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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe irreconhecível

rabiscado pela Gaffe, em 03.05.17

Paris.jpg

 

Deram-se por concluídas, depois de vários meses de penar, as obras no meu apartamento num dos mais interessantes arrondissements parisienses. Foi necessário esperar vistorias, inspecções e aprovações camarárias e de várias outras entidades que pesaram no tempo como chumbo, foi obrigatório obedecer a regras que determinavam a espessura das paredes, autorizavam o derrube de outras tantas, especificavam o traçado das condutas, proibiam adulterações na fachada, indicavam indispensáveis normas energéticas, isolamentos térmicos e acústicos e demasiadas outras coisas que arrastaram durante meses a finalização da obra.

 

As alterações - que foram profundas - estão assinadas pela minha irmã o que justificou o meu total alheamento ao desenrolar da metamorfose. O traço do génio não requer palpites dos que sem talento se apressam a duvidar do que se já se ergueu na perfeição. A mosca no topo do bolo.

 

Está pronto a habitar. Espera a locatária que decidiu utilizar estes dias para o percorrer.

 

O espaço está irreconhecível.

 

Há paredes que desapareceram, quartos que se uniram duplicando a luz doirada que jorra das janelas longas e largas protegidas apenas por portadas de madeira, soalhos afagados que contrastam com o branco pérola erguido num soberbo pé direito e tectos recuperados que tocam o barroco e nos deixam pasmados por os termos ignorado tanto tempo. Há novas e inúmeras entradas de luz, novas esquinas, novos recantos. Há uma parede inteira coberta por estantes destinadas a acolher parte do que me foi entregue. Há a geometria do rigor minimalista dos parcos móveis escolhidos com um critério agudizado pelo conhecer vastíssimo da seleccionadora, misturados com os que chegaram de casa dos meus avós e que adquirem aqui a majestade que era atenuada pelos companheiros de outrora.  

   

(E há duas telas de Denis Sarazhin, uma das minhas grandes e mais obsessivas paixões.)  

 

É sem dúvida um espaço extraordinário.

 

Há no entanto a marca indelével da autora que defende, desde o tempo do início, o conceito de arquitectura do inquieto.

Não a podemos ler de modo literal. Não é uma inquietação que se constrói na angústia ou no desconforto que magoa e que nos torna ansiosos. Não é uma inquietação proveniente da falha que urge colmatar ou um sentir desenraizado que nos impele à procura ou à fuga. É um desassossego subtil que nos invade, que extravasa do desenho das paredes; da forma como se encaixam umas nas outras em surpreendentes ângulos; do modo como a luz é dominada por planos que a interceptam; da posição e localização dos móveis; da geometria desconstruída que permanece incólume mesmo assim; do despojamento inicial do espaço que é ao mesmo tempo invadido por memórias complexas e ocupado por objectos pesados que paradoxalmente acentuam um minimalismo cuidado e inteligente; de uma espécie de harmonia disfuncional que nos provoca alguma perplexidade e nos faz permanecer no seu interior, impelindo-nos a sair ao mesmo tempo. Impede a passividade.         

 

Esta arquitectura do inquieto transforma o construído num organismo vivo, impulsionador de movimento, capaz de interagir com o ocupante, deixando-se dominar por ele, dominando-o. Não é nosso. Não somos dele. Coabitamos. Uma simbiose constantemente renovada.

 

Não é possível descrever com maior nitidez o conceito defendido. Fico sempre aquém da sua autora que se ilumina quando nele toca, mas sinto que este espaço que vi deslumbrada e que me entrega a condição de flâneuse, talvez seja aquele que a minha irmã desejou para ela. 

 

Esta sensação traduz o meu mais profundo agradecimento. Não é fácil ceder, mesmo por amor, o que em nós, cá dentro, nos inquieta a vida.   

