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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe escreve ao Ministro

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.15

Gabriel Ritter von Max.jpg

Meu caríssimo Nuno,

 

Devo dizer, antes de tudo, que o considero o ministro mais atraente do governo, sobretudo quando aparece ao lado de Mota Soares.  

Posto isto, e sabendo que uma rapariga ajuizada está sempre predisposta a não acolher com bons olhos as diabruras com que criaturas mal intencionadas e feias costumam sujar o chão pisado por um homem sensual, prontifico-me a enfrentar por si a turba esfaimada.

Admiro a sua sensatez, fico deslumbrada com a lógica matemática sublimada nas suas decisões e não posso deixar de prestar a minha homenagem e de lhe apresentar total solidariedade, quando o vejo martirizado perante acusações injustíssimas que lhe ferem o orgulho e minam as suas boas intenções.

 

As demoras nos inícios dos anos lectivos, imputados escandalosamente à ineficácia da equipa que lidera, são claros atrasos dos professores que por tradição chegam sempre quinze minutos depois do segundo toque. Toda a gente sabe desde tempos imemoriais que os alunos esperam imenso que o docente se arraste pelos corredores até chegar à sala, sempre a queixar-se que não tem tempo para dar o programa todo com turmas formadas por um número infindável de alunos. Todas as pessoas de bem sabem que um professor é como um general! Deve saber liderar os seus soldados, incutir-lhes valores morais, cívicos e disciplinados, castigar quando prevaricam, exercitá-los até que reajam em uníssono perante a sua voz de autoridade. Se um general não admite liderar um batalhão de dois ou três pindéricos, um professor não tem o direito de choramingar quando é honrado com uma turma de trinta soldadinhos para treinar.

 

Uns piegas.

 

Este indecoroso comportamento inclui a cegueira humanitária desta gente que é controlada por um homem de bigode estranho. Os professores são indiferentes aos refugiados que - valha-nos Deus! - parecem moscas a assolar a nossa querida Europa fazendo crer que a pobre já está morta e em decomposição. Não vislumbram sequer que as distâncias que estes pobres percorrem são muito superiores àquelas que separam as suas casotas das escolas onde ficam colocados. Não sei se estes migrantes têm casa lá na terra. Penso que vivem naquelas tendas fantásticas, cobertas com tapetes maravilhosos e paisagens de nos tirar a respiração, mas não os vejo a lacrimejar por terem de caminhar alguns Kms até chegar aos seus postos de trabalho.

 

É compreensível a sua indignação, assim como é lógico que impeça que os nossos impostos sejam atirados aos ventos que são as Escolas Artísticas. Temos a Joana Vasconcelos, temos o José Rodrigues dos Santos, Temos o Pedro Chagas Freitas, temos o José Avillez e até temos a versatilidade do Goucha, mas onde estão os picheleiros? Os torneiros mecânicos, seja lá o que isso for? Os serralheiros? Os serventes dos trolhas e os nossos serventes?! Urge apostar nestas formações básicas e acabar com os pliés os tendus e os frappés. Se queremos ver dançar temos o NY City Ballet. É imprescindível que se trave o acesso das multidões desvairadas ao Ensino Superior e ao Ensino Artístico começando, como muito bem prevê - visionário que é -, a dirigir as crianças mais ranhosas para as formações mais práticas e mais úteis, que não vampirizam os nossos impostos e que duram dois ou três meses. O Instituto de Emprego e Formação Profissional é pioneiro e tem larga experiência nestas andanças, mas é a um Ministério esclarecido que compete dar envergadura a estas iniciativas que não descuram, de todo, a vertente cultural da aprendizagem. O ensino do Inglês no primeiro Ciclo é disso exemplo.

