e os adereços usuais que tanto ajoelharam Armani e Prada e junta-se em amena cavaqueira aos jornalistas a quem se dirige como se os ditos fossem velhos amigos a jogar dominó numa mesinha dos jardins vaticanos, à sombra da passarada chefiada pelo Espírito Santo – que era o dono disto tudo. 

A ausência de formalidade de Francisco é uma espécie de ingenuidade que acredita que o despojamento e a familiaridade cúmplice o tornam mais próximos do cumprimento da sua missão, mas que se esquece que existem José Rodrigues dos Santos por todo o lado, cheios de vontade de transformar num romance histórico uma frase de tonta coloquialidade ou de paralisar todos os gregos, esses trafulhas e corruptos, que passam pela porta de um Ministro da Defesa. 

Ratzinger vivia em latim, o que complicava a vida aos jornalistas que apresentavam dificuldades sérias em experienciar a sua própria gramática, mas que implicava e produzia um distanciamento reverente que é essencial a uma imagem de marca que se quer sagrada, consagrada e capaz de convencer multidões das suas potencialidades e benefícios, mesmo que não possua nenhuns.

Embora acredite que se a Gaffe fosse policia dos narcóticos não deixaria de revistar os ombros do sobretudo de Ratzinger, perfurando-os com um dedo para depois esfregar nos dentes o conteúdo - a Gaffe nunca entendeu como é que esta polícia não anda toda pedrada - a simplicidade franciscana do papa actual não é de todo persuasiva. Nunca se esperou que o Vaticano desatasse a empenhar os anéis para socorrer os pobrezinhos que de gestos simbólicos enchem a despensa desde os primórdios do tempo e não é usando apenas a batina costurada pela irmã Lúcia que Sua Santidade altera vocações, sobretudo a vocação do Vaticano.

papas.jpgÉ sempre mais convincente fazer que se faz alguma coisa, deixando tudo como está, se estivermos bem vestidos, diria Maquiavel se tivesse conhecido a Gaffe.

A bonomia e o despojamento de pároco de aldeia do papa Francisco não é, embora pareça paradoxal, sinónimo de aproximação ao povo que pastoreia. Engana apenas os carneiros que acreditam que na pele daquela ovelha não existe qualquer lobo.

Pelo menos, Ratzinger usava écharpes giras! 

 photo man_zps989a72a6.png

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2 rabiscos

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De Fernando Lopes a 02.02.2015 às 18:53

Espero bem que posts destes não cheguem ao conhecimento familiar. A menina quer ser deserdada, ou pior ainda, excomungada? ;)
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De Gaffe a 02.02.2015 às 20:01

Eu sei! Eu sei! Mas já me percavi. Ninguém cá em casa sabe que ando por estas avenidas tão esconsas.

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