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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe literária

rabiscado pela Gaffe, em 19.02.15

livros.jpgNão existe boa e má literatura. Ou há literatura ou não há.

É tão errado referir determinada obra como má literatura, como classificar uma outra como pertença do inverso. É maçadora a discussão em redor dos fenómenos que permitem o reconhecimento dos escritos como peças literárias, nem sempre os cânones incluem as que eventualmente se consideram dignas de figurar no seu historial e as exclusões correm sempre o risco de encontrar discórdia, mas é sempre possível treinar a capacidade de se reconhecer instintivamente um bom livro, porque, não existindo boa e má literatura, existem contudo maus livros. Não é conflituoso reconhecer os agrupados nos universos literários que usam todos os crivos que foram construídos ao longo de séculos pela Teoria da Literatura, mas os que sobram estão na origem de uma questão que permanece:

 

Ler seja o que for, é melhor do que não ler nada?

 

A resposta afirmativa que se justifica alegando que ler seja o que for, gera o hábito de leitura, promovendo-a e incentivando-a, não colhe dividendos. Admitir que é possível ler a Maria ou medíocres romances de cordel e desaguar numa escolha mais criteriosa e de maior qualidade no futuro, é esperar sentado que chegue Godot. Um mau leitor é demasiadas vezes iniciado pelo consumo de peças de duvidosa qualidade literária para facilmente retroceder, alterando o caminho. Os maus livros são livros fáceis e a facilidade é aditiva.

A sujeição do leitor, por exemplo, ao uso de fórmulas nos romances de aventuras juvenis de sucesso mais do que adivinhado, quando não aliada a alternativas mais complexas oferecidas por outras obras do género, torna mais fácil o desenvolvimento do que se convencionou chamar Síndrome de Blyton. A repetida fórmula - grupo + problema/mistério + envolvimento do grupo + perigo + resolução do conflito pelo grupo + final feliz -, origina um casulo mental que se torna difícil quebrar com a introdução de premissas diferentes ou mesmo alterando a sua ordem. Um consumidor assíduo e exclusivo destas fórmulas, é mais susceptível de se tornar um adulto com maior dificuldade em acompanhar uma obra que não possui estas artimanhas ou estas armadilhas, e aos que partilham esta opinião chamará intelectualóides, presunçosos, castradores da liberdade de ler, fascistóides ou mimos similares.

Dificilmente gostaremos de Proust quando sempre caminhamos à sombra das Marias em flor ou nos viciamos em medíocres guerras de tronos, sagas vampirescas e melosas tramas de cordel delicodoce.  

A apelidada educação para a leitura é uma oficina de trabalho árduo, mas essencial para a formação de um bom leitor. Nesta tarefa temos a obrigação de contar com a extraordinária capacidade de selecção daqueles que se iniciam nestas andanças. Seria tontice esquecer que a clássica Literatura Infantil é uma literatura de apropriação e que foram as crianças que se apoderaram de obras que não lhes eram destinadas. A Cabana do Pai Tomás, Oliver Twist ou Huckleberry Finn e mesmo Mulherzinhas foram retirados da biblioteca dos adultos por crianças que as entregaram à mais apurada lista de literatura infanto-juvenil.

Se o primeiro passo na construção de um mau leitor se faz demasiadas vezes com a escolha, aquisição ou oferta de um mau livro, não é lícito concluir que um bom leitor se macula quando toca numa obra menor. Não a proibe ou excumunga, nem se esgadanha quando encontra uma pelo caminho. Normalmente ignora-a de forma natural e quando não o faz, passa por ela sem por ela ser tocado.

 

A literatura universal está nas mãos de todos e é de tal forma imensa e povoada que perder tempo - e que imensa perda de tempo! -  com um mau livro, quando poderíamos em troca tricotar um cachecol, devia ser entendido como pateta ou, no mínimo, fazer com que nos sentíssemos a usar um pechisbeque quando nos entregam todas as colecções de jóias que a nossa vida pode imaginar.