 

Pese embora as tolices dos especialistas que afirmam que aprender a falar e a escrever a língua materna exige uma imensa actividade cerebral e que a exposição simultânea e de teor académico a outra língua interfere de modo negativo no processo de aprendizagem, o meu querido Nuno não se deixa enganar e taxa com chumbo quem não torcer o pepino inglês na 4.ª classe.  É claríssimo o disparate dos que defendem que o 1.º Ciclo deve apenas ser embalado com os sons da língua inglesa que vagueiam nas cançonetas e lengalengas de Sua Majestade britânica ou por desenhos, jogos e teatralizações que permitem apreender de forma involuntária e mesmo inconsciente as subtilezas de uma língua estranha. Não nos deixemos enganar! Pagamos os serviços e queremos resultados. Decorar verbos, construções frásicas, frases idiomáticas, vocabulário, a árvore genealógica da rainha e as linhas de caminhos-de-ferro que servem o Reino Unido, produz adultos poliglotas, se na escolinha for também servido o mandarim e coisa assim. É certo que já ninguém sabe - e odeia quem o diz -, onde nasce, passa, tropeça e desagua o rio Alfusqueiro ou o rio Fasfião, mas foi uma aventura sujeita a chumbo decorar estas maravilhas portuguesas. Há que recuperar esta produtiva pedagogia.

 

Mais lhe teria para dizer, meu querido Nuno, mas se já ninguém atura os manuais escolares que se alteram de hora em hora, para que serve uma missiva de uma pobre fã dona de um blog?!

 

Após vénia mimosa, receba um beijinho da Gaffe.       

 

Imagem - Gabriel Ritter von Max

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33 rabiscos

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De Sarabudja a 24.09.2015 às 12:47

Palmas, muitas palmas para este conjunto tão bem ajeitado de palavras cheias de sentido e significado.

Sorriso irónico no canto do lábio para acompanhar a leitura.

Sai um Muito Bom para a menina ruiva que se senta na frente.
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De Gaffe a 24.09.2015 às 13:46

Obrigada!

Fico contente por ter feito os trabalhos de casa.
:)
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De Outro Ente a 24.09.2015 às 13:30

Com a devida vénia, querida Gaffe: Está de se lhe tirar o chapéu. Um mimo!
Bom dia,
Outro Ente.
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De Gaffe a 24.09.2015 às 13:45

Oh!
Obrigada!, apesar de só usar "capeline".
:)*
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De Quarentona a 24.09.2015 às 14:41

Este ministrinho merecia um output pela window e ir à sua little life, que já se faz late!!!!
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De Gaffe a 24.09.2015 às 15:15

Percebo que tiveste Inglês no 1º Ciclo...
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De Quarentona a 25.09.2015 às 09:49

Sim... nota-se assim tanto?!...
Tens um desafio para ti, na minha "chaferaica", em americano...
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De Gaffe a 25.09.2015 às 10:41

Tu não me enerves!!!
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De Neurótika Webb a 24.09.2015 às 15:04

Aplaudo e concordo...artistas! Pfffff...essa gentalha!
Toca a investir em canalizadores que falem perfeitamente inglês para, futuramente, desentupir os canos dos britânicos que vêm para o Algarve gozar a reforma.

Ups!...espera! Esqueci-me que andei nessas escolas de ensino artístico.
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De Gaffe a 24.09.2015 às 15:14

Devias saber que não é Algarve! É AllGarve.
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De Neurótika Webb a 24.09.2015 às 15:17

Peço desculpa pelo lapso. Tens toda a razão!
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De Magda L Pais a 24.09.2015 às 15:12

Nota 5!
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De Gaffe a 24.09.2015 às 15:14

Assina Marcelo Rebelo de Sousa?
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De Magda L Pais a 24.09.2015 às 15:15

ahahahahahaha exacto. Ele pediu-me o acesso para poder vir aqui dar a avaliação
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De Gaffe a 24.09.2015 às 15:16

Um fofo! Agora já pede as coisas!...
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De Cinisga a 24.09.2015 às 16:19

Julgo que a não aprovação a inglês desde a escola primária é para ter a certeza que no fim de todos os anos de estudo estão preparados para a emigração, pelo menos a nível linguístico!

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De Gaffe a 24.09.2015 às 17:09

Uma bela hipótese.
A ser verdade, só prova a argúcia do Ministro.
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De Cinisga a 24.09.2015 às 17:16

Bolas tive que ir ao dicionário para entender o elogio ao Ministro!
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De Gaffe a 24.09.2015 às 17:28

A sério!?

Encontravas o elogio na sanita!
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De Cinisga a 24.09.2015 às 17:35

A sério...

