Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe ferroviária

rabiscado pela Gaffe, em 19.01.16

Creio que os únicos homens que entendem vagamente o que as mulheres pensam, são os gays e o meu cabeleireiro.

 

Não é de todo desprestigiante, humilhante ou redutor, quer para o masculino orgulho, quer para os fabulosos e divertidos tontos que conheço e que acabo por considerar amigos do peito - ou dos peitos - mesmo sabendo que tendem a apreciar os objectos de desejo que são meus. Não é sequer desagradável para aquele fantástico e famoso cabeleireiro assexuado que consegue perceber e descodificar o tom do meu cabelo, tocando-lhe e depois lambendo, de forma um bocadinho nojenta, admito, a ponta dos dedos.  

 

Os homens desconhecem por completo o que realmente atravessa o cérebro das mulheres.

 

Por muito que jocosamente joguem com alvitres brejeiros, não fazem sequer a mínima ideia da razão que leva as raparigas à casa de banho sempre aos pares e desconhecem em absoluto o motivo que transforma, em segundos, a nossa maior amiga numa ameaça biológica ou porque nos apaixonamos pelo cinquentão professor de Linguística, quando à nossa porta bate o recordista olímpico -100 metros barreiras - ou um nadador de alta competição.

 

Somos um mistério. Um enigma perene que gostamos de manter com a indiferença que nos caracteriza em relação às mais rebuscadas explicações masculinas. Mantemos esse poder de uma forma eficiente e eficaz, porque não pensamos em como o alimentar ou conservar vivo. Sabemos que os homens, façam o que fizerem, não entenderão jamais as nossas mais ínvias e esconsas, simples e banais das reacções.

Esta perversa incapacidade masculina não é susceptível de despertar em nós qualquer motivação para a colmatar ou remediar. Usamo-la em nosso proveito, com um maquiavélico prazer quase inconsciente. Somos uma espécie de locomotiva que em alta velocidade passa e provoca a incredulidade e a perplexidade no homem que espera apenas ver surgir o comboio regional, aquele que encalha em todas as estações e apeadeiros previsíveis, envolto em vapores do XIX, espartilhado e depois laçado por mimosas e delicadas fitas.

Se a máquina parar e abrir as portas, pode permitir que o homem entre, atraído pela força que provoca, mas, mesmo assim, ficará sem perceber o porquê desta paragem inopinada e a desconhecer completamente as manivelas, os sinais, os manípulos, os símbolos, os trilhos, as marcas e os botões que são accionados e que a fazem retomar a sua marcha.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)


12 rabiscos

Sem imagem de perfil

De Carla a 19.01.2016 às 11:45

Juro, Gaffe, que, cada vez que te leio a falar sobre as mulheres, acabo os textos a pensar «eu acho que sou uma homem»!

É que eu acho que sou mais básica do que isso. :))
Imagem de perfil

De Gaffe a 19.01.2016 às 12:01

Tolice!

És uma mulher. Nenhuma é básica. Talvez não te tenhas apercebido de todas as potencialidades femininas...
;)
Imagem de perfil

De RAA a 19.01.2016 às 12:43

É por isso que gosto de lê-la (para além do belo estilo): perceber-me passageiro de estações e apeadeiros, maquinista do cavalo-de-ferro e incapaz de pilotar um tgv, não me é novidade, pior fora; mas é deliciosamente impressivo passar os olhos pela sua inteligência emocional, se assim me posso exprimir, a sua pontaria certeiríssima -- e sempre com um belo estilo.
Imagem de perfil

De Gaffe a 19.01.2016 às 13:31

Tão bom receber um piropo seu!!!
Sem imagem de perfil

De O Marciano a 19.01.2016 às 15:37

Cara Gaffe, a mulher no Planeta Azul é um verdadeiro enigma, sempre capaz do melhor ou do pior, do pequeno gesto que fica na memória para sempre ou esse ciclone que destrói tudo em seu redor. Ela muitas vezes é uma surpresa, positiva ou negativa, mas se não fosse assim como seria monótona a vida dos homens aqui na terra.
Mas como me está a dizer o meu amigo robot Hal 9000, nova geração, que anda a estudar o comportamento terrestre, a sensibilidade e os jogos de sedução não são um exclusivo feminino, porque, como bem sabe, no comboio das relações humanas encontramos todo o tipo de passageiros.
Saudações Marcianas
Imagem de perfil

De Gaffe a 19.01.2016 às 16:16

Mas a mulher leva Kms de avanço.
Imagem de perfil

De Nay a 19.01.2016 às 16:55

Um grande aplauso para este texto magnifico!!
Sem falsos moralismos, é mesmo isso, somos assim complexas e gostamos e não fazemos grande esforço para que eles nos entendam ;)
Já eu tenho também alguma dificuldade em perceber como eles podem ser tão básicos, preto e branco!
Imagem de perfil

De Gaffe a 19.01.2016 às 17:44

Não são básicos. Digamos que são minimais...
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 19.01.2016 às 21:45

Superbe, Gaffe! Que texto!
Faço vénias.É admirável o seu talento.
Acho que se os homens a lessem não entenderiam nada.
E esta expressão está fabulosa: "somos uma espécie de locomotiva que em alta velocidade passa e provoca a incredulidade e a perplexidade no homem que espera apenas ver surgir o comboio regional, aquele que encalha em todas as estações e apeadeiros previsíveis, envolto em vapores do XIX".
Imagem de perfil

De Gaffe a 20.01.2016 às 09:31

:)
Gentileza sua.

Alguns, raros, entendem.

Imagem de perfil

De Maria Araújo a 20.01.2016 às 12:41

Não é gentileza, é admiração.
Beijinho

Comentar post



foto do autor








Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD