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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe ensurdecida

rabiscado pela Gaffe, em 01.12.17

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Fico parada a vê-lo mexer os lábios, a gesticular, a inclinar a cabeça, a esticar o pescoço, como uma galinha ao surpreender um verme, e observo-lhe as sobrancelhas espessas, subindo e descendo, neste vale de lágrimas; os olhos pequenos, que se semicerram quando há coisas transcendentes a dizer - o que implica um quase fixo arregalar do globo ocular; as mãos serigaitando na secretária sempre à procura de um objecto qualquer, para o fazer rodar por entre os dedos e surpreendo-me com o estranho silêncio que ouço. Um silêncio que me faz falta quando a rua vem rasgada introduzir-se nos meus dias.

Não penso em nada. Por vezes, aceno com a cabeça, por misericórdia, fazendo-o acreditar que estou rendida, mas a indiferença já me ensurdeceu.

 

A ausência total de som faz perdurar a sensação dolorosa de perda constante.

 

- A consciência da perda irremediável deverá acompanhar os processos posteriores aos factos evitando sequelas futuras. O luto é, portanto, essencial vivência, insubstituível processo de adaptação a novas condições de existência - diz de cátedra o velho catedrático. 

 

Fala debruçado sobre a secretária, fazendo girar uma caneta entre os dedos, enquanto me distraio com as bolinhas e pintinhas na gravata.

É de seda preta, de nó largo e perfeito. Estampados no corpo, surgem, espaçados, pequenos sóis amarelos e laranja, rodeados de pintas vagas com as mesmas cores. É uma gravata obsessiva, porque as marcas de fogo tornavam-se nos pontos para onde tudo naquela sala converge. A partir dos focos espirala-se o resto. Percebi então que, daquele modo, todas as palavras que diz, umas atrás das outras, aceleradas pela força que as puxa para o centro, largam uma cauda vaga e cintilante, de cometa, que as torna de certo modo galácticas, susceptíveis mesmo de, pelo fascínio, arrebanhar a minha credulidade.

No entanto, ele não gosta de amarelo. Estas considerações  cósmicas não são portanto frequentes e tudo tem o sabor desolado que fica  em quem mastiga pó ou terra seca.

 

O homem acomoda sempre a barriga no tampo da secretária. A gravata, a alameda entre o pescoço e o cinto, fica deste modo lancetada. Por vezes perco-me a tentar adivinhar se o padrão escondido é a reprodução daquele que vejo ou se muda de ideias e difere. Há gravatas que, ao terminar, alteram o constante até ali e, num rasgo original, apresentam motivos contrastantes. As dele raramente sobressaltam. Fiéis até à morte, repetem os motivos.

Não são os meus lutos que filtram a luz numa demência de afogados, que fazem a casa absorver os entardeceres, que prolongam sombras, que acidulam objectos.

Como pode o homem que fala explicar-me a luz absorvida? Como pode ele entender a contaminação das vozes? Como pode ele olhar para os perfis das gentes que eu amei e que partiram, em sépia e em dourado, e que se transformam em pólen nas tardes laranjas esmagadas? Como posso falar-lhe daquele espaço dentro desse espaço, a flutuar?

Não sei contar-lhe.

Não sei mesmo se é memória deles o que trago dentro ou se os lugares onde me perco estão toldados e misturo as vozes de tempos diferentes.

A minha realidade é um fruto aberto. Separadas as metades, deixo de saber em que lugar fico. É no meio de espaços distintos que me perco e deixo de saber onde sou eu. Em que lugar se ouviu o tombar da água na cisterna? Rolará neste chão, ou arrasto-o como uma cauda onírica e medonha? É este o silêncio agarrado à memória que dela tenho ou é apenas uma dor que emudece?

 

A memória calca pisos ásperos e no entanto é doce o perfume que, de tão forte, escorre para a boca, transformado em viscoso lago de sabor que tentamos expulsar roçando a língua contra o palato e cuspindo os grãos pequenos de aroma já com corpo.

 

- O luto é, portanto, essencial vivência, insubstituível processo de adaptação a novas condições de existência.

 

E eu ouço sussurros e murmúrios ondulando no sopro produzido pelos dedos da memória que proíbe a voz de seda preta, de nó apertado e perfeito na garganta.

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6 rabiscos

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De Gaffe a 04.12.2017 às 09:32

Obrigada.
:)*

(O contexto não me pareceu importante. Provavelmente não tinha razão.)
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De Corvo a 04.12.2017 às 09:42

Ah! O contexto.
Faz-te à picada e desaparece-me da vista. :)
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De Gaffe a 04.12.2017 às 11:36

Não entendi!
:(
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De Corvo a 04.12.2017 às 13:47

Não ligue.
Acho que este malvado frio hibernou-me o miolinho.
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De Gaffe a 04.12.2017 às 13:51

Eu gosto deste frio.
;)

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