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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe isolada

rabiscado pela Gaffe, em 24.10.16

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A cidade mais próxima dista cerca de dez Kms daqui.

É uma povoação pequena, com um centro histórico relativamente bem preservado, rodeado de caóticas construções coloridas e empilhadas.

Cidadezinha quente com gente prematuramente envelhecida e uma película de jovens amorfos e incaracterísticos.

 

Lembro-me que no Porto, se desejámos ser atendidos com alguma rapidez, basta fazer tilintar as moedas no tampo das mesas dos cafés de modo a que o empregado o consiga ouvir. Parece ser reflexo condicionado. Experimentámos e resulta quase sempre.  O som dos sininhos do dinheiro apela à missa. Aqui, esse pequenino e maldoso truque não resulta. O rapaz encostado ao balcão olha pasmado a pasmaceira e não há tilintar que o faça desviar do morno do sono dos olhos parados.

 

Sento-me e a espera cruza as pernas e tamborila na mesa com os dedos.

Nada acontece e na mesa de tampo de madeira e vidro, a jarra pequena com uma flor já murcha tem o ar de coisa pornográfica.

O dia vai passando connosco ao largo.

Admito que é impossível ficar muito tempo aqui sem sermos preenchidos por uma espécie rara de nostalgia enevoada. Talvez surja do silêncio ou da imensidão sussurrante das árvores ou das águas pacíficas que espelham quase negras as silhuetas dos velhíssimos teixos. Talvez os dias que passem sem sentirmos, iguais em cada dia a passar, insinuem ter dentro uma forma estranha de destruição que alagará as almas a qualquer instante e de surpresa.

A minha sorumbática atitude arrasta-se pelas horas devagar. Sinto-me pasmada, parada e sem vontade. Espalho-me pelos cantos e admito sem pudor ou embaraço a minha indiferença a tudo. Passo pelas ruas, inútil e dispersa. Nada é quente.

A imensa e doentia dolência que entristece este lugar parece fazer vítimas constantes.

 

Aqui no Douro não se deseja muito. Aguarda-se só que o tempo se espreguice e no bocejar do tempo sem palavras e sem gestos, espera-se o derramar das horas.

Aqui no Douro a globalização é ilusória. A tão publicitada conectividade do indivíduo com o planeta inteiro é um ignorado paspalho mentiroso.

Tudo é distante. Tudo é desmesuradamente isolado e a extensão deste isolamento entrega corpo à insignificância do que somos ou sentimos e aniquila a idiota soberba, a ridícula arrogância, a inútil sobranceria e o patético pretensiosismo humano.

 

Perdemos, nas lides cosmopolitas, as noções de distância e de extensão. O facto é terrivelmente lamentável. O longe é imprescindível para a relativização da nossa dimensão. A pequenez incomensurável do humano é sentida através do quanto é longínquo determinado espaço que queremos alcançar, de como é extenso o caminho a percorrer pelo nosso desejo de encontro. Dizem que a grandeza do homem se mede pela vergonha que sente. Creio que a pequenez pode ser calibrada, mensurável, determinada pela lonjura e pela distância entre o ponto em que permanecemos, somos ou estamos, e aquele que desejamos encontrar.

 

A cidade mais próxima dista cerca de dez longos e realmente palmilhados Kms daqui e temos saudades de manuscrever cartas.

 

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22 rabiscos

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De Malik a 24.10.2016 às 15:53

Muito bom.
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De Gaffe a 24.10.2016 às 15:54

E longínquo.
:)
(Obrigada)
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De Malik a 24.10.2016 às 16:00

Dá para perceber...
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De redonda a 24.10.2016 às 18:26

Não conhecia essa forma de conseguirmos a atenção do empregado aqui no Porto....tenho de experimentar um dia destes...
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De Gaffe a 24.10.2016 às 18:41

Funciona na padaria, mercearia, mercadinho de retalho, quiosque e café da esquina.
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De Corvo a 24.10.2016 às 19:28

Ele há coisas. Se bem compreendi nem tomou o seu café nem fez a sua refeição.
Mas é como tudo e está-se sempre a aprender. Aposto que para a próxima a menina não se vai esquecer da sua garrafa de termos nem do farnel.
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De Gaffe a 24.10.2016 às 20:06

Nao será necessário.
Eu só debico champagne e caviar.
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De joseph a 24.10.2016 às 19:33

s. joão da pesqueira?
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De Gaffe a 24.10.2016 às 20:07

Podia ser, se desta vez ainda mais entranhada no Douro. S. João da Pesqueira é sub-Douro, não é?
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De joseph a 24.10.2016 às 20:10

sim, é sub-região do douro.
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De Gaffe a 24.10.2016 às 20:13

Exactamente.Pertence a Viseu.
O meu Douro é tão escondido e perdido que deixou de pertencer a quem quer que seja.
:)
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De joseph a 24.10.2016 às 20:17

eu sou transmontano, trago pedacinhos do douro comigo.
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De Gaffe a 24.10.2016 às 20:19

AH!
Os transmontanos são fabulosos!
Gosto tanto da gente transmontana!
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De joseph a 24.10.2016 às 20:21

:)
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De Maria Araújo a 24.10.2016 às 21:53

Faz-me alguma confusão e tristeza esse isolamento das terras do interior, em que parece que nada acontece e o dia é infinito, sobretudo nestas estações do ano, cinzentas e chuvosas.
Mas aprendi algo neste post, Gaffe, que nunca reparei, especialmente naqueles cafés junto à estação de Campanhã, quando vou fazer horas para seguir viagem para outros destinos: tilintar as moedas no tampo da mesa e o empregado vem de imediato.
E amanhã, vou para o Porto.
Se me lembrar, vou testar.
Boa noite para si.
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De Gaffe a 24.10.2016 às 23:20

Não. Pelo contrário. Em dias de névoa ou de chuva o Douro é extraordinário.
É o isolamento que às vezes dói.
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De Maria Araújo a 25.10.2016 às 19:39


Há anos, fui passar uns dias a Quintião, na altura do Carnaval.
O tempo estava cinzento, choveu.
Mas passamos uns dias inesquecíveis. Adorei aquela aldeia.
Falo muitas vezes nela.
Não duvido da beleza do Douro nestes dias cinzentos.
O isolamento é que entristece.
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De Gaffe a 25.10.2016 às 20:09

Por vezes o isolamento impede a invasão da chamada "turistada". Isso é preciso.
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De Maria Araújo a 25.10.2016 às 20:19

Sim, concordo.
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De Elsa a 27.10.2016 às 11:40

Mudei-me há uns meses para o interior norte e revi-me nest post. O isolamento, as distâncias entre as aldeias e as cidades, a falta da globalização, o voltar atrás no tempo.
Mas o tempo que se ganha, as paisagens que se observam, as gentes e o património que aqui existem valem a mudança.
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De Gaffe a 27.10.2016 às 11:57

Claro que sim.
Acrescente-se que a distância agudiza.nos os sentidos e torna-nos conscientes da nossa pequenez.
:)
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De Elsa a 27.10.2016 às 12:02

Completamente. :)

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