Não tenho por hábito andar por lá a mexer. :)
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De Gaffe a 24.09.2015 às 17:37

É um hábito que toda a gente devia ter. Encontram-se imensas coisas esquecidas.
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De Maria Araújo a 24.09.2015 às 19:34


Pela primeira vez, há aqui pontos, no segundo e terceiro parágrafos, que não concordo.
Presumo que houve alguma notícia que veio despoletar este post, mas como eu só vejo as notícias à hora de jantar e/ou no Sapo e hoje ainda não li nada, não vou comentar.
Apenas lamento que a sociedade ainda bata na maioria dos professores, quando é uma minoria que não está para aturar os pindéricos e "atestado médico, não estou para aturar isto".
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De Gaffe a 24.09.2015 às 20:17

Nada do que eu digo merece credibilidade.
Recordo que sou eu a escrever alto. Já provei ser uma tonta irresponsável.
:)
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De Maria Araújo a 25.09.2015 às 13:46

Merece, sim, credibilidade e estou de acordo com todo o resto do texto.
Sabe que eu sou do tempo que tinha de decorar os rios, os afluentes, as serras, os vales, a tabuada, os nomes dos reis de cada dinastia, os animais, as folhas as flores, enfim, tudo?
Agora, não me lembro de quase nada.
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De Gaffe a 25.09.2015 às 21:22

A tabuada é imprescindível. Graças a Deus que a decorei.
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De Paula a 25.09.2015 às 09:07

Lá tive que procurar o rio Alfusqueiro e o rio Fafião e ficar a saber que o primeiro é um rio português, afluente do Rio Águeda e que o segundo fica em Fafião, zonas nunca navegadas por mim, nem na escola e eu "ainda sou do tempo" em que os rios e afluente faziam parte do estudo e do exame da 4ª classe.
E sim, no 12ª ano baldámo-nos ao 2º toque, já que o professor de História, que morava ao pé da escola, chegava sempre atrasado!
Brincadeira à parte, bravo pelo texto! E o Crato é mesmo o mais interessante de todos eles!
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De Gaffe a 25.09.2015 às 09:20

Escolhi-os por terem nomes engraçados.
:)
Creio que as linhas de caminho-de-ferro com os seus apeadeiros eram também contempladas nos programas!
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De Olívia a 25.09.2015 às 11:13

Se a carta seguir por correio (registado, claro!) eu assino por baixo!
Belíssimo texto!
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De Gaffe a 25.09.2015 às 11:17

Temos de esperar que o ministro aprenda a ler.
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De Carlos a 27.09.2015 às 12:41

Bom dia ;

Se não houvessem trolhas, picheleiros, torneiros mecânicos , serralheiros e etc, seja lá o que isso for, a menina e os restantes convivas habitariam casas (se as tivessem) demasiado desconfortáveis.Água canalisada, gás, electricidade, janelas e portas , passeios, estradas e por aí fora,são tudo obra das profissões que não sabe para que servem.A Escola Artística é como as outras, não vale mais nem menos, não é mais nobre nem menos.Sinceramente não consigo vislumbrar no ensino de inglês ou outros idiomas, esse objectivo maléfico de impedir as crianças de acederem às Universidades e às Escolas Artísticas, até me parece algo de muito positivo, é uma mais valia, que permite opções de emprego noutros países caso não o encontrem em Portugal.Nas escolas privadas pagam para ter acesso ao ensino de idiomas diversificados, como actividade extra-curricular.Em vez de se criticar pela negativa devia-se aproveitar a oportunidade.
Estrangeiros no NY City Ballet é algo que não falta, e mais por certo gostariam de lá estar.Pena é que em Portugal os chamados "agentes culturais" na sua grande maioria , estejam sempre à espera do subsídio do estado que tanto criticam, para fazerem alguma coisa de relevo.Que eu saiba; o NYCB à semelhânça de tudo nos EUA, foi criado por conta e risco dos próprios, talvez devessemos aprender com isso em vez de estarmos sempre prontos para criticar por tudo e nada o País onde nascemos, e sempre à espera que seja o Estado a fazer tudo por nós.Para terminar, dir-lhe-ei que é discutível que turmas de 30 alunos seja uma coisa má, assim como é discutível que ir trabalhar para Inglaterra seja uma coisa má.
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De Gaffe a 27.09.2015 às 21:19

Boa tarde, Carlos,
Sugiro que volte a ler o post, mas desta vez faça uma leitura mais atenta, sem contudo deixar de ser relaxada. Tente lançar-lhe um olhar mais divertido. Vai ver que o que digo não permite concluir o que refere como implícito no encadear do texto.

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