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Gavetas:


19 rabiscos

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De Corvo a 03.05.2017 às 12:03

É sempre recompensado todo aquele/a que não interfere nem questiona a capacidade criadora do artista.
Sobretudo quando o conhecedor/a artífice interage, não só pela arte mas e incomparavelmente mais pelo coração com a parte interessada.
Simbiose perfeita. Arte e amor e a indelével beleza da perfeição nasce.
Que se sinta muito feliz nele, são os meus sinceros votos.
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De Gaffe a 03.05.2017 às 12:55

Verdade.
Embora suspeite que a visada não ficaria muito contente se nos ouvisse a chamar-lhe artista.
:)
Creio também que qualquer um de nós tem o dever de tentar ser feliz, sobretudo quando tem o privilégio de receber estes presentes das mãos do talento.
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De Pequeno caso sério a 03.05.2017 às 16:19

Agora percebes o que senti quando me entregaste a minha casa nova.
: )*

És tão talentosa como a tua irmã com uma pequena diferença : nunca me puseste a vista em cima...o que torna a tua tarefa um pouco mais difícil.

Sei que vais ser feliz na tua casa pois foi feita à tua medida.

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De Gaffe a 03.05.2017 às 17:00

:)
A tua casa nova foi um presente que me agradou tanto oferecer!!!

Vamos ver. Neste momento, apetece muito desatar a gritar à varanda "AQUI VOU SER FELIZ" e ser patrocinada por um Banco.
;)
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De Anónimo a 03.05.2017 às 17:19

Se o banco patrocinar, grita.
Se não patrocinar, grita à mesma para que o mundo saiba que inicias este ano de vida da melhor maneira possível.
;)

P.S- compra um corno bem grande e guarda atrás da porta por causa do mau olhado...just in case.
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De Gaffe a 03.05.2017 às 18:34

Ainda não vai ser para já. Há muita coisa que auero fazer por aqui.
:)
Eu tenho um feioso de um corno de rinoceronte - medonho, tenebroso - escondido algures. Espero que sirva.
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De Pequeno caso sério a 03.05.2017 às 23:17

(ainda bem...gosto de te ter por aqui)

O bicho não interessa.
O que é preciso é que o corno fique atrás da porta.
(a ultima frase não soou lá muito bem...)

;)

P.S- a anónima fui eu ...
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De Gaffe a 04.05.2017 às 11:15

A última frase despertou Lúcifer ...
Estás queimada ...
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De Gaffe a 04.05.2017 às 14:00

Digo que a tua última frase pode perfeitamente despertar o Lúcifer que há dentro das senhoras pias que são meninas para te chamuscar num instante...
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De Pequeno caso sério a 04.05.2017 às 16:14

Ah...isso.
Não vejo porquê. Repara que todos os comentários têm um fundo irónico cuja única finalidade é pôr as ' ssoas bem dispostas. Só isso.

:)
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De Gaffe a 04.05.2017 às 21:44

Ah! Eu sei!!!
É muito importante para mim a cumplicidade um bocadinho marota que tenho contigo.
;)*
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De Kalila a 03.05.2017 às 18:23

Parabéns, Gaffe! (casa, texto, tudo)
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De Gaffe a 03.05.2017 às 18:34

:)
Obrigada, mas tenho de partilhar estes parabéns com a minha irmã.
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De Isa a 03.05.2017 às 21:50

Soubesse eu dizer de quem amo assim como tu sabes...

Felicidades, mil momentos inesquecíveis nesse espaço feito para ti com o que me parece ser de genuíno amor.
Os meus parabéns por isso, por saberes descreve-lo como só tu, pela intrínseca
homenagem à tua irmã, por a teres, e a ela, por ser como tu a descreves, e te ter.
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De Gaffe a 03.05.2017 às 22:18

Valha-me Deus, que comentário tão bonito!

Obrigada. Não faço ideia se cabe dentro de mim, mas, dê por onde der, vai comigo.
Um beijo.
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De Isa a 03.05.2017 às 22:20

:))

Se não couber levas depois..:P

É sempre teu.

(sua exagerada)

Outro pra ti.
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De Maria Araújo a 03.05.2017 às 22:19

Parabéns, Gaffe.
Com estas palavras não há palavras.
Importante é que seja feliz.
Beijinho
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De Gaffe a 04.05.2017 às 11:15

Vou tentar ser.
Obrigada.

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