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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe errada

rabiscado pela Gaffe, em 29.11.17

Erro

 

A propósito do deslize cantante referido no post anterior, em que se anota a flexibilidade oportuna do acto de se ser solidário quando aliada ao jogo onde a carta do politicamente correcto vale mais que o Ás, recebi um comentário anónimo - que me apraz não permitir que se deposite nestas avenidas, tendo em conta que de cocós por apanhar já anda o mundo exausto -, exercendo sobre as minhas débeis e diáfanas vestes, uma violência digna de carrasco de Revolução Francesa - ou bolchevique, que não sou esquisita.

 

O douto conjunto de parágrafos recebidos informa-me que os erros são humanos.

Nada a opor.

Errar é humano. Às vezes até é divertido. Volta Tony, que estás perdoado.

 

No entanto, a versada anónima - refere-se no feminino - reporta-se aos erros semânticos, morfológicos e sintácticos que, como declara sapiente, são comuns aos grandes génios da literatura universal, apanágio do cânone literário, acervo da Grande Biblioteca e comuns, banais, vulgares em cada página que folheamos, não raros em Camilo, Eça, Nobre ou Pessoa, passando por Saramago ou Agustina e lobrigando os outros com o tamanho do que avistam.

 

Aqui - e sem qualquer remoque à condição da comentadora - é que a porca torce o rabo.

 

É evidente que toda a gente sabe que os manuscritos de Pessoa estão pejados de erros ortográficos, que existem incongruências na obra de Agustina, que Saramago desobedece a normas gramaticais, ou que Lindley Cintra tem uma apoplexia na frente dos erros de Lobo Antunes e de outros tantos génios literários.

O que os distingue é exactamente esta última palavrita. A genialidade. Os autores referidos - e outros que se omitem por preguiça -, usam as palavras usadas, gastas, velhas, carcomidas, quotidianas, banais e corriqueiras, na construção de frases nunca ouvidas, nunca lidas, maravilhando-nos com a força descomunal com que conseguem mudar-nos a vida. Operam milagres com a palavra. A arrogância, a teimosia, a inflexibilidade do ne varietur, a displicência com que o erro é acolhido, a insolência com que brindam a falha cometida, o desprezo com que embebem toda a correcção, são diluídos pelo demonstrado e comprovado conhecimento profundo da língua, das suas potencialidades semânticas, do seu acervo vocabular, das suas produções passadas e sobretudo da consciência da grandeza da obra que nos entregam. Não deixam de ser erros, não deixam de ser desvios ou transgressões à norma gramatical em vigor, mas, nestes casos, para lá da língua, existem constelações, galáxias, universos inteiros de personagens, de espaços, de tempos e de acções que de tão densos e incontáveis e perfeitos lhes entregam a possibilidade de ruptura com a regra e que nos exigem a humildade de nos calarmos perante o que não sabemos.

As opções linguísticas, as voluntárias escolhas de fonemas e de grafemas, as infracções às regras, ou as transgressões metalinguísticas ou paralinguísticas destes génios, não nos permitem a ousadia e a falta de vergonha de nos ilibarmos dos erros que vamos grafando, não nos justificam as calinadas, não nos autorizam a espalhar cocós naquilo que tentamos rabiscar. Não nos ilibam. Não nos abrigam.

 

Sei que provavelmente vou causar um desgosto imenso a todo o planeta, mas sinto-me na obrigação de dizer que não sou perfeita.

Dou erros.

Comprovo-o, para acalmar os que duvidam:

Uma mulher qualquer, há tempos que já lá vão, num blog entretanto falecido, transcreveu na integra um rabisco meu assinalando a vermelho - como mandam as regras do bom mestre-escola -, os erros que tinha cometido.

Apesar de não consubstanciarem descalabros, pois que se relacionavam com concordâncias mal efectuadas – do rapariga, ou do estações -, não deixavam de ser erros. Humildemente, pacatamente, envergonhadamente, corrigi. Não tive a coragem e a hombridade do meu querido amigo que ao se dar conta, semanas passadas, que tinha escrito iminência no título de um post, apagou irreversivelmente o blog, mas temi pela minha sanidade intelectual e corei de embaraço. Não me justifiquei com a sombra da ilusão patética de ser livre de amarras como Saramago, ou de ter o privilégio de adaptar grafias como Lobo Antunes. Tenho consciência da minha irrisória pequenez e sei, com a certeza da morte, que é vil e mesquinho o que vou debitando, unindo palavras. Não tive a desvergonha imbecil de me aproximar dos pés dos génios, clamando e reivindicando a liberdade criativa, a disrrupção linguística, a transgressão ortográfica, que os seus desmesurados talentos ousam permitir.

