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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe em liberdade

rabiscado pela Gaffe, em 21.11.16

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Todos os clichés, frases feitas, máximas arrancadas a contextos, são, diz o meu sábio amigo, brevíssimos resumos de raciocínios complexos, sínteses ou sinopses mais ou menos enviesadas do pensamento, ou breves lantejoulas arrancadas de um tecido vasto onde por acaso cintilaram.

São insuficientes, normalmente erradas, muitas vezes fomentam preconceitos, embora não deixam de ser representações enfezadas do raciocínio que as originou.

 

Uma das mais patetas frases feitas que giram e rolam pelos cantos todos deste circo, é a famosa a minha liberdade termina quando começa a do outro. É citada, repetida, transformada em paradigma da mais sentida humanidade e tida como monumento representativo do mais elevado sentido cívico das gentes.

 

No entanto, A minha liberdade acaba quando começa a do outro não é frase digna de ser repescada ou capaz de entronizar o autor.

 

Implica uma noção e um conceito medíocres de liberdade. Circunscreve-a. Divide-a, reparte-a em bocados enclasurados em compartimentos distintos uns dos outros. Insinua a existência de um possível limite, de uma fronteira que não é possível atravessar, porque embate com o terreno que lhe é alheio e - o que acaba por se tornar mais grave -, inclui, embora sublimada, a possibilidade de acção ou atitude menos pacíficas, porque é uso tentarmos aniquilar o que nos limita ou castra. Se a liberdade do outro destrói a nossa, é espectável que a tentemos reduzir ou, igualmente violento, que sejamos obrigados a diminuir a nossa.

 

O encontro com a liberdade do outro não é, não pode ser, sinónimo do fim ou da redução daquela que é nossa, porque é exactamente deste embate que surge o local de cruzamento - mesmo de opostos -, de ligação e de crescimento. Não diminui o que quer que seja. Multiplica.

O que é nosso entrança com o que do alheio e é nesse cruzar de liberdade - ou de liberdades, como se queira -, que advém a nossa estrondosa capacidade de ampliar a vida.

 

Quando a minha liberdade acaba quando começa a do outro, estamos seguramente a falar de dois pechisbeques que não fazem conjuntinho.

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6 rabiscos

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De Maria Araújo a 21.11.2016 às 14:25

A inteligência que tenho nunca me fez perceber o que as pessoas queriam dizer com esta frase, Gaffe.
Nunca a usei, porque não sei aplicá-la em contexto e porque a considero sem sentido.
Percebo que tenho alguma razão, agora que li este seu imbatível texto.
Obrigada.
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De Gaffe a 21.11.2016 às 14:33

Não faz qualquer sentido, mas é recorrente.
Acredite que quando a salivam, deixo de imediato de dar atenção ao "grande citador".
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De Corvo a 21.11.2016 às 16:00

Quando as pessoas utilizando o pronome eu na primeira pessoa desatam a desfiar um rosário de sagradas virtudes: eu sou bom, eu não me meto com ninguém, eu sou sincera de coração puro e alma alva, eu não difamo, eu não critico, eu rezo pela humanidade, eu gosto das flores no campo, eu amo os passarinhos no ar e blá blá beca beca beca, recordo-me sempre que todos descendemos de animais rastejantes, mas nesses sagrados espalhadores da "sinceridade," nota-se mais.
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De Gaffe a 21.11.2016 às 16:23

O que provavelmente seria capaz de me intrigar nesse rastejar óbvio de que fala é a capacidade que existe em concluir ou extrapolar "bacoradas" sórdidas - que, pasme-se,também rastejam! - de situações que de tão limpas e banais até cintilam.

Felizmente não conheço ninguém assim ...
;)

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