 

Nota da redacção - Todo este rabisco teórico, salpicado por uma ligeira demagogia e polvilhado por uma dose substancial de blá-blá-blá, deve ser lido como uma espécie de esfregão da consciência um bocadinho pesada da Gaffe que é indiferente, vergonhosamente indiferente, ao que os outros costumam ler, se está borrifando para os livros que se vendem ou se deixam de vender e que, no que diz respeito à leitura, segue o famigerado "cada um sabe de si e os editores sabem de todos".

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Gavetas:


9 rabiscos

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De PR a 19.02.2015 às 10:52

síndrome de Blyton pode ser superado na última fase da adolescência, logo depois da bicharada ter deixado de ser imbecil até ao arrancar das unhas.às vezes consegue-se, outras vezes disfarça-se.
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De Gaffe a 19.02.2015 às 14:18

Creio que na minha adolescência sofri de tudo, menos de S. de Blyton!
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De Marco a 19.02.2015 às 13:24

Como já disse noutro lugar, os Cinco e as Aventuras (e, já agora, o Harry Potter e outros que tais) foram essenciais para mim, enquanto leitor. Porquê dizer que podem ser perigosos?

Passar deles para livros bem melhores (incluindo Proust) foi natural.

Sem Uma Aventura, não teria Eça. Sem os Cinco, não teria Proust. Garanto que muito mais leitores saíram dessas obras (dos Cinco e outros) do que da mera não leitura.

Devo dizer ao meu filho, quando ele tiver idade, para se afastar das Aventuras e dos Cinco e ler apenas coisas que eu considere boas? Não será isso meio caminho andado para o afastar dos livros?

Outra perspectiva importante nesta discussão: não nos podemos esquecer que Camilo era considerado má literatura (de cordel, pois então). Shakespeare era um autor de teatro (pfui), nada digno da literatura do seu tempo (diziam os outros). Eça chegou a ser considerado um mau escritor, cujas obras pareciam traduções do francês. As Mulherzinhas, a Cabana do Pai Tomás e outros que tais são considerados por muitos críticos como obras menoras. Devo, então, retirá-los das prateleiras?

Achar que certos livros são perigosos é meio caminho andado para começar a ler a medo. Isto sem contar com o facto simples de que não sabemos o que o tempo considerará bom e mau. O tempo julga; nós lemos, e muito.
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De Gaffe a 19.02.2015 às 14:16

Vamos por partes, sim?

- Não digo que são obras perigosas.Seria tolice. Digo que se a sua leitura não for forem acompanhada por outras mais originais e mais diversificadas, pode originar um casulo viciante que é característico do síndrome de Blyton.

- Não digo que passar de obras deste teor - nunca digo que são más - para Proust se pode tornar dificílimo. Digo que consumir, como vejo, as "Marias" deste mundo, impossibilita a transição para Proust. Mantenho o que disse.

- Sem "Uma Aventura" ou sem "Os Cinco" poderias ler perfeitamente Eça ou Proust. Não li as primeiras e Proust é o meu Autor favorito.

- Nunca insinuo sequer que se deve dizer a uma criança que não deve ler determinada obra, assim como nunca se pode afastar a biblioteca da infância com medo que se destruam os livros, mas é essencial que esteja disponível um leque alargado de obras que diferem de "Os Cinco" ao lado de "Os Cinco". Também não encontro nenhum inconveniente em dar a conhecer às crianças as obras que consideramos relevantes.

- "Não nos podemos esquecer que Camilo era considerado má literatura (de cordel, pois então). Shakespeare era um autor de teatro (...)" - Falamos de cânone literário. Referi-o no início e apontei embora vagamente as suas desvantagens.

- "Mulherzinhas" e "A Cabana do Pai Tomás" são consideradas obras menores apenas por considerações que em nada se relacionam com a crítica literária. Mas não excluo a possibilidade de uma extremosa feminista excluir "Mulherzinhas" da estante.