 

Limitemo-nos a cuidar com desvelo e atenção, o melhor que soubermos, do quintalzito que nos coube em sorte, porque declarar - do alto de um post muito baixinho - que os nossos erros ortográficos se abrigam debaixo do mesmo telhado daquela liberdade que é apanágio da genialidade literária, é o mesmo que ter um burrito a zurrar até ensurdecer, apenas porque ouviu nas torres do palácio, no meio das orquestras, um Dó menor a mais.

 

Meu caro anónimo, o Memorial do Convento não é um post.*

 

Pode não se validar o contrário.

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32 rabiscos

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De Anónimo a 29.11.2017 às 11:29

Querida Gaffe,
Tão bem escrito. Fico sempre maravilhada com a sua escrita. O que me "aflige", é que a anónima que lhe escreveu, quase de certeza que não vai perceber a resposta.
Beijinhos
Inês
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De Gaffe a 29.11.2017 às 11:37

Obrigada.
:)
O que a anónima entende, ou não entende, vai abrigar-se com certeza debaixo de qualquer coisa que encontrar para justificar a anomalia.
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De Pedro Wasari a 29.11.2017 às 11:45

Cara Gaffe

Herrar é umano
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De Gaffe a 29.11.2017 às 11:46

No seu comentário, foi desumanamente divertido.
;)
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De Corvo a 29.11.2017 às 12:30

A culpada é a Magda.
Eu sempre disse que esta coisa das nomeações ia naufragar as grandes "paixões" assolapadas no e para o feminino.
Estava-se mesmo a ver que ia dar nisto.
:)
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De Gaffe a 29.11.2017 às 13:23

Oh! Não concordo. A Magda originou um movimento tão engraçado!
A "paixão" assolapada chega encharcada em lodo já de muito longe.
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De Quarentona a 29.11.2017 às 13:16

Aaaahhh... o Lindley Cintra. Fizeste-me voltar aos bancos da faculdade que foi onde ouvi pela primeira vez o nome dessa sumidade linguística :))))
Sabes o que mais gosto na tua escrita? A imensidão de cultura e conhecimento que possuis e flui nas tuas palavras como a água num rio :)))))
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De Gaffe a 29.11.2017 às 13:20

Uma gramática essencial. Devia ser consultada mais vezes.
:)

Qual imensidão?! daqui não vejo nada.
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De Maria Araújo a 29.11.2017 às 14:30

"...galáxias, universos inteiros de personagens, de espaços, de tempos e de acções que de tão densos e incontáveis e perfeitos lhes entregam a possibilidade de ruptura com a regra e que nos exigem a humildade de nos calarmos perante o que não sabemos."

Transcrevo este pequeno excerto pela sensibilidade que despertou, Gaffe, porque fala em humildade.
Aliás, todo o parágrafo é sublime.
E já sabe que sempre admirei a sua escrita, o seu conhecimento e nível cultural, mesmo que por vezes não entenda as suas palavras.


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De Gaffe a 29.11.2017 às 14:46

Entende sempre.
Eu sei que entende. Sentir é uma das mais interessantes formas de se entender.
:)***
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De Rui Pereira a 29.11.2017 às 16:18

A Gaffe a cometer gafes?!
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De Gaffe a 29.11.2017 às 16:22

Cometo imensas!
Algumas, admito, são hilariantes.
;)))
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De Fleuma a 29.11.2017 às 17:26

Saberá a cara Gaffe, que a esta criatura sempre fascinou tudo o que é anónimo; porque quase sempre são insípidos, covardes no seu jeito de rastejar, aliás muito próprio, diga-se, e a sua oviparidade é não só maçadora como perigosa.

Saberá também a cara Gaffe, que me alegram os dias aqueles que vasculham com patinhas diminutas os erros dos outros; uma forma pessoal de tentarem engrandecer parcos dias e faculdades. E quando tento ganhar algum tino lendo o que as suas patinhas rascunham, confronto-me apenas com uma espécie de Etrusca Disciplina: não se explicam as falhas de talento ... porque sim!

Não creio que a Gaffe necessite que afirme que discordo da sua noção de falta de perfeição. Não porque seja perfeita, conceito que me irrita; porque genuinamente me cativam as suas palavras e supostos erros. Ser humana é isto. E porque desconfio da escrita a martelo e compressão. Prefiro o pulso delicado e capaz de sombrear.

Genial é também a capacidade de compreender as limitações.

Por fim - hoje estou acordado - o plagiador sempre foi parolo e falho de convicções. A forma como a cara Gaffe, por palavras, "executa" o herege é um paraíso para o Fleuma. Sendo eu o traste que sou.

