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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe encaracolada

rabiscado pela Gaffe, em 03.06.15

Jon Whitcomb.jpgA Gaffe tem uma amiga com um cabelo estupendo.

 

O mais moderno, o mais famoso, o mais competente e mais badaldo dos cabelereiros deste país seria capaz de cortar um dedo ou empenhar aquilo que os rapazes costumam apostar para adquirir a capacidade técnica de fazer acordar uma cliente com os caracóis absolutamente vintage, divinamente anos 50, com que a sua querida amiga natural e naturalmente se levanta todas as manhãs.

A Gaffe acredita mesmo que os magníficos e hollywoodescos cuidadores das cabeleiras das divinas vamps de outrora desatariam aos gritos e aos saltos mal percebessem que o que lhes levava horas a conseguir, a esta rapariga leva o tempo de mergulhar os dedos na sua sedosa e brilhante e ondulada e encarocolada e magnífica juba.

 

A Gaffe morria de inveja.

 

Acontece que um desses facínoras detentores de um poder mal estudado e demasiado subvalrizado, convenceu a pobre amiga a experientar aquilo a que chama, se o espanto não a atraiçoa, um alisamento japonês.

 

A Gaffe não faz ideia se o nome desta operação está ligado ao facto do nosso cabelo ficar com a textura das cabeleiras orientais, lisas, pesadas, sedosas e luminosas, ou se tem a ver com o facto de a nossa carteira ficar tão lisa e plana como a nuca dos queridos japoneses.

O facto é que a tragédia aconteceu e vai durar. O alisamento japonês é coisa para semestres de duração e só o corte radical daquela lisura impessoal poderá fazer com que renasça das cinzas o ondulado fantástico agora cilindrado.

 

A pobre amiga perdeu o que a tornava única em nome de uma imagem lisa e luzidía, capaz de atravessar toda uma humidade mexicana sem ameçar sequer uma sombra de caracol mais traquina.

Perdeu-se personalidade, garra e marca. Ganhou-se um brilho liso, quase diamantino, bastante agradável para quem se contenta com zircões.

O drama, diz a Gaffe, é que normalmente nós, mulheres, esquecemos que somos um todo planeado ao milímetro e nada nosso é exagero ou erro de casting. Esquecemos demasiado depressa que aquilo que tantas vezes consideramos falhas ou defeitos, são apenas as pequenas memórias que deixamos nos homens que valem a pena ser vividos.

Os homens que não interessam, aqueles que podemos ignorar, esquecer ou tornar invisíveis, acabam normalmente casados com umas mamas de silicone e ignoram completamente que estão casados com a mulher toda.

 

Ilustração - Jon Whitcomb

 photo man_zps989a72a6.png

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