- Não há livros perigosos! O tempo ajuda a julgar, mas isso não implica que deixemos de ter critério dando ao tempo a capacidade de pensar e avaliar determinada obra.
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De Fernando Lopes a 19.02.2015 às 21:40

Fui e voltei, hesitando em comentar. No conceito inerente ao seu raciocínio o leitor é um sujeito passivo, sem capacidade de procurar mais e melhor, em se exigir mais. Tal não é verdade. Como em tudo na vida, move-nos a curiosidade e o desafio. Li «Os Sete», «Os Cinco» e depois os clássicos infanto-juvenis. Não sou um grande leitor (não mais de 20 livros por ano) e tanto me encantam Arturo Pérez-Reverte ou Záfon, como Pynchon, Roth ou Nesbo. Acima de tudo interessam-me as «estórias», o ser um menino que se encanta e surpreende. É para mim esse o interesse da literatura, preservar em papel o ancestral costume de «contar».
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De Gaffe a 19.02.2015 às 21:56

Não! Creio que me fiz entender mal. O leitor jamais é um sujeito passivo! Creio mesmo impossível a passividade na leitura, porque se reescreve o que se lê.

Curioso como a seu conceito é contrário ao de Lobo Antunes que afirma que nunca deu importância à história que subjaz ao prazer demoníaco de produzir literatura.

Creio estar no meio da ponte. Gosto de ser encantada pela surpresa da "estória", mas não consigo deixar de ser seduzida pela mestria e arte com que é contada.
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De Fernando Lopes a 19.02.2015 às 22:46

Talvez por isso Lobo Antunes me seja tão hermético. Leia, se quiser, «Ernestina» ou «La Coca» de Rentes de Carvalho, Rubem Fonseca ou Dalton Trevisan. Tudo na mesma base, uma boa história contada sem rodriguinhos de linguagem. Eu não lhe disse que sou um simplório até no gosto literário? :)
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De Gaffe a 20.02.2015 às 09:35

Meu querido amigo, é injusto falar de "rodriguinhos de linguagem" quando no referimos a bons livros. Os rodriguinhos são característica dos maus e deste blog.
Enfim, os simbolistas exageram um bocadinho.

Creio que fui habituada a pensar que uma história bem contada não basta para que a obra seja literária. A saga "Guerra do Tronos" ou os "crepúsculos" que tombam são estórias bem contadas, mas dificilmente literatura. Os best-sellers por norma são narrativas bem construídas, mas se autopsiarmos a maioria deles não encontramos nada que nos permite perceber que lemos um livro seguro e perene.

Creio que a obra de Lobo Antunes exige uma desmesurada atenção. Não penso que seja hermética, é mais obsessiva e labiríntica. O menino leu Lobo Antunes com um olho enfiado no soutien da Garota de Ipanema?! Não pode! Tem de se concentrar.
:)
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De *Nightwish* a 01.03.2015 às 18:36

A minha mãe não lia. Não entendia por que razão passava tanto tempo com o nariz enfiado num amontoado de folhas quaisquer - acho que ela pesava que uma coisa dessas até fazia mal à saúde.
Hoje em dia lê, e bastante, mas desses livros com histórias de cordel e de fácil apreensão. Os outros, são complicados e têm muitas personagens, abordam vários pontos de vista e várias épocas, tudo misturado, e ela enerva-se e manda o livro directamente para a estante mais próxima. Para sempre.
Eu, continuo a mesma leitora invertebrada e, por vezes, um pouco snob em relação às minhas leituras (e dos demais mortais).
Isto tudo para dizer que também acho que ou há literatura ou não há, independentemente da sua qualidade. E que ou se lê uma coisa de jeito, ou não se lê de todo. Mas olhando para o caso da minha mãe (e de mim, nos inícios da adolescência), há um tempo para tudo, e há leitores para tudo. Assim como eu passei de livros infanto-jovenis para grande clássicos da literatura e fantasia/sci fi de grande envergadura, espero que a minha mãe progrida nas suas escolhas. Da mesma forma, acabo por ler algumas obras "menores", mais fácil e simples, só por que "me deu na veneta", ou por que preciso de uma lufada de ar fresco depois de uma leitura "pesada". Tal como tudo, o cérebro progride com a variedade, e a monotonia só lhe dá umas machadadas nos neurónios.
Como bem disseste, acho que tudo se resume à frase: "cada um sabe de si e os editores sabem de todos". ^^
****

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