Faça um sorriso rasgado porque o Fleuma sabe do que fala quando se trata de imperfeições e erros. E anónimos!
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De Gaffe a 29.11.2017 às 18:41

O que me repugna um bocadinho é perceber que apesar de no início se referir no feminino, ao longo do processo denuncia-se como homem.
O responsável pela ... "chamada de atenção" que recebi, é um homem. Misógino, machista e grosseiro.
Posso parecer-lhe velhíssima, ou mesmo ingénua, muito pouco "feminista", mas sempre achei que um Homem era incapaz de ser tão "sorrateiro". Estava convencida que tal característica era mais comum nas mulheres.
Provavelmente convivo com homens diferentes do homenzito do comentário.
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De Fleuma a 29.11.2017 às 18:59

Mas não, Gaffe!

A cretinice é universal e eu reconheço que apesar de muito me divertir com certas opiniões femininas sobre o conceito masculino, que tantas vezes revelam um perfeito e até desconcertante, desconhecimento sobre o homem, tenho de reconhecer que também somos subterrâneos e ainda muitos são amigos da matraca ao ombro e a mulher pelo cabelo.

Não me surpreende. Apenas me envergonha.

E por favor, não seja "feminista". É tão degradante.
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De Gaffe a 29.11.2017 às 20:01

Suspeito que ou assusto esses, ou então conheço apenas os certos.
Conhecendo os certos e assustando os outros, não corro o risco de me tornar "feminista".
:)*

Apetece-me beijá-lo hoje!!!
Como vê, o homenzito acabou por ser útil, ou "cupidesco". Tanto faz.
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De Fleuma a 29.11.2017 às 21:57

Permita que abuse e aceite o dito beijo!

Tendo sempre em consideração que terá de ser um beijo grande.


Questão de desproporção física.

Saúde,
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De Gaffe a 29.11.2017 às 22:02

:)
Só grandes beijos grandes equilibram proporções.
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De Anónimo a 30.11.2017 às 23:11

Muito inteligente mudar o sexo à anónima repentinamente.
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De Gaffe a 01.12.2017 às 06:31

Achou?!?!?
Sempre considerei inútil discutir o sexo dos anjos e um anónimo nunca tem "tomates".
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De Carlos Berkeley Cotter a 29.11.2017 às 19:32

Gostei de "o "Memorial do Convento" não é um post".
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De Gaffe a 29.11.2017 às 19:55

:)))
Mas repare, meu caro Mr. Cotter, que há posts com capas bem mais bonitas do que a da última edição do "Memorial do Convento".
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De Cuca, a Pirata a 29.11.2017 às 19:43

Mas é que nem ouses queixar-te.
Eu pagava dinheiro vivo para ter um anónimo mauzao a atormentar-me na caixa de comentários! Acho o máximo. Uma espécie de coroa de consagração bloguística.
Além disso, já sabes que acho que mereces ser espancada de todas as vezes que escreves esbardalhar...
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De Gaffe a 29.11.2017 às 19:53

:)))
Só lamentei - eu que gosto tanto, mas tanto, de homens - perceber que um "ralhou" tão severamente e tão enfaticamente comigo.

Bem sei que se disfarçou, que foi travesti no início, mas pelo meio denunciou a sua valente masculinidade.
Um desgosto.

Gosto tanto da palavra "esbardalhar"!
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De Pequeno caso sério a 29.11.2017 às 22:38

A sério que há gente que tem tempo (e vida) para desancar alguém por causa de um erro(?) num post?!

Não seria tão mais fácil (e elegante) fingir que não se viu e andar com a vida para a frente ? Mas qual é a dificuldade que as pessoas têm em usar a cruzinha ali em cima?!
Enfim.
Lá conseguiu os seus 5 minutos de fama e a esta hora , aposto que deve ostentar um sorriso semelhante ao da imagem que escolheste.

;)


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De Gaffe a 30.11.2017 às 09:19

Confesso-te que "me estou nas tintas" para os erros que encontro. Preocupo-me imenso com os meus. O que me deixa perplexa é, isso sim, o modo como os que erram se protegem atrás de uma pretensa liberdade literária que permite todas as calinadas possíveis e imaginárias.
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De Pequeno caso sério a 30.11.2017 às 17:38

Penso que esta coisa do virtual nos trouxe o melhor e o pior do ser humano.
Há os que usam o virtual para dar de si a troco de nada e à conta disso magnetizam pessoas no mesmo comprimento de onda.
Depois há os outros que usam o virtual para descarregarem em palavras sentimentos pequenininhos.

O bom disto tudo é que temos sempre o poder de optar a quem dar atenção.

(digo isto do alto da minha enoooorme sapiência e com toda esta leveza porque não é na minha caixa de e-mail que caem as coisas mais absurdas.)
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De Gaffe a 30.11.2017 às 18:01

Pelo menos temos a enorme vantagem de apagar sem qualquer sombra de dúvida o que é apenas e só pequenininho.

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